No final daquela tarde, uma lufada de esperança vinda do além-mar cruzou porteira da fazenda. Um jipe dos correios entregou em mãos um envelope lacrado com selos internacionais da Europa: era uma carta endereçada diretamente a ela, assinada pelo seu primo e irmão de alma, Nicolás Mora.

Betty correu até o casarão principal e, com os olhos vermelhos e mui aflita, pediu o favor com toda a fidalguia para a Dona Margarida para usar a linha telefônica do escritório para fazer uma ligação de longa distância para o asfalto.

Margarida, que guardava um imenso carinho de tia pela moça, permitiu mui amável na mesma hora.

Betty discou os números internacionais com os dedos trêmulos, o coraçãobatendo na boca, até que a voz familiar e culta atendeu do outro lado do oceano, direto de Madri.

— Bettica!— exclamou Nicolás Mora na linha, a voz ecoando limpa. — Que alegria imensa escutar o seu sotaque da roça! Me perdoe o mau jeito por eu não ter conseguido pegar o avião e viajar para Quindío para estar presente na sua festa de dezoito anos! A correria aqui na Espanha andava mui grande. Como você bem sabe nas cartas, eu agora estou totalmenteradicado aqui em Madri, mui bem casado com a minha esposa europeia e nós acabamos de inaugurar o nosso próprio e mui bem-sucedido escritório de advogados!

— Nicolás... meu irmão... — Betty soltou um soluço dolorido, desabando em lágrimas no telefone, incapaz de conter o sufoco que guardava no peito. —

Deus te pague por atender... Eu preciso mui de você, Nicolás! Eu preciso do seu cérebro e de seu ombro amigo de uma forma que você nem consegue imaginar!

— Betty! Mas o que foi que aconteceu de tão grave nessa fazenda? Por que você está chorando desse jeito? Alguém te fez maldade?

-Não posso te falar por telefone! –disse, soluçando

-Assim me deixa preocupado! Irei à Colômbia por estes dias, posso passar aí para matarmos as saudades e ver o que posso fazer por você.

-Grata, Nicolás!

— Se acalme, Betty Limpe esse pranto do rosto e me escute com total atenção de homem feito — ordenou Nicolás, a voz firme e protetora de irmão. Em breve estarei aí para te salvar!


Depois de terem mais um pouco de prosa, desligaram, Betty respirou aliviada.

Em breve, seu irmão de alma, agora ad famoso ira estar com ela, poderia desabafar, chorar e ainda tirar as dúvidas que tanto a atormentavam. Quemsabe poderia ir com ele para a Capital, aquela fazenda, a frieza de Armando e o cinismo dos papais Mendoza e arrogância dos Valência a estavam enlouquecendo.

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Alheio ao sofrimento de Betty, e à breve chegada de Nicolás Mora, Armando estava afogado em sua própria tristeza e culpa, enquanto lembrava daquela noite de amor. Sentia uma dor e incapcidade que achava que só o álcool poderia ajudar. (Que erro!), Armando Mendoza completamente atordoado, com o juízo perdido e o peito afogado em um desespero,n ão suportava o peso daquela culpa. Sem olhar para trás, pegou as chaves do carro com as mãos trêmulas, deu a partida e disparou em alta velocidade pela estrada de terra rumo às biroscas do vilarejo vizinho, decidido a se afogar de vez nas garrafas de aguardiente para tentar arrancar o feitiço da menina que carregou no colo e viu crescer.

No balcão escuro da taverna rural, mui embriagado e com os olhos vermelhos de tanto desgosto, Armando mal conseguia se manter em pé. Foi exatamente ali que o perigo da carne se aproveitou do seu tranco. Uma mulher misteriosa, portando uns longos cabelos escuros e curvas chamativas, aproximou-se mui faceira do balcão e passou a cercá-lo de galanteios. Vendo o patrãozão rico mui vulnerável e sem forças na mente, a fêmea começou a jogar as suas manhas de sedução, e o Armando, completamente bêbado, atordoado e sem rédeas na razão, deixou-se cortejar e ser levado pelo dengo da moça na penumbra da noite.

Horas mais tarde, o sol mal havia rompido o sereno de Quindío quando Armando Mendoza colocou os pés de volta no casarão principal. Ele entrou mui sorrateiro pelos corredores, completamente desarrumado, com as roupas amassadas pela gandaia, o cabelo bagunçado e exalando o bafo amargo do álcool da madrugada.

O caubói jogou-se de bruços na cama de solteiro do seu quarto, com o corpo exausto e o crânio rachando de dor de cabeça. Mas ao fechar as pálpebras na penumbra, o seu castigo foi instantâneo.


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