Casamento por obrigação

43 Capítulo 43 - A angústia do caubói


O silêncio do casarão principal pesava feito chumbo na penumbra daquela madrugada abafada de Quindío. Armando Mendoza abriu os olhos no susto, o peito subindo e descendo em uma combustão de ansiedade. Ele olhou para o lado e sentiu o corpo retesar: a Marcela Valência estava deitada mui colada ao seu peito, com o braço jogado por cima dele após o tranco da humilhação na cama. Armando sentiu um nó na garganta; não conseguia nem ao menos se mexer naquele colchão, sentindo-se sufocado por ela e completamente confuso com o próprio juízo. Sem pedir licença, afastou o lençol, vestiu as calças às pressas e saiu em disparada em direção ao campo aberto da lavoura, levando uma garrafa de aguardente colada aos dedos para tentar queimar sua frustração.


Caminhando sem rumo sob o céu estrelado, o caubói dava goles longos e começava a falar sozinho com o vento da noite, destilando a sua dor de homem feito:

— É inútil... sou um verdadeiro fracasso! — praguejava ele, o maxilar travado de puro nervosismo. — Nem homem eu sou agora nesta fazenda! Que humilhação de arriero... Não pego mais nenhuma fêmea nesta terra!


O Mário Calderón, que andava perambulando pelo pátio por não se acostumar mais ao jeito pacato e sem rumba da fazenda, focou os olhos na silhueta do amigo no meio do capim. Ao vê-lo naquele estado de agonia, o safado aproximou-se mui cínico e começou a zoar o parceiro na penumbra:

— Falando sozinho no meio do mato de madrugada, Mendoza? O mormaço da roça finalmente secou o seu cérebro?

— Vá para o inferno, Calderón! — Armando rugiu rústico, fuzilando o comparsa com os olhos vermelhos. — Me deixe em paz nas minhas mágoas e volte para o casarão de uma vez por todas! Ninguém te chamou na lida!


Mas o Mário o conhecia mui bem de toda a vida e não arredou o pé do cascalho. Com total fidalguia de irmão de rumba, ele tentou convencer o caubói a engolir o orgulho de patrão arrogante e se abrir por completo. No começo do tranco, o Armando não queria prosa de jeito nenhum, fechando a cara com teimosia caipira. Mas o Calderón continuou insistindo com a sua lábia de rato de cana, cutucando o calo dele, até que o gênio do Mendoza estourou no cansaço da bebida:



— Você quer mesmo escutar o tamanho da minha ruína, seu idiota?! — Armando disparou com a voz rouca, as lágrimas de remorso brilhando nos olhos. — Eu não devia ter te ouvido no passado, Mário! Nunca na minha vida devia ter deixado o meu vigor se guiar pelos meus instintos de macho para levar aquela menina pura para a cama do hotel em Bogotá! Agora a culpa está me esmagando o lombo! E por causa disso... por causa desse pecado, eu não sirvo para mais nada nesta roça!

Armando deu mais um gole longo na garrafa, o peito subindo com uma amargura violenta.

— O melhor... o melhor de tudo é que a Beatriz tivesse batido as canelas e ido embora com aquele Nicolás Mora! Aquele doutor chique que ele se tornou parece sempre foi um homem de bem, mui honrado para cuidar, zelar e dar o futuro para a vida dela... Coisa que eu nunca vou me perdoar por não poder fazer o digno que ela precisa! Eu tirei o desfrute da pureza dela, Mário!

— Espere um segundo aí, Armando... — interveio— O seu peito portar culpa é um trâmite, mas por acaso você guarda algum arrependimento sincero daquela noite no hotel?

— Foi mui bom para o meu desfrute de macho, Calderón... mas para o corpo dela doeu! Eu fui um monstro egoísta nos lençóis! — Armando confessou com a voz embargada, desabando em prantos de humilhação perante o amigo. — A Beatriz parecia uma bonequinha de porcelana indefesa debaixo de mim, trêmula... e mesmo sentindo o tranco da primeira vez, ela me abraçava mui doce e dizia com aquela boca de amora que só queria dar prazer! Eu... eu queria com todas as forças do meu sangue poder honrá-la como merece, Mário! Mas... mas eu tenho este maldito casamento de contrato com os Valência me amarrando o pescoço! Eu sei na pele que nem na cama eu vou conseguir ser feliz com a Marcela... Eu acabo de fracassar feio com ela debaixo das cobertas agora mesmo! Assim como fracassei com todas as peoas que tentei procurar nos vilarejos nos últimos dias! O meu corpo rejeita qualquer outra saia, eu não sou mais homem para mulher nenhuma nesta terra e a culpa por ter desonrado a minha menina está me consumindo o juízo por inteiro!

Mário Calderón com o semblante de safado mudando para a total seriedade perante a agonia do parceiro.

— Mas mude o relatório desse seu juízo, Mendoza! Esse seu travamento de carne perante a noiva e esse seu desespero com as outras mulheres não tem nada a ver com reles remorso de irmão protetor... Isto tem outro nome mui legítimo no mundo: PAIXÃO! Aceite a contabilidade do seu peito, caubói... você está perdidamente apaixonado pela filha do caseiro!


Ao ouvir o diagnóstico na cara, o Armando Mendoza teve um ataque de pânico neurótico perante o próprio orgulho. Ele deu um safanão para trás e começou a negar tudo de forma desesperada, batendo a garrafa contra a cerca de madeira.

— Ficou maluco de vez na Capital, Mário?! Apaixonado coisa nenhuma! — Armando esbravejou com fúria de negação. — O que eu sinto pela Beatriz é, no máximo... no máximo, um desejo selvagem, uma luxúria depravada de carne que me tira as rédeas do juízo! Eu sou um arriero rodado e não sei uma única linha do que é paixão, amor ou outras bobagens de livros de moças! A Beatriz voltou da cidade grande mui tentadora, deslumbrante, portando um corpo de fêmea de deixar qualquer um louco... mas ela continua sendo a minha irmazinha de criação! E meu dever de homem era protegê-la de imbecis e aproveitadores como eu... e eu falhei miseravelmente na missão! Eu mereço mesmo penar no inferno com a minha impotência carnal! Vá dormir e me deixe em paz, Calderón!


Sem que nenhum dos dois homens desconfiasse da armadilha do destino, a Beatriz havia descido mui silenciosa as escadas coloniais com a sua lanterna apagada e estava bem ali, plantada na escuridão, ouvindo tim-tim por tim-tim de toda aquela prosa mui bem escondida atrás dos grandes moedores de café da varanda.




Armando Mendoza deu as costas ao Mário com um tranco de botas no capim e saiu marchando mui atordoado na direção da trilha escura do pátio dos estábulos, deixando o comparsa na varanda. Mas à medida que se afastava do casarão principal e o silêncio do pátio o engolia por inteiro, o tribunal da consciência desabou com o peso de uma bigorna sobre o seu peito nu.


Betty havia ouvido cada palavra de desespero e sentiu as pernas tremerem de pura emoção,. Entendeu porque ele a havia tratado tão friamente estes dias. Sentia-se culpado da noite de amor. Ela limpou as lágrimas dos olhos, sabia que o havia marcado de alguma forma e que não havia conseguido ser de nenhuma outra depois do momento em que ficaram juntos, nem mesmo de Marcela. E se dependesse dela não iria nunca mais ser de outra.


Mui silenciosa na escuridão, observou a silhueta máscula de Armando se afastar a passos largos em direção ao pátio dos estábulos dos fundos imaginou que, como nas outras noites, ia trabalhar febrilmente até o amanhecer, já que a colheita do café não lhe dava descanso de dia.



Bastante passos à frente de Betty, Armando, sentindo-se sozinho na caminhada com o sereno da madrugada cortando o mormaço do seu corpo, a máscara do garanhão arrogante que ele tentara sustentar na frente do Calderón ruiu por completo na escuridão, olhou para a imensidão das estrelas e confessou o seu segredo para o vento da noite:

— Eu estou apaixonado... — o Tigre de Quindío soltou um soluço sôfrego de homem laçado, o orgulho quebrando em pedaços na penumbra. — Eu estou mais apaixonado do que nunca... por Beatriz Aurora Pinzón Solano! Eu não sei como... não sei de que jeito, meu Deus, mas aconteceu... -disse sorrindo para si mesmo, enquanto caminhava para o estábulo para tentar dissipar sua amargura com trabalho.