Casamento por obrigação
7 Capítulo 7
Margarida havia gostado muito que Betty tivesse ficado para dormir no casarão principal. A menina sempre havia sido uma influência excelente para Camila e Armando na infância, devido à sua enorme inteligência e disciplina nos estudos. Agora, a matriarca estava encantada com o quanto Betty havia aprendido de elegância e modos refinados em tão poucos anos morando na Capital. E, à parte disso, tinha que admitir: a filha do contador estava muito bonita, de um jeito que ninguém na fazenda imaginava que ela ficaria. Assim, Margarida não perdeu tempo em puxar conversa com ela logo pela manhã, enquanto servia o café com arepas.
— Beatriz, você pretende voltar para a Capital logo? — perguntou Margarida, preenchendo as xícaras.
— Sim, claro, dona Margarida! Eu apenas iniciei a faculdade por lá. Estou só passando uma temporada de férias aqui para matar as saudades dos meus pais e, claro, dos senhores e da nossa velha fazenda!
Ao ouvir a resposta, Armando abaixou os olhos, sentindo o peito murchar de tristeza. Ele pensou que ela ficaria mais tempo em Filandia. O herdeiro já se sentia solitário demais por não ter outros amigos da sua idade ali na roça além dos capatazes Freddy e Wilson; sua irmã e aqueles que ele considerava como irmãos de verdade, como o Mário Calderón e a própria Betty, estavam todos morando e estudando no asfalto de Bogotá.
"Só eu fico plantado neste lugar", pensava Armando, amargurado, enquanto fingia limpar o chapéu. "Mário e Camila trabalhando na Ecomoda e terminando os estudos na Capital... Se ao menos a Betty ficasse aqui comigo na fazenda para sempre."
Minutos depois, Camila e Mário saíram de braços dados para passear pelo jardim. Dona Margarida começou a recolher algumas coisas da mesa e foi até a cozinha adiantar o almoço. Betty, demonstrando toda a sua educação, ofereceu-se prontamente para ajudar a arrumar a mesa de jantar. Ela começou a empilhar os pratos de porcelana e Armando, usando como pretexto o dever de ajudá-la a recolher a louça, aproximou-se devagar.
— Betty... — chamou ele, com a voz mansa.
— Ah, olá, Armando! — disse ela, mantendo os olhos fixos nos pratos para esconder o nervosismo.
— Que bom que você ao menos pronuncia o meu nome! Eu já estava pensando que você não falaria mais comigo nesta vida!
— E por que eu não falaria contigo, caubói? O que eu te fiz?
— Não sei... parece que você ficou chateada comigo desde o momento em que desceu daquele carro ontem.
— É... eu confesso que fiquei um pouco chateada sim, mas já passou. Diga-me de uma vez o que você quer falar!
— É sobre essa sua ideia de voltar logo para a Capital... Não é por minha causa, não é, Betty? Não está fugindo de mim?
— E você acha mesmo que eu quero voltar para Bogotá por sua causa, Armando? — ela soltou uma risada de ojojo, tentando disfarçar o coração acelerado. — Imagina, seu tolo! Eu tenho que voltar por causa dos meus estudos, o dever me chama!
— E quando você pretende pegar o jipe de volta?
— Não sei, tenho tanta coisa para resolver e o tempo é tão curto nas férias... Por isso penso em voltar o quanto antes para a Capital.
— E você... você ainda tem aquele sonho de infância de ser professora? — perguntou ele, olhando-a de lado.
— Er... sim, também tenho esse plano. Você ainda se lembra disso?
— Mas claro! Como eu poderia esquecer? Se quase todo mundo aqui nos estábulos aprendeu o básico por sua conta!
— Por minha conta não, Armando! Por conta da Dona Inesita! — corrigiu ela, corando.
— Sim, também por causa da nossa doce velhinha, mas você sabe muito bem que os filhos dos peões preferiam mil vezes as suas aulas.
— Como eu poderia esquecer daquela escolinha rústica, se foi lá que eu mesma iniciei os meus primeiros estudos?
— Todos nós começamos ali... mas, Betty, tem uma coisa que eu preciso te contar.
— O quê?
— A Dona Inesita se aposentou por causa da idade... e eu assumi a direção da escola dos peões.
— Você? — Betty parou com os pratos na mão, totalmente surpreendida.
— Sim, eu! — Armando sorriu, o orgulho de arriero um pouco ferido. — Eu não sou tão burro assim quanto os cachacos da cidade pensam.
— Claro que não, Armando! Eu sempre te achei um muito inteligente.
— Nem tanto... Mas como eu estava te dizendo, estou dando as aulas para as crianças da plantação e tem muitas matérias que eu não domino bem. Eu pensei que... já que você está aqui e tem tanto estudo da Capital, você não poderia dar uma espécie de reforço para eles? Os meninos vão fazer aquela prova na escola estadual do vilarejo e eu queria muito que eles passassem para ter um futuro melhor.
Betty o encarou, desarmada pela nobreza daquele gesto.
— Você... você está pedindo a minha ajuda para a escola, Armando?
— Sim... pensei que poderíamos fazer um intensivo nessas férias. Mas deixa para lá, acho que foi uma ideia boba da minha cabeça, você deve ter mais o que fazer — disse ele, sem graça, fazendo menção de se afastar.
— Não! Eu adorei a ideia! — Betty o segurou pelo braço, entusiasmada. — Eu adoraria dar aulas para aquelas crianças de novo!
Os dois conversavam sorridentes, os rostos muito próximos no meio da sala de jantar, quando o som pesado da tranca da porta principal ecoou. Eram os Valência mais velhos que cruzavam a entrada com toda a sua arrogância burguesa.
Marcela Valência parou no portal e não pôde acreditar no que seus olhos viam: Beatriz, a filha dos criados, estava plantada bem no meio da sala de jantar dos Mendoza, novamente de prosa íntima com o seu noivo.
— Ah, veja só... Parece que você continua não tendo muito o que fazer na sua própria casa, não é, Beatriz? — disparou Marcela, cruzando os braços com desdém.
— Marcela, por favor! Isto são modos de entrar na casa dos outros? — repreendeu Dona Margarida, saindo da cozinha.
— O que essa menina faz aqui, Margarida? Que eu saiba, os pais dela moram na senzala dos fundos, não? — atacou a noiva, com o queixo erguido.
— Meus pais não moram em nenhuma senzala, Senhorita Valência! — respondeu Betty prontamente, com os olhos faiscando e uma firmeza que chocou a rival. — Eles moram em uma casa germinada de alvenaria, junto com a habitação dos outros funcionários de respeito da fazenda.
— E que diferença prática isso faz, afinal? É tudo criadagem — desdenhou Marcela.
— Marcela, chega! Pare de importunar a Beatriz agora mesmo! Ela é a nossa convidada de honra hoje! — mandou Armando, com a voz rústica de peão bravo, postando-se na frente de Betty.
— Ora essa, Armando... vai defendê-la agora?
Nesse momento, Daniel Valência deu um passo à frente, ajeitando o paletó de terno caro, observando a cena com um sorriso cínico.
— Olá, Margarida. Olá, Mendoza — cumprimentou Daniel, a voz mansa.
— Daniel? Pensei que havíamos combinado a nossa visita à fazenda de vocês apenas para amanhã — disse Margarida, surpresa.
— Sim, papai e eu tínhamos esse plano, mas a Marcela não pôde aguentar de tanta vontade de ver o noivo dela — disse Daniel, apontando com o queixo.
Marcela adiantou-se e agarrou firmemente o braço de Armando, forçando-o a largar a louça que segurava com Betty. Armando tensionou os músculos, tentando se soltar do aperto da noiva de forma discreta, mas Marcela o segurava com possessividade.
— Como sempre, a Marcela não poupa esforços para tentar humilhar a Beatriz! Ela se recusa a aceitar que a moça é a nossa convidada — comentou Armando entre dentes.
— E não aceito mesmo — rebateu a noiva.
— Mas aceitará, Marcela. A Beatriz sempre foi muito querida por todos nós debaixo deste teto. Vocês todos se criaram juntos correndo por estes estábulos e já passou da hora de se entenderem como adultos — decretou Dona Margarida, com a autoridade de matriarca.
Daniel Valência deu uma risada abafada e debochada, dando dois passos lentos na direção de Betty.
— Bom... de minha parte, eu posso perfeitamente fazer um esforço para sermos amigos, afinal... — Daniel mediu o corpo de Betty de cima a baixo com um faro de predador, saboreando as curvas dela com os olhos frios. — ...a Beatriz não merece mais esses xingamentos da infância. Ela não se parece em nada com aquela menina feia de maria-chiquinha que saiu daqui. Ela está, como dizem os cachacos lá na Capital... um verdadeiro bombom de moça!
Beatriz balançou a cabeça em um leve sinal de gratidão formal, ficando completamente vermelha de vergonha e desconforto pelo olhar invasivo do vilante. Armando, vendo o cunhado cobiçar a sua Bettica daquele jeito, cerrou os punhos com tanta força que as juntas dos dedos estalaram; ele sentia um ódio mortal pelo irmão de Marcela.
— Se você quiser, Beatriz, eu mesmo posso te mostrar as melhorias da fazenda e das redondezas amanhã, embora essa roça tenha mudado muito pouco — ofereceu-se Daniel, com um sorriso cínico de galanteio.
— O Armandinho já me mostrou tudo ontem à tarde, Senhor Valência! — rebateu Betty, firme.
— Quê? O Armando? — Marcela tencionou os braços, olhando para o noivo com os olhos arregalados.
— Ora, irmãzinha... vejo que o seu noivo caubói não perdeu tempo nenhum assim que a filha do contador pisou na fazenda! — provocou Daniel, soltando uma risada irônica que fez o sangue de Armando ferver. — O que mais você andou mostrando para ela pelos cantos escusos da propriedade, Armandito? Creio que você não mostrou tudo... por causa de um certo cheiro de pureza que eu ainda sinto no ar!
— Daniel, não seja grosseiro! Cale a boca! — esbravejou Armando, dando um passo ameaçador na direção dele.
Beatriz não entendeu a malícia por trás daquela frase de Daniel sobre o "cheiro", mas sentiu um calafrio terrível com o olhar que o mais velho lhe lançava. No entanto, nada era mais irritante do que a atitude de Marcela Valência. Aproveitando que Beatriz havia ido com Dona Margarida até a cozinha para guardar o restante dos mantimentos, Marcela puxou o noivo pelo braço com força para o canto da sala.
— Vamos para o quarto, amor! Quero ficar sozinha com você antes do jantar.
— O que você quer agora, Marcela? Me solte!
— Tem certeza de que você não sabe o que eu quero, Armando? Nós estamos noivos!
— Marcela, por favor, nós temos visitas na casa! Tenha modos!
— As visitas da alta sociedade já foram embora, Armando! Só restou o meu irmão.
— Estou falando exatamente dele! Do seu irmão Daniel!
— Ah, o Daniel está lá fora no jardim conversando de negócios com o Mário Calderón. E os seus pais não são moralistas antiquados como os meus, Armando... Eles sabem perfeitamente bem que nós temos uma relação de homem e mulher por trás das aparências. Vamos!
— Também está a Beatriz aqui dentro, Marcela!
— E o que diabo me importa o que a filha do criado pensa ou deixa de pensar de nós dois?! — esbravejou a noiva, sem paciência.
— Não fale assim da minha amiga!
— Amiga?! Hahaha! Por favor, Armando, não me faça rir! Vamos... só um beijinho para esquentar o clima — pediu ela, jogando os braços pelo pescoço dele.
Escondida atrás do portal da cozinha que ficava logo ao lado da sala de jantar, Betty ouvia cada palavra daquela discussão, fingindo estar prestando total atenção ao que Dona Margarida lhe explicava sobre as receitas de doces. Sentindo o estômago revirar de puro ciúme e nojo daquela intimidade, Betty inventou uma desculpa qualquer sobre a louça e voltou para a sala, carregando os pratos já lavados nas mãos.
Chegou ao recinto exatamente a tempo de ver Marcela encostando Armando contra a parede, tentando beijá-lo à força. Disfarçando o seu ódio, Betty bateu as porcelanas com força sobre a mesa de madeira, provocando um barulho alto que ecoou pelo casarão.
— Mas o que você pensa que está fazendo, garota?! — gritou Marcela, soltando o pescoço de Armando com fúria para repreender a jovem.
Betty colocou a sua melhor máscara de inocência e respondeu dissimuladamente:
— Ah... me perdoe, senhorita. Eu realmente não sabia que as vossas mercês estavam escondidas aqui atrás do portal.
— Você quer quebrar os pratos caros da minha futura sogra com essa sua grosseria de peoa?! — esbravejou a Valência, ajeitando o vestido.
— Não foi a minha intenção, senhora. Peço desculpas.
— Senhorita! Eu ainda não sou casada!
— Não fale assim com ela, Marcela! A Betty jamais faria isso com má intenção, foi um acidente! — interveio Armando, colocando-se entre as duas mais uma vez.
— Já terminou o seu serviço? Pois já pode voltar para a cozinha de uma vez, Beatriz! — ordenou Marcela, apontando o dedo.
— MARCELA! CHEGA! — o rugido de Armando fez os pratos vibrarem.
— Er... Armandinho... — interrompeu Betty, com a voz firme e doce, ignorando a fúria da rival. — Já que o senhor está aqui, eu queria te dizer que eu topo. Pensei bem na proposta e, pelos nossos sonhos de infância e pelas crianças dos peões, eu aceito participar do projeto com você!
Os olhos de Armando encheram-se de uma felicidade tão radiante que ele nem sequer disfarçou. Afastou-se da noiva com um solavanco e foi direto ao encontro de Betty, segurando as mãos dela.
— De verdade, Betty?! Você aceita?!
— Sim! Eu pensei melhor e vai ser uma honra... mas só durante o período das minhas férias aqui na roça.
— Está excelente! Amanhã mesmo nós começamos a organizar os cadernos!
Marcela assistia àquela troca de olhares com os dentes cerrados, espumando de raiva.
— Mas do que diabo vocês dois estão falando afinal? Que projeto é esse?
— É de um projeto antigo que nós temos juntos, Marcela... desde que éramos pequenos nesta fazenda! O que foi? Vai querer controlar e dar ordens até nos meus pensamentos agora? — rebateu Armando, com o olhar frio.
— Eu tenho todo o direito de saber em que tipo de negócio o meu futuro marido está metido com a criadagem!
— Na hora certa e se eu quiser, você saberá. Agora nos dê licença!
Marcela Valência virou as costas com fúria, com o rosto vermelho de humilhação.
— Idiota! O que essa atrevida da filha do contador pensa que é?! — resmungou Marcela, batendo a grande porta de madeira com violência no exato momento em que Camila cruzava o corredor de entrada.
— Ai! Cuidado, Marcela! Quase que você quebra o meu nariz! — reclamou a irmã de Armando.
— Desculpe-me, Camila! Eu não te vi — disse a noiva, tentando recuperar a pose. — Mas me diga uma coisa... você que morava com ele na Capital, por acaso sabe que tipo de projeto secreto é esse que o Armando tem com a Beatriz?
— Os projetos do meu irmão pertencem só a ele, Marcela. O Armando é um homem da terra, ele não conta os planos dele para ninguém da alta sociedade — respondeu Camila, com um sorriso de canto.
— E como é que essa intrometida da filha do contador sabe de tudo antes de mim?!
— Você está falando da Betty? — o tom de Camila mudou, ficando sério.
— Sim! Como quer que se chame essa menina?
— Ela não é intrometida, Marcela, e muito menos criada! A Betty sempre foi a nossa melhor amiga de infância, e você deveria começar a respeitá-la nesta fazenda! — decretou Camila, passando por ela.
Marcela franziu o rosto com asco e saiu marchando em direção aos jardins. Definitivamente, ela não receberia o apoio ou a cumplicidade que esperava de sua quase cunhada.
Lá fora, nos estábulos, Mário Calderón havia acabado de prender as rédeas do cavalo após dar um passeio pelas terras com Camila, tendo que aguentar a chatice do Daniel Valência, que pegou um garanhão e continuou galopando sozinho pelas plantações para vistoriar a divisa. Ao ver a noiva do amigo passar pisando fundo, Mário aproximou-se de Camila com um sorriso de safado.
— E o que foi aquilo, meu amor? O Armando brigou com a chata da Marce de novo dentro de casa?
— Não, Mário... — riu Camila, ajeitando as franjas do poncho. — A Marcela está daquele jeito porque acabou de descobrir que o Dinho tem um projeto secreto com a Betty na escolinha da fazenda.
— Um projeto? Que tipo de projeto, Cami? — Mário semicerrou os olhos, astuto.
— Tampouco eu sei os detalhes... mas qualquer que seja o plano deles, me deixa imensamente contente. Sabe, Mário... eu tenho o meu próprio projeto secreto guardado para esses dois.
— Ah, é? — Mário a puxou pela cintura, dando-lhe um beijo ardente na bochecha. — E o que a senhorita tanto trama com a filha do contador?
— Você não imagina? Olha para eles...
— Que os dois fariam um belo par ? É isso?
—Que romântico está meu Marito!
—Me tornou assim, senhorita! –beijo.
—Assim quero meu irmão babando por ela!
—Como esta baba por ele, porque é óbvio.
—Percebeu também?
—Desde sempre! Por isso que me burlava dela. Não me olhe assim, Cami! Temos que poupar forças para estarem juntos.
))))
Depois que o turbilhão da visita dos Valência acalmou e Marcela foi embora batendo o salto, Armando fez questão de levar Beatriz pessoalmente até o pátio da escolinha rústica da fazenda para apresentar as instalações. Mas a recepção não foi o que Betty esperava.
Lá dentro, Armando apresentou a outra professora contratada temporariamente para o período letivo: Karina.
Betty sentiu o estômago travar e uma ponta de ciúme doentio queimar o seu peito na mesma hora. Ela não gostou nada, absolutamente nada, daquela mulher. Karina era uma loira belíssima, de olhos claros, que usava umas calças jeans extremamente apertadas que moldavam o seu quadril de forma provocante. Para piorar, a loira jogava os cabelos caídos sobre os ombros e mexia as cadeiras o tempo todo enquanto andava de um lado para o outro na sala, sorrindo aberto para o patrão.
"Esta mulher de calças coladas não pode ser uma professora de verdade para as crianças da roça...", refletia Betty consigo mesma, cruzando os braços e fuzilando a rival com os olhos de café. "Ela está aqui para dar aulas ou para caçar o meu caubói pelos estábulos?"
—Karina dá aula para as crianças mais velhas dos peões. -disse, parecendo adivinhar os pensamentos dela.
—Já vejo. E você o que ensina, Armando?
—Espanhol, literatura, História.
—Hum, que inteligente!
—Não tanto quanto você! Por isso, precisamos que nos ajude. Terão vestibular em breve. Alguns ficarão aqui e só precisam saber o básico, mas outros tem a chance de ganhar bolsas e estudar como você, na Capital.
—Entendo.
—É muito importante o que vai fazer, grato por aceitar!
Beatriz fica encantada.
—ER, grata. O que não faria por... pelas crianças. Só me dizer o que tem em vista, eu posso bolar o plano de aulas.Freddy e Wilson haviam ficado contentes e maravilhados ao descobrirem que aquela nova professora elegante que chegava à fazenda era nada mais, nada menos que a Beatriz, a que antes era a menina feia da maria-chiquinha. A única que não gostou nem um pouco da novidade foi a loira Karina, que cruzou os braços e bateu o pé, bufando de inveja.
— Como assim essa moça mal chegou da Capital e já vai dar aulas aqui no meu setor? — cobrou Karina, com a voz esganiçada.
— Karina, por favor, depois nós conversamos sobre isso, sim? — pediu Armando, tentando manter a calma.
— Como assim depois, Armando? Acaso ela é professora formada com diploma para meter o bico nos meus cadernos?
— Karina, eu já disse que depois nós conversamos! — o tom de Armando engrossou, com a voz rústica de patrão.
— Eu sou a professora titular aqui nesta escolinha há dois anos, Mendoza! Você não pode sair colocando uma outra mulher para dividir a sala comigo sem eu saber de absolutamente nada!
— Posso e vou colocar, sim senhorita! Eu sou o diretor desta escola, não se esqueça disso. E isto quer dizer que eu tenho o direito de contratar e colocar para dar aulas quem eu bem quiser!
— Ai, Armando... você é simplesmente insuportável! — gritou a loira, batendo o pé com fúria.
— Grato pelo elogio! Melhor conversarmos depois, quando a sua cabeça esfriar!
— Humpf! Veremos se essa caipira aguenta o tranco! — sibilou Karina, virando as costas com um rebolado agressivo de quadris, saindo batendo a porta do galpão.
Apesar da insatisfação e do bico da Karina, Beatriz havia ficado extremamente animada com o projeto da escolinha rústica. Ela trazia as ideias modernas de Bogotá: iria dar um reforço geral de alfabetização para os trabalhadores adultos da plantação no período da noite e também preparar os peões já adolescentes para tentarem uma bolsa de estudos na escola estadual do vilarejo, para assim terem uma chance muito melhor na vida.
"Ele é tão inteligente... um projeto maravilhoso", pensava Betty, olhando para Armando de longe enquanto ele ajeitava os bancos de madeira. "Bom, ele se importa de verdade com o futuro das pessoas, mesmo com os filhos dos peões mais humildes, como eu. Quem mais nesta região teria um coração desses? E ele está lindo... ainda mais forte, másculo e lindo do que eu me lembrava nos meus sonhos da Capital. Eu simplesmente não posso acreditar que ele esteja noivo de uma mulher tão esnobe quanto a Marcela Valência. Como pode ser isso? O meu Armandinho não podia estar comprometido com ninguém que não fosse eu!"
Naquela noite, trancada no quarto de cima do casarão dos Mendoza, a filha do contador escovava os cabelos negros cacheados diante do espelho, lembrando-se perfeitamente do que a sua amiga Aura Maria havia lhe dito no alojamento de Bogotá antes da viagem:
— Vai para cima dele de uma vez, mamita! Não deixe o seu caubói escapar por entre os seus dedos! Faça o uso de tudo o que você viu e aprendeu na rumba da Capital e torne esse peão o seu homem de verdade! Se você o quer, vá para o combate! Você vai ter que enfrentar mulheres muito mais experientes e atiradas, aquelas mamitas faceiras da fazenda que vivem cobiçando o corpo dele... Se esse Armando Mendoza é tudo isso de bom que você me confessou na biblioteca, faça o que eu te ensinei no provador e você o terá assim, comendo na sua mão! — disse Aura Maria na lembrança, estalando os dedos com malícia.
— Eu não sei fazer essas coisas de sedução, amiga... — sussurrou Betty para o espelho, largando a escova. — Mas sim... eu vou fazer as coisas do meu próprio jeito. O Armando será meu, e de nenhuma outra mulher de Quindío.
Betty caminhou até o baú de roupas, pegou a fotografia antiga onde Armando a segurava pela mão na infância e acariciou o papel com a ponta dos dedos, com um brilho de promessa e desejo nos olhos de café.
— Você me deu a sua palavra debaixo do pé de manga, caubói... — murmurou ela contra a imagem, com um sorriso audacioso. — E eu vou cobrar cada linha desse compromisso, queira a Marcela ou a loira da escolinha ou não.
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