Caso Invísivel
3 Caso encerrado?
Notas iniciais
As coisas não andavam fáceis para Rebeca. Viu-se livre da acusação de assassinato do canalizador mas parecia agora que, das restantes 8 vítimas mortais, todas apontavam para si. Vá se lá saber como, mas na última revista a sua casa foram encontradas provas de como ela esteve naqueles locais. Obviamente que esteve lá, era a responsável pela investigação. Nunca pensou que isso se virasse contra ela.
Filipe acreditava cada vez mais na inocência dela, incrível como só demorou 2 meses para chegar a essa brilhante conclusão. As aventuras com a Gabriela não lhe interessavam mais. Era sempre a mesma coisa, a gaja estava a gostar demasiado, era preciso cortar de vez, sem qualquer arrependimento. Enquanto a outra não caía na sua lábia, estava a trabalhar com o Daniel e o Henrique para sair daquela confusão, decidiu investigar uma das mortes mais a fundo. Ninguém sabia, mas o clube BDSM, onde encontraram a oitava vítima mortal, era dos seus escapes preferidos, quando não conseguia ninguém para levar para a sua cave.
No dia em questão, encontrava-se num dos quartos, a foder violentamente como gostava. Nenhuma das gajas de lá era de frescuras, como as que conseguia convencer a levar para casa. A gaja que morreu era uma das suas preferidas. Ela adorava dor, tanto que, por vezes, ele extravasava e ia um pouco longe demais. Pelo que viu do cadáver, ele podia garantir que a puta morreu mergulhada em prazer, pois todo o corpo apresentava marcas de chicotadas. O chicote era a sua preferência, foi pena o assaltante o ter levado embora. Aquele era o melhor chicote da casa. Para além de uma dor intensa, deixava marcas vermelhas que eram espetaculares de ver na pele. Filipe apenas tinha pena de não lhe oferecerem aquele chicote. Se ele estivesse na sala de provas, ia arranjar maneira de ficar com ele, foram demasiadas as boas recordações à custa dele, para o deixar definhar num caixote.
O clube de BDSM parecia inocente, visto de fora. Pintado de cores claras, parecia uma residência comum. Apesar de ser uma grande mansão, nada mais fazia pensar que era um antro do sexo. Filipe identificou-se ao portão, todos os clientes eram anónimos lá dentro. Apenas os porteiros e o dono, que ninguém sabia quem era, possuíam os dados de toda a gente que entrava pelos portões. Ao estacionar no parque, colocou a sua máscara, ainda antes de sair do carro. Ao chegar às imponentes portas de entrada avistou a Fani, a empregada da mansão. Pelo menos era o que parecia do lado de fora. Na realidade, era a secretária, vestida como uma criada, de vestido com babados.
— Bom dia Fani.
— Bom dia chefe. — Chefe era a alcunha dele. Tinha conseguido ao fim de 3 anos a ir todas as semanas. Não é o cliente mais assíduo, mas é o segundo mais frequente. — Por aqui tão cedo?
— Sabes como é, começar o dia da melhor maneira. A Tricia está?
— Sim, vou chamá-la para ti.
Tricia era conhecida de poucos. Era o mais próximo que se conseguia chegar do dono. Se alguém tinha acesso a informação era ela. Tudo o que lhe perguntasse ia diretamente ao topo, o que era exactamente o que ele queria. A secretária pegou num telefone e chamou pela Tricia. Passados uns minutos, a descer de forma elegante a escada em caracol, vinha a mulher mais fenomenal que conheceu. Ainda se lembra da única oportunidade que teve de ir para a cama com ela. Foi algo de outro mundo. Gostava imenso de repetir, nunca se tinha sentido assim. Contudo, sabia que só se recebesse um convite. Ela era exclusiva e só ela decidia para quem abriria as pernas.
— Caro chefe. A que devo esta honra? Há muito tempo que não o via. Não me diga que sente saudades.
— Claro que sinto. Não és uma pessoa fácil de esquecer. A minha sorte é que sou paciente. — Se não tivesse ido ali obter informações teria brincado mais um pouco com ela. — Podemos conversar num local mais sossegado?
Tricia ficou intrigada. O tom brincalhão da voz daquele homem desapareceu, dando lugar a uma mais grave e séria. Temendo a vinda de uma enxaqueca, decidiu deixar de provocar e ir ver do que se tratava. Com um gesto da mão convidou-o a segui-la para o escritório, o único sítio santo daquela mansão, pelo menos do ponto de vista dos clientes. Pediu-lhe que se sentasse numa das cadeiras, enquanto ela dava a volta à secretária e sentava-se no cadeirão. Algo lhe dizia que ninguém ia gostar desta conversa.
— Então o que te traz aqui? Se não é para te delícias como meu corpo, e mal respondes às minhas provocações, devo presumir que é algo sério.
— Infelizmente, sim. — Filipe tira a máscara e encara a mulher à sua frente. — Como sabes, eu trabalho na Polícia e vim hoje averiguar o que se passou naquela fatídica noite. Na altura não pudemos falar e, depois disso, não tive tempo de cá vir. Agora, queria saber o que vocês concluíram. Sei que fizeram uma investigação interna, para descobrir como tal coisa aconteceu. Qual foi a conclusão a que chegaram?
— Que o filho da puta do desgraçado que fez esta merda conseguiu passar pela segurança apertada deste local.
Ela estava furiosa, deu um murro na mesa e tentou relaxar, mas era impossível. Quando ela apanhasse o desgraçado que ajudou a escapar o crápula, só sabia que o torturaria durante horas, com muita dor, e não daquela forma prazerosa.
— Sei que o animal tem escapado às vigilâncias dos locais que assalta, mas tu, melhor que ninguém, sabes o quão apertada é a nossa vigilância. Tivemos de despedir todos os gajos da segurança e dos portões. O único que escapou foi o que estava com o dono, no dia da morte. Revi todas as câmaras de vigilância, esta é a casa que tem o melhor circuito fechado de que há memória. Não há nenhum ponto morto. Fingimos que há, apanhamos sempre as putas e os putos a darem para os outros, ou para os empregados, nesses locais. É sempre uma ótima maneira de os chantagear-mos mais tarde. Porém, naquela noite apagaram-se câmaras, as que estavam a funcionar deixaram de gravar, sabe se lá porquê. O dono está passado. Nunca tal aconteceu.
Filipe estava incrédulo. Até aqui o Invisível tinha conseguido vencer o esquema de vigilância? Ele sabia bem o quão meticuloso eles são. Teve de penar muito para conseguir ser um cliente assíduo, eles não deixavam qualquer um trabalho esses privilégios. No mínimo, uma pessoa poderia ter acesso às brincadeiras uma vez por mês, não mais. Com muito esforço, e não fazendo merda, poderia subir na “hierarquia”para poder vir mais vezes. Ele demorou quase 7 anos a conseguir essa proeza.
— Ou a pessoa está muito muito bem protegida, em termos financeiros, para não denunciar ninguém, ou ajudou na tortura. Parece que, por aqui, não tenho como iliba-la.
— Financeiramente protegido não deve ser. Temos andado em cima das finanças de cada um. Garanto-te que ninguém está mais rico. Continuam todos com a mesma vida de sempre. Nem mais, nem menos.
— Ainda continuam a monitorizar os ex-empregados? Quando deixam de o fazer?
— No momento que morrerem. — Deu um sorriso misterioso, com muitas implicações. O polícia acreditava que, mesmo que cortasse de vez com a Mansão, que era o nome do clube, nunca se livraria deles. Podia ser chamado para fazer um serviço, a qualquer hora, para eles. Amnésia era uma patologia de que eles não padeciam. — E mesmo assim vemos as famílias. É muito trabalho.
— Vocês não estão para brincadeiras.
— Se o fizéssemos, tu não vinhas aqui. O que tu queres não são brincadeiras. Tu queres a coisa real. Logo, como deves calcular, nós temos tolerância zero. As pessoas que trabalham aqui sabem bem no que se estão a meter. Assim, garantimos segurança a todos os empregados, e um bom tempo passado a todos os clientes.
A última parte foi dita em tom provocatório, ela era conhecida por provocar fogos e não por os apagar. Ele ficou com desejos de a possuir. No entanto, teria de ser paciente. Se queira almoçar não podia se mexer um centímetro na direção dela. Ela que mandava, exceto na cama, quando entregava o controlo aos dominadores. E mesmos esses sabiam que corriam sérios riscos de serem pescados, em vez de irem pescar.
Continuaram o tempo todo naquele tom, Filipe bem tentou conseguir mais informação. Ela não sabia mais, ou não poderia fazê-lo. Uma coisa ele tinha a certeza. Estava lixado pelo resto da vida. Ele próprio foi um dos que molhou o pincel quando não podia. Foi uma única foda rápida, mas ele não pagou por isso. A puta ofereceu-se e ele não se fez de rogado. Sabia que devia ter ido à receção pagar pela foda. Não quis se dar a esse trabalho. Agora, tinha uma dívida enorme para pagar. Eles não esqueciam cada dívida. E cobravam sempre juros. E juros altos. Estava tramado.
…
Na esquadra, Rebeca esperava a visita do Henrique, a quarta desde que foi presa. Tinha saudades de poder tocá-lo. Enquanto estivesse numa cela, sob os olhares das guardas, não poderia atrever-se. Quem diria que se tornaria no centro da vida de alguém. Nunca foi de se apegar, sempre fazia questão de o evitar. Não convivia com muita gente, estava habituada a virar-se sozinha. Daniel foi uma boa surpresa, Henrique uma lufada de ar fresco.
Naquela noite, tinha sonhado com a obsessão do assassino por órgãos humanos. Primeiro foi o advogado, esventrado e com o intestino espalhado no chão. Depois o padeiro, cujo coração foi roubado. De seguida o seu querido colega da esquadra, cujo olho direito sumiu. Há quatro meses foi o cirurgião plástico, a sétima vítima mortal que foi embalsamado vivo, tendo a sua mão esquerda sido decepada. Por último, foi um professor catedrático, da área de criminologia, que os estava a ajudar a traçar o perfil do Invisível. Nunca se chegou a saber se ele tinha chegado a alguma conclusão. Sabia que ele estava perto de acabar, quando falou com ele dois dias antes de morrer. O resultado estava apenas no seu cérebro, que tinha sido precisamente furtado.
Queria voltar a falar disso com o Henrique. Ela ficou em choque quando ele sugeriu que podia ser alguém da área da saúde. Médicos, enfermeiros, de medicina convencional ou de dentária e veterinária. Qualquer um que se encaixasse, inclusive ele, poderia ser o assassino. Ela não conseguia imaginá-lo a cometer aqueles crimes. Ele disse para porem o nome dele na lista de suspeitas, Daniel concordou, mas juntos verificaram que não fazia sentido. Ele estava sempre noutro lado, na altura dos crimes. Nem tinha motivos para tal.
Por isso, encaminharam a investigação nesse sentido. Ao fim de uma semana encontraram o Joaquim, cirurgião cardiotorácico, que tinha motivos de sobra para matar muitas das vítimas e nada que o ilibasse. Começaram a analisar as finanças dele. Descobriram que ele ganhou imenso com a morte do banqueiro. O seu pai, que era um dos principais accionistas do banco, foi eleito CEO do império pela viúva da vítima. Era amigo de infância do advogado, pertenceram os dois ao mesmo orfanato, de onde Joaquim foi adoptado por uma boa família e o outro foi entregue à sua própria sorte. Quanto ao padeiro, provavelmente deveu-se ao facto de ser um homofóbico de merda e não suportou a felicidade do rapaz.
O seu colega aproximou-se perigosamente dele, tal como o professor, culminando nas suas mortes. Quanto ao cirurgião, seu inimigo número um no hospital, não havia dúvidas. O resto ninguém sabia as razões, nem interessava desde que fosse o culpado.
Henrique estava a demorar hoje. Já devia ter sido chamada. A hora das visitas estava quase a acabar. Sentada na sala de espera, Rebeca pôs-se a pensar como seria bom sair daquele ambiente de vez. Precisava de sair para correr, sem ser num quadrado rodeado de paredes altas, ir à padaria e comprar pão fresco, sentir o cheiro das rosas da vizinha. Foi chamada à sala de visitas e quem lá estava era o Daniel, não o seu namorado.
— Apanhamo-lo Rebeca. Agora é de vez. Vais sair daqui.
Daniel estava eufórico. Correu para ela, levantou-a e começou a rodopiar os dois. Quando a pousou no chão, depois da indignação demonstrada pela guarda prisional, pôs-se a explicar. Tinham ido a casa do cirurgião. Encontraram lá coisas relacionadas com os homicídios. E ainda encontraram vestígios de provas incriminatórias contra a Rebeca. Havia uns sacos com cabelos, que estavam identificados como sendo dela; objetos pessoais dela, como a escova de cabelo e de dentes; moldes das impressões digitais dela, tirados de um copo que ela usou num bar; entre outros. Ou seja, provavelmente seria o último dia dela na prisão. Naquele momento, Joaquim encontrava-se em interrogatório. Não dizia nada, afirmava que era inocente, que as coisas foram lá colocadas. Disparates atrás de disparates.
A hora das visitas tinha terminado. O seu colega foi chamado de urgência a um local, o crime nunca dava tréguas naquela cidade. Ela perguntou se houve mais alguém que a queria ver. A guarda prisional informou-a que não havia ninguém à espera dela e encaminhou-a para a cela. Seria provavelmente a última noite que passaria lá. Mal podia esperar por ver a cara do desgraçado que a quis incriminar. Garantiria que ele estivesse bem tramado pelo resto da vida.
…
Filipe não acreditou quando recebeu aquele telefonema. Sabia que cobrariam a dívida. Não pensou que fosse logo no mesmo dia. Ele era um polícia. Apagar provas, dos registos, era algo que ele não sonhava fazer. Incendiar um carro muito menos. Descobrir que tinha um cadáver dentro da mala era algo que não fazia parte dos planos. Ao menos, não seria incriminado pelo crime. Quando soube quem era a vítima mortal, sorriu. Afinal ajudara a dar cabo daquele sacana. O cabrão não devia ter posto as mãos em cima dela. Foi bem merecido, morrer daquela maneira. Bem, a coisa boa é que isso eliminava as suspeitas para cima da Rebeca. Ela nunca poderia ter eliminado o bastardo do namorado dela.
Uma coisa o estava a incomodar. O suspeito foi preso de madrugada, o carro chegou-lhe às mãos a meio da manhã. E ele tinha a certeza que ainda viu o Henrique de manhã, na esquadra. Logo, o cirurgião não poderia ser o Invisível. Não tinha como matar o outro, estando fechado numa esquadra. Ou seja, havia dois assassinos, como Daniel suspeitava. Ou então, este era outro bode expiatório. Só sabia que não podia fazer mais nada, ou senão quem sairia fodido daquela história seria ele.
De alguma maneira, o dono da Mansão está na lista do Invisível. E deve saber algo grave sobre a vida dele, para o outro arrumar as suas tralhas. Tricia não estava contente, quando lhe ligou a cobrar o favor. O que indica que o Invisível está mesmo metido em alguma coisa. Filipe não queria saber de nada agora. A única coisa que interessava era haver menos um cabrão que havia fodido com ela. Mal ela saísse iria consolá-la, mimá-la, tudo menos dar indicação que a queria foder. E depois, quem sabe o que o luto a levaria a fazer. Com certeza será algo prazeroso para os dois.
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