Horas mais tarde, na trilha que levava até a escolinha dos peões, o sol de Quindío brilhava forte entre as folhas dos cafezais. Armando guiava o cavalo devagar ao lado dela.

— Espero de todo o coração que você não esteja mais tão chateada ou com raiva de mim por causa de ontem, Betty — disse ele, quebrando o silêncio.

— Só um bocado chateada, caubói... mas no fundo eu te entendo — ela sorriu, com o seu riso de ojojo. — Um homem forte e vigoroso como você deve ter os seus desejos de carne, é natural...

— Betty, eu juro que...

— Shiu... não quero mais escutar nenhuma palavra sobre esse assunto, Armando. Pouco me interessa ou me importa o que a Senhorita Marcela Valência faz no seu quarto! — cortou ela, puxando o lenço do pescoço dele e selando os seus lábios em mais um beijo ardente no meio do caminho.

Armando fechou os olhos e correspondeu com desespero, apertando a cintura fina dela contra a sela com uma posse selvagem que demonstrava quem era o verdadeiro dono daquele território.

— Vamos continuar cavalgando juntos até a porta da escolinha, Betty? — perguntou ele, colando a testa na dela.

— Se o meu caubói prefere assim... nós podemos mui bem ir caminhando devagar para prolongar o chamego.



Enquanto isso...

Daniel Valência olhava para as cópias daqueles relatórios antigos e abria o seu sorriso mais cínico e triunfante. Desde que havia descoberto a pista daquele mistério na Capital, o que antes era apenas um simples capricho carnal havia se tornado a prioridade absoluta de sua vida. Silenciosamente, tornou a guardar os documentos na maleta trancada de seu armário e partiu direto para o seu destino de gandaia: a Fazenda Mendoza. No entanto, o seu real interesse ali não era falar com nenhum membro daquela família que ele considerava intragável; seu objetivo era ter uma prosa mui séria com o caseiro, o Seu Hermes.

— Espero de todo o coração que tenha se convencido, Senhor Pinzón, de que eu sou a melhor e mais honrada opção para o futuro da sua filha! — disparou Daniel, ajeitando o paletó cinza na varanda.

— Sim... eu creio que sim, Seu Daniel — respondeu Hermes, embora com uma ponta de incerteza na voz de trabalhador.

— Sou um homem de posses, inteligente, com diploma de respeito da Capital e, como o senhor bem sabe, ainda estou sozinho no mercado. E a sua filha... a sua filha Beatriz se tornou uma moça mui interessante para os meus olhos.

— Veja mui bem, Senhor Valência... o único problema prático é que eu realmente não sei como dizer isto para a minha filha. A Beatriz não é uma moça comum de rédeas, ela tem o gênio mui forte.

— Ora, Hermes, tenho a certeza absoluta de que o senhor sabe usar as suas armas de autoridade paterna.

— Pois bem... Creio que em um jantar reservado na nossa casinha das fundos será mui melhor para tratarmos disso.


Lá nos fundos, a Dona Júlia mal podia acreditar que teria que preparar um banquete de pressa para receber um membro da orgulhosa família Valência debaixo do seu teto de colono, desconhecendo por completo as reais segundas intenções de seu marido. Ela sabia mui bem que a filha não suportava nem ver a sombra daquela linhagem esnobe na fazenda.

— Mas para que tanto prato e tanta comida na mesa, Hermes? — questionou a mãe, limpando as mãos no avental.

— Iremos receber um convidado mui especial hoje à noite, Júlia! É o dever da fidalguia!

— Especial? Mas ave maria, quem é o vivente?

— Isto é uma surpresa de respeito! A senhorita irá saber exatamente quando o homem cruzar a soleira da porta — intrometeu-se o pai, olhando para Betty que ajeitava os talheres.

— Não vai me dizer que o senhor está de novo com esses planos antiquados de arrumar noivado para mim, papai? — Betty franziu a testa, desconfiada. — Eu já lhe disse mil vezes que sou mui nova para pensar em casamento!

— Que bobagem é essa, Beatriz Aurora? A sua Tia Maria casou-se na tradição com apenas dezesseis anos de idade!

— Eram outros tempos, papai! Hoje em dia, as moças de bem só aceitam o altar depois de se formarem e estudarem na universidade!

— Pois tenho a certeza absoluta de que o seu distinto noivo terá um imenso prazer em ter uma esposa inteligente e culta ao lado, pois ele mesmo é um homem de posses, de linhagem e mui instruído nos números!

— Esposa?! Mas quem diabo é esse sujeito de quem o senhor fala com tanto orgulho, papai? — Betty cobriu a boca, o coração dando um solavanco de susto.

— No jantar você irá saber de tudo! Ah, escute o barulho do carro... deve ser ele que chegou. Atenda a porta de pressa, Júlia!

Betty travou no lugar, sentindo o sangue congelar nas veias. Ao abrir a madeira, ela não podia acreditar que bem diante de sua cara estava o homem que ela mais odiava na Colômbia inteira: ninguém menos que o cínico do Daniel Valência. E o pior de tudo era perceber que o tal "noivo misterioso" de quem seu pai falava com tanto orgulho caipira era ele! Para a mentalidade ingênua e cega do Seu Hermes, o Daniel era o exemplo vivo de um homem honesto, cavalheiro e fidalgo, ainda que pudesse parecer um bocado seco e direto demais às vezes com os funcionários. Mas o Daniel não era nada do que o seu pai imaginava, e Betty sabia mui bem do veneno dele.

Durante o jantar, o jogo de cinismo era jogado com cartas marcadas.

— O pedido oficial de casamento, por uma questão de honra, deverá ser feito diretamente pelo meu pai, o Sr. Júlio Valencia — explicava Daniel, saboreando a comida com nojo. — Nós somos uma família tradicional de Quindío, Senhor Pinzón.

— Claro, claro, Seu Daniel! Compreendo perfeitamente o respeito das classes — concordava Hermes, lisonjeado, sem sequer esperar a reação da filha.

— É uma pena mui grande que o meu tio-avô Lázaro Pinzón esteja doente na Capital... — interveio Betty, com a voz carregada de uma ironia cortante. — Ele gostaria imensamente de estar presente aqui no pátio para ver esse milagre de perto, ojojo!

— Seria uma honra conhecer seu tio, Beatriz! Seu pai já me falou bastante dele. Melhor não incomodarmos o idoso com essas viagens longas de jipe se a saúde dele anda mui debilitada, Beatriz — Daniel rebateu com total suavidade, o sorriso cínico intacto.

— O senhor por acaso já conhece a história de vida do meu Tio Lázaro, Senhor Valência? — Betty arqueou a sobrancelha, provocativa.

O Seu Hermes, orgulhoso do sangue, adiantou-se e começou a contar em detalhes as velhas memórias de Bogotá. Aproveitando a distração da prosa, Betty e Dona Júlia olharam uma para a outra em total cumplicidade e recolheram-se para o cubículo da cozinha, com o pretexto urgente de lavar as panelas e os pratos vazios.

— Eu juro pelo sagrado que eu não sabia de nada, Bettica! — cochichou a mãe, aflita, benzendo-se com o pano de prato. — Eu não fazia a menor ideia de que o seu pai tinha a intenção cega de casar você com esse homem dos Valência!

— Ai, mamãe... eu detesto esse sujeito com todas as forças do meu peito! Ele é um monstro!

— Mas filha... por acaso você não estava de passeio com ele de barco lá no lago outro dia? O povo viu!

— Aquilo foi um erro terrível que eu cometi, mamãe! Um delírio! Eu nunca, jamais devia ter dado assunto ou confiança para este senhor!

Minutos depois, o Seu Hermes foi até a despensa buscar uma garrafa de licor para celebrarem o acordo de cavalheiros na mesa. Daniel aproveitou o silêncio e aproximou-se da pia da cozinha, encostando-se no portal com deboche.

— Ufa... finalmente aquele velho parou de falar das histórias do interior — desabafou Daniel, olhando para as curvas de Betty por trás do tecido do vestido.

— Pois fique sabendo, Daniel, que o meu pai tem muito mais relatórios e histórias para contar sobre o Tio Lázaro se o senhor quiser ouvir! — Betty sibilou com desprezo, batendo um prato na pia.

— Ah, mas eu estou completamente pronto para ouvir todas elas, minha querida noiva! — riu o vilão, com os olhos brilhando de ganância.

— Por que você está nessa farsa de querer se casar comigo de jeito nenhum, Valência? Qual o seu plano? Não vá me dizer que é por amor, porque eu não sou boba!

— E por que você não pensaria que é por amor, Beatriz? — Daniel deu um passo à frente, diminuindo a voz para que Dona Júlia não escutasse no canto. — Primeiro... há a questão do desejo. Eu sinto o aroma desse seu corpo e quero ser o primeiríssimo homem a colher e a beliscar essa fruta madura. E segundo... porque o seu nome me interessa muito nos negócios. É uma prioridade de mercado.

— O senhor... um homem de posses, rico por demais e herdeiro da Ecomoda, quer se casar de livre vontade com uma mulher como eu, a filha dos empregados da fazenda? Conta outra, Valência!

— Não venha se fazer de humilde ou de coitada da roça na minha frente, Beatriz Pinzón! Eu conheço mui bem o tamanho das suas ambições de estudante e sei o quanto você é inteligente!

— Pois já que o senhor me acha tão inteligente assim... fique sabendo que eu não vou descansar um único segundo enquanto não descobrir o motivo real pelo qual você quer colocar as garras no meu sobrenome!

— Esteja totalmente à vontade para investigar, minha querida noiva — debochou o cínico, ajeitando a abotoadura. — Mas antes que você consiga desvendar qualquer linha desse mistério, você já estará devidamente casada de papel passado, trancada no meu quarto e se entregando inteirinha nos meus braços como a minha adorada e submissa esposinha.

Betty sentiu um asco violento subir pela garganta, o estômago revirando de puro nojo perante aquela audácia. Ela o odiava com um ódio mortal. Teve uma vontade louca de gritar e contar ali mesmo para o Seu Hermes o abuso que Daniel havia tentado cometer contra o seu corpo no meio do lago da fazenda, quando tentou agarrá-la à força no barco. Mas a sua mente analítica a travou: ela conhecia perfeitamente a mentalidade machista e severa de seu pai. Hermes estava tão encantado com a fidalguia e os elogios daquele homem rico que não acreditaria na palavra dela; e se por acaso acreditasse, ainda iria culpar a própria Betty por ter aceitado a imprudência de ir passear sozinha no rio com um homem feito da cidade grande. E se não bastasse, Hermes ainda a questionaria com rigidez por que ela não havia relatado a agressão na mesma hora do ocorrido. Betty se arrependia amargamente de ter guardado aquele segredo.

A única solução prática foi engolir o pranto, esperar o jantar dos cínicos terminar com os brindes e correr para desabar no travesseiro do sofá para chorar na escuridão. Ela precisava urgentemente contar tudo o que estava acontecendo para o Armando Mendoza. Quem sabe juntos, com a força do amor secreto deles, eles não encontrariam uma solução de homem para chutar o Valência dali.

_____


No dia seguinte, a discussão explodiu com fúria na casinha dos funcionários assim que o Daniel foi embora.

— Mas papai! O senhor não sabe o absurdo que está falando nesta mesa! Esse Senhor Valência não é flor que se cheire em canto nenhum da Colômbia! Até os patrões Mendoza dizem que ele é um sujeito perigoso e sem escrúpulos!

— Beatriz Aurora, cale a boca! Eu já te ordenei mil vezes para não se envolver nos assuntos de interesse dos patrões da fazenda! — esbravejou Hermes, batendo o punho na mesa de madeira.

— Mas eles não são os nossos donos, papai! E além do mais, eu não trabalho como empregada na lavoura nem dos Mendoza e nem de ninguém! Eu sou livre!

— Como não trabalha aqui, menina?! E os afazeres da escolinha rústica onde você passa os seus dias?

— Eu dou o reforço letivo para as crianças como uma caridade voluntária, papai! Mas em breve eu estarei de mala pronta e de volta para terminar os meus estudos na faculdade da Capital!

— Isto é se eu permitir que você pegue aquele jipe de linha, Beatriz! — decretou o caseiro, irredutível.

— O quê?! — Betty arregalou os olhos, em choque completo. — O senhor quer dizer então que não quer ver a sua única filha estudada e formada com um diploma superior na mão?

— Claro que quero, minha filha! Deus me livre do contrário! — ponderou Hermes, suavizando o tom por um breve segundo. — Eu me orgulho imensamente de ver que a minha filha aprimora a inteligência nos livros e se mostra ao mundo como uma verdadeira e digna Pinzón! Mas nós não devemos de jeito nenhum desprezar as bençãos e as oportunidades que a vida está jogando no nosso terreiro, menina. Eu nunca, jamais na minha vida de trabalhador imaginaria que um homem poderoso como o Daniel Valência fosse demonstrar interesse sincero por você, filha! Um sujeito bem apessoado, distinto, rico por demais, educado nos modos e sincero na fala. Um homem de bem legítimo!

— O senhor está completamente enganado, pai! O senhor não está falando do Daniel Valência de verdade! O senhor não conhece o caráter daquele monstro! Ele é um canalha completo!

— Não se atreva a repetir uma calúnia dessas de um homem de bem como o Senhor Valência debaixo do meu teto, Beatriz Aurora! — Hermes levantou-se, apontando o dedo com severidade.

— Pois eu falo e repito quantas vezes for necessário, papai! Canalha, ordinário, falso, aproveitador e mentiroso de marca maior! — gritou ela, o orgulho de Rainha Paisa explodindo.

— Não me faça perder as rédeas da minha paciência de pai, Beatriz, ou eu vou ser obrigado a fazer contigo agora o que eu deveria ter feito mui mais vezes no passado! — ameaçou o caseiro, a voz rústica vibrando nas paredes.

— O quê? O senhor vai voltar a me bater com a correia de cinta no meio do pátio, papai? Como o senhor fazia quando eu era apenas uma moleca desajeitada na infância? Vá em frente!

— Beatriz Aurora! — Hermes travou o maxilar, o rosto vermelho. — Eu fiz uso daquela cinta uma única vez na sua vida inteira por causa de uma desobediência grave!

— Duas vezes, papai! Duas! E pelo visto o senhor deveria ter feito muito mais vezes! Assim, hoje você não estaria me respondendo com essa insolência de cachaca da cidade grande!

— Papai... escute com atenção — Betty abaixou o tom, tentando apelar para a razão do velho. — Eu sei mui bem o quanto eu te respeito como meu pai, mas é o cúmulo do absurdo que o senhor queira decidir em um papel com qual homem eu devo namorar ou me deitar! Nós estamos no final do século XX, papai! Esse negócio de casamento consertado e arranjado pelas costas está completamente ultrapassado no mundo moderno!

— Pois fique sabendo que o menino Daniel Valência é um jovem moderno da Capital e concorda plenamente com as minhas visões de respeito à família! — rebateu Hermes, irredutível.

— Mas é lógico que ele concorda, papai! Porque a sua ingenuidade convém perfeitamente aos planos e interesses dele!

— E por que você guarda tanta implicância crônica e tanto ódio contra o rapaz, Beatriz? Me diga o motivo real!

Beatriz abriu a boca, a jura da verdade quase escapando pelos dentes. Queria gritar que o Daniel havia tentado agarrá-la à força no barco, que tentou beijá-la no meio do lago deserto e fazer não sabe que tipos de nojeiras com o seu corpo... Mas o pavor crônico da reação machista de Hermes falou mais alto na sua mente. Do jeito que o seu pai estava completamente inclinado a acreditar cegamente em cada palavra polida de Daniel, ela tinha a certeza de que o caseiro acabaria acreditando na farsa do vilão e pensando que a própria Betty havia dado algum tipo de liberdade ou permissão para o avanço no rio. E caso ele aceitasse a verdade da filha, ainda iria esmagá-la com cobranças severas, questionando por que ela havia guardado aquela sujeira em segredo por tantos dias sem relatar na ocasião. Agora, na solidão da casinha, Betty se arrependia amargamente de não ter gritado o abuso para toda a fazenda no primeiro dia.

— Diga-me de uma vez, Beatriz Aurora! O que você tem de tão grave contra o Senhor Valência? — insistiu o pai, batendo o pé.

— Além de ele ser um mulherengo incorrigível que não respeita saia nenhuma na cidade grande, ele é um grosso arrogante, papai! Ele e os amigos dele passavam os dias rindo e tirando sarro da minha cara nesta fazenda quando eu era a menina feia da maria-chiquinha! O senhor não lembra?

— Quem passava os dias rindo de você, menina? Quem?

— Ora... o Mário Calderón, o Freddy, todo o mundo!

— E por acaso esses rapazes continuam achando que você é feia hoje em dia, Beatriz?

— Não... — ela confessou, abaixando os olhos. — Agora que eu voltei resolvida da Capital, não acham mais.

— E o menino Valência também continua rindo e tirando sarro de você hoje em dia, por acaso?

— Não mais... ele não faz isso.

— Pois você vê como eu tenho toda a razão do mundo, Beatriz Aurora?! — comemorou o Seu Hermes, com um sorriso de vitória na mesa. — O rapaz mudou com a idade! Era apenas tolice de menino novo que corre pelos estábulos! Agora, muito mais maduro e sensato, ele reparou na beleza limpa que você tem e quer consertar os erros do passado como um legítimo cavalheiro faz! No fundo do peito, ele deve guardar um sentimento mui sincero de amor por você para vir até aqui pedir a minha permissão de pai para te cortejar e namorar!

Betty sentiu um nojo profundo subir pelo peito ao ouvir a palavra "amor" associada ao urubu.

— Eu não quero namorar com o Daniel Valência de jeito nenhum, papai! Entenda!

— Pois você vai ter a decência de dar uma chance para o rapaz demonstrar as boas intenções dele, Beatriz! É a minha ordem!

— NÃO! — Betty gritou, o coração rasgando.

— BEATRIZ AURORA, NÃO OUSE LEVANTAR O TOM DE VOZ E GRITAR COM O SEU PAI NESTA MESA! — Hermes berrou de volta, a autoridade de patriarca subindo ao limite.

— Papai... por favor... eu não posso namorar e me prender a um homem de quem eu não gosto! É a minha vida!

— Vocês, jovens modernos de hoje em dia, acham que o mundo é uma rumba sem regras... E por acaso, Beatriz... por acaso você já gosta de algum outro rapaz desta região em segredo? Me diga!

— Er... — Betty travou a língua na hora. A imagem dos lábios carnudos de Armando Mendoza e o calor do beijo molhado do rio invadiram a sua mente com uma força avassaladora. Mas ela engoliu o nó do segredo proibido e mentiu com os olhos cheios de lágrimas: — Não, papai... Eu não gosto de ninguém por aqui.

— Pois então, já que o seu coração está livre e desocupado de sentimentos, você vai dar uma chance de cortejo ao menino Valência sim senhora!

— Não, papai! Eu não vou aceitar!

— Pois dê uma chance para ele ou você já sabe muito bem o que vai te acontecer, Beatriz Aurora! — ameaçou Hermes, com o semblante gélido.

— O quê, papai? O que o senhor vai fazer comigo?

— Eu não permitirei de jeito nenhum que você pegue as suas malas e volte para terminar os seus estudos e a sua faculdade na Capital, Beatriz! Você vai ficar plantada aqui na roça sob a minha vigilância!

— Papai! O senhor não pode cometer uma injustiça dessas com o meu futuro! — Betty desabou em prantos.

— Sabe mui bem que para viajar e se matricular em Bogotá você depende estritamente da minha autorização assinada de pai e, sobretudo, do dinheiro vivo que eu preciso pedir empregado de adiantamento para o Seu Roberto Mendoza para pagar a sua pensão! Se você se recusar a receber o Daniel, eu não assino papel nenhum e não peço um centavo de empréstimo aos patrões! Você fica na fazenda!

Beatriz sentiu o peito sufocar de tanta dor e humilhação. Queria correr, gritar e chorar todas as lágrimas do mundo, mas o orgulho das Pinzón a impediu de desabar na frente da tirania do pai. Ela virou as costas em silêncio e correu para o quarto de cima do casarão para se trancar.


O Seu Hermes era um homem mui machista e tradicional em suas visões de mundo. Ele sempre guardara o sonho antigo de ter tido um filho homem para carregar o seu nome pela lavoura, mas a sua esposa Júlia havia sofrido muito com a saúde na juventude e perdido três gestações seguidas na roça — uma das crianças, inclusive, nem sequer havia chegado a nascer. De modo que, na quarta tentativa de gravidez, que resultou no nascimento de Beatriz, Hermes havia prometido de joelhos perante Deus que aquela filha seria tudo o que ele sempre sonhara para o orgulho da família.

Infelizmente — ou felizmente para o destino —, nascera uma menina. Então, na mentalidade rígida do caseiro, ela teria que cumprir em dobro o destino dos Pinzón: seria uma brilhante e culta economista e administradora, seguindo os passos de prestígio do tio-avô Lázaro Pinzón e do avô antigo. O próprio Hermes era mui bom com a matemática e com os números da colheita, mas nunca havia tido a oportunidade de estudar formalmente em uma escola de verdade na infância, devido a problemas crônicos de saúde que o impediram de frequentar as aulas regularmente quando era moleque.

Por isso, ele havia prometido que o seu sangue alcançaria o topo. Mas como só tinha a Beatriz, decidiu em suas regras que ela faria as duas coisas do mundo: seria uma brilhante acadêmica formada na universidade da Capital e, ao mesmo tempo, seria uma excelente e devotada esposa e mãe de família, casando-se com um homem mui bem situado na vida — não necessariamente um herdeiro rico por demais, mas que fosse educado, distinto e inteligente o suficiente para compreender que a sua filha também tinha o direito de ser culta, instruída e portar um diploma de doutora.

Para a visão cega e ingênua do caseiro Hermes, o Daniel Valência preenchia cada um desses requisitos de ouro com total perfeição. E se aquele homem poderoso da Ecomoda estava verdadeiramente interessado em cortejar a sua filhinha... ele iria usar até a última gota de sua autoridade e tirania de pai para unir os dois no altar de Filandia de uma vez por todas.

Assim, mesmo com todo o nojo, o desespero e o incômodo terrível de Beatriz, o cínico do Daniel Valência passou a ser uma visita constante e oficial na casinha dos Pinzón a cada final de tarde.

No entanto, a mente de Betty não ia se entregar tão facilmente àquela armadilha de casamento por obrigação. Enquanto chorava abafada contra o travesseiro de penas no quarto de cima, uma resolução perigosa e mui esperta nasceu no seu coração de Rainha Paisa.

— O Daniel acha que ganhou o jogo com a ingenuidade do meu pai... — sussurrou ela para a penumbra, limpando as lágrimas dos olhos com fúria, com um brilho indomável surgindo no olhar. — Mas ele cometeu um erro de cálculo terrível. Eu vou vasculhar esta fazenda de ponta a ponta, vou encontrar as cópias daquelas escrituras do Tio Lázaro e eu mesma vou pegar o jipe de linha e fugir para a Capital de madrugada para averiguar o que esse urubu está tramando por trás desse noivado! Ele não vai tocar no meu corpo, este como seu coração, já tinham dono.