Castanho
1 Castanho
Notas iniciais
Melissa acordara abruptamente e sedenta. Respirava de forma ofegante, fechando os olhos e soltando pequenos gemidos. Levantara o cobertor sem nenhuma suavidade, arrastando as pernas pelo colchão até chegar ao chão. Olhara as costas do homem que costumava amar, virando o rosto em desprezo e rumando em direção a cozinha, os pés descalços em contato com o frio do porcelanato em tons amadeirados.
Descera a pequena escada em formato caracol no corredor, que ia de encontro a cozinha. Quando chegou ao final, apoiou-se com a mão no balcão, se sentindo fraca. Suspirou, limpando o suor da testa. Abrira a geladeira, removendo de lá uma garrafa de água. Tirou o lacre da tampa, bebendo desesperadamente na boca. Ofegou ao terminar. Com a geladeira ainda aberta, pegara outra, dessa vez com mais calma, e a desenroscou. Derramou uma pequena quantidade na mão direita, para jogar diretamente em seu pescoço e testa. Se o seu marido a visse ali, pensaria que ela havia tido um dos costumeiros pesadelos.
Mas não.
Melissa acordara em chamas. E aquilo já estava se tornando tão repetitivo que a irritava. Bufara novamente, finalizando a segunda garrafa de água e jogando-as no lixo. Esfregou as mãos no rosto, para logo apertar ainda mais o robe. O que teria que fazer para que aquele calor passasse? Pior, para que a vontade de ter um sexo selvagem com a atendente de uma cafeteria cessasse?
Nunca havia sentido aquilo por ninguém. Aquele desejo incansável, que perdura por tanto tempo, um sentimento selvagem e incontrolável por algo que não se tem. Melissa tinha o costume de ir até a cafeteria um pouco próxima ao colégio do filho e nunca tinha se sentido dessa forma, até uma nova atendente aparecer por lá. Ela era bonita, os cabelos eram encaracolados, os olhos eram grandes, brilhantes e castanhos. A pele tinha uma cor de cobre, e Melissa tinha vontade de tocá-la sempre que a via. Vez ou outra se observavam, porém a advogada não sabia se o sentimento de cobiça também partia da mais nova. Além disso, podia ser apenas uma curiosidade: por qual motivo uma estranha a ficava fitando por tanto tempo?
Não sabia, e tampouco tinha a coragem de perguntar. Sentia-se envergonhada até quando a moça perguntava o que ela queria beber. “Um café preto sem açúcar, por favor”, e o diálogo se resumia a isso ou “Um café preto sem açúcar, um achocolatado e um croissant”, quando estava com o filho.
Ela sorria, a fitava por mais alguns segundos e rumava em direção ao balcão. Vez ou outra a observava com a criança, mas a atendente nunca pareceu realmente flertar, assim como Melissa.
“Talvez me ache com cara de nojenta”, pensou. Não era incomum que as pessoas dissessem que ela tinha cara de desprezo, e isso com certeza podia fazer com que fosse mais difícil flertar, além do seu comportamento sério e direto. Era péssima com relacionamentos.
E agora, diariamente, sonhava com a atendente. Em seus sonhos, já havia batizado todas as partes da cafeteria e da própria casa. E quando a via, corava feito uma criança com o primeiro amor.
Não conseguia mais olhá-la nos olhos, sentindo-se uma pervertida.
Seu corpo se arrepiou, lembrando-se novamente do sonho voraz que teve, e novamente abriu a geladeira, mas dessa vez para pegar uns cubos de gelo e esfregá-lo pela área do pescoço.
Subiu as escadas, voltando para o quarto escuro e frio. Parecia mais controlada ao adentrar o cômodo, sentando-se no colchão.
O movimento acordara o traste, que resmungou enquanto se virava para vê-la.
— O que foi, amor? — questionou ele, com a voz embargada pelo sono.
Melissa revirou os olhos, deitando de costas para ele.
— Volte a dormir, idiota — cuspiu o xingamento, ao mesmo tempo que tirava o braço dele de cima dela.
Ele não falou nada, mas escutara ele bufar de forma contrariada.
— Você não vai me perdoar? — questionou ele, a voz tão baixa que Melissa quase não pudera escutar.
Um silêncio se manteve por um tempo, enquanto um turbilhão de coisas passava na mente da jovem.
— Eu tenho muita inveja de você, Gustavo. Sério. Você não se importa com ninguém além de você — reclamou ela. — Temos um trato, e eu espero ansiosamente o dia em que ele acabe.
Sentiu o marido se acomodar novamente, colocando-se de costas para ela. Aquela conversa fora a mais duradoura que tiveram em meses. Se odiavam mais que tudo, mas Melissa jamais cederia partilhar seus bens mais preciosos: seu filho, e a casa que o avô deixara para ela, com um cretino daquele. Aceitara o termo de ficar com ele até a confraternização de natal na empresa que ele trabalhava, já que ele estimava uma promoção. Em troca, ele a deixaria ficar com a guarda do filho e todos os bens que construíra sozinha.
E caiu no sono novamente.
E acordara tão cedo quanto. Levantou-se antes dele, tomando seu banho e arrumando-se mais cedo que o normal, e ficara sentada por duas horas na cozinha, esperando dar seis horas da manhã. Olhava o relógio fixamente e, quando a hora finalmente chegara, subiu as escadas rapidamente, para logo abrir a porta no fim do corredor. Seu semblante irritado logo amenizara quando vira apenas a cabeleira castanha de fora do cobertor.
Aquilo ali era a única coisa que a prendia no mesmo quarto que o marido. Mesmo que o odiasse, não queria demonstrar o asco que sentia no ambiente. Sabia como era ter pais que se odiavam e não tinham medo de exalar aquele sentimento. Tentava sempre ser melhor que os seus pais na criação do seu filho.
Sorriu.
Aproximou-se da cama e sentou, apreciando aquele momento de paz. Logo pôs-se a afagar os fios castanho claro, ouvindo um pequeno resmungo manhoso.
— Vamos acordar, Lu? — chamou ela suavemente.
Viu a cabeça se mover em um não, cobrindo-se totalmente com o cobertor e virando-se para o lado contrário.
— Não quero acordar, não. Ainda tô dormindo, mamãe — resmungou ele com a voz rouca de sono.
— Ah, é? E como você está falando?!
Ele virou para ela rapidamente, tirando o cobertor do rosto.
— É que eu sou sorambulo— disse ele, fazendo-a rir.
— Sonâmbulo – corrigiu entre risos. — Agora levanta daí, garotão. Vai escovar os dentes e tomar um banho pra tirar essa preguiça! Vou te esperar lá embaixo — avisou enquanto se levantava, ouvindo-o bufar.
— Eu tô doente! — reclamou ele.
— Toma banho que passa! — gritou ela do corredor.
E aguardou o filho, que sempre terminava de se arrumar às seis e quarenta em ponto. No horário estipulado, ele descera todo serelepe com a mochila nas costas. Os cabelos encaracolados pingando e molhando o uniforme engomado.
— Lucas, eu já falei pra você secar o cabelo! Vai acabar pegando um resfriado — reclamou ela, enquanto balançava os cachos do filho, que se divertia.
— Pra quê secar se eu posso fazer isso naturalmente — bufou ele.
Ela sorriu.
E seu sorriso se desmanchou imediatamente ao escutar os passos do marido descendo as escadas.
— Papai! — gritou o menino, correndo em direção ao patriarca, sendo agarrado em um abraço de urso.
Lucas se divertia com Gustavo, que rodopiava com ele no colo. Quando ele soltara o filho, ambos se mantiveram em silêncio.
— Mel — cumprimentou ele.
— Gustavo — retribuiu ela, com asco contido.
Virou-se para o filho, que continuava agarrado na perna do pai.
— Pegue a sua lancheira, Lucas. Vai indo na frente, que a mamãe vai pegar a bolsa dela — avisou, vendo o filho obedecer e andar saltitante até a porta, para logo fechá-la.
— Mel — chamou o marido pelo antigo apelido carinhoso.
Melissa passou por ele rapidamente, rodeando a mesa de forma apressada. Pegou a bolsa e as chaves do carro, agindo como se o marido nem existisse.
Ele olhava a cozinha como se faltasse algo.
— Cadê o café? — questionou ele, com os braços no ar.
Pela primeira vez ela o fitou. Andou calmamente até um dos armários acima do fogão, abrindo-o.
— Café, açúcar — mostrou, indo em direção ao bebedouro – Água — e, mais uma vez, andando até a bancada próximo a porta — Cafeteira. Junte tudo e faça o seu tão adorado café. Vou te dar uma dica: a cafeteira precisa estar ligada.
E se afastou, abrindo a porta.
— Um bom dia pra você, marido. Ah! E um ótimo café da manhã — disse ela, com um sorriso zombeteiro enquanto fechava a porta.
Encontrou o filho próximo ao elevador, aguardando-a.
— Good boy — disse ela, enquanto entrava com ele no elevador.
— I'm not a dog — reclamou ele, bufando em tom brincalhão
As aulas de inglês estavam indo bem.
Chegaram ao carro e foram em direção ao colégio. Melissa estacionou o carro em frente ao colégio, mas seguiram andando em direção a uma pequena banca a uns quarteirões. Recusava-se a ir na cafeteria e ver a moça, que reacenderia todo o seu desejo contido. Comprou um misto quente ao filho e um suco natural, enquanto tomava um copo de café.
— Quero café – disse ele entre mordidas no sanduíche.
Ela o fitou com um sorriso travesso.
— Vai ficar querendo – retrucou, enquanto ele fazia um muxoxo com os lábios.
— Já sou grande para tomar café – respondeu ele.
Ela riu.
— Você já é agitado assim sem café... consegue se imaginar tomando café?
— Não – ele respondeu. — Por isso preciso tomar café para saber como fico tomando café.
Ela o olhou surpresa.
— Você tem um ponto. Já pensou em ser advogado? – brincou.
Ele entortou os lábios em desprezo, e quase fez com que a mãe se sentisse ofendida.
— Quero ser piloto de fórmula 1 – replicou. – Advogado não. Papai diz que nenhum advogado presta.
E aquilo realmente a ofendeu.
— Talvez seja porque ele só ande com gente da laia dele – respondeu baixinho.
— Não entendi, mãe – disse o menino, olhando com os grandes olhos castanhos.
— Bobagem – respondeu ela. – Sua mãe é advogada, amor. Eu não presto?
Ele negou avidamente, agarrando as pernas dela.
— Ele diz que você é essução— retrucou.
— Exceção – corrigiu o pequeno.
E Melissa retornou com o filho para a escola, deixando-o lá. Despediram-se e ela rumou ao escritório, focando nos relatórios atrasados.
Uma batida fora ouvida na porta, e a cabeça de Rogério, seu colega de trabalho, surgiu.
— Reunião daqui a 10 minutos, hein? – informou ele, e a cabeça logo sumiu e a porta fora fechada.
Melissa levantou, arrumando a papelada na mesa e se agachando para pegar os relatórios prontos na última gaveta da mesa. Sentiu as costas estalarem e se amaldiçoou. Tinha apenas trinta e dois anos, e já sentia que sua coluna tinha oitenta.
— Preciso voltar a fazer academia, ou ao menos um treino funcional – ralhou consigo mesma, tentando analisar em que momento da sua agenda faria um dos dois. – O que são duas horas a menos de sonos? – questionou, ao decidir fazer de madrugada.
Rumou em direção a sala de reunião e se sentou ao lado de Rogério. Visualizou a mensagem da mãe e revirou os olhos. Com certeza quer dinheiro, pensou, para logo colocar o aparelho em cima da mesa e bloqueá-lo.
— O patrão enlouqueceu – brincou ele, fazendo referência a promoção dos mercados. – Ele tá querendo dar associação ao Bernardo.
Melissa entortou os lábios em desprezo.
— A reunião é para isso? – questionou ela em puro asco.
Ele negou.
— Uma pequena parte, apenas. Ele vai designar alguns casos pra gente, e conversar sobre o tal desvio que ocorreu – sussurrou ele para a colega. – Vai ser tiro, porrada e bomba.
Melissa riu, mas logo conteve-se quando o chefe, Adriano, entrou na sala, seguido de outros advogados. Todos se sentaram, e a reunião logo começou, com a primeira pauta sendo a de Bernardo como associado. Apesar da notícia, isso a divertiu. O anúncio causou um misto de sentimentos em todos os advogados: alguns surpresos, outros com desprezo, e outros com raiva.
Bernardo era um desajustado e escorado, mas era querido por Adriano. Nada que um Q.I não pudesse fazer milagres.
Apesar das tentativas, a votação seguiu com um gritante não. No final, a associação não ocorreu, pois não havia votos suficientes. A humilhação de apenas um voto a favor, a de Adriano, fez com que Bernardo saísse da sala em fúria, divertindo a todos ali.
A segunda pauta começou com a identificação dos desvios ocorridos. Adriano se levantou, repassando cópias dos documentos para as pessoas ali presentes, um a um.
Seu celular começou a vibrar, mas ela logo virou a tela para baixo e o zumbido logo cessou.
— Aqui, Melissa – disse Adriano, colocando a mão esquerda nos ombros dela, enquanto a direita repassava o documento.
Seu celular iniciou uma pequena dança. Ele vibrava novamente. Pegou o celular e desligou a chamada, repousando-o novamente na mesa.
E, em menos de dez segundos, o celular retornou a dançar sincronicamente, com uma nova clicada em “recusar” da advogada. E novamente tocou, mas Melissa logo declinou.
— Vamos começar cronologicamente com a data de 2017... – iniciou Adriano.
E novamente o aparelho iniciou seu movimento casual. Melissa observava o celular vibrar descontroladamente em cima da mesa, confusa com quem estava ligando freneticamente para ela.
Rodopiava e gritava silenciosamente com aquela maldita vibração. Virara o celular pela quinta vez cancelando a ligação, mas lá estava ele novamente, piscando um número que ela não conhecia.
— Dá pra você atender logo isso? — disse o seu chefe de forma impaciente, interrompendo a reunião, chamando a atenção dos outros advogados. — Deve ser importante.
Melissa levantou, mais por obrigação, levando o celular consigo, enquanto ouvia a retomada da reunião. Atendera a ligação, que fora desligada no mesmo momento, irritando-a ainda mais.
Ia soltar um palavrão, quando o celular voltara a piscar depois de um minuto.
— Alô! — disse em um tom zangado. Seja lá o que fosse, podia esperar.
— Uh — ah — pigarreou alguém do outro lado da linha, tirando ainda mais a paciência da advogada. — Dona Melissa?
E a mulher revirou os olhos, já prevendo que alguém dera seu número privado a algum cliente.
— Sim! — respondeu de forma grosseira, aguardando o tempo daquele ser que não falava tudo em uma sentença só.
— Aqui é da cafeteria Paolo, senhora... — e a mulher parou novamente, parecendo desconfortável. — Eu tenho um problema que...
E fora interrompida por Melissa.
— Olha, eu não sei quem está falando, mas seja lá o problema que você tenha, pode ser resolvido mais tarde. Tenho uma reunião agora. Ligue no meu número profissional. Passar bem — respondeu, desligando o celular.
Respirou profundamente, se preparando para voltar a reunião.
E seu telefone tocou novamente.
— Alô! — falara novamente de forma bruta ao atender.
— Acredito que não possa esperar pra resolver esse problema, moça — respondeu a voz feminina do outro lado.
— E por qual motivo? — indagou.
— Porque o problema é o seu filho — retrucou a moça, chamando sua atenção. — Ele está aqui na cafeteria há umas duas horas esperando alguém buscá-lo.
E Melissa arregalou os olhos, incrédula. Colocou o celular entre o ombro e a orelha, abrindo a porta da sala de reunião.
— Preciso me retirar, Adriano. Sinto muito, mas estou com um problema familiar.
Ele assentiu sem qualquer irritação, balançando a mão freneticamente em um “vá”.
"Gustavo, seu filho de uma puta!"
Praguejava enquanto batia descontroladamente no volante do carro. Aquele era o homem mais inútil que pudera conhecer na vida. Buzinava e xingava o trânsito, que sempre era horrível naquele horário de pico.
"Eu vou te matar, seu cuzão", gritou enquanto estacionava o veículo e dava um último soco no volante.
Saiu do carro em disparada e caminhou rapidamente em direção a entrada da cafeteria e quase batera a cara na porta, que estava trancada. Viu seu filho e a moça pela vidraça transparente, aguardando-a.
— Até que enfim! — disse a atendente, aliviada, ao vê-la passar pela entrada.
— E o pai dele? — questionou, aproximando-se do filho para beijar o topo de sua cabeça.
— Não atendeu de jeito nenhum. Liguei pra ele umas trinta vezes. Aí eu desisti e liguei pra você. Você foi mais rápida. Trinta pra ele, seis pra senhora — falou ela, como se aquilo fosse um jogo em quem ignorava menos a existência do filho.
Melissa havia ficado tão irritada antes, que nem percebera que a pessoa que havia ligado era a moça que lhe deixava desconcertada. Naquele momento corou.
— Ele quem devia ter vindo buscar o Lucas hoje — falou ela, com medo que a moça lhe julgasse como uma mãe desnaturada. Não bastasse parecer uma pervertida, agora era uma mãe omissa.
— Eu sei. O Lu falou que você nunca se atrasa na sua vez. Ele disse que esperou duas horas no colégio, depois saiu de fininho e veio pra cá porque estava com fome — continuou ela, rindo da situação.
E Melissa olhou o achocolatado e o croissant pela metade na mesa, percebendo que o pequeno monstro fora alimentado.
— Ah! Eu sinto muito, sinto muito mesmo – pediu de forma sincera. – Eu fui totalmente rude com você, grossa. E você apenas querendo devolver meu filho que o incapaz do meu marido não pôde buscar e a escola inútil deixou fugir – largou um sorriso amarelo. – Quanto estou devendo? — questionou enquanto tirava a carteira da bolsa.
A atendente espalmou as mãos em frente ao corpo e com um sorriso genuíno, fazendo sinal de negação.
— Nada! Não se preocupe. Já é fim do expediente da manhã, não me deve nada — falou, colocando uma das mãos atrás da cabeça. – E tá tudo bem, sério – respondeu ela, se aproximando e espalmando a mão em seu braço em conforto. A ação fez com que ficasse nervosa. – O seu filho tinha dito que você era ocupada, e eu te perturbando... Mas eu juro que você foi minha última opção.
Melissa assentiu, se sentindo contrariada. Olhou o local que costumava frequentar, visualizando uma pequena urna em cima do balcão. Caminhara até lá, deixando a moça curiosa, e colocou uma nota de R$200 dentro da caixinha de fim de ano. Um sorriso presunçoso passou pelo rosto da advogada, que fez a mais nova corar fortemente.
— Obrigada — falou ela, estendendo a mão pra atendente.
Ela pareceu receosa, mas aceitou, tocando delicadamente a mão da mais velha.
— De nada, senhora.
Melissa puxou o casaco, fechando-o, enquanto chamava Lucas para ir embora, que saiu correndo em direção ao carro. Estava passando da porta quando sentiu seu braço ser agarrado.
Os olhos castanhos lhe fitavam de forma intensa, e Melissa queria se afogar neles.
A atendente lhe entregara uma mochila azul de rodinhas, e Melissa percebeu que era do seu filho. Não falaram nada, e a advogada saiu, enquanto a mais nova fechava a cafeteria.
— A tia Fê é bem legal — comentara o filho assim que entrou no carro. Passeava com o carrinho de brinquedo ao redor da cadeirinha.
Melissa olhara para a moça, que puxava uma porta de rolar, e limpava a mão no avental.
Aquela garota a deixava louca.
— É, sim, querido.
Melissa descera do carro com o filho, indo direto ao grande prédio imponente do outro lado da rua. Entrara direto, porque o porteiro já lhe conhecia, entrando no elevador e rumando ao vigésimo andar. O ritmo de garota de Ipanema tocava suavemente ao fundo, e Lucas cantarolava, mesmo sem conhecer, enquanto passeava o carrinho de brinquedo por todo o local.
Ela o puxou pela mão quando chegaram no andar desejado, indo direto a única porta do andar.
A recepcionista, aturdida, limpou a garganta.
— Senhora Vitteli.
— Onde está meu marido? — questionara ela, sem olhar a moça franzina.
— Ele está ocupado agora — dissera ela, nervosa.
E, pelo olhar da moça, ela sabia qual a ocupação dele no momento.
Pediu para que o filho esperasse lá fora, abrindo a porta com brusquidão, assustando o casal que transava loucamente na mesa. Ele dera um pulo, levantando a calça, enquanto a mulher puxava a saia.
— Mel — dissera ele, assustado.
O olhar inexpressivo observava tudo sem qualquer sentimento.
— Esqueceu o Lucas na escola — pontuara ela, indo em direção a moça e lhe entregando a camisa que ela procurava em desespero.
— Sinto muito — pediu ele, e Melissa não sabia se ele falava da traição ou do esquecimento.
— Gustavo, por que ainda fazemos isso? — questionou ela, cruzando os braços em frente ao corpo.
Ele olhou para a amante, que saiu às pressas do local, recolhendo o par de sapatos e levando-o nas mãos.
— Nós ainda podemos...
— Não — ela interrompeu, se cansando daquele papo novamente. — Nós não podemos, não. Ache um outro local para você. Tenho nojo de dormir na mesma cama que você, e mais nojo de ouvir você falar meu nome. Então, suma, Gustavo. Suma!
E já se preparava para sair, quando escutou seu grito: — O que fazer quando sua esposa não te dá de comer em casa? Você procura na rua!
Ela se virou para ele, batendo palmas e rindo da situação.
— Gustavo, se a situação aqui fosse o caso de comer mal, eu já teria comido na rua faz tempo, porque com você eu sempre passei fome! — berrara ela, saindo e fechando a porta. E uma palavra ficara entalada em sua garganta, abrindo novamente a porta para que todos ouvissem — Seu broxa!
E saiu em direção ao elevador, praticamente arrastando o filho para que fugissem o mais rápido possível dali.
— O que é broxa? — perguntou Lucas, que se encontrava no banco de trás do carro. Ele a fitava pelo retrovisor, a faceta curiosa com a palavra nova.
— Algo que você vai entender com uns 17 anos e sentir quando tiver uns 30 – comentou ela de forma cínica.
E, como o filho sabia que ela não responderia, o diálogo acabara ali.
Chegou em casa exausta. Mal passara pela porta, e já tirava os sapatos e desabotoava a camisa.
— Vá fazer o dever de casa enquanto eu preparo algo — pediu ela ao filho, enquanto subia as escadas.
— Tia Fê já me ajudou com as atividades — disse ele de forma orgulhosa, feliz por ter se adiantado.
Melissa suspirou cansada, pensando em outro objetivo para o filho.
— Quer me ajudar a cozinhar? — questionou ela, descendo as escadas e indo puxa-lo para um abraço.
Lucas saiu saltitando em direção a mãe, para logo correr em direção à geladeira e recolher o máximo de legumes possíveis.
— Quero coxinha – respondeu ele de forma autoritária. – Vamos fazer coxinha!
Ela o fitou com uma sobrancelha arqueada.
— Só hoje – definiu a mãe. – E vamos usar legumes, e: não vai ser frito.
Ele saltitou de felicidades.
— Não tem problema, eu também gosto de coxinha de Airfly— argumentou ele.
Ela suspirou.
— Airfryer, amor – corrigiu, com toda a paciência do mundo que apenas um filho poderia exercitar.
Após o almoço, brincou com o filho até o final da tarde, e logo pediu que ele fosse dormir. Agora, Melissa encontrava-se na mesa da cozinha terminando alguns relatórios no notebook quando a porta foi aberta e Gustavo adentrou o local. Ambos se fitaram, mas nada disseram por um bom tempo.
Ele fechou a porta, para logo dizer – Vou embora amanhã. Não quero que acabemos assim.
Parou de digitar para espalmar as mãos na mesa e questionar: — Terminar como, Gustavo? Acho que nunca nem iniciamos algo, para falar a verdade. Sempre nos mantivemos em uma linha tênue entre iniciar ou não. No final, tenho um filho com alguém que eu agora desprezo e tenho que fingir que amo para que ele não sinta o ambiente de um lar desestruturado.
Ele a fitou perplexo.
— É exatamente assim que não quero que acabemos: como os seus pais. Não quero que me odeie, mesmo que eu tenha te dado inúmeros motivos para isso – respondeu ele, arrastando a cadeira para se sentar na frente da ex-esposa. – Eu não vou te ameaçar com a casa, a guarda ou qualquer outra coisa. Fiz isso porque achei que eu poderia, não sei, consertar tudo o que fiz, mas eu percebi que não posso.
Ela o fitou descrente.
— Você me traiu, Gustavo, e não foi só uma vez. E no período que você afirma que quer “consertar” as coisas, você está comendo uma funcionária na mesa do seu escritório. Isso não me dói mais. Eu não sinto nada, na verdade. O que me doía foi ter confiado meu amor e lealdade a alguém tão desleal e de amor desmorecido.
O olhar dele demonstrava que as palavras o atingiram como um tapa na cara. Ele não falou nada, apenas assentiu, abaixando a cabeça. Seu braço se esticou para que os dedos dele tocassem o dela, porém ela os encolheu.
— Você algum dia me amou? – questionou ele, as palavras saíam de forma tristonha.
Ela sorriu de forma irônica.
— Não devia ser eu a perguntar isso? – questionou ela de forma amarga. – Se tem uma única certeza na sua vida, a única que você pode ter, é a de que eu te amei, e o Lucas é a prova disso.
Seu rosto se iluminou.
— Então podemos fazer dar certo – disse ele, convicto. – Podemos fazer terapia e consertar tudo.
Ela riu.
— Sério? Gustavo, pelo amor de Deus! Nem em mil anos de terapia nós nos resolveríamos como casal.
— Por que? – questionou ele, indignado.
— Porque o que você faz todo dia é exatamente o que eu quero fazer com outra pessoa. Eu não desejo mais você, assim como não amo mais você – pontuou. Naquele momento, ele se calou, fitando a mesa.
Melissa se levantou, fechando o notebook e seguindo rumo ao quarto. Ele subiu atrás, mas apenas para pegar um lençol, e logo desceu para dormir no sofá.
Aquele havia sido o diálogo mais longo em dois anos.
Alguém havia batido na porta, e Melissa levantou da mesa da cozinha para atendê-la. Abriu a porta e deu de cara com Gustavo. Ele sorriu para ela e adentrou sem convite.
— Ele está pronto? – questionou o ex-marido, olhando para a escada na esperança de ver o filho.
Melissa apertou o robe que utilizava. Estava frio. Cruzou os braços e foi em direção a cafeteira.
— Ele está procurando a escova do Bob Esponja. Diz que só vai acampar se achar a escova da sorte – disse ela entre risos. – Quer café?
Ele também sorriu, assentindo em relação a oferta. Sentou-se na cadeira e iniciou uma conversa rotineira com a ex-esposa.
Mal deu dois goles do café e Lucas surgiu pela escada, frenético.
— Vamos logo, a gente vai perder a pesca com o tio Luís – disse Lucas, puxando o braço do pai e arrastando-o para fora da casa.
— Tchau, mãe! – gritou o menino antes de bater à porta.
Melissa suspirou, recolhendo as xícaras e rumando em direção ao quarto para tomar banho. Um ano havia se passado desde o divórcio de ambos. Tinham decidido começar terapia para que pudessem, ao menos, ter uma relação amigável e estável para que o filho não passasse por uma infância traumática, e haviam conseguido.
Mesmo que tivesse sido um péssimo marido, ele era um bom pai, e isso Melissa tinha que admitir.
Saiu do banheiro, vestiu-se, e correu em direção ao carro. Ainda tinha uma hora livre antes de ir trabalhar.
Entrou na cafeteria e sentou-se. Em menos de um minuto, uma xícara de café foi servida. Seus olhos fitaram os braços, para logo observar os olhos castanhos claros de Fernanda, que sorria belamente para a advogada.
— Achei que não viria hoje – respondeu ela, tateando o braço direito da mais velha com os dedos da mão esquerda e os repousando ali.
Melissa sorriu.
— Sentiu saudades? – questionou ela de forma atrevida.
Fernanda revirou os olhos, mas sorriu com a pergunta.
— Nem um pouco – respondeu com desinteresse. – Não... Não me importo que já faz vinte e quatro horas e... – deu uma pausa para olhar o relógio – trinta e dois minutos que nos vemos. Não ligo – continuou, e os dedos passeavam pelo seu braço, porém foram interrompidos quando um cliente a chamou. – Depois nos falamos – prometeu.
Concordou, bebericando seu café.
Melissa havia começado a flertar com Fernanda há muito tempo. Talvez um mês depois do ocorrido com Lucas, mas ao mesmo tempo que tinha atitude era uma covarde. Ficavam entre flertes e toques suaves aqui e ali, mas nunca tinha tido a coragem para convidá-la para algo mais, e sempre que tentava externar sua vontade, era interrompida por alguém ou pelos próprios pensamentos.
E quando havia terminado o café, se levantou, retirando o dinheiro da bolsa, mas uma mão agarrou seu braço.
— Você sabe que é por conta da casa – respondeu Fernanda, tão perto que era possível sentir seu hálito.
Melissa riu.
— Eu tomo café aqui quase todo dia. Seu salário paga apenas os meus cafés – zombou ela.
Fernanda deu de ombros com indiferença.
— Estou colocando na conta do encontro – replicou.
Melissa fitou-a confusa.
— Que encontro? – perguntou.
— O encontro que você nunca teve coragem de me convidar. Quando você me chamar para sair, você paga.
E a advogada corou com a atitude da mais nova.
— Você foi bem direta.
— Eu acho que tenho que ser – respondeu. – Você não tem a ousadia de me convidar – continuou, dessa vez repousando os dedos na barra da camisa social da mais velha, puxando-a um pouco mais para perto.
— E como você pode ser tão confiante?
— Quando você me olhava, achava que ia me comer com os olhos, mas quando eu te observava, você raramente retribuía. Quando falou sobre o seu marido naquele dia, imaginei que eu estava paranoica. Mas vir todo dia aqui para tomar um café simples e me observar... Você não é mais casada. Me chame logo para um encontro, querida.
Podia beijá-la ali mesmo, e tinha quase certeza que Fernanda esperava isso, mas o invés disso, soltou um beijo bem no canto dos lábios que a fez esquentar.
— Então fique livre hoje – respondeu em um sussurro. – Vou levá-la para jantar.
Fernanda sorriu de forma atrevida, e dessa vez lhe deu um beijo prolongado nos lábios, fazendo-a corar.
Aproximou os lábios bem perto do ouvido de Melissa para soltar um: — Não me convide para comer. Eu quero que você esteja faminta – a frase saindo de forma sensual e sexual. Aquilo a excitou.
Melissa sorriu, retirando um bloco de notas e uma caneta da bolsa. Rabiscou o papel, entregando nas mãos de Fernanda.
— Nos vemos às 20h.
E, às 20h em ponto, o interfone tocou. Melissa liberou a entrada, e em pouco menos de cinco minutos, três batidas na porta a fizeram correr para abrir. Seus olhos brilharam ao ver Fernanda. Os olhos castanhos da mulher estavam escuros e maldosos, a pele em tom de cobre reluzia e era coberto por um vestido preto com um belo decote em V. Seus olhos fitaram parte dos seios da mais nova, para logo retornar ao olhar fatal da moça.
Ela adentrou no local tão rapidamente quanto agarrou Melissa, as mãos em seu pescoço, puxando-a para um beijo sôfrego e voraz.
— Feche a porta – disse Fernanda entre beijos, que foi aceito com Melissa empurrando-a contra a porta. – Não desse jeito – replicou entre risos e beijos.
Melissa interrompeu o beijo, que foi condenado por um gemido em reprovação, e logo rumou em direção ao pescoço da mais nova, enquanto os dedos escorregavam pela alça do vestido e a puxavam para baixo – e logo repousavam nos seios tentadores, acariciando-os. Levantou a cabeça para observar Fernanda, que mantinha os lábios entreabertos de luxúria. Ela também a olhava, os olhos em pura tentação, brilhantes, sedutores.
A mais velha sorriu, e logo a puxou para mais um beijo voluptuoso. Sua língua passeava pela boca de Fernanda, que a abraçava quase como se tivesse a vontade de fundi-las.
— Me devore – pediu ela em alusão ao que havia pedido mais cedo.
E Melissa aceitou, puxando-a para a escada, rumo ao quarto.
Melissa a jogou na cama, colocando-se em cima de Fernanda e acariciando sua perna, para logo passear os dedos na parte interna da coxa em uma carícia lenta e tentadora.
— Não faça isso – pediu a mais nova de forma incontida – me toque.
Melissa tinha um sorriso sensual nos lábios.
— Peça – ordenou, enquanto mantinha a carícia lenta e a beijava sofregamente. – Peça o que quer.
Fernanda gemeu, tentando manter-se sã, em orgulho, mas logo sentiu a derrota com um novo beijo e uma nova carícia.
— Por favor, faça amor comigo – pediu em uma voz trêmula e desejosa. Ambas estavam cegas de luxúria.
E Melissa obedeceu. Puxou Fernanda para retirar o vestido e jogou-o em qualquer lugar, para logo retirar sua roupa. A calcinha da mais nova foi arrancada com os dentes e, nuas, encostaram-se pele com pele, gemendo com a sensação.
A advogada recomeçou as carícias na perna, mas logo rumou em direção à vagina da mais nova, dedilhando-a com o polegar de forma controlada, ao tempo que introduzia o dedo do meio. Sentiu o calor e a lubrificação e suspirou na tentativa de conter-se.
— Você está muito molhada – gemeu no ouvido da mais nova, que fez o mesmo.
E os dedos da mais nova acariciaram a intimidade de Melissa.
— Eu não sou a única, meu amor – respondeu com a voz rouca. – Não brinque comigo dessa forma – implorou.
E não houve mais torturas. Melissa a masturbava enquanto a beijava de forma selvagem. O polegar mantinha-se no clitóris da mais nova, enquanto mais um dedo era introduzido em Fernanda, em um vai e vem assíncrono, mas preciso.
Fernanda gemia, mantendo-se de olhos fechados, enquanto tentava fazer o mesmo com as mãos trêmulas. Passeava pelo corpo da mais velha, tocando-a de forma sedenta, ora puxando-lhe os cabelos, ora masturbando-a, ou puxando seu rosto para um beijo apaixonado, ou arranhando suas costas e puxando-a para mais perto, para que fossem apenas uma.
E Melissa mantinha a estocada, observando o rosto de Fernanda se contorcendo de prazer ao chegar ao orgasmo. Os olhos da mais nova se abriram, e um riso divertido saiu de seus lábios.
A mais velha retirou os dedos de dentro de Fernanda, colocando-os na boca de forma sensual, enquanto sua parceira observava aquilo de forma hipnotizada. Virou-se para que ambas ficassem de lado, mas Fernanda logo pôs-se acima de Melissa.
— Eu quero provar você – respondeu a mais nova, colocando-se na altura da cintura de Melissa para que a língua percorresse sua intimidade.
— Por que demoramos tanto? – questionou Fernanda em lamentação enquanto passeava os dedos pelo vão dos seios da mais velha, para logo puxar o rosto da mais velha para mais um beijo apaixonado. Mantinha-se aninhada nos braços de Melissa.
— Eu me arrependo da mesma forma – respondeu a mais velha sorrindo, enquanto observava os olhos brilhantes da moça.
Um sorriso sacana e sensual escapou dos lábios de Fernanda.
— Vamos ter que fazer todo dia para repor os dias não aproveitados – brincou.
— O que são duas horas a menos de sono? – questionou ela a Fernanda, que riu divertidamente.
Havia acabado de definir seu exercício diário.
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