Eu juro que se minha irmã perguntar mais uma vez quanto tempo falta para chegarmos a Caperland eu pulo do carro.

Caperland. Meu lar pelos próximos quatro anos. Um subúrbio para pessoas com padrão de vida de alto a altíssimo que fica a mais ou menos quarenta quilômetros da Filadélfia. “Caper” em inglês significa alcaparra, então Caperland era literalmente a “terra das alcaparras” – a cidade era a maior produtora da hortaliça no condado. Cheirando a lenha, o que mais se via eram pinheiros grandes e fazendas que se estendiam até onde sua vista alcança. Segundo o Google, “para morar-se bem na charmosa Caperland é preciso, sem dúvida, de uma grande piscina térmica azulejada em mosaico e um celeiro”. E eu nem mesmo sei guiar um cavalo.

Papai era muito sortudo por não precisar escutar Cece choramingar pelas últimas sete horas dentro de um carro. Ele dirigia a minivan logo atrás de nós, trazendo tanta bagagem que não era possível olhar para o lado sem derrubar alguma coisa.

O motivo de nossa mudança fora o novo emprego de minha mãe. Professora de inglês e apaixonada pelo trabalho, conseguiu o que queria: lecionar na Universidade da Pensilvânia, um dos destaques da década nos exames nacionais que mediam a qualidade do ensino. Meu pai, músico e compositor, estabelecia-se em qualquer lugar – era seu próprio chefe. Quem já cantou Titanium, música do dj David Guetta em parceria com a cantora Sia, conhece seu trabalho.

Encostei o rosto no vidro gelado do carro e respirei fundo. A paisagem já mudara completamente: o branco cobria o que em outras estações provavelmente seria muito verde.

– Olha, mamãe, um coelho! – gritou Cece do banco traseiro. Ela era uma garota irritante como qualquer outra criança da sua idade, mas era muito encantadora. Segurava um pequeno pônei branco e lilás entre os braços, quase estrangulando-o. – Olha, mamãe, agora são dois!

Acompanhei seu dedinho com o olhar e vi que, de fato, haviam dois coelhos de pelagem cinzenta saltando sobre a neve. Bichinhos engraçados. Pude observar também, pelo excesso de detalhes em madeira nas casas (enormes, por sinal), que chegamos.

Em poucos minutos, nossa mãe estacionou em frente a uma casa branca de dois andares. O portão que fronteava todo o terreno era – nossa, que surpresa – feito de madeira e, ao contrário do nosso condomínio onde morávamos, era baixo, da altura da minha cintura, talvez até menor. Não era mais fácil entregar a chave da nossa casa aos assaltantes de uma vez?! Nas laterias, uma cerca-viva contornava nosso pátio. O gramado inteiro estava coberto de neve, o que deixou Cece maravilhada.

– É aqui – disse minha mãe. – Bem vindo ao novo palácio, alteza.

No mesmo instante meu pai chegou, descendo tão rápido da minivan que mal pude acompanhar seus movimentos. O caminhão da mudança o seguia, já descarregando algumas caixas e partes da mobília. Caixas não paravam de sair da parte traseira do caminhão, ao modo que me perguntei se não levaria todo o primeiro semestre para deixar essa casa com cara de lar.

Eu estava enganado. Organizamos todo o andar de baixo em um dia só, de forma que meus pais estavam na sala ao cair da noite abrindo uma garrafa de vinho tinto. Servi um copo de vodca-soda e outro de suco de laranja para mim e para Cece, respectivamente, e nos juntamos a eles.

– À nós! – disse Joanne, minha mãe, erguendo sua taça e esboçando um belo sorriso.

– Sinto que seremos todos muito felizes aqui – acrescentou meu pai. A barba que ele deixara crescer nas férias contrastava com sua personalidade, dando-lhe um ar mais velho. Meu pai era um jovem de alma, apaixonado pela vida e louco pela família.

– A... ao... meu irmão – disse Cece. Ela com certeza não entendia o que era um brinde ou o que de fato estávamos comemorando, apenas queria participar e, de quebra, demonstrar um pouco de seu afeto por mim.

A gravidez de Cece fora complicada. Minha mãe não era mais nenhuma garotinha; a idade chegara e, com ela, alguns problemas femininos. Levou anos tentando engravidar e, por pouco, não desistiu de ter um segundo filho. Cecilia – em homenagem a nossa bisavó italiana – nasceu um mês e meio antes do previsto, ficando um bom tempo no hospital. Hoje, sete anos depois, seus defeitos são quase imperceptíveis: Cece apenas tem asma e alergia a diversas substâncias. Somos muito próximos. Mimo minha pequenininha de todas as maneiras que conheço. Assim como eu, ela tem paixão por filmes, então dividimos uma coleção de animações. Nossas preferidas são Branca de Neve, Procurando Nemo, A Princesa e o Sapo e Monstros S.A.

Ver seus olhinhos castanhos brilhando em minha direção enquanto erguia seu copo de suco natural (o de caixinha contém muitos conservantes) me roubou um sorriso sincero.

– Amém – eu disse, sem tirar os olhos da minha princesa, que agora sugava o líquido através de um canudo que torcia-se em diversas espirais que eu lhe trouxe de Orlando.

Nesse momento, ouvimos a campainha. Era um toque suave, diferente do que estávamos acostumados. Me dirigi à porta.

– Boa noite, garotão! Somos seus vizinhos da frente e viemos lhes dar boas vindas – disse uma senhora de meia idade belíssima. Era, sem dúvida, uma das mulheres mais elegantes que eu já vira em toda a vida. Parecia ter sido raptada de uma das últimas edições da revista Elle ou InStyle. Ao seu lado estava provavelmente seu marido, um homem mais baixo que usava óculos redondos engraçados, e atrás dele eu podia ver uma garota um pouco mais baixa que eu segurando uma cesta recheada de tira-gostos em conserva, castanhas, alguns cereais e uma garrafa de vinho. Era uma versão mais jovem da mãe.

O cabelo dourado estava todo sobre um dos ombros e ela vestia um uniforme de tênis. Outro esporte que não sei jogar. Ela sorriu para mim e observei covinhas se formarem em suas bochechas.

– Olá! – interveio meu pai, cumprimentando os visitantes. – Somos Ben e Joanne Atwood. Esses são Cecilia e Peter – e, virando-se para mim, piscou o olho. – Pete, não seja mal educado. Seja simpático!

Ele estava se referindo à garota. Os adultos e minha irmã foram para a sala e eu fiquei parado à soleira da porta.

– Você quer entrar? Está uma bagunça, caixas e malas por todo o lado... – eu disse.

– Aqui na varanda está bom – sua voz era doce. Ela parecia estar à vontade, pois logo se sentou no balanço de nossa varanda. Apesar da temperatura, seu uniforme era composto por uma saia verde e uma camiseta branca de gola pólo. Ela usava tênis brancos e meias soquete da mesma cor que lhe cobriam as panturrilhas, apenas com duas listrinhas verdes no alto, combinando com a saia. Era agradável de olhar.

– Atwood – falei, sentando-me ao seu lado. – Peter Atwood.

– Bond. James Bond – ela respondeu, rindo. Sua risada era gostosa, pois ela inclinava-se para frente e fechava os olhos, abrindo um sorriso branco e perfeito. Suas covinhas ficavam bem visíveis e sua alegria, de tão contagiante, era quase palpável. – Brincadeira. Cassie Fields.

De perto, pude ver que seus olhos possuíam um tom verde profundo, com risquinhos cor de mel e marrons. Eu não costumava analisar as pessoas dessa forma. No que Caperland estava me transformando? Cassie pôs as mãos entre as coxas e nos balançou por alguns instantes, de vez em quando me olhando e sorrindo timidamente.

– Então... Caperland... – ela puxou assunto.

– Pois é. Ainda não passei daquela calçada, mas...

Ela riu novamente. Deus, como estou bobo.

– Não vai responder? – perguntou Cassie, franzindo o cenho.

– Responder o que?

– Eu perguntei quantos anos você tem.

– Desculpa, eu... – vamos, Peter, você sabe falar. – tenho dezessete. Você?

– Dezessete também. Você é meio calado, né?

– Sou só meio tímido, eu acho – respondi, coçando a nuca e desviando o olhar.

Os pais de Cassie saíram da casa e ela se levantou. Estavam indo embora. Segui-a, despedindo-me da família Fields, deixando Cassie por último.

– Foi um prazer, viu? – ela me abraçou. Seu cheiro era bom demais. Supondo que ela tenha vindo direto de um jogo de tênis ou algo do tipo para cá, imaginei que ela estivesse suada ou com um cheiro desagradável. Pelo contrário, Cassie parecia ter recém saído do chuveiro. – Se precisar de carona ou algo assim, pode me avisar. O telefone da minha casa está no guia telefônico.

Eu com certeza precisaria.

Deveria ter previsto isso: de volta à sala, meu pai disse que nunca me vira com um cara tão de bobo. Trouxa mesmo. Fui até o hall de entrada para me olhar no espelho.

O garoto que me retribuiu o olhar no reflexo era, sem dúvida, um idiota. O cabelo castanho claro estava bagunçado e a camiseta do Batman o tornara num nerd. Olhei-o da cabeça aos pés: jeans claros, tênis pretos, cabelo raspado dos lados e grande em cima, magro, o ano anterior na academia lhe dera uma barriga lisinha e dura, assim como definiu seus braços e coxas. Os olhos castanhos me encaravam intrigados, com uma de suas sobrancelhas erguidas. Que imagem sua vizinha guardaria desse rapaz?

Ali estava. Algo estava errado. Passei a ponta dos dedos no pulso e na palma da mão e toquei algo mole. Queijo derretido da pizza que eu pedi mais cedo. Dentre as impressões ruins que alguém pode passar, ser sujo é uma que é difícil mudar.

– Maldita mussarela – sussurrei.

A imagem provavelmente não teria sido das melhores. Afinal, quem diabos diz que seu telefone está no guia se achou a pessoa legal?


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.