Beatriz havia ficado ainda mais animada e com o coração quentinho após conhecer melhor os seus novos alunos da roça. Entre eles, estavam os próprios peões Wilson e Freddy, que viam naquele projeto de alfabetização a única possibilidade real de continuarem a estudar — embora, no fundo do peito, ambos achassem que nunca teriam a menor chance de bater as canelas e sair dali de Quindío. Nos cantos do pátio, os outros rapazes adolescentes comentavam, maravilhados, que aquela escola rústica da Fazenda Laços devia ser muito melhor que as faculdades chiques da Capital. Afinal, diferente daquelas professoras carrancudas e de óculos que eles viam nas novelas da televisão, as dali eram jovens, cheirosas e mui bonitas!

Por outro lado, as peoas da colheita e as filhas dos fazendeiros vizinhos passavam o dia suspirando, como sempre faziam, pelo "Professor" Armando. O herdeiro, ao contrário de quando fazia o serviço pesado no campo — onde andava sem camisa sob o sol escaldante, exibindo toda aquela musculatura exuberante e suada que deixava as moças tontas —, na escola agia com total fidalguia. Usava sempre uma camisa quadriculada de mangas longas, calça jeans bem assentada e um par de óculos de leitura. Armando talvez nem precisasse daqueles graus, mas a armação ajudava a lhe conferir um ar intelectual de doutor da cidade grande. E Betty, como não mudava nunca, passava as horas suspirando pelos cantos por ele.

"Meu Deus... Ele fica tão divino de óculos quanto sem eles", pensava ela, ajeitando os cadernos na mesa com as mãos trêmulas de admiração. "Além de másculo, forte e com aquele porte de arriero, ele ainda é inteligente por demais. Realmente, eu não posso com as investidas que este homem dá no meu juízo! Se pelo menos ele sentisse um pingo de desejo de homem por mim... Mas não, ele só me vê como uma menininha indefesa, como se eu fosse a Camila, a irmãzinha dele. Se eu tivesse a mínima chance, faria correndo aquilo que a Aura Maria me disse em Bogotá, mas como? Como?"


Quem não gostava nada, mas nada mesmo daquela agitação toda era a loira Karina. Ela já havia escutado muito bem o que os adolescentes e os homens da região andavam dizendo pelos estábulos sobre a nova professora da Capital, e o seu orgulho de rainha da roça havia sido ferido. Antes da chegada de Beatriz, todos os suspiros e galanteios da fazenda eram guardados puramente para ela, já que a outra professora concursada, a Dona Sofia, era uma senhora mais velha e havia se afastado por licença-médica.

Karina sabia muito bem que a nova rival era amiga de infância do patrãozinho. E ao reparar nos olhares profundos que Betty lançava sobre as costas daquele homem que ela considerava seu — apesar de saber muito bem que o Mendoza era comprometido de família para casar —, a loira sacou a charada na hora. Aquela "menininha doce, pura e inocente" que o Seu Hermes vendia perante os patrões não era nada disso: Beatriz era perigosa, muito perigosa. Talvez mais perigosa que a própria noiva Marcela Valência e que as outras mulheres com quem Armando costumava ter suas noitadas de prazer na rumba. Afinal, o próprio Armando a havia trazido pelos braços para dar aulas ali do seu lado.



Algumas semanas se passaram e, alheia a toda aquela guerra fria de olhares, Betty sentia-se na glória. Estava feliz por dar aulas para aqueles jovens entusiasmados em aprender, comovida com as crianças sonhadoras e, o melhor de tudo, realizada por trabalhar lado a lado com o seu querido Armando. O plano de aulas estava um sucesso e ela passava quase todos os dias trancada na escolinha montando apostilas.

A felicidade era tanta que Betty já estava decidida a tomar uma decisão drástica: ia trancar um semestre inteiro da faculdade de Administração na Capital para passar um tempo a mais em Filandia. Ela sabia que a professora Sofia precisava de mais meses para se recuperar da saúde, e aquelas crianças da colheita não podiam ficar desamparadas, nem se podia deixar todo o fardo nas costas de Armando. Até porque Betty já havia percebido que a Karina apenas cumpria o protocolo de ensinar o que estava rabiscado nos livros velhos, sem o menor interesse de fazer os peões pensarem por si mesmos.

Ele me pediu tanto que eu ficasse mais um tempo com eles...”, refletia ela, com um sorriso sonhador enquanto caminhava pela trilha de terra. “Disse que nós dois poderíamos implantar um projeto real de aprendizagem para os filhos dos peões, e que precisava de mim para dar conta. Um homem forte como ele precisa de mim... Pena que é apenas para a educação, e não para o amor. Mas que seja! Que seja pela pedagogia, o nosso amor em comum. Vou dizer a ele hoje mesmo que vou trancar a matrícula por um semestre para ajudá-lo! Já conversei com a Dona Catalina Angel e ela me deu o apoio. Meus papais também vão ficar radiantes com a notícia, eles queriam tanto que eu passasse uns meses com eles após cinco anos longe.”

Ainda mais porque o Seu Hermes havia lhe pedido, quase com lágrimas nos olhos, que ela passasse o seu aniversário de dezoito anos junto deles na fazenda, já que desde os seus treze anos eles não comemoravam a data sob o mesmo teto. Betty estava animada por demais; queria dar a notícia em primeira mão para o Armando. Ela sabia que ele sempre chegava mais cedo na cabine da escola para programar as lousas e organizar as giz, pois já haviam feito vários planejamentos de aula juntos naquela mesa de madeira rústica. Só esperava encontrá-lo ali, sozinho. As aulas com os peões só começavam às quatro da tarde, e o relógio de bolso do pai marcava pouco mais de três horas.

Assim, Betty foi caminhando e sorrindo sob o sol de Quindío até a cabana de madeira que estava sendo usada provisoriamente como escola, enquanto o casarão definitivo passava por reformas. Ao colocar os pés no pátio de terra batida, no entanto, ela surpreendeu-se ao encontrar Freddy plantado bem na porta da cabana, andando de um lado para o outro de forma mui suspeita


— Oi, Freddy! Boa tarde! — cumprimentou Betty, ajeitando a saia do vestido.

— Ave maria! Oi, professora Beatriz! — exclamou Freddy, dando um pulo para trás no susto, tirando o sombrero às pressas. — A senhorita está mui bonita hoje, hein? Um verdadeiro colírio para os olhos deste peão!

— Grata pelo elogio, Freddy!

— Perdão, mas desculpe-me o mau jeito, Betty... mas é que nós, os homens da colheita, nunca, jamais esperávamos que aquela menininha desajeitada fosse se tornar uma moça tão linda e vistosa!

Ojojo! — Betty soltou a sua risada típica da Capital, arrumando os óculos. — Realmente, não dava para imaginar que uma menina que todos diziam ser tão feia e horrorosa ficasse assim, não é?

— Ah, me desculpe por tudo o que nós te dissemos no passado, professora... Éramos apenas um bando de moleques bobos e sem juízo que corriam pelos estábulos! — o capataz pediu, com o rosto vermelho de vergonha.

— Tudo certo, Freddy. O passado passou. Só estude muito, preste atenção nas minhas aulas e tudo ficará bem. Eu te perdoo de coração! — ela sorriu, dando um passo na direção da entrada. — Agora me dê licença, preciso entrar.

— Não! — Freddy deu um passo à frente de suetão, abrindo os braços e bloqueando a porta de madeira com o corpo. — Aonde a senhorita pensa que vai com tanta pressa, professora?

— Ora, entrar na escolinha, Freddy! Eu dou aulas aqui dentro, lembra? Ojojo!

— Não, Betty... olha... não convém entrar aí agora de jeito nenhum! Está tudo mui sujo por dentro, uma poeira que só vendo! É melhor a senhorita não entrar para não estragar esse seu vestido chique de cachaca!

— Mas isso é mais um motivo, Freddy! Eu posso limpar tudo e tirar o pó das mesas antes dos alunos chegarem.

— Mas a senhorita é professora fina, não pode limpar o chão e espanar as traves e...

— Ora, você acha que só porque eu tenho estudo e faculdade eu esqueci como se pega em uma vassoura, Freddy? — Betty arqueou a sobrancelha, altiva. — Antes de me formar e ir para Bogotá, eu trabalhei em vários cantos ajudando a minha mãe, inclusive nesta fazenda antes de viajar, não lembra? Fica tranquilo, homi. Eu limpo rápido.

— Eu sei... eu lembro sim... — Freddy gaguejou, limpando o suor da testa com o chapéu, olhando desesperado para a fechadura atrás dele. — Mas o Don Armando... o patrãozinho não vai gostar nem um tiquinho de saber que a senhorita entrou aí na poeira para limpar o chão e...

— Acaso o Armando já chegou? — cortou ela, semicerrando os olhos.

— E... não! Não está! Não chegou vivente nenhum ainda nesta cabana, professora! Está tudo deserto!

No exato momento em que Freddy terminou de soltar a mentira, um ruído nítido e abafado de madeira rangendo e um suspiro sôfrego ecoaram de dentro da cabana, cortando o silêncio do pátio. Betty travou o corpo, aguçando o ouvido.

— E isto? Que barulhos são estes vindo lá de dentro, Freddy?

— Barulho? Que barulho, mamita? Ah! Deve ser a minha tosse! Toss! Toss! Eu não te disse que o ar aqui fora está mui sujo e cheio de poeira da reforma? Toss!

— Não, Freddy. Isso não foi tosse nenhuma — Betty deu um passo à frente, desconfiada, desafiando o bloqueio do peão. — Parecem... parecem gritos abafados, gemidos, não sei bem. Tem alguém aí dentro!

— Ah, sim! Claro! — exclamou o capataz, estalando os dedos, inventando a desculpa mais absurda que encontrou na mente. — Aqui na Fazenda Laços agora tem lobos e tigres selvagens andando pelas plantações de café! Deve ser um bicho desses que entrou pelo telhado!

— Deixe de ser bobo, Freddy! Aqui em Quindío nunca teve lobo e nem tigre dessas espécies!

— É que a senhorita ficou muito tempo afastada na Capital, professora! As coisas modernizaram na roça. Agora tem!

— Isto está esquisito demais... — Betty fincou os olhos nele, séria, cruzando os braços com toda a imponência de quem não ia ser feita de tonta por um capataz. — O barulho vem claramente de trás dessa porta, Freddy! Saia da minha frente!

— Vai ver... vai ver que é uma gravação de rádio que o patrão deixou ligada na tomada! — ele insistiu, suando frio.

— Pois eu vou tirar essa história a limpo agora mesmo! Saia! — Betty estendeu a mão firme e empurrou o ombro de Freddy para o lado, segurando a maçaneta de metal da cabana.

Valha-me Deus... Perdão, professora... mas desculpe-me! Eu juro que tentei avisar! — lamentou Freddy, fechando os olhos e encolhendo os ombros, sabendo que a tempestade ia desabar sobre a Fazenda Laços no segundo em que aquela porta se abrisse.