Notas iniciais
Bom dia, boa tarde ou boa noite (para você, pois to irritado por não estar jogando e o mouse estragado).
Desejo a todos uma boa leitura.
E desculpe se ficou muiito grande.

Dirigia devagar, os olhos atentos no espelho retrovisor e na estrada à frente, antento aos sinais de trânsito e aos outros carros. Mas a realidade era que somente um porcento da minha atenção estava focada em voltar para casa em segurança, pois não haveria quem me esperasse por lá, poderiamos dizer que minha atenção na estrada estava ligado no "automático". O restante da minha atenção ainda estava no trabalho, naquela sala cor de maça-verde com detalhes em branco. Com moveis de cor marrom-escuro e com um ar convidativo.

Havia me formado para psicologia a dois anos e trabalhava no ramo desde então. Fora fácil achar um canto no centro da cidade, Porto Alegre, para trabalhar. E, enquanto terminava de cursar a faculdade, meu corretor arrumava o meu novo local de trabalho, deixando-o tudo do jeito que queria, sem erros. As colorações estavam na medida certa, os moveis organizados de um jeito simples, porém confortavel e espaçoso. O local não era grande, pois não queria gastar dinheiro desnecessário. Apenas queria um canto para trabalhar sossegado, ouvindo os problemas das pessoas, traumas com coisas, toques, dinheiro, vicios e tentando ajudá-las. O dinheiro, de fato, nunca havia sido algo que eu pudesse dizer em ser viciado em ter e gastar. Havia aprendido desde cedo que certos vicios vinham de família. E vindo de uma família onde gastar era lei, acabei pegando um certo receio em ter uma vida luxuosa, embora tivesse dinheiro de sobra para tal coisa. O lugar, antes, era feio, desbotado e fazia as pessoas pensarem se haveria um jeito de arrumar aquele local sem gastar muito. As pessoas pensavam demais sobre como organizar as coisas sem gastar dinheiro, em vez de irem se informar. Meu corretor havia torcido o nariz sobre o local, dizendo que, aquele que minha mãe havia me dado, era mil vezes melhor.

E de fato, ele era muito mais espaçoso, muito melhor... Mas, não era meu. Não era o que queria. Faltava algo. Meu toque. O lugar onde havia olhado e pensado "é ali que quero ter meu consultório". Sorria, intermamente e bobamente, ao me recordar de como havia achado aquele local.

Estava saindo do metro, atrasado para a faculdade, quando uma mulher um tanto acima do peso, esbarrou contra meu ombro e me fez cair na calçada, minha mochila da sorte havia voado para a porta do edificio velho. Suspirava irritado, indeciso se me erguia e discutia com a mulher ou se ia apanhar a mochila praticamente do outro lado da calçada. Fechava os olhos, levando a mão direta a lateral da testa e fazia uma pequena pressão por ali, até que decidia pegar a mochila e abria os olhos, vagarosamente e irritado, dando de cara com um local desbotado, que outrora havia sido, talvez, um amarelo palido ou um bege puxado para o amarelo, porém grande o suficiente, dez andares, para me fazer estacar na calçada, ouvindo xingões e sorrindo como uma criança. Corria rapidamente para pegar a mochila no chão, fuçando dentro daquela bagunça somente minha afim de procurar o celular. Então, ainda sorrindo, ligava para o Charles.

- Não, eu não sei que merda de lugar é esse no centro, apenas sei que é perfeito para os meus planos! — Dizia, da forma mais animada possível.

O ouvia dizer que já tinha em vista vários edificios para o que queria, e tratava de negar a todos eles, dizendo que queria aquele feioso.

- Hm, tem uma loja de roupa indiana ao lado de uma loja de sapatos chineses, fica bem em frente. — Havia me dado conta de que, não importava o local, se a clientela seria pouca, apenas queria abrir ali.

Olhava ao redor, procurando por outros consultórios de psicologia por ali e nada via.

- Parece não ter. Por quê?

- Olhe Jhonny, serei sincero sobre isso tudo. — O ouvia suspirar do outro lado. — Você esta construindo planos de abrir em um local que não sabe de nada, não conhece o pessoal...

E então ele começava com aquele discurso sobre não ser seguro e o tratava de o cortar enquanto desdenhava do que ele dizia, pouco me importando se seria grosseria ou não.

- Sabe Charles, não o pago para me dar conselhos sobre segurança ou qualquer outra coisa, apenas quero construir aqui... E sobre a segurança, sei que escolherá o melhor para mim. E se o problema for dinheiro, sabe que resolvo isso.

E depois de ouvir várias reclamações de todo mundo, Charles havia feito do jeito que havia descrito, contratando várias pessoas de diferentes ramos, para deixar aquilo tudo pronto antes de terminar a faculdade. O prazo era de seis meses.

Seis meses de espera, de ansiedade.

Havia sido um sucesso assim que abriu. O nome "Jhon-Psicologia" havia sido um sucesso. A cor havia sido um destaque das cores brancas, laranjas, azuis e vermelhos. Pois o lado externo era um verde-oliva brilhoso e o lado interno era um maça-verde claro. Os moveis eram nas cores marrons e brancos. O balcão de atendimento, era branco de mármore e a atendente era Marcia, uma mulher de quase quarenta anos, simpática, e o tipo de pessoa que sempre gostava de ajudar. A conhecia de longa dada.

Minha família a odiava.

E eu a idolatrava como uma mãe.

Havia mais três mulheres trabalhando para mim, embora raramente as vissem por duas fazerem parte da equipe de limpeza e a outra era a sobrinha de Marcia e quase nunca nos esbarravamos pelo prédio. Meu consultório, era em dois andares. No primeiro andar, era a recepção, banheiro e a sala de comida e bebidas. No nono andar, era o consultório, banheiro para os pacientes e a minha sala privada, onde continha um mini-bar, um sofá vermelho-veludo, duas poltronas, uma mesa de escritório (que continha o meu caos por ali em cima) e um banheiro com chuveiro e banheira, uma privada e a pia. A colaração ali era o unico diferente de todo o lugar que ocupava, pois era um tom bonito de cereja, com pinturas exóticas na parede, de cores abstradas.

O prédio inteiro era meu, mas o restante dele era alugado para uma loja de roupa intima feminina no décimo, uma restaurante no segundo lugar, um pequenho escritório de advogacia no terceiro e quarto e o restante era de moveis. Que por sinal, fora onde havia comprado toda a mobilia. As paredes eram fortificadas para nenhum som atrapalhar o trabalho do outro e por isso, sempre, era silencioso demais. A segurança não era as melhores, embora não houvesse tido problemas sobre isso.

Pensava em, daqui a mais dois anos, mudar de lugar, pegar um prédio inteiro, do mesmo tamanho, e o transformar em Jhon-Psiscologia dos pés a cabeça. Contratando novos psicológos, rendendo mais dinheiro. O outro prédio iria permanecer em meu dominio e o Jhon-Psicologia não iria sair de lá, pois iria atender sempre lá, por ter uma clientela fixa e a localização era fácil.

O lugar que minha mãe havia me dado de aniversário, quando me descobriu depois de tantos havia, havia passado para o nome dela e escrito uma carta um tanto quanto... Desaforada.

Agradeço pelo dinheiro gastado em algo que não fosse em seu próprio beneficio, mas como fugi de casa e cresci durante esses tantos anos sem nos ver, gostaria de arranjar um lugar eu mesmo, e assim o fiz. Charles foi de grande ajuda, embora tenha tentado me convencer a usar o que a Sra me deu. O que, podemos ver, não deu certo.

Desculpe se em algum momento dei-lhe a entender que era uma criança que vivia em baixo de sua asa, mas já sei limpar minha própria bunda.

Agradeço pela quase-preocupação-real.

Espero não nos ver-mos nunca mais.

Jhonny L.

Marcia havia me puxado a orelha sobre este "bilhete" desaforado, dizendo que deveria saber perdoar os erros dos outros para não cometer os nossos. Sempre respondia com um dar de ombros e um deboche "se eu não cometer meus erros, quem cometerá por mim?".

Havia fugido de casa por todos os motivos aparentes e os secretos também. Havia me cansado, me irritado, me castigado e me fatigado com coisas que não poderia resolver e assim, fugi de casa. Larguei uma vida luxuosa para viver na rua, aos quatorze anos, quando Marcia me colheu da rua como um gatinho branco com cinza (ao menos, era a descrição que ela me dava). Ela me deu uma escola, uma casa, comida, trabalho e... Amor.

Quando morava com Madie (conhecida como Marta pelos parentes próximos), não era carente de quase nada. Exceto amor e tudo o que esta pequena palavra significava.

Raramente via meu pai e convivia mais com minha irmã mais nova, que na epoca não tinha mais do que cinco anos e meio. Queria levá-la, mas não sabia como me sustentar e imagina sustentar uma criança. Os nove anos de diferença entre nós dois, parecia dias na atualidade. Era alta, jovem e muito bonita. Os cabelos louros caiam-lhe sobre os ombros, a pouca maquiagem que usava a deixava mais jovem, deixando as pessoas em duvida se ela tinha vinte ou dezesseis anos. Josiele era um amor de pessoa. Não puxando nenhum dos pais ou parentes conhecidos. Apenas tinha a beleza de Madie e o controle sobre tudo de Joseph Filho. Os olhos eram verde-claro, de Joseph. O contorno do rosto, o formato dos olhos felinos e a boca, eram de Madie. A cor dos cabelos era da avó materna, um louro quase branco, ao qual usei o nome de solteira enquanto estava fugido, até os vinte e dois. E a cor da pele, um tanto morena comparado a nossa cor praticamente pálida, era do avô paterno, Joseph Pai.

Estacionava o carro em frente a caragem, como de costume, apenas o colocava para dentro depois das 20:00.

Descia do carro, me esticava entre o banco do motorista para o do carona, pegava a pasta e trancava o carro, começava a subir as escadas para a entrada da casa, quando travava o pé no penultimo andar, os olhos focavam um garoto, de talvez, dezessete anos. Bom, talvez fosse mais novo, ou mais velho, já que não poderia ver nada além de fones de ouvido branco, uma vasta cabeleira castanha e roupas coloridas. Jeans azul-marinho desbotado, tenis branco com vermelho e preto, uma blusa verde com um logotipo que não conseguia definir o que era e um casaco preto. Ele estava a par da moda, pensava.

Olhava ao redor do jardim. As rosas brancas já havia desabrochado, enquanto as rosas vermelhas e as cor-de-telha ainda estavam em botões. Alias, precisava urgentemente cortar as gramas e corava com aquele pensamento. Franzia a testa ao se dar conta de que morava ali a quase cinco anos e ainda não havia colocado uma cerca, um muro, um portão ou qualquer coisa que impedisse os outros de entrarem no meu terreno.

A casa era pintada de um azul escuro, mas não ao ponto de ser azul-marinho, as janelas e portas eram pintados de amarelo, ao estilo daquelas canetas marca-texto e o telhado e forro eram pintados de vinho. A casa era estilo americana, com um jardim na frente, com dois portões ao lado da casa, grudando na parede e no muro dos vizinhos, e um vasto terreno atrás, onde continha uma grama (que também precisava ser cortada), uma piscina não muito grande, um lago onde continha peixinhos (e um vidro em volta, para os gatos não fazerem meus bebês de comida) e árvores. A casa, não era especialmente grande, tinha três quartos, dois banheiros e dois andares. Na parte de cima ficava os quartos, a sala de jogos, a sacada e a sala de televisão. E na parte de baixo ficava a cozinha, um dos banheiros, já que o outro ficava no meu quarto, a sala de jantar, a sala de visitas, uma area reservada ao lazer dos visitantes, a lavanderia e a porta para o quintal. A coloração mesclava de lugar. Nos quarto dos hóspedes a coloração era branca. Nos banheiros, os azulejos eram amarelo-queimado. Na cozinha, os azulejos eram branco com detalhes florais de azul. No meu quarto, era roxo com destalhes em aspirais que iam do chão até metade da parede, de laranja. Na sala de jogos, de lazer e lavandeiria a coloração era azul-claro. E no restante, era um bege-brilhoso.

Quando havia visto aquela junção de cores, havia me apaixonado pela casa e irritará tanto o dono para vendê-la, que ele não teve alternativa se não vendê-la mesmo. Ria internamente daqueles dias.

Voltava a atenção para o rapaz sentado na escadaria da entrada e fazia uma careta, não sabendo se seria grosseria da minha parte interrompê-lo ou não... Bom, eu queria entrar, tomar um banho e tomar algo quente... Mas era verão, então tomaria um sorvete.

- Com licença...? — Dizia, de forma timida, como se fazia anos que não conversava com alguém. — Você esta no caminho, sabe?

E quando ele erguia o rosto, abaixo dos olhos estavam vermelhos e inchados, mostrando que havia chorado, talvez, a tarde inteira. Os olhos grandes e castanhos eram meigos, embora estivessem opacos em depressão.

Jogava as mãos para o alto, esquecendo completamente da pasta quando esta voava em direção ao rapaz e então virava um caos completo. O garoto tentou se desviar da pasta, enquanto eu me lançava em direção a pasta para a pegar antes que fosse em direção ao rosto dele e assim caiamos da escada.

45 centimentros não era nada comparado ao ter, praticamente, esmagado o garoto.

Soltava um "aimeudeus" enquanto saia de cima do garoto, olhava para cima e via que a pasta estava são e salvo e a xingava mentalmente, como se ela tivesse alguma vida e caçoasse de nós dois.

Nunca havia sido a pessoa mais ajeitada e nada estabanada na vida, mas agora havia se puxado em ser sem-jeito.

- Você esta bem? — Perguntava, o puxando pela mão e o ouvindo gemer.

- Tudo bem... — Ele se espichava como um gatinho ciamês, fechando os olhos e os abrindo lentamente. — Já tive tombos mais altos...

E era interrompido por um acesso de risadas, onde o acompanhava e falavamos palavras desconexas de como aquilo havia acontecido, o que havia gerado aquilo... E como ninguém se machucou.

- Você esta bem mesmo? — Mal havia me dado conta de que estavamos sentados no pé da escada, tentando recuperar o folêgo das risadas. — Sério que não o machuquei? Sabe... Eu cai em cima de você na hora... — Indicava com a cabeça a escada e a queda. — Talvez seja uma boa idea colocar um corrimão...

- Não, estou bem. — E olhando para de mim de forma debochada, apontava com o polegar a escada e dizia com um misto de divertimento. — Colocar um corrimão ali? Ai sim, a próxima pessoa que você derrubar, irá se machucar.

Ria sem jeito, sem graça, com vergonha, com constragimento. Nunca havia conhecido alguém assim, desse modo, onde o jogava da escada, literalmente.

- Sabe, você me fez rir.

Ficava em silêncio, o deixando falar o que bem quisesse. Não o olhava, embora soubesse que a franja roçava o nariz dele.

- Não sei porque entrei aqui... É invasão... Eu acho... — Ria baixinho. — Não tem uma cerca, sabe?

- Tenho que colocar uma, em vez do corrimão. — E o olhava, com um pequeno sorriso de canto.

O ouvia suspirar baixo, fungar, levar as mãos ao rosto e o cobrir. Não estava chorando, embora duvidasse que o ato fosse devido a vergonha de ter sido pego sentado na casa de um desconhecido.

Não gostava de saber que alguém havia chorado ou que estava prestes a chorar, como no caso do garoto ao lado.

- Sabe, você não gostaria de entrar e tomar algo quente... — E novamente me lembrava de que era verão. — Ou melhor, tomar um sorvete? Josiele diz que gosta muito dos meus doces, então... — As bochechas dele se moviam, dando-me a entender que estava sorrindo. — Quer?

- Qual saber você tem? — Ele tirava uma das mãos do rosto, apoiando a bochecha esquerda na outra mão e me olhando de forma ansiosa.

- Chocolate branco com chocolate normal.

- Chocolate normal? — Ele ria.

- Chocolate... Preto?

Subia a escada de dois em dois, tentando esconder a vergonha que sentia ainda, pegava a pasta do chão, pegando a chave da casa no bolso da calça. Abria a porta e o fazia entrar primeiro e o ouvia assoviar ao ver o interior da casa. Não era nada tão chamativo, embora fosse ricamente decarodado de moveis e adereçõs. Ele parava em frente ao quadro de uma mulher loura, de lindos olhos verdes. Josiele era muito mais bonita pessoalmente, pensava.

- Esposa?

Negava com a cabeça, jogando a pasta sobre a poltrona perto da porta e dizia que poderia ficar a vontade, que a porta mais a frente era o banheiro, que a porta do outro lado da entrada era a cozinha e que poderia fazer o que bem entendesse ali. E que enquanto ele fazia o que queria por ali, iria tomar um banho e trocar de roupa.

Tirava os sapatos na entrada e o observava pensar se faria o mesmo ou se continuava com os deles. Apenas sorria e o dizia que poderia ficar, é que como eu saia do trabalho usando um sapato barulhento, o deixava ali.

Observava o garoto colocar as mãos no bolso, olhar em volta e não saber o que fazer. A expressão dele era serena, embora mostrasse estar assustado. E para o deixar mais a vontade, deixava a porta da frente aberta, para o caso de ele ir embora assim que quisesse. Dizia um breve "fique a vontade, já volto" e subia para o segundo andar, quase caindo na escada devido a vergonha.

A vergonha de o ter esmagado nunca iria sumir, chegava a conclusão.

Entrava no quarto no meio do corredor, mal notando quando havia passado pela sala da televisão. Tirava a gravata vinho, a camisa social branca, jogando ambas no cesto de roupa suja que havia no quarto, perto da porta do banheiro. Sentava na cama, ignorando a bagunça de lençóis brancos e o cobertor de caveira, de Jô. Tirava as meias pretas, as transformando em bolas e as arremessando para o cesto de roupa e logo tratava de tirar o cinto da calça social e depois deixava a calça escorregar pelos quadris até o chão, onde embolotava aos meus pés, a pegando e a jogando também no cesto. Ignorava o friozinho do começo de verão, ia para o banheiro e deixava a cueca box preta deslizar para o chão também, onde a arremessava para o cesto de roupas intimas.

Ligava o chuveiro e deixava o bafor da água quente aquecer um tanto o local, que estava frio. O espelho logo ficava embaçado e assim, entrava na água quente e suspirava de prazer ao sentir o cansaço do trabalho escorrer dos ombros. O dia havia sido extressante, pois com a entrada do horário de verão, havia me perdido totalmente.

Pegava o sabonete e o passava nas axilas primeiro, depois no pescoço e ombros e então em cada braço, e depois para a barriga, costelas e peito. Ensaboava as pernas rapidamente, de forma pratica. Ensoboava as coxas, nadegas e costas. Então pegava a esponja e esfragava onde havia sabão e depois de tudo isso, me enfiava novamente em baixo do chuveiro. Pegava o shampoo e lavava os cabelos rapidamente, onde então voltava para baixo do chuveiro, enxaguava o cabelo e saia do box, pegando a toalha marrom de cima da pia, enrolando ao redor da cintura, enquanto pegava um pente e tirava o excesso de água dos cabelos. Pegava uma toalha de rosto, também em cima da pia, e da mesma cor da outra, limpava o espelho. Observava que as pontinhas da barba saindo e dava de ombros, era sexta-feira mesmo. A barba iria ser feita apenas domingo, a noite.

Desenrolava a toalha da cintura, secando o corpo inteiro e então voltava a enrola-la na cintura, calçava os chinelos e ia para o quarto, no guarda-roupa cinza, pegando uma cueca box da gaveta, uma bermuda listrada de preto e vermelho e uma camiseta branca. Penteava os cabelos com os dedos e saia do quarto, descendo as escadas de dois em dois enquanto olhava em volta, procurando o garoto.

Observava que a porta da frente estava fechada e a porta da cozinha estava aberta, como em um convite mudo de ir até lá e assim o fazia.

Chegava a porta da cozinha, olhava a decoração, o balcão e sentia aquela ansiedade me corroer a barriga. Olhava para a geladeira cinza e à avistava aberta. Sorria internamente quando avistava uma cabeleira castanha, agachado, limpando algo que havia caído no chão. Sorria, agora, aparentemente. Os olhos focados nos movimentos desconexos do garoto. Qual seria a idade exata dele ou o seu nome? O que o havia afligido ao ponto de adentrar um terreno, por mais que não tivesse uma cerca, e chorasse na escada?

Novamente ficava envergonhado devido o modo como havia derrubado o garoto e caído em cima dele. Repuxava os lábios em uma carranca, fazendo um som estranho e assustando o garoto.

Teria que aprender a ser mais discreto ou fazer um estardalhaço para anunciar que estava chegando, assim não assustaria ninguém.

- Ah... — Ele gemia ao bater a cabeça em uma das prateleiras da porta da geladeira. — Não o vi...

Assentia, achando uma graça aquele jeito dele.

- O que você derrubou ai? — Perguntava, embora se quisesse mesmo saber, poderia me esticar sobre o balcão e olhar, mas apenas caminhava para perto do balcão.

- Hmm, o vinho...?

- Você não é novo demais para beber? — Ria alto devido a carranca que ele fazia.

Me jogava sobre um dos assentos da bancada e indicava com a cabeça uma vassoura, uma pazinha pequena e um pano de chão, que estava entre a pia da cozinha e o fogão.

Ele gemia um baixo "obrigado" ou talvez um "oh". Não sabia dizer direito, apenas que havia encontrado alguém que também resmungava quando não sabia achar as palavras certas.

Ele me intrigava.

Esse era o ponto.

Não que não gostasse de quando alguém chorava. E nem algo do tipo... Ele apenas havia me intrigado desde que o havia descoberto na escada, encolhido, parecendo menor do que era.

Ao olha-lo limpar a bagunça do chão, notava que ele era mais alto do que havia pensado. Os cabelos eram castanhos-escuros e caiam-lhe sobre os ombros, dando-lhe um ar misterioso e ao mesmo tempo inocente. Os olhos eram grandes, simpáticos, meigos e a cor apenas aumentava essas coisas, castanho. As vezes, quando a luz atingia o rosto dele em cheio, dava a impressão de ficarem tão claros quanto um pote de mel.

O modo como ele encolhia os ombros sempre que notava estar sendo encarado, dava a impressão de que era maltratado por alguém.

Queria perguntar, embora não me visse no direito de saber qualquer coisa dele.

Talvez, por ter ido para aquele terreno, deveria ter sido um acaso, uma obra de alguém mais poderoso que comandava todas nossas atitudes, mas também poderia se dar ao fato de a casa ter me chamado a atenção por causa da cor, que não era desagradavel, apenas exótico.

O fato era que havia brigado em casa, gritado, chutado a porta da entrada, havia pego o gatinho, que havia tirado da rua, da frente da brutalidade do meu pai, recebendo o chute na canela onde apenas resmungava e nada dizia. Virava as costas e saia por aquela porta marrom, que para os outros parecia uma saborosa barra de chocolate, mas para mim para os portões do inferno. Afrouxava os braços ao redor do felino ao sentir as unhas contra um dos braços, apesar da camiseta de manga comprida. Sentava em frente a casa, ao lado da árvore que estava ali a anos, estragando a calçada e me dando paciência. Roçava o nariz entre o espaço das orelhas do felino e começava a chorar, não sabendo qual fim iria dar ao animal.

Um pensamento havia me feito virar para a vizinha, que estava saindo. Começava a me erguer da calçada quando ela me avistava e sorria, comprimentando como todo mundo gentil deveria fazer.

- A senhora quer um gatinho? — Perguntava, timido.

Ela olhava para o animal preto e branco entre meus braços, olhava para meu rosto que deveria ainda conter as marcas das lágrimas de segundos atrás. Sorria e dizia que sim, estendendo os braços e o pegando.

- Felicio... — Ela dizia, me fazendo arquear uma sobrancelha. — Esse será o nome dele.

A mulher girava sobre os calcanhares e adentrava a sua casa novamente, falando alguma coisa para Felicio, mas, antes de fechar a porta, ela sorria e dizia que poderia ir visitar o animal sempre que quisesse.

A unica coisa que havia feito fora assentir, virar as costas e começar a caminhar. As lágrimas haviam sumido, mas a dor permanecia. Não poderia ter nada, nem um segundo se quer de felicidade.

Bocejava e deixava que os braços se esticassem sobre a bancada, onde olhava ao redor e me dava conta de que havia adormecido por ali, pela primeira vez. Depois de vinte e nove anos, era meio complicado experimentar primeiras vezes... Ainda mais quando se era ocupado e pouco se importava em se jogar em qualquer canto e descansar.

Sentia algo sobre os ombros e me dava conta de que, o garoto, deveria estar por ali...

Talvez.

Tirava um pano, um casaco velho e felpudo que estava em algum canto perdido, de sobre os ombros e sorria levemente. Era um agradecimento, embora pequeno.

Jogava o casaco sobre a bancada e saia da cozinha, arrastando os pés como normalmente fazia e o via deitado sobre o sofá da área de lazer das visitas. Um pequeno sorriso fazia questão de querer sair, mas o deixava preso internamente. Parava de arrastar os pés e caminhava, como uma pessoa decente faria, até o sofá e o via ali, adormecido, calmo.

No rosto, não tinha mais nenhuma expressão de quem havia chorado a tarde inteira.

Sentava no chão, abrançando os joelhos e passava a vê-lo dormir. Ele não era nada parecido com os garotos que iam ao meu consultório. E nem um pouco parecido com os garotos que via caminhar de manhã cedo, com mochilas nas costas. Ele tinha uma expressão um tanto feminina enquanto dormia. Possuía longos cilios a lhe sombrear o rosto, as bochechas eram um pouco grandes e rosadas, dando uma expressão totalmente fofa. Possuía também sobrancelhas finas, mas masculas o bastante. Ainda não havia sinal de barba e ele deveria se manter grato por aquilo. Sua pele era pálida, dando a impressão de ter alguma doença ou anemia. Tinha braços e pernas compridas, embora não fosse chegar aos 1.75 de altura. Observava o leve biquinho nos lábios, dando uma impressão de estar querendo imitar um pato e ficava abismado ao reparar, que abaixo do lábio inferior, no canto direito, havia uma cicatriz de faca. Conhecia bem aquela marca, por ter uma na pulso e duas nas costelas e talvez algumas nas costas.

Franzia a testa, soltava os joelhos e o cutucava de leve no ombro, o fazendo acordar em um susto. Sorria de leve, embora soubesse que o sorriso não chegaria aos olhos.

- Vai ser oito horas da noite, não tem que ir para casa? — Dizia a ele e o via se erguer rapidamente, o vendo ficar tonto logo em seguida. — Ei, vai com calma.

- Eu... Aimeudeus, eu realmente preciso ir.

A expressão jovial se transformava em pavor e de pavor se transformava em medo, onde a unica coisa que tinha certeza de que ele queria, era se esconder atrás de alguma coisa e esperar, aquela coisa que o dava medo, ir embora.

Já havia sentido aquilo algumas vezes.

- Se você tem um horário a zelar, posso levar você para casa e explicar aos seus pais alguma coisa... — Dizia, embora não soubesse o porque de querer ajudá-lo. — Sabe...

- Não precisa.

E então, como ele havia chegado do nada, ele ia embora do nada. Não dizia o nome, idade ou endereço. Apenas deixava uma bagunça de almofadas no sofá, o cheiro de vinho com sorvete de chocolate na cozinha e a risada em minha mente.

Sabado e domingo havia se passado do modo mais arrastado possível. Marcia havia me convidado para ir ao cinema, para sair da rotina e gastar algum dinheiro, mas a vontade não veio.

A unica coisa que queria era estar longe de tudo e deixar a cabeça doer até estourar. A dor de cabeça havia começado do nada, depois de ler alguns projetos de Jô sobre empresas de beleza e coisas do tipo. A verdade era que não entendia nada e sentia vontade de jogar em Marcia aqueles papeis e dizer "por favor, resolva antes que eu ganhe um tumor cerebral antes de conseguir entender alguma coisa".

Jô havia mandado aqueles papeis pelo correio e me sentia mais do que no direito de dar um pouco de atenção. O problema era que não entendia se tal shampoo era melhor que o outro tal shampoo. E nem se aquele creme iria deixar alguém careca... Ou se depilação com cera quente doeria tanto ou de menos. A verdade era que, mulheres eram cheias de manias.

Olhava para a correspondecia em cima da mesa da sala de jogos, franzia a testa ao ver um cartão azul, com um anjo loiro, clichê, e de cabelos encaracolados na capa. Não havia nome e nem rementente em ambos os lados e assim abria o laço e rosnava, lendo o conteúdo, trincado o maxilar e arremessando o cartão para a lixeira. Não me importava se ela estava grávida de tal criança. Se iria ter um irmão, um neto, um sobrinho ou o diabo a quatro!

Madie e Joseph o convidam para vir festejar conosco o nosso mais novo herdeiro, que nascerá daqui a seis meses.

Era breve, porém irritante. E no canto inferior, direito, estava escrito com a letra de Madie.

Seja um bom filho e venha ao menos para a festa!

A dor de cabeça aumentava, gritava, sambava, dançava e rebolava na minha mente. Parecia ter chutado meu lado racional para fora do cérebro, onde começava a me irritar e querer a jogar tudo pelos ares. porém este lado selvagem deveria ser deixado para trás, junto com Madie, Joseph e todo o resto. Não sentia falta de nada, nem das pessoas daquela vizinhança, daquela cidade e nem de nada. Sempre quisera sair de la, respirar e viver por mim mesmo. E agora que havia conseguido, não iria voltar lá, empinar o nariz e fingir estar tudo bem. Não, não faria algo do tipo. Odiaria. Iria morrer, mas não iria àquela cidade, àquela casa. Não iria sair daqui para me irritar.

Na verdade, já estava irritado, mas não fazia diferença.

Voltava o olhar, novamente, para a correspondência em cima da mesa e olhava de forma desinteressada a conta de luz, do gás, da água e as contas das lojas que Jô havia comprado em meu nome, pois ela havia estourado o limite de seu cartão, como sempre.

A campainha tocava, fazendo-me soltar um urro em vez de um grito, olhava de forma irritada para o cesto do lixo e rezando para tudo que existia para não ser Madie, querendo me arrastar daqui para a festa.

Calçava os chinelos e ia para a porta da frente, olhando antes pela janela e vendo Jô, com alguém ao lado. Cruzava os dedos e rezava, novamente, para não ser Madie ou Joseph. Ou até mesmo Charles.

Abria a porta e fingia não estar surpreso ao ver o garoto ao lado de Jô, onde ela lançava olhares assassinos para o garoto, que se encolhia cada vez mais.

- Encontrei esse moleque rondando sua casa, Jhon. — Ela dizia.

- Não..

- Quieto!

Levava uma das mãos aos cabelos e a outra abria mais a porta, indicando para que ambos entrassem.

- Sério, deve colocar uma cerca logo... Ou melhor, roube a muralha da China e a coloque aqui! — Ela dizia, de forma grotesca.

Ignorava o sermão de Josiele e o drama todo sobre o garoto, apenas o olhava.

Ele estava pálido e possuía o lábio inferior machucado. A franja caia sobre um dos olhos e tinha a certeza de que estava roxo. Olhava para as vestes dele e o via que, novamente, estava seguindo a moda, embora parecesse magro demais...

- Josiele. — A chamava e a via ficar tensa, pois raramente a chamava pelo nome completo. — Pode nos deixar a sós?

- Já se conhecem?

- Sim. — Dizia, e embora soubesse que precisava de uma explicação, apenas dizia. — Digamos que ele é meu mascote.

Ela franzia a testa e girava sobre os calcanhares, subindo para a sala de jogos.

- Você leu?! — A ouvia gritar lá de cima, praquejando baixinho quando a dor de cabeça retornava. — Entendi, falamos disso depois.

Jô não era o tipo de pessoa arrogante e nem de nariz em pé, metida ou qualquer outra coisa que associassem a isso. Josiele era calma, meiga e serena, mas não gostava de invasão ou de desconfiar de alguma coisa. Ela era, nesses termos, muito parecida com Madie. Mas de um jeito positivo.

Esticava a mão e tentava tocar no garoto, mas ele apenas recuava e se encolhia.

- Eu não vou te machucar... — Bufava quando ele se encolhia de novo. — Deixe-me cuidar de você.

Ele ria.

Mas um um riso histérico, assustado, amendrontado. E aquilo, de alguma forma, quebrava alguma coisa dentro do meu peito, fazendo com que tremesse dos pés à cabeça.

- Posso...

- Não, você não pode. — Ele resmungava, chutando a ponta do tapete indiano. — Sabe, as pessoas acham que podem me ajudar... Mas sabe o que resolveria? — E sem esperar uma resposta, ele dava de ombros e respondia de forma desinteressada, como se falasse do tempo. — Uma vida nova.

Sem pensar, o puxava para um abtraço e o mantinha por tanto tempo ali, que depois da onde de surpresa passar, o garoto tentava se desvencilhar do contato. O que não deu muito certo, devido a comparação de tamanho.

Não. Nunca havia sido uma pessoa que gostava de contato carnal, carinho e algo do gênero. E raramente fazia algo do tipo. Porém, aquele garoto estava quebrando todo o meu auto-controle, que só percebi ter um, depois da chegada dele... Ou melhor, depois que cairá em cima dele, o esmagando.

Naquele mesmo dia, havia pedido para Josiele se retirar porque queria estar a sós com o garoto e tentar descobrir o maximo que pudesse. Ele não havia dito quase nada sobre o motivo de ter sido espancado ou quem havia lhe espancado. Apenas havia dito, por cima, que fora devido por algumas coisas erradas que fizera.

Na minha opinião, não existia qualquer coisa errada que fizesse uma criança, como ele, ser espancado de tal modo. Havia descoberto, entre os cortes e duas fraturas na costela, que ele tinha quatro dedos, das mãos, deslocados. Trincava os dentes de raiva e o arrastava para um posto de saúde, que não se importava com a identidade de ninguém, apenas em querer ajudar. E depois que saímos de lá, obrigava o rapaz entrar no meu carro e o levava para a minha casa.

Descobri que ainda não sabia o nome dele e por isso, achava que deveria perguntar, mas algo sempre me travava.

- Isso ainda dói. — Ele olhava para os dedos enrrolados em alguns panos. — Sabe, não deveria mais doer?

- Você deslocou, é normal. — Estacionava em frente a escada de entrada e dizia. — Desça. Coloque algo gelado ai e quando a dor diminuir, você pode ir para casa e ser espancado de novo. — Não tiverá vontade de ser sarcástico, apenas soltará sem querer.

O observava sair do carro, batendo a porta e ir marchando em direção a entrada. Quando se aproximava da porta, ainda pisando duro, a diarista abria a porta e dava de cara com um moleque todo arrebentado. Pensando que deveria intervir sobre os dois, saia do carro e subia os degraus de dois em dois, o empurrando para dentro e cumprimentando a diarista, ao qual não sabia o nome, já que sempre mudava, toda semana. O garoto havia ido para a cozinha, vasculhado a geladeira em busca de algum gelo e quando achava uns blocos, pegava um pano de cima da pia e enrolava o pano nos gelos. Chegava no momento em que ele iria colocar o gelo sobre os dedos, onde já havia tirado os panos.

- Me da sua mão e o gelo. — Dizia, ao me aproximar da bancada e usar um dos acentos.

E sem demoras, ele esticava a mão com o pano de gelo e a mão machucada, os olhos com medo... Não sabia dizer se era medo de mim ou da dor. Preferia acreditar que era devido a dor.

Com calma, deixava que o pano gelado fosse pousado sobre os quatro dedos, calmamente. O via querer puxar a mão, embora que fora aliviando e ele se sentou do outro lado. Os olhos castanhos do garoto eram curiosos e olhava para cada canto da cozinha, movia os lábios como se estivesse querendo mudar alguma coisa dali. Como se, quisesse organizar tudo do seu jeito.

Sorria internamente ao me dar conta de algo que ele gostaria de ser.

Ele queria ser decordador de casas.

O garoto passava mais tempo em minha casa durante as semanas seguintes, do que na própria casa ou na escola. Ele sempre dizia que gostava de estar aqui. Não pela sala de jogos, já que raramente ia lá jogar algo. Não pelo sofá confortavel da sala de lazer, onde se jogava de forma preguiçosa. E nem pela Josiele, ao qual havia descoberto que ele a admirava, embora não falasse em voz alta. A verdade é que o pegara olhando de forma embasbacada para minha irmã, enquanto ela falava do tom de cores que gostaria de colocar no salão depois de pronto.

Josiele havia lhe perguntado o nome e ela sempre se referia a ele como N e não o nome completo, o que me deixava intrigado. A primeira vez que a ouvira dizer N, havia achado que ela falava do alfabeto em sim.

- O N é realmente admiravel, sabe? — Ela dizia, com um sorriso bobo. — E quando mostrei para o arquiteto, ele ficou todo envergonhado pela sua gafe. Imagina só, um garoto de quase dezessete anos corrigindo um homem de carreira formado! — E ela ria, daquela maneira contida e rouca.

Mas, quando se deu conta de que o "garoto de quase dezessete anos" se referia ao garoto que ia a minha casa, fiquei surpreso. Na verdade, mais do isso. Havia me engasgado com o musse de laranja, olhando para ela como se perguntasse "Quem é N? E ele é tão inteligente assim?!"

Não sabia dizer se gostava de ambos estarem se aproximando tanto ou se receava que algo do tipo fosse acontecer. O garoto, em si, era o tipo de pessoa que chamava muita a atenção em questão de aparência e também pelo seu jeito. Embora ele sempre se encolhesse quando se aproximava ou falava com ele. Talvez ele ficasse mais a vontade com o sexo mais fraco... Embora que, ver Jô como o sexo frágil de alguma relação era algo que me faria rir, menos naquele dia, havia me deixado com uma carranca.

Estava tão acostumado com o garoto entrando de manhã, perto das 8:30AM, para tomar o café da manhã, que quando ele não apareceu... Não sabia dizer, apenas achava que a casa havia ficado maior e que o fosse ser engolido com a minha solidão daquele dia.

Tomava uma xicara de café preto reforçado. Embora odiasse, mas havia esquecido de comprar leite e o jeito era me satisfazer com um pretinho bastante forte.

Ouvia o som da porta abrindo e fechando e então me inclicana na bancada, afim de tentar descobrir quem era, mas me ajeitava ao ouvir som de saltos altos.

Era apenas a Jô.

Se sentiu idiota pelo "apenas a".

- Jhonny, bom dia. — Me cumprimentava, com um sorriso nos lábios, embora fosse ficar séria no segundo seguinte, ao notar que estava quieto demais. — Cadê o N?

Dava de ombros, não querendo dar bola.

- Você sente a falta dele. — Ela dizia, colocando as mãos nos quadris, algo que lembrava Marcia.

- Não mesmo. É só um garoto sem amor que invade minha casa. — E no momento que dizia aquelas palavras, baixava o olhar para a xícara e se arrependia.

- Jhon, se não gostasse dele, você já o teria chutado daqui. — Ela dizia e embora não a estivesse olhando, sabia que estava sorrindo. — Principalmente depois que ele colocou os tenis em cima do seu sofá.

Talvez fosse verdade que sentisse a falta do garoto. E talvez fosse verdade que gostava de saber que mais alguém gostava das cores da casa, embora ele tivesse dito a Josiele e não a mim.

Sentia o gosto metalico nos lábios e se dava conta de que estava mordendo, com bastante força, o inferior e logo o soltava, soltando um suspiro pesado.

- Sabe Jhon — Ela começava, se sentando na bancada a minha frente, pousando as mãos sobre as minhas. — o preconceito de gostar de homens esta começando por você mesmo e não por mais ninguém.

Embora que, não era homossexual, apenas não queria um relacionamento duradourou com alguma mulher. Já havia tido casos com mulheres antes, já havia se excitado com toques e ao menos de olhar para alguma mulher... Mas, de querer ter algum relacionamento, não.

Diferente de com homens. Já havia ficado noivo de um homem e já havia namorado outros. Era como se, de alguma forma, se desse melhor com o mesmo sexo do que com o oposto.

Mas isso não tinha a nada ver. Não gostava do garoto daquele modo.

- Não pense nisso, Jhon. — Ela sorria. — Você gosta da companhia dele e saber que ele esta bem, não negue para si mesmo.

Franzia a testa.

- Hm... Ele tem quase dezessete e você vinte e nove, já tendo feito aniversário, enquanto o N irá fazer semana que vem. — Ela sorria. — E sabe? Não é tão grande a diferença de idade.

- Semana que vem?

Ela assentia.

- Para ser mais exata, na quinta-feira.

Olhava por sobre o ombro, para o calendário pendurado na geladeira e sorria.

- Dia 23?

Ela assentia de novo.

- Jhon. — A olhava. — Você esta atrasado.

Olhava para o relogio de pulso dela e voava da cadeira, pegando a pasta do trabalho sobre a bancada e corria para o carro, praquejando baixinho um mantra sagrado de "mulheres".

Ele logo faria aniversário e não tinha a minima ideia do que comprar a ele.

Bom, ele gostava de doces.

Era a unica coisa que sabia.

Estavamos na cozinha, aqueles olhos castanhos estavam vasculhando as prateleiras em cima da pia, procurando alguma coisa, ao qual ele não queria perguntar e achar por si mesmo. Ele não gosta de ser um incomodo. Pensava comigo mesmo, sorrindo, enquanto apoiava o queixo na palma da mão.

- Hm... — Ele resmungava, olhando por sobre o ombro.

Suas roupas hoje eram uma camisa branca, com pequenos detalhes em azul-marinho ou será que era verde-escuro? Não sabia dizer, era uma dessas duas cores. Estava com um jeans preto, parecendo desgastado nos joelhos, por ser mais claro, e na bunda. Suas meias eram brancas, já que estava usando uma pantufa. Uma pantufa que havia comprado para ele, já que ele adorava usar a de Jô. Seus tenis, na entrada, era um branco com marrom. Não era tão bonito, mas combinava com a roupa.

- As tigelas? — Ele perguntava, me fazendo sacudir a cabeça e parar de olhar para suas vestes. — Onde estão? — Ele perguntava um tanto impaciente.

Praticamente me jogava em cima da bancada e apontava para umas pequenas portas, quase escondidas, na parte baixa da bancada.

- Ali estão as tigelas japonesas, chinesas e coreanas.

- Brasileiras?

- Prefiro essas. E elas mantem a comida aquecida por mais tempo. Ou o gelado por mais tempo. — Dava de ombros, voltando a posição anterior.

Ele me olhava, talvez se perguntando se eu tinha algum toque por coisas importadas e querendo me defender, jogava as mãos para o alto e respondia, um tanto evergonhado.

- Fora Josiele que comprou para mim, já que eu me dava bem apenas com um prato raso e um fundo, umas duas panelas e minha xícara.

O via ficar surpreso antes de se abaixar e pegar duas tigelas, deixando-as sobre a bancada.

- Gosta de brigadeiro caseiro?

Assentia para ele, tentando não sorrir.

- Prefiro logo que sai da panela, para colocar em tigelas e o comer quente. É muito melhor do que o esperar esfriar e fazer aquelas bolinhas. — Ele dizia, corando rapidamente. — Não sei se esta bom.

- Vai estar. — Dizia, sorrindo de forma encorajador.

A tigela branca, ele me servia, pegando uma colher da gaveta da pia e colocava ambos na minha frente. E a tigela com gatinhos pretos, a minha tigela preferida, por assim dizer, ele servia para si mesmo.

Mas, sem me importar, começava a comer e me sentia o maior inutil na cozinha por meu brigadeiro caseiro nunca ficar tão bom. Quando me dava conta, já havia terminado a primeira tigela e a segunda, estando na terceira. Ele ria e comentava sobre como havia gostado do brigadeiro caseiro, pensando que eu nunca havia comido algum.

Não estava mais do que enganado.

Quando a panela esfriava, ele a deixava em cima da bancada onde ambos enfiavam as colheres e raspava a panela. A companhia dele era agradavel, embora quem mais falasse fosse eu do que ele. E cá entre nós, eu não sou tão fã de comer na panela, mas aquilo ali estava tão bom que não o deixaria comer o restante sozinho.

Quando nossas colheres se batiam em uma pequena disputa, nossos olhares se encontravam e eu não sabia dizer porque meu coração havia começado a bater forte, como uma sinfonia, querendo me chamar a atenção para algo. E o tempo... O tempo parecia se arrastar, querendo que eu guardasse cada pedacinho daquele rosto jovial.

Me erguia do outro lado da bancada, pegando a panela e a colocando na pia.

Estava tremendo dos pés da cabeça.

Não de medo e nem algo do gênero... Estava nervoso, nervoso por causa do olhar dele.

E da sensação de que aquele olhar me causava.

As promessas não ditas.

Aqueles olhos castanhos escuros pareciam querer me descobrir a alma, o mundo. E eles prometiam tanta coisa... Tanta coisa que me faria ceder... Apenas que... Não conseguia dar o passo seguinte, o olhar e dizer "esta tudo bem" era o máximo que conseguia fazer.

Começava a lavar a louça que havia sujado, o tremor passando devagar, mas passando.

Sentia o olhar dele sobre minhas costas e o clima havia ficado pesado, mas o que eu poderia fazer? Poderia simplesmente jogar todos meus problemas no colo dele e de sua irmã? Não, não faria isso.

Eles estavam sendo tão bons e não mereciam tanto problemas assim, quando já tinha um moleque problemático indo a casa deles.

Ninguém poderia me salvar.

Apenas se me dessem uma vida nova. Um nome diferente. Uma aparência diferente. E isso, nem ele e seu dinheiro todo poderiam fazer.

Saia do acento da bancada, bagunçava os cabelos e anunciava que ia tomar um banho e qualquer coisa ele poderia ir no meu quarto e avisar ou pedir. Ou simplesmente ir lá e anunciar que já estava saindo.

Observava ele assentir e quando ia sair da cozinha, o ouvia se virar de forma agitada e dizer um baixo "espere". E assim, o esperava.

- Qual é o seu nome? — Ele perguntava.

Olhava longamente para ele, vendo-o que estava olhando ao redor como se procurasse por alguma coisa, as mãos já estavam com sabão e um pequeno sorriso brincava nos lábios juvenis.

- Jhon... — Havia dito Jhonny, embora tivesse a certeza que ele apenas conseguiu ouvir o Jhon e o via sorrir, de um jeito meigo e de um modo que nunca havia visto antes.

- Eu sou o Nathan. — Dava de ombros. — O nome é Nathan, mas gosto de Nathaniel. — Ele sorria, dando de ombros novamente. — É mais completo.

Sorria para ele, tendo a certeza de que era o sorriso mais verdadeiro que havia dado em toda a minha vida.

- É um prazer, Nathan que acha Nathaniel mais completo.

E ao o ver sorrir largamente, girava sobre os calcanhares e o deixava cuidando da louça, já que ele havia sujado.

Havia umas regras anotadas na geladeira, onde Jô e N havia se sentado e discutido sobre isso, já que eu havia me retirado daquele cargo.

Uma delas era: Quem sujar, lava.

Subia os degraus de dois em dois como normalmente fazia, algo parecia se mover em meu estomâgo, dando piruetas e quais quer outras acobracias. Estava inquieto e com um calor a me queimar o rosto e a unica certeza que tinha era que estava corado.

Quando fora a ultima vez que havia ficado corado por qualquer motivo que seja?

Começava a tirar a camisa do corredor, que ia para os quartos, onde um era Josiele e o outro era do tão conhecido N, mas ele nunca o havia usado para dormir. Olhava para a porta do quarto de Nathan, estava fechada, mas não trancada. E nem precisava testar o trinque para saber.

- Ele nunca o tranca. — Dizia Josiele, dando de ombros enquanto segurava o cigarro entre os dedos. — É como se ele tentasse confiar na gente, mas desconfiando. — Ela movia os ombros em um movimento gracioso, fazendo meus pensamentos vagarem para Madie. — Ele me lembra aqueles gatos, gordos e bonitos, de rua.

Sorria ao terminar de tirar a camisa, pensando que de gato gordo e desconfiado, ele apenas tinha o desconfiado mesmo. Pois ele era magro, mas não tanto.

Os ombros eram largos e estritamente masculinos, a altura era equivalente para sua idade, embora fosse considerado um garoto baixo comparado aos outros. As pernas eram compridas e pareciam não ser dois gravetinhos como os dos garotos de hoje em dia. O corpo dele parecia em forma, com quadris, coxas e nadegas avantajado. Também havia pequenos musculos no torax a marcar as camisetas, embora discretamente. E o rosto o deixava completo, com um ar de inocência e timidez, com um que de feminismo, com aqueles lábios um tanto grandes, cilios compridos a lhe sombrear o rosto, um nariz pontiagudo e olhos castanhos... Aquele castanho as vezes parecia o mais puro mel.

Sim, de fato, ele havia emagrecido um tanto, mas isso não o deixava menos encorpado do que era. Apenas deixava as roupas mais largas, os jeans, que antes pendiam pelos quadris, agora era um tanto largos, mas ainda pendiam da parte traseira.

Jogava a camisa sobre a cama, pouco ligando se o cesto de roupa suja estava mais perto. Jogava os chinelos pretos para algum canto do quarto e deixava a bermuda cair para o chão e se amontoar em preto e branco.

Caminhava para a porta do banheiro e entrava no mesmo, estava ficando com sono e o banho não iria ser demorado como costumava ser. Era apenas para... Para tirar um pouco daquele calor. Pegava uma toalha do armário do banheiro e entrava para o box, tomando o cuidado de deixar a toalha sobre o armario. A maioria das pessoas tomavam banho usando chinelos, mas como havia escorregado uma vez e batido a cabeça nas portas do box, havia desistido de chinelos no banheiro. Não queria cair de novo. Não mesmo.

Mal havia me dado conta de quando havia ensaboado o corpo, lavando o cabelo e todo o resto, apenas havia se dado conta quando enrolava a toalha na cintura e saia do banheiro. Os cabelos pingavam e pouco me importava.

Ah... Era verdade, mal havia dormido naquela noite, pois havia ficado lendo um papeis sobre herença de família, que Madie havia me mandado, como se me importasse.

Alguém deveria me lembrar de matá-la.

Terminava de limpar a cozinha e ia para a sala de jogos, no segundo andar, onde sentava sobre o sofa favorito de Jhonny... Sim, sempre soubera o nome dele por causa de sua irmã e desconfiava de que ele não sabia o meu... E por tais motivos, havia perguntado a ele. Era o mais descente a se fazer. Jogava os pés sobre o braço do sofá, tomando o cuidado para não sujá-lo de novo, pois Josiele havia dito que ele enlouqueceria.

Se bem que, quando havia sujado, Jhonny não dera nem um pouco de bola e apenas havia dito um "esta tudo bem", fazendo Josiele ficar boqueiaberta.

Sorria de leve, puxando os cadernos da mochila e o estojo. Sempre estudava ali antes das provas e sempre fazia os deveres de casa ali, naquele sofá. Jhonny disse que poderia ficar ali o tempo que quisesse, que não se importava, que iria tomar apenas um banho e qualquer coisa poderia ir lá avisa-lo ou pedir-lhe.

Sorria de forma marota, corando no segundo seguinte.

Minhas notas na escola haviam aumentado, com mais tempo para estudar e menos para se estressar, de fato haveria de aumentar. Havia tirado a maior nota da turma na prova de fisica e de quimica. E agora teria uma prova de português, duas de artes, uma de matemática e outra de geografia. Eram as provas iniciais do trimestre e depois teriam as finais.

Na verdade, quando as pessoas se ocupavam a pensar "será que irei bem?" ou o simples "terei tempo de estudar?" ou ficava se corroendo de ansiosidade e pensando que iria se sair mal, o que na maioria das vezes acontecia, apenas esperava os dias pacientemente e daria o melhor de mim nas matérias. Claro que, na maioria das vezes, tinha uma certa preguiça de pensar e responder as perguntas ou fazer as equações ou de simplesmente assinalar o correto.

Quando me dava conta, já havia passado das 19:30 e já começava a ficar escuro e para a minha surpresa, Jhonny não havia saido do quarto...

Será que ele estava bem?

Jogava os cadernos e o lápis em cima do sofá e ia para o quarto de Jhonny, ficando um tempo parado na entrada do corredor e olhando para a porta do quarto de Jhonny. Era como se a porta esticasse uma mão e tentasse me seduzir a ir até lá.

Havia estado em quase todos os comodos da casa, até mesmo no quintal... Menos no quarto de Jhonny.

Josiele havia dito que era espaçoso demais para acomodar ele e seu tremendo orgullho. Não achava que Jhon era orgulhoso, acima disso. Jhon era o tipo de pessoa que gostava de ajudar e que não gostava de se ver contrariado quando estava certo. Quando coloquei essas questões em voz alta, Josiele havia balançado a cabeça e dito algo como "você não o conhece tanto assim. Jhonny é sempre bom quando pode e nas horas vagas, é orgulhoso". Não que achasse a irmã dele uma mentirosa que não sabia medir o carater de ninguém... Apenas que não via ele daquele modo.

Suspirava e caminhava em direção a porta de Jhonny. Bom, ele havia dito que poderia ir ali e lhe tirar a sua paz para qualquer coisa. E como iria embora, achava por certo avisa-lo...

Mas bem que poderia deixar um bilhete na bacada, mas achava que ele merecia mais do que um simples bilhete na bancada. Franzia a testa e me distribuia uns tapas mentalmente, não esquecendo os xingamentos de "idiota, você não é uma namorada".

Abria a porta lentamente, estranhando a escuridão no quarto.

Que dia da semana era aquele mesmo? Ah, terça-feira.

Proncurava o interruptor da luz e acendia, vendo Jhonny se remexer na cama como uma criança e corava uns vinte tons de vermelho ao ver a cena na minha frente. A bermuda de Jhonny estava no chão, perto da porta, a camisa que havia usado estava caindo da cama e a toalha deveria ter estado enrolada sobre a cintura de Jhonny, mas agora estava presa entre as coxas de Jhonny, deixando a mostra os cabelos na parte das coxas... Mas acima de tudo isso, estava a bunda de Jhonny, de fora, mais pálida que as coxas e as costas, mas mesmo assim saliente.

Respirava fundo uma vez, duas vezes e na terceira vez, já estava me abaixando e pegando a bermuda de Jhonny e a jogando no cesto de roupa. E caminhando na ponta dos pés, pegava a camisa sobre a cama e também a deixava dentro do cesto de roupa.

Respirava novamente, fechando os olhos e os tornando a abrir novamente. Sempre soubera que a bunda de Jhonny era grande, deixando uma grande elevação na parte traseira e até mesmo na parte dianteira. Mas vê-la, assim, fazia com que me excitasse de um modo que nenhuma pessoa havia feito. Sentia minha ereção se espremer contra minha calça e dar um leve desconforto.

Os cabelos de Jhonny estavam uma bagunça e ainda se mostrava um tanto umido do chuveiro, mas o que mais me deixava intrigado era a coberta...

Como um homem daquele tamanho, de carreira pronta, tinha um cobertor preto e branco, com estampa de caveiras?

A vontade que tinha era de jogar tudo pelo alto e gritar: Se comporte como um homem, criatura!

Levava uma das mãos a boca e ria arduamente sobre a cena que havia me passado na mente e o ouvia resmungar. Dava de ombros e pegava a coberta de estampa um tanto infanfil e jogava sobre as pernas de Jhonny, tapando-lhe parte das nádegas de fora, tomando o cuidado de não acordá-lo.

Os ombros dele eram largos, mais largos do que havia visto nos homens da minha rua e os pais de alguns colegas. A pele não era tão escura como havia pensado ser, apenas estava queimado de sol e havia algumas cicatrizes nos ombros, dando-lhe um ar selvagem. Não eram cicatrizes que o deformassem, era apenas uns pequenos cortes que com o tempo sumiria... As omoplatas estavam saltadas devido o modo como dormia em cima dos braços, em uma posição nada agradavel para o corpo. Ele iria acordar todo dolorido e sobre isso, nada poderia fazer. As costas eram igualmente largas e compridas, sendo musculosas na medida certa, sem ser exagerada.

Josiele dizia que o tentara fazer entrar em uma academia, mas que Marcia havia dito que ele não precisava.

E sinceramente, não precisava mesmo.

Na descida da coluna, onde se via a cintura e as nadegas de fora, observava que Jhonny tinha mais algunas marcas perto da cintura e da espinha, mas essas eram maiores e tinha a impressão de que nunca iriam sumir.

Era como a marca que tinha abaixo da boca.

Como a facada que havia levado do meu pai.

Ele fora esfaqueado, diversas vezes.

Quantas cicatriz daquelas e tantas outras, ele deveria ter?

Sentia vontade de chorar, apenas uma vontade desconhecida e sem motivo, e sem esperar por qualquer coisa, tomava o cuidado na hora de puxar a toalha por entre as coxas de Jhonny e a jogava no cesto, sorrindo quando ele virava o rosto para o outro lado e se ajeitava na cama. Ele até parecia uma criança dormindo.

Olhava para a mão de Jhonny e não via a marca de nenhum anel ou aliança que fora recentemente tirado. Apenas dedos compridos e fortes, brancos mas bronzeados ao mesmo tempo.

Ele deve ser tão branco quanto eu. Pensava com um sorriso no rosto enquanto saia do quarto, do mesmo modo silencioso como havia entrado..

O despertador me fazia voar da cama, soltando um urro de dor de cabeça. Tinha a plena noção de que havia dormido demais, embora não soubesse por quanto tempo.

Quando havia ido dormir? Não tinha a minima ideia, apenas que...

Apenas o nada.

Saia da cama e calçava os chinelos, se dando conta de que alguém havia entrado no quarto e tirado as roupas do chão... E a toalha também estava no cesto. Quanto mais pensava, mais a cabeça doía. E mais se sentia intrigado.

Somente perto da porta do quarto é que se dava conta de que estava sem roupa, onde praquejava baixo e ia se vestir, colocando um pijama cinza, sem a parte da camiseta. Iria ficar em casa, pois não havia nenhuma consulta na parte da manhã, o que deveria ser uma bença.

Se vestia da forma mais arrastada possível, saia do quarto e quando ia passar pela sala de jogos, mas acabava por se jogar ali, levando uma daquelas almofadas sobre o rosto. Praquejava baixinho ao som dos saltos de Josiele... Porém, havia mais de um som de salto.

- Marcia — Gritava do segundo andar, a voz sendo abafada pela almofada, mas tendo a certeza de ter sido escutado.

- Desculpe Jhonny, não é a Marcia.

Aquela voz me fazia sentar sobre o sofá e jogar a almofada para a poltrona ali perto, a dor de cabeça aumentando uns vinte niveis de potencia, onde conseguia visulizar na minha mente um cronometro anunciando estar quase explodindo.

- Madie.

Olhava para a mulher a minha frente, os cabelos louros escuros estavam curtos, mas não tanto, as pontas tocavam-lhe os ombros e os lábios carnudos estavam abertos em um sorriso frio, de antipatia. Os olhos azuis não eram menos frios que o sorriso. Estava vestida dos pés a cabeça em preto e branco, me lembrando de um tabuleiro de xadrez, onde ela representaria uma rainha. A blusa era branca com vários fios pendurados na cor preta e a saia era preta, com um cinto grande a lhe marcar a cintura, de branco. Usava uma tiara preta para realçar os cabelos louros e a pele pálida, mas era impossível disfarçar a frieza.

- Jhonny.

Aquela era a primeira vez que ela tirava seus delicados pés da própria casa para pisar na minha e pensando nisso, meu estomâgo embrulhava com a ideia do que poderia vir esta visita.

Um silêncio incômodo se fazia presente, causando então uma enorme dor de cabeça que me fazia levar uma mão em frente aos olhos, como se aquele movimento fosse amenizar a dor.

- Você esta pálido. — Ela cantarolava. — Deve comer algo, benzinho.

Comida era algo que não caíria bem naquele momento, com Madie ali. Somente de olhar para aquele rosto fazia algo se agitar dentro de mim.

- Cadê a Josiele?

- Lá em baixo.

- Quem te deixou entrar?

- Não preciso de convite, deveria saber disso. — Ela sorria, de uma forma mais fria ainda, como se congelasse minha alma.

Na verdade, ela precisaria de um convite para entrar na minha casa. Poderia muito bem ligar para a policia e dizer que uma louca havia invadido minha casa e que mesmo que ela alegasse ser minha mãe, diria que não reconhecia como o tal e que não a queria na minha casa. Porém o problema é que a dor de cabeça estava me consumindo por inteiro, tirando então meu juízo.

- Preciso que assine aqueles papeis, Jhonny. — Ela dizia, pouco se importando com o meu mal-estar. — E preciso que vá na maldita festa, Jhonny.

Quando olhava para a mulher que havia me colocado no mundo, ficava grato por conseguir ver o que todo mundo se negava a ver. Aquela expressão arrogante e autoritária. Aquela feiura que nenhuma maquiagem daria um jeito. E ficava mais grato ainda por ter saído a mistura de meus bisavôs paternos, não puxando nada de Joseph ou de Marta.

- Marta, por favor, eu não quero a merda do teu dinheiro.

- Jhonny — Ela rosnava. — esta se esquecendo que é Madie, meu nome.

Dava de ombros, saia do sofá e passava por ela, querendo que a dor de cabeça estourasse meu cérebro ali mesmo.

- Você ao menos leu?

Ela perguntava, ainda parada lá em cima enquanto já estava na parte de baixa.

Via Nathan, sentado na bancada e bebericando um achocolatado. Os olhos castanhos estavam espertos, olhando de Josiele para a cozinha, enquanto minha irmã movia as mãos de forma nervosa.

- Estava apostando com Nathan se vocês iam sair na gritaria antes de descer. — Josiele interrompia o silêncio, com um sorriso gentil pontuando a frase.

- Quem ganhou?

- N.

Colocava a mão sobre o ombro dele e o notava se encolher, mas não me importava e sorria de forma a dizer "estar tudo bem", mas tudo o que conseguia dizer era:

- Continue assim e ficará rico.

Ouvia o irritante tic-tac do relógio e o ploc-ploc dos saltos de Madie, que até mesmo esse som era mil vezes mais irritante que o ploc-ploc dos saltos de Josiele ou de qualquer outra mulher.

- Jhonny, você ao menos leu a merda do documento?

Apoiava os cotovelos sobre a bancada e sorria de uma forma tão fria que Nathan e Josiele me olhavam surpresos e quando me pronunciava, Nathan se encolhia e Josiele apenas sussurrava um "pega leve, Jhonny".

- Sabe Marta — Começava, pouco me importando se seria mal educado — a casa é minha e eu adoraria que você maneirasse essa sua língua de víbora. E não, eu não li aquela merda de documento. E sinceramente, não estou nem afim de ler. Já lhe disse para fazer o que bem entedesse com a minha parte do dinheiro. — E quando ela começava a dizer sobre como eu era uma criança insensata, a cortava e respondia entre dentes. — Marta, se eu fosse você, maneirava essa língua antes que eu a corte fora. Minha cabeça esta estourando e tudo o que quero ouvir é apenas o seu silêncio. Se era apenas isso que queria — indicava a porta da cozinha que estava aberta, dando uma visão da porta que iria para a rua. — já pode ir embora.

E olhando para Josiele, que seria o próximo alvo do meu mau-humor, dizia apenas.

- E da próxima vez que a convidar para vir a minha casa, Jô. Ou qualquer outra pessoa da minha antiga vida, me desculpe, mas serei obrigado a me ver brigando contigo sobre isso. — Olhava para Nathan, tomando conhecindo de sua total atenção. — Esse garoto não merece ficar ouvindo essas briguinhas sobre dinheiro, festa e qualquer outra coisa que as duas querem me arrastar. De vocês, apenas quero distância. E creio que esse garoto também.

- Jhonny...

- Josiele, já chega. — Madie intervinha pela filha, ambas muito parecidas em questão de rosto, mas Josiele tinha a pele mais escura e os cabelos muito mais claro, por ter clareado. — Jhonny, eu o espero na festa mês que vem. — E lançando um olhar para o garoto, ela dizia. — Pode levar o seu bichinho de estimação também, não me importo. Desde que comparaça.

E virava as costas, pegava a bolsa sobre um acento da bancada e saia.

Nathan já havia se erguido e a segura pela pulso, os olhos faiscando em expectativa.

- Não sou um bichinho, Madame. — Ele dizia e a soltava. — Sempre pensei que pessoas de classe mais alta tinham um tanto de educação, mas parece que Jhonny é o unico que foge desse padrão, não é mesmo? — E sorrindo, ele voltava a se sentar.

Seria mentira dizer que não havia ficado surpreso com a atitude do garoto. Mas não era apenas eu, Josiele e Madie estavam tão surpresas quanto eu. Nosso olhar caía sobre o mais novo e ele apenas se focava na xícara de achocolatado.

- Gosto dele.

Madie anunciava antes de sair, me fazendo franzir a testar e rosnar.

- Mãe, eu vou com você.

Josiele saia correndo e murmurava um "desculpe" ao passar por mim, o que ignorava.

O silêncio de fazia presente, o que agradecia como um prêmio depois de ter praticamente estourado nas duas mulheres. A culpa não era de Josiele, não toda. Era Madie que conseguia me irritar em apenas alguns segundos...

Deixava a cabeça pender para a bacada, enquanto os joelhos ficavam mais fracos e pareciam querer ceder para o chão. Movia a cabeça de um lado para o outro e murmurava "Deus", pouco me importando se Nathan estava vendo aquele tipo de cena ou não.

- Você vai trabalhar?

Puxava um dos acentos para o lado de dentro da bancada e me sentava, deitando o lado direito do rosto sobre o braço, de modo que pudesse olhar o garoto.

- A tarde. — Respondia, fechando os olhos enquanto aquela pequena frase ecoava em todos os comôdos de minha mente, fazendo a dor de cabeça aumentar.

- Não vou a escola hoje... — Ele dizia e ao reparar que tinha minha total atenção, continuava. — Você precisa de alguém aqui ou essa dor de cabeça vai te matar.

Movia os lábios em "você sabia" e o observava assentir e rir de forma constrangída.

- Eu tenho as vezes, sabe? — Ele dava de ombros. — Você pode se deitar lá em cima, sabe? Eu te levo um remédio que tenho na mochila e uns panos umidos para colocar na sua testa.

Praticamente me arrastava do acento da bancada e fazia questão de subir as escadas, mas ao reparar de como estava tonto e enjoado, acabava por me jogar na em uma poltrona da sala de visita, levando uma mão sobre os olhos enquanto tentava amenizar a bagunça de pensamentos aqui dentro.

Não quer ver anúncios?

Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.

Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!

A unica coisa que tinha a certeza era de que tudo estava ficando calmo e um sono vinha com força total, me arrastando para um lugar sem barulhos.

Acordava com Nathan ajoelhado ao meu lado, a franja estava presa em um rabixo preso atrás, os olhos castanhos estavam grandes e preocupados. A boca entreaberta em uma expressão de alivio.

- Você acordou... — Cantarolava baixo. — Você acordou.

Assentia para ele, me dando conta de que a dor de cabeça havia diminuído.

- Tomei algo?

Ele negava.

- Não mesmo. Quando vim te dar o remédio, você já estava dormindo. — Ele olhava para um papel em sua mão. — E uma Marcia ligou, do seu trabalho, perguntou se você não iria ir.

Me sentava rapidamente.

- Calma ai! — E me empurrando de volta para a poltrona-inclinavel, ele sorria e tirava as mãos de mim. — Disse a ela que você não estava nada bem e que não iria ir hoje. — E mordendo o lábio, ele perguntava. — Fiz mal?

- Não. — Sorria. — Não mesmo.

Fechava os olhos e apreciava o baixo som que se fazia presente, me dando conta de que era Wando, um cantor brasileiro que não ouvia fazia anos. Não era da minha casa, por não ter nenhum CD do cantor, talvez fosse de algum vizinho.

Na verdade, fazia anos que não ouvia alguma musica brasileira, já que as rádios raramente colocavam. Musica de verdade, do tipo de ser aquelas musicas boas. Como Roupa Nova, 14 bis, Raça Negra.

Abria os olhos e olhava para Nathan, que havia se escorado contra a poltrona e ficava a olhar as unhas que havia cortado recentemente. Os cilios lhe sombreavam o rosto e o deixavam misterioso. Demorou uns cinco minutos para ele notar estar sendo observado e apenas sorria, desviava o olhar uma vez, voltava o olhar para o meu e ria de forma nervosa, desviando novamente.

- Não consigo parar de pensar em você. — Ele dizia, me fazendo olha-lo na mesma hora. — Eu não... — Sacudia a cabeça, como se quisesse clarear a mente. — Até mesmo quando não estou pensando em você, estou pensando em você. — Ele sorria, de canto, de leve. De uma forma sensual.

Nathan havia se desencostado da poltrona, as mãos estavam apoiadas nos joelhos e o olhar baixo, mordendo o lábio inferior em um tique-nervoso que ele sempre tinha.

- Não sei o que pensar. — Dizia, desviando o olhar do rosto dele e suspirando baixo. — Não sei mesmo.

Na verdade, sabia o que pensar, já que milhões de pensamentos estavam correndo a solta pela minha mente, apenas não sabia organizar uma frase concreta para dizer a ele.

Sentia o olhar dele sobre meu rosto, mas fazia uma força danada para não olhá-lo e vê-lo se encolher de novo. Não deveria fazer isso com o garoto.

A lateral da poltrona afundava, chamando minha atenção para isso e quando olhava para Nathan, seus lábios eram encostados sobre os meus, o que me fazia ofegar devido a quentura que aqueles lábios causaram contra os meus. Minhas mãos começaram a suar ou talvez fosse a minha mente imaginando coisas. Não sabia dizer, apenas sabia que aqueles lábios contra os meus... Era a melhor sensação do mundo.

Minhas palpebras iam se fechando, como se o sono estivesse voltando e tudo o que conseguia imaginar ou pensar era em como aqueles lábios eram macios. E de como o encontro das duas bocas se encaixavam tão bem.

Nunca havia tido gosto por beijos, sempre havia achado que fosse desnecessário ou algo que as pessoas sempre colocavam no topo da lista, obvio que depois do sexo, como um dos prazeres indispensáveis. Josiele havia dito uma vez, algo como "se você beijasse muito, saberia o quanto é bom". Mas a verdade era que nunca havia encontrado alguém que quisesse beijar.

Até aquele momento.

Até aquele momento em que havia levado as mãos para os cabelos de Nathan e quase o puxado para cima de mim.

Até aquele momento em que Nathan me fazia ser dele, apenas por um beijo.

Até aquele momento que um garoto me mostrava que não haveria outra pessoa que gostaria de beijar... Apenas ele.

A língua de Nathan se roçava contra a minha, com alguma promessa de algo a mais estampado. Havia explorado os recondidos daquela boca, provado de cada canto em apenas alguns segundos. E ainda queria mais e não queria deixa-lo livre. Queria continuar com aquela dança exótica de línguas, provar mais dos gosto daqueles lábios.

Haviamos nos separados duas vezes, na primeira vez quem o havia puxado era eu e na segunda fora ele e agora, estavamos sentados no chão, que em algum momento havia caído da poltrona, Nathan estava escorado contra a lateral do meu corpo e o rosto afundado entre a curva do meu ombro com o pescoço.

Estava tão ofegante quanto eu e talvez até sem palavras o tanto quanto eu.

Só que um pensamento incomodo se fazia presente, dançando, cantando, erguendo uma placa, se insinuando para ser notado. E quando enfim era, o odiava.

Talvez aquele garoto tivesse tomado tal atitudes por se sentir sozinho. Por não ter ninguém para lhe estender a mão. Franzia a testa e tentava, a todo custo, evitar o pensamento de praticamente ter o forçado a estes sentimentos.

Deixava a mão que estava no cabelo de Nathan pender para a lateral do corpo, que era rapidamente notado pelo garoto, onde ele se sentava ereto e me olhava de uma forma duvidosa.

- Nunca havia feito isso antes... — Ele começava. E sabendo que ainda teria mais, apenas assentia. — Não com uma pessoa do mesmo sexo.

Franzia a testa.

Era diferente do que havia pensando.

- Eu... — Suspirava. — Algumas mulheres da minha escola me tocavam, se insinuavam e me beijavam. — Agora que tinha minha total atenção, ele recuava. — E eu nunca me senti assim.

- Assim?

- Meu corpo inteiro esta tremendo, meu coração parece que vai sair do peito e...

E sem esperar por algo mais lógico, o puxava pela nuca e o beijava. Ria contra os lábios dele e o ouvia rir junto. Era uma mistura de sons exóticos, ao qual nunca havia experimentado. E ao qual nunca iria me cansar.

Por que continuaria negando que não queria o garoto, quando era extramente o contrário? Queria o garoto e pronto! Não haveria banho gelado que desse conta. Ou não haveria dor de cabeça que me faria parar de pensar nele... Apenas o queria e pronto. E aquilo estava bom.

Ele cortava os diversos pequenos beijos, me puxando pela camisa e sussurrando.

- Posso ficar esta noite?

Assentia, o puxando para perto novamente, mas a atenção estava voltada para a parte de trás da orelha direita dele, onde deixava pequenos beijos ali e algumas mordidas. Esfregava o nariz contra os cabelos castanhos que havia logo ali perto, sentindo o cheiro de shampoo misturado com o cheiro dele.

- Jhonny... — Gemia.

Então me lembrava de que ele tinha uma família que o esperava.

- E seus pais?

Notava que ele havia ficado tenso, novamente.

- Quer me contar alguma coisa, Nathan? — Perguntava, sem deixar de tocá-lo, beijá-lo ou mordiscá-lo. — Prometo não gritar, nem criticar e nem nada.

O ouvia rir e sentia ser puxado para cima, resmungando baixinho quando o via sentar no sofá do outro lado e era chamado por ele para ir até lá e assim o fazia, tomando cuidado de tentar manter as mãos longe dele, ou não iria me controlar como pretendia.

- Meus pais não são as melhores pessoas que conheço... — Ele pausava. — Estão em um patamar diferente.

E depois disso, vinha uma longa lista de coisas horríveis que seus pais haviam feito, contando tudo que havia evitado até agora. Alegando que nunca havia dito nada para qualquer outra pessoa. Ele havia chorado, parado de falar por longos momentos em que pensei que ele simplesmente fosse parar ali, mas então voltava a falar, contando as coisas sórdidas que seus pais haviam feito e que faziam ainda.

Seu pai era um bebâdo e que nas horas vagas batia em tudo que tinha vida. Me contou como o pai havia matado seu gatinho, pisando diversas vezes sobre a cabeça do animal. E de como havia ganhado a cicatriz na boca e os machucados naquele dia. Dizia que os motivos para tal coisa lhe fugiam da ideia e de que não sabia se existia alguma bondade naquele homem.

Me contou sobre como sua mãe era fria, arrogante e desleixada. De como havia desejado que o filho morresse, o unico filho, alegando ser o que havia estragado a vida dela. Havia me dito que seus pais o matriculavam sempre nas piores escolas, onde prostitutas davam aula, onde criminosos eram feitos e onde tudo o que havia de ruim estava lá.

E mesmo assim, o garoto havia se mantido em uma linha de decência.

Em algum momento, havia puxado Nathan para mais perto, o abraçado e o confortado enquanto dizia as coisas.

Também havia contado como sua mãe esfaquiará a própria barriga quando se descobriu grávida novamente. E de como tinha medo de voltar tarde para a casa, mas de como tinha mais medo de simplesmente voltar para lá.

O que mais havia me surpreendido nos relatos daquele garoto fora o fato de não haver ódio, apenas perdão e magoa. Eram os unicos sentimentos que ele parecia ter para com a família.

Havia contado dos abusos que havia sofrido na escola e dos amigos que sempre quisera ter e nunca puderá. Havia me contado sobre o desejo de se matar no dia que o conheci, mas de como as cores da casa o haviam chamado a atenção. E de como aquela queda havia lhe feito ver que sempre iria existir alguém que estava ao ponto de se jogar em cima de outras pessoas e as ajudarem acima do possível.

Sorria internamente, escondendo a ponta do nariz nos cabelos dele.

Depois de algum tempo ele havia dormido no sofá, as pernas jogadas sobre as minhas, que estavam fora do sofá. As mãos em volta de minha cintura e os lábios entreabertos em uma respiração suave. A franja caia sobre os olhos, dando-lhe um ar inocente, mais do que geralmente tinha.

Aquele garoto havia sofrido coisas que nunca havia imagido sofrer, embora que meu passado não fosse dos melhores. Mas o dele era algo que...

Sorria abertamente, deixando um leve beijo sobre os cabelos castanhos.

Iria salvá-lo.

Iria tirá-lo daquele lugar o deixar debaixo de minha asa. Iria cuidar dele e lhe mostrar um mundo novo.

Ou não seria Jhonny.

Marcia iria adorá-lo.

Como Josiele o adorava.

E como o estava adorando... E talvez mais.

Um sentimento de querer proteger, cuidar, de o ter por perto e saber que iria estar bem no outro dia.

E no outro dia, ele simplesmente iria ficar. Faria tudo que fosse possível e o impossível para ter a certeza de que ele tivesse um futuro e de que teria tudo o que quisesse. Iria lhe dar o mundo, embora ele somente fosse descobrir depois de alguns dias.

Estava naquela cidade novamente, onde todo mundo me conhecia e fingia saber o que ia na minha alma e até mesmo nos meus pensamentos. Estava naquela cidade ao qual havia fugido. Estava naquela vida ao qual havia fugido e parado nos braços de Marcia, onde havia seguido minha carreira.

Ninguém poderia fazer ideia de como havia me desacostumado com os olhares, com as bebidas caras dentro da limosine. com o cheiro de riqueza e luxo.

Havia me desacostumado com aquele local, mesmo dentro do carro.

Havia me desacostumado a fazer parte da 'realeza' daquela cidade.

Simplesmente, havia ido embora. Como se tivesse morrido e nascido em outra vida, com outras pessoas e a felicidade a alguns centimentros dos meus dedos... Mas havia o passado, o passado de uma alma que jamais poderia ser esquecido.

E a dor de cabeça, outra coisa que não poderia ser esquecida.

É estranho pensar que tudo que tinha a ver com Madie, Joseph e Charles e até mesmo a Josiele, longe da cidade onde eu morava, poderia me causar um enjoo tão arrebatador, uma dor de cabeça assassina. Em vez de ir para uma festa de gala, vestido com uma bermuda de surfe azul-bebê com detalhes laranjas, vermelhos e preto e uma camiseta comum, branca.

Nathan havia sido 'sequestrado' pela Josiele que morava na mesma cidade que eu. Mas não conseguia imaginar se ela, ao se ver nesse meio, seria a garota mimada que tanto temia. E algo me dizia que seria.

Quase dois meses haviam se passado desde aquele dia com Nathan, meus planos estavam indo conforme o planejado.

- Quem é você? — Perguntava um homem gordo, baixo, de aparência grotesca, me lembrando um pirata velho e sem sentido, no fundo de uma taberna.

- Meu nome não importa... — Aquela voz não parecia ser a do homem naquela cidade que havia conquistado, mas o do garoto irritadiço, que havia deixado a outra cidade. — Apenas que, se Nathan vier a se casar comigo — Fingia não ter notado a expressão de surpresa do homem e da mulher, que aparecia por agora. — desejo que assinem a permissão.

- Não pretendo!

- Não perguntei se pretende ou não, apenas deixei claro algo ao qual eu, Jhonny, desejo. E desejo casar-me com o garoto e dar a ele uma vida ao qual vocês, pais, fazem de tudo para não deixar tê-lo!

Ambos me olhavam surpresos, a mulher franzia os lábios, torcendo as mãos no avental amarelo que usava. Os cabelos haviam sido pretos, embora agora fosse facilmente notado muitos grisalhos. A expressão vazia no rosto da mulher me fazia duvidar do que Nathan havia dito por um momento, mas a rudeza que parecia ter na postura daquela mulher me fazia confiar no garoto.

- Nathan sabe? — Era a mulher que perguntava. — Ele esta bem?

Movia a cabeça um sim, desconfiando da pergunta e me matendo em guarda. A mulher parecia o tipo de criatura ao qual havia ido em meu consultório certa vez. Os olhos eram vagos, mas havia algo de intimidador em suas atitudes.

E devo me recordar de que, naquela dia, a criatura tentará me matar com uma caneta!

Não pretendia dizer meus planos aqueles dois, mas pagaria o preço por aquilo, mesmo que Nathan viesse a me odiar quando soubesse.

- Estou disposto a mandar uma quantia, anualmente, para que possam viver bem. Soube por Nathan que passam fome quando o senhor não consegue fazer seu trabalho direito. Ou quando prefere ficar em casa assistindo televisão. — E antes de virar as costas e sair daquela casa pequena, nada acolhedora e fria, dizia a eles. — Não faço por vocês, mas faço pelo garoto que fora espancado e que perdoou vocês.

E dito isso, saia da casa e ia direto para o trabalho, embora o pensamento ainda estivesse naquele local.

A porta da limosine estava aberta e o frio da noite se impregnava em minha pele, me fazendo voltar para a realidade e para dentro das portas da enorme casa. Não havia me dado conta de que estava na escadaria para a sala da festa. Não havia me dado conta de que ainda conhecia aquela enorme casa e conhecia todos os seus cantos. Os rostos haviam mudado, os empregados não eram mais os mesmos. Os quadros havia sido modificados de lugar, mas ali estava o pequeno bide onde havia jogado as chaves reserva da casa. Atrás da porta deveria estar algo para colocar os chapeus. Ao subir essas escadas, iria encontrar um monte de rosto ao qual não gostava e não me recordava. Era como se o homem que estivesse parado na escada, segurando o corrimão com tanta força, não fosse eu. Fosse outra pessoa, fosse outro homem, com medo de subir e travar uma batalha com todos os seus demônios do passado.

De fato, não era eu.

Era algo mais corajoso, por não estar vestido a rigor.

Era um homem que levava um anel no bolso traseiro da bermuda, esperando ouvir um sim em vez de um não.

Enquanto Nathan brincava com meu anel na corrente, o anel ao qual fora do meu avô, ele havia insistido para que fossemos naquela festa, para que eu pudesse colocar um ponto final, para que pudesse perdoar aquelas pessoas ali dentro.

E era isso que estava fazendo, não por mim, mas porque ele havia me pedido. Embora tinha a plena certeza que era mais por mim do que pelo pedido dele.

- ... mas quando digo perdoar, não quer dizer que você irá quere-los na sua vida de novo, Jhonny. — Ele dizia, as mãos tocando o anel na corrente, por cima da minha camiseta. — Apenas perdoar, Jhonny. — Sorria, de leve. — Isso vai te deixar mais leve, vai poder seguir com tua vida, ter um presente sem as dores de cabeça.

E embora ele não havia dito, sabia que ele queria dizer que também poderia seguir o presente sem as dores do passado.

- E também eu quero ver onde você morava. De que parte do mundo você veio. — Ele cantarolava, não parecendo o garoto timido e calado que havia conhecido. — E eu quero me ver em uma daquelas roupas galantes, Josiele disse que farei várias pessoas me desejarem.

Trincava o maxilar, pouco me importando se ele estava vendo.

Mas, ele apenas sorria e se ajeitava entre meus joelhos, selando os lábios nos meus de forma rápida, mas fazendo meu corpo inteiro se aquecer.

E para a minha surpresa, fugia do toque quente de Nathan e fingia não notar como ele se magoava com aquilo.

- Jhonny, pense a respeito, por favor. Não é por mim. Nem por sua mãe ou seu pai. Nem pelo senhorzinho que você falou e nem por Josiele. — Ele pausava, uma pausa longa demais. — Apenas por você.

E saia do quarto.

Que mania feia a minha de sempre fugir das pessoas, quando deveria apenas aceitar e ficar, sentar a bunda onde estava me permitir sentir.

Ouvia umas tossidelas atras, ao pé da escada, apesar de não ser estreita para interromper o caminho de alguém. Resmungava baixinho contra todas as pessoas daquela cidade e subia de dois em dois degraus, querendo ficar o mais longe possível daquelas pessoas que havia esquecido.

Ao chegar no topo, aquela sensação de não pertencer aquele lugar — e de nunca ter pertecido, talvez fora um dos motivos que me fizera correr daquele lugar — me dominava e me deixava levemente tonto, mas ao olhar atraves das portas, para um garoto de cabelos castanhos, ligeiramente bagunçados, de smoking me fazia sorrir, cortando a distância entre nós dois. Olhava para ele de cima abaixo, avaliando a transformação que Jô havia feito no garoto. Ele parecia muito mais a vontade naquelas roupas do que eu estaria se as usasse.

- Você esta bonito. — Sem controlar meus passos, ficava mais perto do que era permitido em uma festa daquela, o fazendo corar e olhar em volta até, novamente, se focar em meu rosto.

- Se eu soubesse que você queria causar, eu não teria sido feito de boneco da Jô. — Ele ria, talvez estava mais nervoso do que aparentava.

Segurava entre o polegar e o indicador um punhado de cabelo castanho, que antes tocavam os ombros e agora estava um pouco abaixo da orelha. A franja estava penteada para trás, dando um ar jovial e arrogante para ele, o que o deixava um charme.

- Quem sabe até consiga uma namorada — Brincava, mas ao o ver ficar tenso, completava. — se eu deixar, é claro.

O puxava pela cintura e o mordiscava na orelha, fingindo não ter notado os olhares de quem entrava ou de quem estava logo atrás. Agradecia, baixinho, talvez apenas na mente, por ele ter vindo comigo ou por mim, por qualquer que seja o motivo, por simplesmente ter vindo. Ouvia um baixo 'de nada' e ficava surpreso ao me dar conta de que havia dito em voz alta.

- Jhonny, você veio. — Soltava Nathan e o via manter a postura que talvez a loira tivesse lhe ensinado. — E não esta vestido a vigor... Não quer ir para seu...

- Não, Josiele. Não é meu quarto. Esta não é minha casa. E aquelas não são minhas roupas.

Dava de ombros, pegando na mão de Nathan e o puxando para o lugar onde era servido as bebidas e comidas. Embora alguns criados circulavam com bandejas nas mãos. Era como se meu passado houvesse se misturado com o meu presente e a unica segurança que sentia era quando segurava a mão daquele garoto, anos mais novo que eu, é parecendo mais seguro.

- Mas que... — Ele olhava para Josiele, que havia se aproximado de um homem ruivo, talvez uns seis anos mais velho do que ela. — Seu noivo?

- Não faço a mini...

Era cortado por Nathan, pela primeira vez.

- Alias, porque a tratou daquele jeito?

- Por que ela é como Madie quando vem para cá. Se eu não cortar, ela não voltará ao normal. — O via ficar meio perdido, suspirava e explicava. — Se eu não fiz algo, ela não voltará a ser minha querida irmã caçula, tudo bem?

Ouvia a risada dele, mas em algum momento havia desviado a atenção do rosto de Nathan para Josiele, que estava com os cabelos presos em um penteado no topo da cabeça, um colar de esmeralda e ajeitava uma rosa branca no bolso da roupa do homem ao seu lado, sorria como se não se importasse em o mimar na frente de todos. Estava com um vestido azul-marinho... Não, era verde-escuro com detalhes de brilho, em azul-escuro. Era um vestido justa, que ia até o meio das coxas e se abria apartir dali, descendo pelas pernas e não mostrando nada ali em baixo. Josiele conseguia fazer os vestido mais estranhos serem bem aceitos, por simplesmente combinar com ela.

Era cutucado por Nathan diversas vezes e quando o olhava, ficava surpreso ao ouvi-lo perguntar se estava tudo bem. Assentia, como sempre e voltava a olhar o redor.

Havia um banqueiro que era muito amigo de minha família desde que me entendia por gente, era um homem gordo e que parecia querer explodir os botões de sua veste. Havia uma mulher vulgar ao seu lado, com um decote chamativo além da conta, exagerado, um colar pequeno que lhe entrava o decote a dentro. E ninguém parecia se preocupar com a veste dela, apenas com a minha.

Franzia a testa e voltava minha atenção para Nathan antes que saísse daquele local, mandando tudo para o inferno, mal-dizendo de Deus, de Madie, de Josiele e de todo mundo, inclusive de Nathan.

- Você esta branco.

- Eu sou branco. — Provocava.

- Ah, jura? Pensei que fosse negro! — Ele entrava na onda da brincadeira. — Alias, gostaria de um pouco daqueles pasteis do seu lado, mas gosto de ser mimado por meu escravo.

Pegava um prato, colocava uns seis daqueles pasteis de camarão e quando ia lhe entregar o prato, levava para a outra mão e começava a comer, tentando não rir e me engasgar devido a cara de Nathan.

- Isso não é justo! Você nem sabia da existência deles até eu dizer...

E ali estavamos nós, brigando sobre saber a existência dos pasteis ou não. Ria alto quando brincava com Nathan, fazendo questão de lhe dar um dos pasteis para então comer. Quando os pasteis no prato acabava, observava um leve biquinho nos lábios dele e colocava mais sobre o pratinho, dando-lhe enfim.

- Um pouco de bondade! — Ele levava a mão que não segurava nada para o cima, como se agradecesse algo. — Obrigado, senhor, por pôr um pouco de bondade nele!

Ria, como nunca havia rido antes. Gargalhava como antes nunca havia feito. Olhava para o garoto, que comia os pasteis, odiando o camarão e amando o pastel — nunca iria entender como alguém conseguia fazer isso -, sorria internamente e o simples pensamento de não querer mais nada do que aquilo me fazia parar no tempo, olhar apenas para aqueles olhos castanhos e lhe dar o mundo.

Minha cor favorita havia sido modificado para o castanho.

Mas não qualquer castanho. Aquele castanho no cabelo de Nathan, onde as vezes parecia preto. Ou aquele castanho dos olhos dele, que as vezes, na claridade, parecia cor de mel.

De alguma forma, a memória ia de encontro a um psicológo ao qual eu havia esquecido, e ao qual havia me ajudado a superar meus medos, minhas inseguranças. E me dissera, certa vez que, ao sair de casa, estaria deixando uma vida ao qual eu havia feito alguma diferença ao sair de casa.

- Sim, Jhon, existe um mundo lá fora ao qual esta lhe esperando para ser descoberto. E sim, Jhon, esse mundo realmente existe, ele quer um novo garoto, uma nova aventura e uma nova descoberta. — Sua expressão nunca se modificava. — Porém, você quer fugir do terror do seu presente ou descobrir o mundo?

Descobri que naquele momento, com aquele garoto ao meu lado, eu poderia fazer qualquer coisa. Poderia descobrir o mundo, curar meus terrores.

- ... O mundo é cheio de surpresas, de pessoas que são como nós, mas tão diferentes. Conheci um garoto em uma rua, ao qual ele era pobre, muito pobre, não havia dinheiro para a comida, e ele não queria fugir do terror que vivia, ele queria se erguer... — Longa pausa. — Sabe Jhon, este garoto poderia ser você, na verdade, ele é você. E mesmo que você saia por aquela porta, deixando a chave reserva como me disse que sente vontade de fazer, você terá feito a diferença na família, você terá se erguido e resolvido alguma coisa. — Ele me olhava, como se entrasse em minha alma e me visse nu. — Você terá ido embora, quando todo mundo deseja fazer isso, mas tem medo.

Sorri.

Sorri como se estivesse orgulhoso por ter saido pela mesma porta que havia entrado. Sorri como se o mundo fosse belo, com toda a feiura que os humanos lhe causaram. Sorri e Nathan notou e sem perguntar nada, ele apenas se escorava na mesa e sorria da mesma forma.

- Eu perdoo. — Ele dizia, a voz não era mais tão jovial quanto havia pensado que era. — Eu perdoo todas as pessoas que me machucaram, que me bateram. Darei a outra face, se me pedirem. Darei a face machucada, se não pedirem. Eu não me importo, eu apenas perdoo. Porque perdoar, me deixa leve. E se eu estiver leve, eu posso voar.

Tinha a certeza de que, toda vez que olhasse Nathan, esta palavras seriam sua definição.

Os momentos iam se passando, não havia visto Madie, Joseph, Charles ou qualquer outra pessoa que me recordasse do passado, exceto o banqueiro, ao qual não me recordava o nome. Todas as pessoas da festa me olhavam, falavam de minhas roupas e olhava para Nathan, falavam de suas roupas também e perguntavam qual seria a sua relação comigo, o primeiro filho dos Martel-Lemes. Martel era o nome de Madie, Lemes seria de Joseph, embora que no papel estivesse o contrário, por um erro de alguém.

Madie sempre teve nome e dinheiro. Joseph sempre tivera dinheiro, mas não nome.

Estar ali estava me fazendo recordar de coisas que havia, a muito tempo, esquecido. Olhava para Nathan e o via paquerando um bolo de chocolate ali perto, onde logo cortava uma fatia e o levava a boca, fazia uma careta por ser amargo e eu resmungava um baixo 'sem açúcar' e ele me fuzilava com o olhar, me fazendo novamente rir daquele modo que apenas ele havia conseguido.

Um silêncio tomava conta do lugar e conseguia sentir o olhar de Madie focado em mim, até que, ela se pronunciava.

- Jhonny Martel-Lemes!

- Jhon. — Dizia.

- Não precisa diminuir seu nome, tão bonito! Mas, se temos intimidade para isso, então Jhon.

Sentia vontade de sair daquele lugar novamente, de dar as costas, mas Nathan se mantinha um pouco mais atrás, olhando de Madie para mim e vice-versa.

- Você veio... Embora que não esteja vistido a rigor... Josiele comentou que não quis se trocar. Continua um menino rebelde. — Ria baixo, sendo acompanhada por todos.

- No convite não dizia que existia um traje a vigor. Este estilo surfista é muito mais aconchegante do que este que todo mundo esta usado, menos a moça do banqueiro, que deve concordar comigo. — Nathan se encolhia para não rir, como a maioria das pessoas, embora o banqueiro estivesse se sentido ofendido. — Já que dei o prazer de minha visita, Nathan...

- Ao menos ele sabe se vestir a vigor. — Me cortava. — E alias, eu gostaria de falar com ele.

- Meu noivo não irá falar com ninguém se eu não estiver junto. — A surpresa de Nathan o havia congelado, os olhos deveriam estar arregalados, como de todo o resto. — Se bem me entende, não é nada pessoal, mas ele é de menor e sou responsável por ele.

Madie falava algumas coisas, pedindo licença pois gostaria de falar com outros na festa e que eu não era exclusividade. Avistava Joseph a distância, que apenas balaçanva a cabeça em sinal negativo. Jô havia se sumido com o ruivo. E Charles não havia aparecido. E começava a encarar um a um dos convidados, até que desviassem a atenção de Nathan e de mim.

E quando terminava, virava para Nathan e me aproximava mais, deixando o rosto a centimetros do dele. A diferença de altura era um pouco grande, mas como estava apoiando o quadril na mesa, como ele estava, e havia ficado um tanto inclinado, a altura não era tanta. Ficava lhe olhando, esperando que dissesse alguma coisa, que perguntasse algo, que me chutasse, me batesse, mas a surpresa foi cedendo lugar para uma expressão enigmática, que me deixou mais nervoso do que estar naquele lugar.

- Seu noivo? — Ele sussurrava.

Assentia.

- Desde quando?

- Desde que você me diga sim agora.

- E o romantismo?

- São voltados para mulheres. — Brincava.

- E o anel?

- No bolso traseiro da bermuda. — O olhar de surpresa voltava. — Mas primeiro tem que me dizer sim, depois pegar o anel, pois estou encabulado demais para sair dessa posição e ver que tem quase um mundo inteiro nos olhando.

Ele ria, me fazendo rir junto.

- E se eu disse não?

- Acho que irei chorar na frente de todo mundo, mas eu apenas acho...

- Sim.

- Sim o que? Sim ao que eu disse, sobre chorar? Ou sim para o pedido? Pelo amor de que seja sagrado para você, não faça com que me perca.

- Você é o psicólogo, você sabe das coisas. — Era sua vez de provocar.

- Nathan.

- Sim, Jhonny que até agora não sabia o sobrenome. Eu aceito. Deus, como aceito. — Ele corava, baixando o olhar para então voltar a me encarar e brincar. — Agora vire esta bunda para cá, para que eu pegue algo que é meu.

Franzia a testa, tentando associar se falava do anel ou de outra coisa.

- É o anel.

Ria alto, talvez chamando alguma atenção, mas ria.

Nathan se aproximava, me beijava de leve nos lábios, levava a mão ao bolso traseiro da bermuda, deixando um pequeno apertão ali enquanto soltava uma baixa risada com um 'descupe'. Ele colocava o anel no dedo errado, me fazendo corrigir e rir ao mesmo tempo. Ele perguntava onde estava o meu e erguia a mão, mostrando o anel. Ele sorria.

- Você sabia que diria sim!

- Não me culpe por eu ser encantador. — E dizendo isso, jogava os cabelos para trás e levava um empurrão no ombro.

- Idiota. — Ele resmungava, me puxando para perto e me selando várias vezes, me xingando de idiota várias vezes.

Sentia vontade de dizer aquelas palavras que todos os casais diziam, mas elas acabavam por se entalar na garganta, talvez uma outra hora...

O beijava. O mordiscava a bochecha, pescoço, orelha, falava besteiras que nunca havia pensado falar para alguém, brincava, o provocava. O fazia rir. E tudo o que me restava era apenas ficar ali, entre os braços dele, que nesse momento estavam passados pela minha cintura.

Nada mais importava.

Nem o passado. Nem Madie. Nem ninguém. Apenas Nathan.

Apenas o Jhonny que, sem querer, havia perdoado aquelas pessoas quando aquele garoto havia me feito ir naquela festa.

Havia perdoado sem saber. Claro que a mágoa sempre iria existir, mas algo maior estava aqui, na minha frente, falando de coisas banais enquanto roubava uma ou outra coisinha da mesa, bebericando seu refrigerante, mas ainda se mantinha abraçado.

Ouvia um gritinho histérico de Josiele, que se jogava por cima da gente e gritava 'meus parabéns aos dois'. E meu medo de que ela fosse ficar como Madie saia. Josiele apenas estava sendo Josiele.

- Sério que... Ah, esses aneis combinam com você. — Ela fazia um biquinho. — Pensei que a noite seria para mim e Roberto, mas parece que duas pessoas a roubaram. — Ela piscava. — E por favor, me façam ser a madrinha e que... Ah esquece, só felicidade para vocês! — Ela se voltava para Nathan. — Fico tão feliz que tenha curado Jhonny, embora ele só vá perceber quando for velho.

Franzia a testa.

Ela ria e ia para o encontro de Roberto, que apenas balançava a cabeça em um cumprimento cortês.

- Ele parece legal. — Nathan resmungava.

- Ele era meu amigo, antes de fugir de casa.

Nathan parecia mais surpreso do que eu, por ter dito aquilo.

- Você tinha amigos aqui?

- Alguns...

- E porque, exatamente, foi embora?

- Nathan...

- Por favor.

Aquela expressão de quem não queria saber, mas precisava. Aquela expressão me dizia mais do que pensava e, sinceramente, não sabia se estava pronto para falar de algo sobre isso. Claro que já haviamos falado sobre minha família, mas meus motivos por sair desse lugar, nunca.

- Porque esse lugar nunca me pertenceu, nunca teve meu toque, nunca me preencheu. — Ele assentia, para que continuasse. — Nunca me senti como se devesse ficar. Toda vez que entrava pela porta, sentia vontade de sair correndo, de procurar um lugar onde eu pudesse pertencer...

Ao dizer aquelas coisas, que haviam sido a maior parte do motivo, havia me dado conta de que não havia sido culpa de ninguém. Não havia sido culpa de Madie ou Jospeh, por falta de amor ou atenção. Não havia sido culpa de Charles, por ter sido — e talvez ainda seja — amante de Madie. Também não fora culpa dos empregados, onde mal poderiam falar comigo. Não fora culpa dos raros amigos que havia feito e das garotas que não conseguia sentir praticamente nada... A culpa era minha e daquele lugar, ao qual eu nunca pertenceria. A culpa era, totalmente, minha e apenas minha. Não poderia simplesmente jogar este fardo em alguém apenas porque seria mais fácil de lidar...

Sempre havia sido diferente de todas as pessoas daquele lugar. E sempre seria diferente de todas as pessoas para qualquer lugar que eu fosse, mas desde que eu me sentisse bem e aceito, estava tudo bem.

Olhava para Nathan que sorria de um modo infantil, como se eu tivesse acabado de descobrir o esconderijo dos presentes de Natal e entendia que ele havia me mostrado aquilo que estive cego por todos esses anos.

Deixava que meu corpo afastasse a distância que existia entre nós dois, segurando uma mecha dos cabelos dele entre os digitos. Sorria, de levinho, e indicava a saida da porta.

Não precisava mais estar ali... Alias, não precisava estar em lugar algum para tentar organizar meu passado, perdoar. E coisas do tipo. Eu já havia superado.

Era um novo Jhon...

Não... Era um novo Jhonny.

Um novo Jhonny que havia descoberto o mundo atraves dos olhos de uma criança.

Notas finais
Se não entenderam porque o "Poderei Ficar?" não foi citado, direi aqui:
Como eu já fiz a one-shot inicial (poderei ficar?), achei por melhor não colocar pois ficaria repetido. E eu teria que deletá-la. E não, eu não vou deletar ela! Minha bebê! ♥ E ela que due inicio disso tudo, então... Bom, a outra One-shot era mais, digamos que, algo que puxasse todo esse assunto. O periodo passado naquela one foi o periodo que pulei antes da festa de Madie.
Achei também que não precisaria colocar o final da festa, a saida. A lição já foi aprendida e por isso, estou me retirando por agora.
Agradeceria muito se me enviassem comentários e opinões. E claro, se houver algum erro, não se acanhe e me diga. Sou meio preguiçoso e raramente reviso.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!