Cascata da Morte

1 Capítulo Único


Cascata da Morte

- Fique calma, Clarissa. Nós já estamos quase chegando. E tire dessa sua cachola aquilo que aquele velho louco falou. Ele não deve estar muito bom das ideias...

Eram quase nove horas da manhã e o carro seguia devagar pela estrada de terra cheia de pedras e buracos. Haviam acabado de passar por um pequeno casebre no qual morava um senhor de idade um tanto quanto avançada — alcançando, talvez, uns noventa e tantos anos. A informação que receberam era de que seu destino estava a menos de dez minutos dali. Porém, o velho as aconselhara a não seguirem a viagem até a tal cachoeira, pois recentemente haviam desaparecido duas outras jovens. Estas nunca haviam sequer chegado perto daquele local, mas nada impedia seus sequestradores, se é que aquilo era realmente um sequestro, de estarem por ali escondidos em meio à mata que cercava a estrada. O passeio tão esperado daquele fim de semana havia se tornado perigoso demais, e Clarissa pensava nisso enquanto observava as árvores passando pela janela do carro.

- Não acredito que você vai ficar emburrada justo no último fim de semana de férias! Cadê a animação pra tirar suas fotos fantásticas? Esqueça o que aquele velho disse e vamos aproveitar o tempo, Clarissa.

- É só um pressentimento ruim, Amanda. Mas tudo bem. Vou me animar.

- Que bom! Porque acho que acabamos de chegar à entrada da cachoeira.

Logo à frente, puderam ver uma clareira à direita na qual poderiam estacionar o carro. Clarissa não disse uma palavra, mas pensou em muitas coisas. Era um tanto estranho aquele local estar vazio em pleno fim de semana ensolarado. Talvez a história das garotas desaparecidas tivesse afastado os turistas dali; não que o lugar ficasse lotado deles, mas alguns ao menos estariam ali... É melhor esquecer essa história. Aquele velho é muito velho pra falar coisa com coisa. Devia estar delirando.

Seguiram por uma pequena trilha que adentrava a verde floresta – a natureza colaborando com elas, pois a trilha não era nada difícil; muito pelo contrário. Era bem agradável, fresca, úmida, e com cheiro suave de terra, flores e madeira. O sol adentrava através dos longos galhos que se estendiam sobre suas cabeças. Clarissa caminhava logo atrás de Amanda. Com sua câmera em mãos, não perdia um detalhe, e até a história do velhote doido já havia desaparecido em sua memória.

Percorreram vários metros antes de encontrarem um pequeno riacho de águas claras que dava indício de estarem perto da cachoeira. Um pouco mais à frente, onde a trilha se tornava mais íngreme, deram de cara com enormes pedras que formavam uma perfeita escada natural. Deveriam seguir por ali.

- Acho que você terá que guardar sua câmera na mochila. Não acho muito seguro subirmos por essas pedras com algo nas mãos. É melhor elas estarem desocupadas.

- OK, mas antes quero tirar uma foto da gente – disse Clarissa já se aproximando para a foto, quando recebeu um empurrãozinho.

- Não vou deixar você tirar uma foto minha nessa situação – Amanda estava rindo. – Estou toda suada e descabelada.

- Tem razão. Você está horrível!

A cara que Amanda fez não foi uma das melhores...

- Guarde logo isso, senão te deixo para trás! – virou-se e começou a subir pelas pedras.

Clarissa deu mais alguns clicks, desligou a câmera e guardou-a na mochila com o maior cuidado possível – um instrumento como aquele merecia todo o carinho da dona, não apenas por ser caro, mas por representar uma paixão enorme que a garota sentia por fotografar. Clarissa retornou a mochila às suas costas e começou a subir pelas pedras escorregadias, as quais continham uma boa quantidade de lodo.

A subida não era lá muito fácil, mas Amanda já havia desaparecido de vista. Como ela pôde subir isso tão rápido assim? Essas pedras... Esse lodo... E lutando contra o desequilíbrio, Clarissa agarrou-se a um galho próximo...

Crack. Mal deu tempo de pensar e já estava se estatelando de costas no chão. O baque lhe fez perder o ar e logo em seguida sentiu um gosto de sangue em sua boa. Não conseguiu falar. Não conseguiu gritar. Não conseguiu ver mais nada. Tudo ficou escuro.

X — X — X

Quando retomou a consciência, o céu já havia tomado os tons do crepúsculo e raios alaranjados penetravam em meio às folhas das árvores. Clarissa cuspiu um pouco de sangue que se acumulara em sua boca. Esforçou-se para se colocar em pé, mas sua cabeça latejava e sentia fortes dores nas costas. Deitou-se outra vez.

Algo estava errado. Por que ainda estava ali no mesmo lugar onde caíra? Por que Amanda não havia voltado para lhe socorrer? Talvez ela tenha ido procurar ajuda – pensou – mas por que demorara tanto a voltar? Respirou fundo e após alguns minutos, tentou se levantar outra vez. A cabeça rodou, mas mesmo assim conseguiu manter-se em pé.

- Amanda! Você está por aqui? – gritou e não ouviu resposta. – Amanda?

Tudo era um silêncio quebrado apenas pelo barulho da água caindo e do vento batendo nos galhos das árvores. Clarissa não sabia o que fazer. Tentar subir as pedras pra ver se encontrava sua amiga era perigoso, além de suas costas estarem doendo demais. Voltar para o carro seria o mais seguro. Mas e se Amanda estiver correndo perigo ali em cima?

A preocupação era tanta que decidiu subir. Pegou a mochila que se encontrava a alguns metros de si e retirou de dentro uma garrafa de água, a qual bebeu. Escondeu a mochila entre alguns galhos e raízes e subiu. Estava mais difícil do que antes e Clarissa se encontrava fraca demais para fazer tal esforço, porém não desistiu.

Logo que terminou a escalada pelas pedras, viu a cachoeira a alguns metros. Era uma clareira com um mato não muito alto e alguns arbustos. Havia pedras ao redor do poço e dentro dele. A água era clara e emanava um frescor, deixando o lugar calmo. Clarissa observou bem o local. A trilha seguia mais adiante, dando acesso a uma casinha estranha, meio abandonada entre algumas árvores; e assim que se aproximou um pouco mais dela, viu, através da janela com vidros quebrados e sujos, que havia uma pessoa lá dentro. Amanda! Sabia que te encontraria!

Direcionou-se até a porta e a abriu...

Nunca pensou que seus olhos pudessem ver cena tão assustadora e desumana: o corpo estava pendurado no teto pelas mãos e seus pés balançavam no ar meio metro acima do piso. Logo abaixo deles, encontrava-se um balde cheio do sangue que pingava do corpo nu. Podia-se observar um corte em seu pescoço, porém nada se comparava ao abdômen e tórax abertos, de onde haviam sido retirados todos os órgãos. E no rosto, coberto pelos longos cabelos castanhos, estava o semblante feminino de Amanda.

- Não pode ser! Não acredito! – algumas lágrimas desciam pelo seu rosto. A tristeza se misturava com angústia e medo. A vontade era de abraçar a amiga e tirá-la dali mesmo sabendo que nada mais seria útil para salvar a sua vida. Deu dois passos em direção ao corpo, porém ouviu um barulho atrás de si. Virou-se instintivamente dando de cara com um homem alto, parado diante da porta, que usava vestes marrons respingadas de sangue e um capuz.

Clarissa só teve tempo de se esquivar enquanto o homem a atacava com uma faca. Não sabia bem o que fazer, mas deixou que seus reflexos a guiassem.Moveu-se para a esquerda, esbarrando o quadril em uma mesa de madeira que se encontrava encostada na parede. A dor que o baque lhe causou quase a fez cair no chão, mas invés disso, a garota conseguiu se agarrar ao móvel e empurrá-lo de encontro ao agressor; o que o fez ficar apenas um pouco irritado. Sem dizer uma palavra, o homem arrostou a mesa de volta a seu lugar chocando-a contra a parede e ficou ali parado por alguns segundos. Em seguida retirou o capuz deixando à mostra um rosto que aparentava meia idade. Seu olhar mexia profundamente com Clarissa; era uma mistura de ansiedade e prazer que causava desespero na jovem.

- Por favor, me deixe ir! – Clarissa estava começando a chorar; sua fala, de alguma maneira, soando corajosa. Mas o homem avançou para cima dela como se a coisa mais insuportável do mundo fosse ouvir apelos de piedade. Nessa hora, a garota correu até a porta e ganhando o terreno de fora, deu de cara com o velho que haviam encontrado no casebre da estrada e pedido informações. Parou repentinamente, com o coração mais acelerado que nunca.

Não pode ser. Era tudo verdade, afinal. Foi quando sentiu uma mão puxando seus cabelos e a lâmina passando por seu pescoço. Os antigos filhos canibais. Homens que comiam carne humana feminina... Olhou para um dos lados e viu um menino que aparentava ter acabado de entrar na adolescência. Um costume que passa de geração em geração.

Engasgando-se com seu sangue, deixou ali a sua vida.

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