Mas ao chegarem lá, as duas amigas se abraçaram como se o tempo não tivesse passado, a não ser pelo fato que tanto Camila quanto Mário ficaram impressionados com a mudança de aparência de Betty que nem de longe parecia aquela menina de maria-chiquinha, óculos fundo de garrafa, roupas compridas e largas. Havia se tornado uma bela moça.

—Mas como está linda, amiga!

—Realmente, Beatriz!

Fica vermelha.

—Desculpe-me Beatriz se a chamava feia, era um imaturo idiota! –envergonhou-se Mário

—Realmente! Vocês homens não sabem ver além do que está na frente. Para vocês as mulheres não são mais que bundas e seios! –disse Camila

—Eu não assim!

—Ah está bem, Dinho, vai me enganar? Vai dizer que não fica fascinado e vai atrás do primeiro jogo de cadeiras que vê. –disse Camila para seu irmão.

—Não convém falar estas coisas perante Betty!

—Eu te conheço. Ojojo! –disse Beatriz sem deixar de olhá-lo.

—Beatriz! Ainda mais ela é só uma menininha e menor ainda, este tipo de assunto não são adequados para ela!

Betty olhou de modo raivoso para ele. Com certeza, para ele ainda era a mesma menina da infância e não uma mulher. Percebendo o desconforto de sua amiga, Camila contornou as coisas.

—A única coisa é que estas roupas, apesar de bonitas são para usar em Bogotá e não na fazenda! –disse Camila

—Sim, eu sei, mas como vivo lá, não tenho outras!

—AH mas isto não será um problema, posso lhe dar algumas.

—Ah não, Cami, não precisa se incomodar.

—Como não? Não vivo aqui, de modo que estas roupas não foram usadas e nem serão. Vamos, Beatriz, amanhã as trago! São vestidos bem leves, vai gostar.!

—Está bem. –disse vermelha.

Mas ao contrário do que tratava Camila e até Mário, Betty tratava Armando friamente, desde que chegou, ele não entende.

—Betty, acho que temos que ir! Aliás, agora que está tudo mais calmo e inclusive, ufa, os Valencia, finalmente, se foram para sua fazenda, porque não vem conosco? Meus pais ainda não a viram e iriam adorar ver como ficou bonita!

—Estou com saudades deles.

—E eles também. Vamos!

Meio sem jeito, Betty aceita. Estava meio incomodada de estar com Armando, sabendo ser noivo da senhorita Valencia, como a mulher gostava de ser chamada pelos criados, mas Camila era muito convincente. Enquanto caminhavam pelo casarão colonial, sob o sol forte de Filandia, Betty mantinha a postura firme. O cheiro de café torrado e terra batida trazia de volta as lembranças, mas cruzar os portões da casa principal agora como uma mulher instruída dava a ela um novo ar de nobreza.

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Dona Margarida e seu Roberto ficaram muito felizes de ver como Betty havia crescido e ficado tão bonita, além de poder comprovar que havia adquirido hábitos refinados de menina da cidade grande, os quais Mário e Camila conheciam tão bem.

—A cidade, então, fez muito bem para você.

—Sim.

—E pretendo voltar?

—Sim, iniciei a faculdade.

—Faculdade? Que bom.

—De quê?

—Administração e Finanças.

—Uau! Quem sabe possa trabalhar um dia na empresa.

—Empresa?

—Sim, Ecomoda.

—A famosa empresa de Modas? Não creio, Moda não é meu mundo.

—Não sabe. Mário trabalha lá.

—Comecei como estagiário, odiava e estou lá até hoje.

—E foi assim que tivemos a chance de nos conhecermos melhor. Ai, Betty vai adorar Ecomoda!

Armando olhou para baixo, ele adoraria trabalhar em Ecomoda, mas a vida quis que ele ficasse na fazenda.

—Daniel também trabalha lá.

—Ah sim, o metido de Daniel!

—Camila!

—Mas é verdade!

—Vocês foram criados juntos.

—Por isso mesmo.

—Não fique nervosa. Cami. –disse Mário.

—Não ligue, Betty. Lembra de Daniel?

—Sim, lembro muito bem. É o filho mais velho dos Senhores Valencia.

—Isso mesmo.

Depois de lancharem, Camila chamou Beatriz para ver as roupas que tinha para separarem algo para ela,

—Não repare a bagunça de meu quarto –riu

—Imagina, que bagunça? Seu quarto é tão lindo!

—Continua como quando eu era uma criança, mamãe conservou do mesmo jeito.

—Que bom! Para lavarem.

—Imagine.

—Tenho algumas peças aqui. Acho que não estão com cheiro, senão peço para lavarem.

—Imagina, são lindas. Não posso aceitá-las.

—Ai, deixa de bobagem que fico brava! Vão ficar lindas em você. Vai experimentar.

Camila separa algumas roupas mais enquanto sua amiga experimenta os vestidos.

—Ficaram lindos, tem mais alguns.

—Ai, Cami.

—Não faça desfeita. Temos tanta fofoca para por em dia. Por que não dorme aqui hoje?

—Ah não sei, seus pais podem não gostar!

—Iam amar! Sempre gostaram que ficasse conosco. Ainda mais, estou dormindo sozinha, sabe papai não permite que eu durma com Mário, então, por que não fica comigo?

—Meu pai....

—Deixa, vou pedir que levem o recado e você dorme aqui hoje! (Sorriu) Vamos, temos que conversar muito. Acho que esta camisola vai te servir.

Beatriz se sentia incômoda de estar no mesmo teto que Armando e não poder lhe dirigir a palavra como queria. Estava enciumada por estar comprometido e mais ainda por ser com a detestável de Marcela, quem ele nunca pareceu gostar, quem sempre a esnobou e ele dizia ser seu amigo e que a protegeria e bastou que se afastasse para querer casar-se justo com ela.

—Está bem, Cami. Eu fico!

—Se importa de deitar na cama de baixo? É que gosto da de cima.

—Imagina, se a cama de baixo também é um sonho.

—Quem a ouve falar parece que não tem cama!

—Ojojo! A verdade é que não tenho, não aqui!

—Como assim?

É que meu antigo quarto na casa de meus pais está cheio de coisas, então, estou dormindo na sala.

—Como?

—Meu pai disse que como cheguei um pouco antes não teve tempo de arrumar nada, então a verdade é...

—Então, você fica aqui comigo e não se fala mais nisso!

As duas ficaram até a madrugada acordadas colocando a conversa em dia, até mesmo depois que Margarida desligou as luzes às 20:30h.

—Ai, Betty, minha mãe não perde esta mania!

—Eu me lembro ojojo!

—Mas não vamos dormir agora, você ainda não me contou dos rapazes!

—Rapazes? -Betty levantou uma sobrancelha.

—Sim, acaso está namorando, porque esta mudança com certeza é por conta de um homem, não?E como ele é, gatinho? Alto? Moreno? Loiro?

Betty não podia acreditar que sua amiga da infância havia se tornado uma espécie de Aura Maria da roça.

— Não há homem nenhum na Capital, Cami! — Betty riu, ajeitando os óculos e ficando vermelha. — Os rapazes de lá são muito metidos. Eu passei os últimos cinco anos enfiada nos livros de finanças e economia. Minha única paixão até agora foi a biblioteca, ojojo!

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No quarto de Armando e Mário conversavam, o loiro dormia no chão.

—Não consigo acreditar, mano, são apenas 8:30 e sua mãe já desligou as luzes!

—Ela faz isto desde que éramos pequenos!

—É mas pensei que as coisas tinham se modernizado, afinal, não somos mais crianças!

—Algumas coisas nunca mudam! Na fazenda as pessoas dormem cedo. Se não está com sono, podemos conversar, eu tampouco durmo tão cedo, às vezes saio para cuidar dos cavalos ou cavalgar.

—Cavalgar? Sei, você vai é encontrar éguas ou potrancas por aí!

Armando riu com jeito safado. Os dois se conheciam muito bem.

—Esta sua amiga, Beatriz voltou muito mudada e bonita! –disse Mário

—Qual é, Mário?

—Não é sério! Digo com maior respeito. Sabe que saí do mercado e sou domesticado. Só tenho olhos para sua irmã, mas você não está! Quero dizer, a menos que tenho caído de amores por Marcela.

—Nunca! Sabe o porquê de me casar.

—Então, quer dizer que ainda está no mercado! E que achou de Betty, hã?

—Betty, como assim?

—Ela voltou bem mudada, bonita. Não acha que...

—Como assim?

—Creio que ela gosta de você! Sempre achei!

-Está louco?

—Não. É sério! Como te olha e como está com ciúmes por saber que estava noivo de Marcela, porque aquela raiva e frieza com que te tratou eram ciúmes, meu irmão!

—Imagina, está louco, Calderón!

—Se fosse você não desaproveitaria, a menina está um pitel e estando aí, com certeza, pode rolar algo.

—Não fale assim de Betty! Ela não é dessas!

—Claro que não! Ela é decente e de família como Camila, sua irmã!

—A questão é que Betty é uma menina. Ela não é dessas e não tem idade. É uma criança!

Mário não podia acreditar, assim que quase caiu de dar risada.

—Ela não é uma criança há muito tempo. Já reparou bem? –faz gesto com a mão, imitando o corpo de uma mulher. –Ela é quase uma mulher, se é que não é e pode ter certeza que muitos reparam isso e...

—Cale a boca, imbecil! Pare de falar assim de Betty! Ela é uma menina pura e inocente!

— Inocente ou não, ela te olha como se quisesse te devorar, irmão — Mário deu de ombros, virando-se para o canto no chão. — E se você continuar cego, logo, logo outro peão vai notar o corpão que a filha do Seu Hermes esconde debaixo daqueles vestidos.

Armando não respondeu. Ele bufou, cruzando os braços e encarando o teto escuro do quarto. As palavras de Mário queimavam como aguardiente na garganta. Uma criança? Uma irmã? Ele tentava repetir isso para si mesmo como um mantra, mas a imagem da pele de porcelana de Betty e o modo frio e altivo com que ela o tratara no lago não saíam de sua mente.

Este seu amigo podia estar louco por sua irmã, mas não deixava de ser um depravado, imagina pensar estas coisas da doce e inocente Bettica, que era quase uma irmã para eles.

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