Castelo Mágico
4 Contato Imediato
Que nós não estamos sós no universo eu já havia constatado, mas a idéia de que “eles” estavam tão perto de nós me amedrontava.
Eu tinha poucas horas para me preparar para o vôo, mas eu senti que devia ir ao clube. Quando cheguei lá avistei Yuki sentada no seu canto, lendo como sempre e Koizumi com aquele seu maldito bom humor.
- Que bom que veio nos dar adeus.
- Sim, eu já devia estar em casa. A doida da Haruhi já foi embora e é capaz de aparecer lá antes de mim. – Eu fechei a porta e me sentei no meu lugar de costume.
- Kyon-kun, já que está por aqui devo lhe dizer certas coisas...
-... É sobre a Suzumiya?
- É sobre a Suzumiya. – Troque a estação, por favor.
- Você já deve ter percebido bem o que acontece com o mundo quanto ao humor da Suzumiya.
-...Sei.
- Eu não consegui fazer contato com os espers da Flórida. Há outros no país, mas longe demais do local. Não sei se está me entendendo. Se um espaço restrito nascer, não haverá ninguém por perto para te salvar. Não só a você, mas a todos da destruição eminente dos celestiais...
- Está supondo que eu quem faço Haruhi ficar triste?
- Não. Só quero dizer que durante a viagem você preste mais atenção no que irá falar a ela. Coisas insignificantes que saíram da sua boca já criaram grandes revoluções na cabeça de Suzumiya-san. — Eu suspirei. Agora eu teria que escutar calado tudo que Haruhi me dissesse...
-É só isso?
- Por hora é só isso. — Já era hora de eu voltar para casa, levantei-me e percebi que Yuki me observava — Você também quer deixar um recado?
-...
- Hum?
- Mande um abraço. – Tá, isso foi mais estranho que o Koizumi.
- Ah, hum...Tá...
- Boa viagem. – Ela falou e voltou ao seu livro.
- Divirta-se! – Koizumi acenou e falou enquanto eu saía... Vou contar, se eu pudesse prever o futuro não estaria tão calmo como agora, mas acho que eu já falei isso...
Quando cheguei em casa percebi que tinha um par de tênis a mais na entrada e como se um raio caísse sobre a minha cabeça eu deduzi que fosse a Haruhi. Entrei assustado e lá estava ela sentada no sofá conversando alegremente com minha mãe e irmã como se tudo fosse parte do cotidiano.
- Haruhi, o que está fazendo aqui?! – Elas olharam para trás e Haruhi acenou para mim sorridente, mas eu não estava sorrindo. Eu não teria sossego nem na minha própria casa? Eu dei um rosnado e andei pesado ao encontro delas.
- Haruhi, você é maluca ou o quê?!
- Kyon, não xingue nossa convidada assim!
- Mas, mãe...
- Deixe. Eu já estou acostumada com a falta de educação dele, mas sei que a culpada não é a senhora.
-Oras, você é muito gentil. Sim, sim. Kyon é malvado comigo também. – Minha mãe estava falando como uma colegial! Que medo!
- Kyon, deve respeitar melhor a sua querida mãe! Ela é um amor de pessoa! – Ela gritou comigo. Ainda teve essa audácia.
- Está fugindo do assunto! O que diab...O que está fazendo aqui? – Eu tentei me acalmar.
- Ah, isso...Sim, sim. Meu pai ia trabalhar e me deu uma carona até aqui.
-Mas, Haruhi. Ainda faltam horas pra pegarmos o avião, eu nem terminei de arrumar minhas coisas!
- Ah! Eu previ isso! Pois então irei te ajudar com o que precisa ser arrumado, certo?!
- Ahn?...Não! Eu arrumo sozinho e...
- Querido, sua amiguinha quer te ajudar então deixe. – Minha mãe não entenderia a situação nem se soubesse da verdade, estou acabado.
- Hum...Tá...Eu acho...
- Quero ajudar também! – Minha irmãzinha gritou. Só me faltava essa.
Subi bufando com as duas atrás de mim que cantavam alguma coisa. Mas eu não queria que elas entrassem no meu quarto, estava todo desarrumado. Seria motivo o bastante pra me zoarem o resto da vida. Mas eu não tinha escolha e deixei que elas entrassem.
- Ahh...Esta confusão é por causa da viagem, só isso...
- É típico que um garoto de quinze anos, não há nada de anormal nisso...Ou será que não poderemos encontrar alguma meia suja com vida própria, hum? – Ela me admirou com aqueles olhos de ébanos brilhantes. O que ela queria que eu dissesse? O máximo que poderia ter ali seria um camundongo...
- Não, eu lavo minhas meias todos os dias.
- Ahh...Então, o que temos que fazer? – As duas me olharam.
- Nada.
- Nada? – Falaram em uníssono. – Eu as empurrei para fora do meu quarto e tranquei a porta.
- Kyon! Deixe a gente entrar! É uma ordem! – Ouvi Haruhi gritar do corredor.
- Haruhi, aqui o seu poder não vale nada, então vá arranjar outra coisa pra fazer. Eu me viro. – Senti sua irritação através da porta e suspirei...
Depois de colocar cada peça do meu quarto no seu devido lugar e terminar de arrumar a mala eu desci para a sala, pois senti o cheirinho do jantar me chamando. Minha mãe estava na cozinha e minha irmã, junto de Haruhi liam algum livro e gargalhavam. Era algum livro de piadas? Cheguei mais perto e quando descobri dei um pulo para trás de susto. Elas duas perceberam e olharam para mim rindo ainda mais, que irritante...
- Ah, Kyon, por que você não permaneceu como um bebê?
- Sim, sim! Nós te vimos peladinho! – Elas riram de novo e voltaram ao livro. Era um álbum de fotos, um álbum de fotos meu quando eu era bebê. Alguém vai morrer por isso!
- Isso é algum tipo de brincadeira?
- A Haruhi pediu para ver fotos suas, achei que seria legal mostrar as fotos da sua infância. – Minha mãe andou até nós e respondeu. Mas, por que não mostrou antes as fotos dos meus psicólogos?
- Por que você quis isso? – Eu perguntei irritado a Haruhi.
- Por que não tinha nada de divertido pra fazer, blargh! – Ela respondeu e mostrou a língua para mim.
- Me dê isso, eu vou queimar! – Tentei pegar o livro das mãos dela, mas ela se esquivou.
- Não irá queimar nada! – Ela devolveu a minha mãe e ficou me encarando. E eu a ela.
A campainha tocou e nos tirou do transe.
- Opa, deixe que eu atendo. – Minha mãe correu até a porta. Abriu-a e um garoto não muito alto estava lá e começou a dizer:
- Boa noite, senhoras, senhor. Eu sou um dos responsáveis pelo passeio do Walt Disney World e também serei o tradutor de japonês — inglês da dupla de vencedores. – Muito sério e muito formal, eu senti que eu o conhecia de algum lugar. De baixa estatura, cabelos curtos e negros, usando um terno preto e ele nem parecia ser japonês... E eu não me lembro de ter pedido tradutor.
-... Meu nome é Shuji Kusano. Prazer. – Ele nos reverenciou e continuou a falar.
- Já estão prontos para a viagem? – Ele me olhou. Como sabia que era eu?
- Vamos, Kyon. Eu quero saber que tipo de avião nós pegaremos! – Haruhi gritou alegre e correu até o garoto para se apresentar. Eu peguei calmamente minhas malas e ajudei o motorista a colocar a minha mochila e a de Haruhi no porta-malas.
- divirta-se, filho e tenha cuidado. Quero que volte inteiro.
- Ah, sim mãe, tentarei. – Ela riu, mas eu não estava brincando.
- Cuide muito bem de Haruhi...Ela cuidará de você também. – Ela cochichou no meu ouvido. Mas eu tinha as minhas dúvidas quanto a isso. Terminei de despedir-me de minha família e finalmente entrei no carro, Haruhi já estava lá, olhando pela janela de trás e acenando para minha mãe e irmã.
Não conversamos tanto durante o percurso. Haruhi parecia estar fora de órbita.
- Haruhi, não esqueceu nada?
- Não...
- Certeza?
- Sim...
-...E banheiro?
- Eu fui...
- Certo... – Achei melhor não perguntar mais nada. Ela olhava pela janela com aquele típico olhar melancólico dela. Senti uma pontada de medo. Tão cedo e eu já havia falado alguma besteira? Um espaço restrito estava nascendo? Talvez ela só estivesse refletindo sobre algo do passado. Não quis interferir.
Quando chegamos no aeroporto eu mudei de idéia. Haruhi pulou do carro como um foguete e saiu à procura do jatinho que pegaríamos.
- Kyon, seu lerdo! Ande logo com isso! E não esqueça a minha mala!
Eu suspirei e percebi que o tal de Shuji observava Haruhi que corria pelo saguão principal.
- Ahh...Por favor, não esquente a cabeça com ela. Ela é total responsabilidade minha. – Eu falei mesmo o que penso que falei? ... Shuji me olhou automaticamente e respondeu:
- Ela é...Interessante. – “Interessante” não era bem a palavra para descrevê-la...”Doida de pedra” era mais apropriado para o horário.
Era um jatinho particular que pegaríamos e encontraríamos os vencedores restantes no parque. Um jatinho...Só nós, com aquelas aeromoças, comida boa...Se deixarem eu atirar Haruhi da janela no meio do caminho ficaria perfeito.
*Imaginação de Kyon*
Haruhi observando o mar da janela.
-Ahhh, o triângulo das bermudas! Pretendo ir lá ainda!
Kyon chuta Haruhi para fora do avião.
-Desejo concebido.
-Kyon!Kyon! Está surdo?! – Eu que caí do avião...
- O que foi, Haruhi?
- Quanto é o nosso tempo de viagem? – É sério mesmo que ela vai ficar me perguntando?Humm...
-Ah, não sei...Isso aqui é rápido. Deve levar umas dez horas...
- Não confio em você, vou perguntar direto ao piloto...
- Ahh! Então porque me perguntou?!
Haruhi saiu andando pelo corredor sem me dar ouvidos, como sempre. Eu resolvi tentar relaxar. A viagem não era na velocidade da luz e nem do som e se eu pegasse no sono antes da Haruhi voltar eu estaria a salvo, pensei...
Os sons foram sumindo, tudo foi escurecendo. Era o meu corpo se preparando para me fazer sonhar...
“...Não precisa ser tão grosseira!
...O único grosseiro aqui é você!
...Você não vale nada como pessoa mesmo! Eu desisto!
...Volte aqui, é uma ordem!
Eu saí andando pelo beco escuro, mas me seguiam...Eu sentia que me seguiam. Era ela...
...Um dia você me perdoará?
...Eu não tenho escolha...
Um abraço, em câmera lenta...”.
Os sons voltaram, mas não estava assim tão claro. Apesar do ar condicionado eu acordei suado. Eu estava com um manto me cobrindo. Não me lembrei dele...Haruhi? Ela estava no outro canto do avião, coberta também e encolhida dormindo um sono pesado.
Eu levantei-me para lavar o rosto e voltei para tentar dormir de novo. Alguém me cutucou. Olhei para cima e avistei o garoto de cabelos escuros, o nosso tradutor.
- O que você quer? – perguntei meio a um bocejo.
-... Você conhece Yuki Nagato?
- Hã? ...Hum, sim.
-...Digamos que eu seja um primo dela... – Levei um tempo para assimilar as coisas. Primo? Não. Yuki era um andróide alienígena, isso era impossível. Ele era um backup criado pela Yuki então? ...Tentei não mostrar surpresa. Nem era, mas ainda assim era surpreendente.
- Você é um tipo de programa criado pela Yuki?
- Não, somos a mesma coisa... Ela já lhe disse que havia outros como nós pelo mundo.
- Sim, ela disse, é verdade...- Eu tentei me lembrar. –Mas como sabe disso?
- Ela me mandou toda a memória dela, todos os acontecimentos desde o dia em que você a conheceu.
- E porque está aqui?
- Para observar, supervisionar e ajudar vocês quando for preciso.
- Quer dizer que você é a nossa babá?
-...
- Ah, eu sabia...
- Estou aqui principalmente para observar, não entrarei hora nenhuma em conflito entre você e Suzumiya Haruhi. – Ele me respondia com aquele olhar morto parecido com o de Yuki. Eu olhei para Haruhi que ainda dormia e depois para Shuji.
- Não vai intervir?
- Não.
- Ótimo...
Shuji percebeu que eu não queria mais conversa com ele e foi para o seu canto. Já eu não consegui mais pegar no sono. Quem diria, mais um alien entre nós. Tentei bolar em mente o que poderia vir a acontecer a partir disso, mas eu sabia que seria uma coisa maior do que o imaginável.
Fale com o autor