Casos Na Hamburgueria
1 Catchups, um mal necessário
Notas iniciais
Se você chegou até aqui, espero que não se decepcione.
Chovia sem parar naquela noite de sexta-feira. Na verdade fazia quase uma semana inteira que chovia insistentemente. Eu estava exausta e, naquele instante, muito irritada.
Claro, sempre há a parcela otimista da população. Aqueles que “nada está tão ruim que não tenha solução”. E há os meus primos. Três filhos da puta, otimistas do caralho (quando conveniente, vale ressaltar) e mãos de vaca.
Fernanda insistia na tarefa de embalar o hambúrguer em suas mãos em um papel quase duas vezes menor ao que estávamos habituados, e rugia ferozmente a cada tentativa mal sucedida. André e Fábio observavam a cena em expectativa, tão solidários quanto uma porta. De quem tinha sido a ideia de comprar um papel menor e mais fino para economizar quatro reais? Ah, claro, do André. O degenerado número um, embora fosse o filho número dois.
Todos os finais de semana quando me juntava aquela trupe maluca meu subconsciente me perguntava porque raios aceitei aquele emprego. Uma parte de mim dizia ser em prol da família e a outra (mais sensata) berrava que era louca e por isso estava ali. Em qual eu acreditava? Bem, acreditava que como uma adolescente saudável e com o ensino médio recentemente concluído, precisava de dinheiro.
O dinheiro, como pude notar, não viria de uma forma fácil. Fazia menos de um mês que havia sido contratada como uma espécie de faz tudo. Além de empacotar os pedidos eu precisava pegar o troco, passá-lo ao entregador, conferir se havia ou não refrigerante, lavar vasilha no tempo livre (que tempo livre?), anotar a rota, conferir o dinheiro quando voltasse e, a tarefa que mais odiava em toda a vida, encher catchup.
Se não bastasse toda a carga, ainda havia funções extras como: fazer café para os amigos alcoólatras dos meus primos, ameaçar caras bêbados a não vomitar no chão e evitar que algum idiota se aproximasse da cozinha. Pelo visto, além de faz tudo, ainda me achavam com cara de babá.
— Ufa! — Fernanda suspirou vitoriosa, mostrando o embrulho desfigurado como se fosse um prêmio valioso.
— Bianca, você pode pegar um isqueiro pra mim?
Olhei bem na direção de André, sentado em frente ao notebook enquanto afirmava estar consultado os pedidos no WhatsApp. Ele era bonito, com os cabelos curtos, a barba aparada e o rosto fino. Tinha um sorriso certinho, daqueles que só quem passou anos usando aparelho tem e estava sem camisa. Ele sempre estava sem camisa, na verdade. Será que existia uma fobia para isso? Ou será que ele se sentia um dos lobisomens de Crepúsculo que tiravam a camisa mesmo com o termostato indicando menos um? Eu realmente não tinha certeza de qual das opções era a certa.
— Pra você fumar? — Perguntei, atraindo sua atenção — Se você quiser morrer, faz o favor de fazer isso sozinho.
— Que isso, hein? Não deu nem oito horas e você já tá de mal humor — André resmungou e mesmo notando que eu não levaria o isqueiro até ele, não moveu um músculo para pegá-lo.
Dei de ombros, continuando na árdua tarefa de encher os saquinhos com catchup e em um processo totalmente frustrado de mantê-los iguais. Não era apenas um trabalho chato e repetitivo, era sujo e a cada cinco minutos eu precisava levantar para lavar as mãos.
A campainha tocou duas vezes, um alerta claro de que um dos amigos alcoólatras não estava tão bêbado a ponto de esquecer o dedo no botão do interfone, fazendo um barulho infernal. Corri para secar as mãos e atender o interfone.
— Quem é? — Escorei o aparelho no ombro e esperei. Geralmente demorava de dez à quinze segundos para que finalmente eles reparassem que a caixinha falante pregada na parede estava falando com eles. Naquele dia, porém, a chuva não iria cooperar de jeito nenhum. O aparelho zunia e provavelmente do lado de fora a situação era a mesma.
Praguejei mentalmente toda a árvore genealógica da minha família e atravessei a chuva pê da vida.
Se meus primos sabiam que o interfone não estava funcionando porque não deixaram uma sombrinha na varanda, pronta para uso? Bem, certamente porque sabiam que não seriam eles a abrir a porta.
— Quem é? — Gritei, no entanto minha voz não deve ter conseguido se sobressair ao da chuva, penetrando os tímpanos do sujeito podre de bêbado do lado de fora. Ou então estávamos prestes a ser assaltados.
Procurei as chaves no bolso do avental e dei de ombros, abrindo o portão.
Suspirei em um misto de raiva e conformismo ao me deparar com Juca do outro lado, virado contra a entrada. Ele estava tão encharcado quanto eu e olhava para baixo, observando atentamente alguma coisa.
Juca estava chapado, isso era incontestável, mas porque raios continuava parado?
Estiquei o pescoço e inclinei a cabeça.
Chovia muito, claro. Em menos de um minuto já estava encharcada da cabeça aos pés. No entanto, jorrava água do meio das pernas de Juca e ele parecia hipnotizado enquanto observava o jato escorrer e…
— Juca! — Gritei fula da vida, assustando-o ao ponto de quase fazê-lo se virar. Então gritei de novo, frustrada e puta da vida.
— Ah, meu Deus! Ah, meu Deus! — O garoto repetia incansavelmente, me olhando como se fosse uma espécie de assombração/aparição enquanto guardava aquele troço dentro da bermuda
— Você tá mijando na árvore? — Perguntei puramente por instinto, porque meus ouvidos berravam dizendo que não queriam essa confirmação.
— Eu… Eu não sabia… Não sabia que você viria abrir a porta.
— Eu sempre abro a porta. Sempre! — Tornei gritar. Não dava para simplesmente fechar a boca ou falar mais baixo. Aquilo era o cúmulo e com certeza não me pagavam o bastante para aguentar esse tipo de coisa.
— Você não vai contar para os seus primos, né? O Fábio vai me matar.
Fitei Juca por alguns segundos. Ele tremia um pouco, talvez por causa da chuva, talvez imaginando uma morte iminente.
— Não, não vou contar — Falei por fim, vendo seus ombros relaxarem — Mas você vai me ajudar.
— Eu? Como?
Puxei Juca pra dentro com um puxão, então fechei o portão e o empurrei contra ele.
— Vai encher todos os catchups pelo resto da sua vida miserável.
Ele estremeceu quando o olhei bem nos olhos, forçando-o a me encarar. Depois assentiu e saiu correndo na direção da cobertura.
Menos um amigo alcoólatra para controlar. Falta todo o resto.
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