Casamento por obrigação
29 Capítulo 29
Armando estava jogado no sofá da sala com Marcela, com a mente distante, quando Beatriz saiu silenciosamente do corredor. O casarão principal estava todo no escuro e ela acendeu a luz do interruptor, congelando no lugar.
— Ah... me perdoem o mau jeito. Eu realmente não sabia que tinha alguém aqui na sala a esta hora — disse Betty, com a voz embargada, olhando Armando mui junto e abraçado à Marcela no estofado.
Betty não aguentou o peso do ciúme e saiu correndo escada acima, os saltos batendo forte na madeira colonial.
— Mas o que é que essa idiota da filha do caseiro ainda faz circulando por aqui a esta hora da madrugada, Armando?! — reclamou Marcela, ajeitando o decote com fúria.
— Ela não é nenhuma idiota, Marcela! E ela mora aqui dentro da casa grande hoje em dia, ouviu bem?! — Armando rosnou de volta, levantando-se.
— Como ela mora aqui? Ficou maluco, Mendoza?
— Isto mesmo que você ouviu. A Beatriz está hospedada no quarto de cima da Camila, mui bem convidada por minha irmã e por minha mãe enquanto o teto da habitação dela passa por reformas.
— Pois a Margarida vai ter que me dar explicações mui sérias sobre essa caridade toda assim que amanhecer! Que absurdo!
— Não se meta no que não te compete, Marcela! Deixe a minha mãe em paz!
— Como não me compete, Armando? Eu sou a sua noiva oficial perante a sociedade! E este tipo de molecagem vai mudar mui rápido quando nós assinarmos os papéis do casamento. Ainda mais... ainda mais que essa menina agora é noiva do meu irmão Daniel!
Armando travou no tapete, o seu sangue de arriero gelando e fervendo ao mesmo tempo. Ele virou-se com os olhos injetados.
— Noiva?! Como assim noiva do Daniel? Do que diabo você está falando, Marcela?
— Isto mesmo que você ouviu, meu amor. O Daniel me confessou mui faceiro que pediria oficialmente a mão da Beatriz em casamento hoje à noite para os pais dela no jantar! E o Velho Hermes aceitou com orgulho!
— Não... a Betty não pode ter feito uma loucura dessas! — Armando esbravejou, o peito subindo de puro desespero possessivo. — Ela nunca aceitaria!
— E o que é que você tem a ver com isso, afinal, Armando? Por que tanto nervosismo por causa da criadagem?
— Eu? Nada! Não tenho nada a ver com as regras deles — mentiu ele, o suor frio descendo pelo pescoço. — Acontece apenas que todo o mundo nesta roça sabe muito bem que a Beatriz não suporta nem ver a sombra do Daniel Valência. Ela o detesta!
— Ora essa, Mendoza! O meu irmão é um homem bonito, rico por demais, charmoso e instruído na Capital. Um partidaço de ouro para qualquer saia! Quem diabo é a Beatriz Pinzón para não querer casar-se e ter o privilégio de ser a esposa dele?
Armando balançou a cabeça de forma negativa, o ódio pelo cunhado apertando o seu maxilar.
— Você não entenderia de jeito nenhum, Marcela... O seu irmão não passa de um canalha ordinário! Um aproveitador, um abusador de mulheres! Um...
— Epa! Me meça as palavras, Armando! Você está falando do meu irmão de sangue e do seu futuro cunhado de compromisso!
— Infelizmente! Infelizmente aquele desgraçado faz parte do acordo!
— O quê? Olha, meu amor, eu vou te perdoar esse desaforo hoje... porque eu sei mui bem que o Daniel e você nunca se deram bem desde a infância pelos estábulos — sorriu a dondoca, avançando para dar-lhe um beijo possessivo nos lábios e agarra-lo pelo pescoço. — Ai, Armando... esqueça os outros. Eu estou com tanta vontade de sentir o seu corpo hoje... Faz tempo que não ficamos juntos de verdade na cama por causa de todas essas brigas e relatórios da colheita... Vamos para o quarto!
— Está louca, Marcela?! Saia de cima de mim! — Armando a afastou com uma grosseria rústica, o peito explodindo de pressentimentos terríveis. — O seu irmão Daniel pode mui bem estar de conversa com o Seu Hermes no pátio dos fundos ainda! Eu não quero arrumar mais problemas feudais com os Valência. O Daniel já me odeia o suficiente nesta terra, imagina só se aquele urubu descobre que nós dois já tivemos relações e intimidades de noivos de madrugada!
— Nós fizemos amor, Armando! Somos noivos!
— Como você bem queira chamar! Mas vá dormir no seu aposento!
Armando não deu mais ouvidos aos resmungos da dondoca. Ele virou as costas na sala, subiu os degraus da escada colonial a passos largos e raivosos e marchou direto pelo corredor de cima até parar na porta do quarto de hóspedes. O remorso e o ciúme o torturavam; ele sabia perfeitamente bem que, mais uma vez na vida, havia falhado miseravelmente com a sua menininha ao deixar a Marcela cercá-lo lá embaixo.
— Betty! — ele esmurrou a madeira fina com urgência, a voz rouca e baixa. — Betty, abra esta porta, por favor! Eu preciso falar contigo!
— Vá embora daqui, Armando Mendoza! — a voz dela veio abafada pelo travesseiro, carregada de pranto. — Vá correndo ficar e se revolcar com a sua noiva de sociedade lá no sofá! Me deixe em paz!
— É exatamente sobre isto que eu quero falar contigo, Beatriz! — Armando disparou bravo, o orgulho de peão ferido, disposto a tirar aquela farsa a limpo de uma vez por todas. — Que história absurda é essa que a Marcela acabou de me contar de que você está noiva do Daniel Valência?! Abra já!
Betty girou a tranca e abriu a porta com tudo, os olhos de café vermelhos de tanto chorar. Armando entrou feito um furacão e fechou a madeira com raiva atrás de si, trancando os dois na penumbra do quarto da Camila. Ele estava furioso, trêmulo de ciúmes e disposto a exigir todas as explicações do mundo.
— Por acaso você está fazendo isso puramente para me provocar e me pisar no calo, Beatriz?! Aceitando o cortejo daquele crápula?
— Não... — a moça soltou um soluço dolorido e, sem forças para manter o orgulho de Rainha Paisa, desabou inteirinha contra o peito largo e suado dele, chorando copiosamente contra a sua camisa quadriculada.
Aquele gesto de total fragilidade e entrega desarmou por completo o Tigre de Quindío. Armando envolveu o corpinho de boneca dela nos seus braços gigantes com uma ternura desesperada, apertando-a contra o peito.
— Eu não tenho culpa nenhuma de nada do que aconteceu naquele jantar, Armandinho... eu juro pelo sagrado que não tenho! — ela chorou.
— Calma, minha Bettica... respire fundo. Me diga o que está acontecendo de verdade nos fundos da fazenda?
— Me desculpe... me perdoe...
Betty, soluçando contra a pele quente do pescoço dele, explicou em detalhes o terror do jantar. Contou que o seu pai, o Seu Hermes, havia aceitado cegamente o pedido oficial de Daniel e que agora ela estava encurralada, sem saber que rumo tomar na vida.
— Mas o que diabo o Seu Hermes tem dentro dessa cabeça dura dele?! — Armando esbravejou, os olhos faiscando de ódio pelo cunhado. — Quando ele me disse na varanda que tinha a intenção de casar você com um pretendente de bem das redondezas, eu pensei...
— Espere um segundo... — Betty afastou o rosto, encarando-o com surpresa e mágoa. — O senhor já estava sabendo dos planos do meu pai de me arrumar um casamento forçado e não me contou absolutamente nada, Armando? Guardou o segredo pelas minhas costas?
— Eu pensei que o velho Hermes não estava falando mui sério, Betty! Achei de verdade que aquilo era apenas conversa fiada de pai preocupado para o futuro distante! Eu juro que o aconselhei com todas as minhas forças de homem a desistir dessa loucura, disse na cara dele que casamentos arranjados por obrigação não funcionavam de jeito nenhum no mundo moderno, que eram coisas ultrapassadas do século passado e que eu mesmo já tenho experiência trágica o suficiente com esse martírio na pele! Mas eu nunca, jamais imaginei que o candidato secreto dele seria justamente o asqueroso do Daniel Valência! Logo ele!
— Eu não sei o que esse monstro quer comigo de verdade, Armando! — Betty chorou, apertando o poncho dele. — Ele me encurralou na sala da nossa casinha, segurou o meu pescoço e disse com um nojo profundo que não vai desistir de mim até eu ser a esposinha submissa dele na cama! Nunca! Eu prefiro me matar antes de deixar aquele urubu encostar um dedo em mim!
— Eu sou perfeitamente capaz de matar aquele desgraçado antes de ver ele tocar na sua pele, Betty! — Armando rugiu com possessividade selvagem.
— O meu pai quer me obrigar por bem ou por mal a aceitar o altar com o Daniel... Eu o odeio com todas as forças do meu peito, Armando! Eu odeio aquele homem!
— E eu te entendo mui bem, minha Bettica... pois este peão odeia aquele crápula da mesmíssima forma! Eu te dou a minha jura de honra: eu não vou deixar que maldade nenhuma te aconteça nesta roça! Você está sob a minha proteção!
— Mas o Daniel não é o que parece perante o meu pai, Armando... Ele é um homem mui perigoso, muito mais cruel e sórdido do que o senhor consegue imaginar! — ela desabafou, soluçando forte. — Ele olhou na minha cara e disse que, se eu não for dele, eu não serei de mais nenhum homem na terra! Ameaçou que, se eu me recusar a assinar o casamento, assim que o senhor subir ao altar com a Marcela, os Valência vão usar as dívidas da hipoteca para fazer com que a sua noiva coloque os meus pobres pais na rua da miséria, sem eira nem beira!
— EU JAMAIS, EM TODA A MINHA VIDA DE PATRÃO, PERMITIRIA UMA COVARDIA DESSAS COM A FAMÍLIA DO SEU HERMES! — o grito de Armando ecoou abafado no quarto.
— Mas a Marcela será uma Mendoza legítima de papel passado e vai ser a dona de metade desta Fazenda Laços junto contigo, caubói! Ela vai ter o poder!
— Betty, escute mui bem o que estou te dizendo: eles nunca, jamais farão nada de mal contra os seus pais enquanto eu tiver forças nestes braços! Eu garanto a segurança de vocês!
— Eu não sei, Armando... eu realmente não sei o que fazer. Tenho um pavor terrível. Meus velhos pais não saberiam como viver longe destas plantações de algodão, eles dedicaram a vida inteira a esta terra. Mas o meu pai é um homem mui orgulhoso e casmurro, ele jamais aceitaria causar brigas ou desavenças de negócios entre as nossas famílias... — ela soluçou, apertando o peito dele. — E o Daniel me disse, apertando o meu pescoço, que eu serei dele de qualquer jeito, querendo ou não as minhas vontades.
— ISSO NUNCA VAI ACONTECER NESTA VIDA! — Armando a abraçou com uma força esmagadora, o ciúme possessivo queimando os seus sentidos de macho [🎭].
— Disse para eu me preparar... porque ele quer ser o meu primeiro e único homem na noite de núpcias por ser virgem...
— Aquele cretino de asfalto não vai encostar um único dedo imundo em você, Beatriz!
Você nunca, jamais na face da terra será daquele monstro! Nunca! — Armando jurou, com uma posse selvagem, cobrindo o rosto dela com beijos desesperados.
— Eu o detesto, Armando... Eu nunca vou me entregar para ele, e mui menos dar a minha pureza e a minha primeira vez para aquele ser asqueroso. Eu preferiria tirar a minha própria vida antes de ser possuída por ele!
— Nós vamos achar uma saída para essa armadilha, minha pequena... Fique calma. Eu vou obrigar a Marcela a assinar um termo abrindo mão de qualquer direito de mexer com os colonos e com os funcionários antes mesmo de subirmos ao altar. Eu garanto.
— Mas o senhor... o senhor tampouco quer se casar de verdade com ela, não é, Armando? — ela olhou bem no fundo dos olhos dele, os lábios colados aos dele.
— Você já conhece mui bem o tamanho do meu martírio , Betty. Mas ao menos... ao menos eu sou um homem feito, tenho uma vida sexual ativa na rumba e já aproveitei mui bem as liberdades do mundo no passado. Agora, você... você é uma menina pura, uma joia preciosa e não merece de jeito nenhum ter que se prender e entregar o seu corpo para um safado sem escrúpulos como o Daniel Valência!
— Então o que é que eu faço, Armando? me diga!
— Eu ainda não sei dizer, Betty... mas este peão vai achar a solução para salvar você, eu te juro!
— Oh, Armando... — os lábios de porcelana dela roçaram com uma febre desesperada nos lábios carnudos dele. — Como eu queria... como eu queria com todas as forças do meu corpo que fosse você o meu noivo legítimo nesta fazenda...
Armando Mendoza fechou os olhos de suetão, o peito dando um tranco dolorido, e a apertou contra si com uma urgência brutal. Como ele daria tudo o que tinha no mundo para que aquela jura fosse a realidade! Como ele gostaria de ser mais jovem para fugir com ela, ou quem sabe que ela fosse mais velha e ele não estivesse completamente encurralado e comprometido com a ruína de seu pai.
No meio daquela penumbra e do desespero da despedida, o desejo carnal e a luxúria reprimida explodiram entre os dois em alta voltagem. Eles se abraçaram com mui intensidade na cama de solteiro e começaram a se beijar com uma vontade selvagem, as línguas se encontrando e explorando a intimidade com uma sede que os castigava há semanas. Armando perdeu as rédeas do juízo; enfiou as mãos grandes e calejadas por baixo do hobby de seda dela e passou a acariciar a pele alva daquele corpo de boneca com total possessividade. Betty sentiu o seu corpo inteiro estremecer e queimar sob o toque másculo do caubói. Os dois aprofundaram o beijo, os corpos suados colando-se inteiros, e deitaram-se na cama, com o Armando cobrindo o corpo dela na penumbra.
Armando estava com a virilidade completamente dura e pulsando de excitação contra o quadril dela, mui excitado. Betty percebeu o tamanho do desejo de homem dele e, embora fosse uma menina virgem e pura, não queria de jeito nenhum interromper o ato; o seu corpo de clamava por aquela entrega, ela queria ser dele ali mesmo na calada da noite.
— Eu te amo, Armando... eu te amo com a minha alma! — sussurrou ela contra a boca dele, arfando de febre. — Me faça a sua mulher agora mesmo nesta cama! Me tome!
A palavra "mulher" e o pedido de entrega funcionaram como um choque de realidade na mente torturada de Armando. O freio moral do caubói travou os seus músculos no susto. Ele interrompeu o amasso de suetão, afastando o corpo dela com os braços trêmulos de nervoso.
— Não!... Isto está muito errado, Betty! — Armando exclamou, a voz rouca e trêmula, tentando recuperar o ar. — Você... você ainda é uma menininha inocente na minha frente, e eu sou um homem feito, rodado no mundo! Eu não posso fazer uma baixeza dessas contigo debaixo do teto do meu pai! Eu prometi ao Seu Hermes que ia te proteger de todo o mal... e eu não sou um canalha sem honra como o Daniel Valência para tirar proveito do seu desespero! — ele disse, dando-lhe um último beijo terno e desesperado na testa.
— Mas eu quero ser sua, Armando! Eu quero que você seja o meu primeiro homem! — ela implorou, segurando o poncho dele.
— Não, Betty! Agora não! Eu jurei te proteger e vou cumprir a minha palavra de homem da terra, nem que isso custe o meu próprio juízo!
Tomado pelo pânico de perder o controle e possuí-la ali mesmo na marra, Armando Mendoza levantou-se da cama num salto e saiu correndo desesperado de dentro do quarto de hóspedes, batendo a porta atrás de si e deixando Betty sozinha na penumbra, flutuando em um mar de dúvidas e desejos.
Beatriz deitou-se de costas no colchão, olhando para o teto colonial. Mas, para a sua própria surpresa, ela não chorava mais. O pavor do Daniel havia sumido; agora só restava o fogo da fêmea no seu peito.
— Ele quase foi meu... por mui pouco ele não me fez dele — sussurrou ela para o quarto silencioso, tocando a própria pele alva. — Eu ainda consigo sentir perfeitamente o aroma de suor dele impregnado na minha pele... Eu senti o tamanho do desejo de homem dele por mim, eu vi como ele devorou a minha boca com fome! Eu jamais, em toda a minha existência, vou me entregar ou dar a minha pureza para o Daniel Valência... A minha primeira vez pertence ao Armando Mendoza! Eu quero que ele seja o meu primeiro homem nesta vida!
Betty cheirou a própria pele do braço, fechando os olhos arrepiada, e passou os dedos delicados nos lábios carnudos que ainda ardiam pelo amasso.
No quarto ao lado, trancado em seus próprios aposentos, Armando Mendoza também andava de um lado para o outro feito um louco varrido, puxando os cabelos com fúria de si mesmo.
— O que eu ia fazendo naquela cama? O que eu ia fazendo, meu Deus?! — praguejou ele em voz baixa, trêmulo de frustração carnal. — Você não pode cometer um pecado desses com a Beatriz, Armando! Ela é uma menininha inocente, uma moça pura da família! Você sempre cuidou dela desde moleca, ela confia cegamente na sua proteção de irmão! Você não pode trair a confiança do Seu Hermes dessa forma nojenta! Mas meu amigo... — Armando abaixou os olhos e olhou diretamente para aquela parte de sua anatomia que continuava completamente ereta, dura e pulsando de desejo por trás do pijama de algodão. — ...como aquela menina consegue te excitar desse jeito selvagem! Será que o safado do Calderón tem toda a razão do mundo e eu estou enfeitiçado? Não! Como eu posso dar ouvidos às bobagens de rumba do Mário Calderón?! Isto é mui errado... é um pecado terrível sentir este tipo de fogo pela Betty!
Armando tentou fechar os olhos e forçar a sua mente a lembrar de Betty tal como ela era na infância, desajeitada e de maria-chiquinha, para ver se o desejo sumia... mas foi um fracasso total. A sua mente traiçoeira voava direto para as lembranças dos beijos quentes na varanda, os mergulhos molhados no rio, o tecido do vestido de chita marcando os seios redondos dela sob o sol e aquele sorriso possessivo confiante dela.
Sem conseguir tirar a doçura da amora silvestre da cabeça e com o corpo queimando de necessidade carnal, o caubói deitou-se na cama e começou a se alisar devagar por cima do pijama, buscando um alívio urgente para aquela febre que o castigava, gemendo o nome dela na escuridão do quarto.
No quarto ao lado, deitada nas cobertas, Betty compartilhava da mesmíssima agonia.
"Que raiva imensa de ser apenas uma menina pura aos olhos dele!", pensava ela, o corpo ardendo. "Se eu já fosse uma mulher rodada da rumba, mesmo sendo mui jovem, eu poderia provocá-lo com as manhas e ele não teria argumento nenhum no mundo para me dizer não! Mas eu sou virgem... e mesmo sendo o maior mulherengo e garanhão de Quindío, o Armando guarda um freio moral mui rígido que o impede de ceder a esse desejo comigo "
Ela respirou fundo na penumbra, o corpo febril.
"Se eu já fosse uma fêmea feita, pelo jeito selvagem com que ele devora a minha boca, ele já teria me despido e me feito dele há mui tempo nesta fazenda... Mas não, sabendo que eu sou purinha e virgem, ele não vai ter a coragem de avançar o sinal por respeito. Mas que bobagem estou dizendo aqui sozinha? O único homem na face da terra para quem eu aceitaria me entregar e dar a minha pureza seria ele, o meu Armando Mendoza! Esse arriero mui forte mexe com os meus hormônios de um jeito que me tira todo o juízo... Eu sei perfeitamente bem que ele é um mulherengo sem remédio, ou ... talvez ele faça toda essa gandaia com as peoas apenas para manter-se livre desse cabresto do noivado com a Marcela. Talvez a mulher certa ainda não tenha cruzado o caminho dele nesta vida, exatamente como a mamãe contou que aconteceu com o passado do Seu Roberto... e ele continua apenas se divertindo com as mulheres erradas da rumba. Mas e você, Beatriz Aurora? Você aceitaria se entregar para ele sabendo que corre o risco de ser apenas mais uma saia na coleção do patrão?"
Betty sentiu um arrepio violento e gostoso percorrer o corpo inteirinho ao fazer a pergunta para si mesma. A resposta nasceu na sua alma com a força de um raio:
"Sim!... Eu aceitaria de olhos fechados!", decretou ela para o quarto escuro. "Antes ser apenas mais uma na vida do meu Armando do que ser a esposa de fachada e o desfrute daquele monstro do Daniel Valência!"
Tomada por aquela certeza e sentindo o seu quadril queimar de necessidade, Betty enfiou as mãos macias por baixo da camisola e passou a se alisar mui devagar nos seios redondos e no ventre, fechando os olhos de café e imaginando com total nitidez que eram as mãos grandes, calejadas e fortes de Armando Mendoza que a tocavam com aquela posse selvagem na escuridão. O seu corpo de Rainha Paisa estava mui molhado de desejo; ela precisava urgentemente daquele alívio carnal, revivendo em pensamento cada um dos beijos ardentes e dos amassos que haviam trocado escondidos debaixo do pé de manga.
— Ai, Armandinho... meu caubói... — ela gemeu baixinho contra o travesseiro, o corpo arqueando na calada da noite.
Assim, os dois amantes secretos, cada um trancado no seu próprio quarto do casarão principal, pensavam puramente no corpo do outro no meio da madrugada de Quindío. Sentiam em si mesmos cada carícia, cada toque e cada febre que gostariam de estar desfrutando nos braços fortes do outro, sem mais conseguirem reprimir o feitiço que os unia.
— Armando!... — Betty sussurrou para o teto, exausta, alcançando o seu alívio.
— Betty!... — Armando arfou no seu aposento, limpando o suor da testa com o braço, sentindo o peso do remorso esmagar o seu peito de homem feito. — Valha-me Deus, eu não poderia estar sentindo este tipo de luxúria por ela... Por que você tinha que voltar desse jeito tão deslumbrante para a minha vida, Beatriz? Você é tão formosa... mas é tão pura que me corta todas as forças de homem!
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