Case 39
3 Saw
Notas iniciais
Logo depois de me expor para o diretor, eu percebi que poderia dar uma chance para o James. Tirei meus fones de ouvidos e desci as escadas, ele estava lá, junto com a minha mãe e meu irmão.
— O que vocês estão fazendo?
— Assistindo Deu a Louca na Chapeuzinho Vermelho. — Meu irmão responde entusiasmado.
— James... hum. — Procuro as palavras certas enquanto todos me encaram. — Aquela proposta de nós dois irmos jogar beisebol ainda está de pé?
— Charlie, isso foi há quase um ano.
— Eu sei, é que... só deu vontade agora.
— Se você quiser, nós podemos ir amanhã mesmo, eu te busco no colégio e vamos direto para lá, combinado?
— Combinado. — Respondi receoso.
[...]
— Deixe-me ver se eu entendi. — Martha raciocina. — O James, o cara que você odeia, te chamou para ir jogar beisebol há mais ou menos um ano e você recusou, mas agora você quer ir? Como assim?
— Ontem, depois que a Professora Daniels me expulsou da sala, eu tive uma conversa com o Diretor. Lá, eu falei sobre o acidente com o meu pai e tudo o mais, quando eu voltei à casa eu refleti e decidi dar uma chance para o James.
— Vocês vão que horas? — Cesar me pergunta.
— Quando a aula aqui acabar.
O intervalo termina, subimos para a sala de aula, química, sofro demais. As aulas seguintes se passaram bem rápido. Fiquei em frente à escola esperando James chegar, seu carro prateado para em frente a calçada e ele buzina três vezes e acena pela janela. Fico nervoso, vai ser a primeira vez que vou ficar sozinho com o James, mas vamos lá.
Entro no carro e ele começa a dirigir. Não deve demorar muito para chegarmos até o local onde as pessoas treinam beisebol. Alguns minutos e chegamos lá, saímos do carro e entramos. Colocamos a roupa especial para proteção e adentramos a cabine, James fica controlando a máquina enquanto eu rebato com o taco.
— Por que você gosta desse esporte? Ele é meio parado. — Questiono.
— É meio parado porque aqui são só tacadas, no esporte em si nós temos que correr pelas bases e tudo o mais.
— Entendi. — Continuo rebatendo as bolas até que decidimos trocar de lugares.
— Olha, Charlie, eu sei que você não gosta de mim, e... — Ele está nervoso. — Tá tudo bem, sabe? Eu sei que você pensa que eu vou substituir o seu pai, mas eu não vou. Eu apenas quero tentar ser, seu amigo ou apenas alguém com quem você pode contar para qualquer coisa...
— É só que... — Eu interrompo. — Eu não estava preparado para seguir em frente ainda, mas o Christian e a minha mãe já estavam, eu não queria que eles parassem a vida deles por minha causa, porque naquele dia, eu também morri. — O tempo acaba, a máquina para de atirar, James me encara enquanto eu olho para o chão. — A diferença foi que eu morri para mim mesmo e o meu pai morreu para todos.
Lágrimas lutam para descer pelo meu rosto, e conseguem. James solta o taco de beisebol e vem até mim para me abraçar, começo a chorar no seu ombro.
— Era para ter sido eu, era para ter sido eu. — Lamento aos prantos. James não diz nada e é melhor assim, ele apenas coloca a mão na minha cabeça e começa a me fazer cafuné.
Depois de um tempo, eu me recomponho e vamos embora, ambos ficamos em silêncio durante a viagem. Chegamos à casa e o que vimos nos deixou nervosos. A casa revirada, móveis quebrados, sangue no chão e nas paredes. Eu e James começamos a gritar pela minha mãe e por Christian. Meu irmão sai de dentro do closet do quarto da minha mãe – e do James – e vem chorando ao meu encontro.
— O que aconteceu Christian? — Pergunto eufórico.
— Veio um cara vestido de preto com uma máscara branca pra aqui dentro, ele empurrou a mamãe, os dois começaram a brigar, mamãe gritou pra eu correr e me esconder, eu tô com muito medo Charlie. — Ele relata e começa a chorar. Desço as escadas e James está ligando para a polícia.
— Foi ele... O assassino do terror. — Falo com raiva.
[...]
— Acorde Melissa. — Uma voz grossa e modificada fala. — Acorde Melissa. — Relutantemente, acordo. — Muito bem, bem-vinda à minha sala de jogos.
Olho pela sala e há outras duas pessoas comigo, duas pessoas que eu nunca vi. Me levanto, nauseada, e percebo que há uma corrente me prendendo à parede, as outras duas pessoas também possuem essa corrente.
— Vou apresentar vocês a vocês mesmos. A última que acordou é Melissa, ela é mãe de Charlie e Christian, e namora o dentista James. A outra garota é Jennie, ela é mãe solteira e só. Por último, e não menos importante, o único homem aqui, Henri ele é apenas um professor de uma escola infantil. Vamos direito ao ponto, em seus bolsos há um papel dobrado, peguem ele e vejam a mensagem. Essa sala está sendo gravada e transmitida ao vivo para todas as pessoas em Amityville. O jogo é o seguinte, ao final dessa minha mensagem, um gás venenoso será liberado nessa sala e não poderá ser desativado, porém, se vocês disserem, em alto e bom som, o que está escrito no papel uma chave será liberada, mas essa chave só vai consegue abrir a fechadura de duas correntes, que os jogos comecem.
— Eu não posso revelar isso, vai acabar com a minha vida. — Henri diz eufórico.
— Foda-se a sua vida. — Grita Jennie enquanto pega o papel, desdobra e lê o que está escrito. — Eu me prostituo para cuidar do meu filho, tenho um caso com o prefeito da cidade e há dois meses eu fui diagnosticada com HIV. — Um bip é ouvido pela sala.
— Charlie, eu traí o seu pai com o James um mês antes do acidente acontecer, me desculpe. — Falo agitada e começo a chorar, outro bip é ouvido pela sala. Começo a me sentir mal, deve ser o efeito do gás.
— Vai logo porra, fala logo o que tá escrito no caralho do papel. — Jennie grita para Henri.
— Eu não posso, a minha vida vai acabar se eu disser isso.
— A vida de nós três vai acabar se você não revelar logo o que tem na droga do... — Jennie começa a tossir sangue e cai no chão.
— Tá bom tá bom. Eu... — Henri fica relutante. — Eu abuso sexualmente das crianças que eu ensino. — Mais um bip é ouvido pela sala e a chave cai do teto no meio da sala.
— Seu doente. — Jennie diz encarando o cara. Ela tenta ir até a chave, mas não consegue. — Que porra é essa. — Ela grita, tento alcançar e também não consigo. — Vai pedófilo, tenta.
Henri vai andando até a chave, ele cai no chão e consegue pegar, ele abre a corrente presa na sua perna, ele corre até Jennie e solta ela, esta que rapidamente se levanta e sai da sala. Eu e Henri nos encaramos, ele vai até mim, tenta abrir a corrente e não consegue, começo a chorar e ele também.
— Vai. — Eu digo, mas ele não se mexe. — Vai logo, sai daqui. — Eu grito, ele se desequilibra e cai no chão. Relutante, ele se levanta e sai da sala. Procuro uma câmera, há uma que dá exatamente no limite da corrente e que consegue focar bem no meu rosto.
— Charlie... — Eu começo. — Christian... e James... — Falo relutante. Sinto meus olhos arderem e sangue escorrer pelo meu nariz. — Eu amo vocês três demais. James, cuide dos meus filhos. Charlie, me perdoe, por tudo, não culpe o James pelo o que aconteceu, ele não sabia sobre o seu pai. E Christian... — Tusso sangue, mas me mantenho firme apenas mais um pouco. — Obedeça ao seu irmão, sempre. — Caio no chão e desmaio.
[...]
Assim que Jennie saiu da sala, ela ligou para a polícia e para a ambulância, que chegaram rapidamente no local. A garota e Henri foram levamos para o hospital onde receberam ajuda para com o gás tóxico e ficaram em observação. Quando a polícia adentrou a sala, a minha mãe já estava morta há alguns minutos. Os policiais tentaram encontrar pistas naquela sala de onde poderia estar o assassino, mas a voz que estava sendo transmitida pela sala era uma gravação, o sistema que fazia os bips e liberava a chaves era remoto e ele se autodestruiu após a liberação da chave, fazendo impossível a descoberta de quem estava controlando.
Naquela noite, eu não consegui dormir, nem James e, muito menos, Christian. Fui para a escola movido na base do ódio, todos me encaravam e eu encarava o chão. Reuno Cesar, Mark e Martha em frente ao meu armário.
— Pessoal, é o seguinte. — Fecho o meu armário e encaro os três. — Nós vamos encontrar esse assassino, e vamos acabar com ele, de uma vez por todas.
— Eu tô dentro. — Martha fala colocando seu punho na nossa frente.
— Eu também. — Cesar logo depois faz o mesmo.
— Pode contar comigo Charlie. — Mark faz o mesmo.
— Vamos lá. — Falo enfurecido fazendo o mesmo gesto. — Esse assassino vai morrer, nem que para isso eu tenha que morrer também.
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