Casamento por obrigação
42 Capítulo 42
A noite havia caído mui pesada sobre as terras de Quindío, mas os motivos que traziam a Marcela Valência até o casarão principal dos Mendoza naquela data eram puramente oficiais. Ela havia descido da fazenda vizinha junto com o Velho Júlio e o Daniel para passarem o dia inteiro trancados na paróquia do vilarejo de Filandia, revisando as datas das proclamações, os tecidos do altar e os trâmites burocráticos do matrimônio de elite com o padre da comarca. Por conta do adiantar da hora e do mormaço que tornava a estrada de terra perigosa de madrugada, Dona Margarida Mendoza — mui apegada às regras de fidalguia — insistiu para que a futura nora passasse o restante da noite instalada no quarto de hóspedes do andar de cima da casa grande, antes de pegarem a lida do algodão pela manhã.
O Armando Mendoza passou a jorrada inteira atordoado, acompanhando os noivos pelas naves da igreja colonial com o peito afogado em um desespero doentio. Ver os panos brancos do altar e escutar o sermão do padre havia sido o seu pior tribunal da consciência. Em seu juízo de homem feito, o caubói tentava a todo custo aceitar o cabresto do seu destino de herdeiro falido; ele usava a preparação daquele casamento como uma armadilha para tentar arrancar a fumaça e o feitiço de amora silvestre da sua Beatriz Aurora da cabeça.
Enquanto caminhava mui pensativo em direção aos seus aposentos na calada daquela noite, Armando afogava-se em suas próprias contas morais. Ele sabia mui bem do tamanho das dívidas de juros com os bancos, mas o que mais esmagava as suas botas era a dívida moral que ele acreditava carregar perante a Marcela. Na sua cabeça de garanhão tradicional da roça, a Marcela era a moça de linhagem que havia começado a vida de carne com ele, a donzela pura que se entregara primeiro nos seus braços na adolescência. Uma promessa de sangue. Tomado por uma urgência de reaver o seu orgulho de arriero e sua honra de homem matador, ele concluiu mui sério perante as paredes: se o destino chucro o impedia de honrar o amor e a entrega de sua Bettica nos fundos, o seu dever de fidalgo era honrar de vez o compromisso com a Marcela. Eles sempre se deram mui bem debaixo dos lençóis, portavam um fogo antigo que incendiava os quartos nos tempos de gandaia... Quem sabe, se ele se forçasse um bocado, a carne não responderia ao tranco, e a antiga chama o prenderia de vez ao altar, salvando a sua família do leilão? Afinal, a culpa de Marcela era amá-lo demais, a ponto de se tornar uma obseção. Por isso, havia se entregue na juventude a ele, assim como Betty.
Munido daquela jura de sacrifício e com o peito travado de nervoso, Armando não recuou quando a porta de madeira colonial do seu quarto foi empurrada silenciosamente na penumbra. Marcela adentrou o aposento vestindo a sua camisola de seda preta mais fina, mui desconfiada e possessiva pelo gelo dos últimos dias, mas decidida a usar as suas manhas para atiçá-lo e cobrar o seu desfrute adiantado de noiva.
— Eu passei o dia inteiro olhando para aquela igreja contigo, Armando... e senti o seu corpo mui longe do meu calor perante o padre — ela sussurrou com uma voz aveludada, sentando-se escarranchada sobre os quadris dele na cama de solteiro, deixando o perfume de asfalto invadir o ambiente. — Esqueça a lavoura por esta noite! Olhe para a mulher que vai portar o seu sobrenome! Me faça sua hoje, caramba!
Armando Mendoza manteve-se de costas no colchão, com o maxilar travado e o peito subindo e descia em uma combustão de ansiedade. Ele buscou a boca dela com uma força rústica, forçando um beijo úmido e mui profundo, determinado a recuperar o seu vigor de macho rodado no mundo. Ele tentava de todas as formas trazer à memória as noites ardentes do passado com a Marcela perante o celeiro, tentando se guiar pela obrigação e pela honra do contrato para dar o desfrute à noiva...
No entanto... O tranco foi violento e mui humilhante. O corpo de Armando simplesmente travou no susto perante o toque da camisola de seda; por mais que a sua mente gritasse pelas regras do Seu Roberto e pela dívida moral com os Valência, a sua virilidade recusava-se a ceder à farsa. Ele fracassou por completo nos lençóis! A sua carne estava irremediavelmente viciada, amarrada e vaticinada puramente no sabor de amora silvestre e na doçura com que a sua Bettica havia se entregado por inteiro na cama do hotel de Bogotá. Ele não servia mais para nenhuma outra fêmea da terra.
Marcela Valência recuou o corpo na escuridão, sentindo a frieza e a ausência de vigor dele, o mundo desabando em sua cabeça. O choque daquela falha esmagou o seu orgulho de elite.
— Mas... o que é isso, Armando?! — ela gaguejou com a voz trêmula, as lágrimas de humilhação queimando o rosto de dondoca perante a penumbra do quarto [🎭]. — Você... você nunca teve esse tipo de tranco comigo! Nós sempre tivemos fogo nesta cama! O que diabo essa tensão da fazenda fez com o seu corpo de homem feito?!
Armando Mendoza não soltou uma única linha de prosa para remendar o estrago; apenas cobriu o rosto molhado de suor com o lenço vermelho, o peito subindo de puro remorso e raiva contida perante o próprio fracasso, mantendo uma distância gélida na almofada.
Marcela virou=se mo colchão num salto, puxando a coberta, sentindo a sua dignidade ser estraçalhada no chão do quarto do Mendoza
-Não pense que vai ficar assim, Armando Mendoza, sei que está com alguma por aí, que tem tirado suas forças! Mas vai recuperar ou não me chamo Marcela Valência! Pode desfrutar, mas no fim é comigo que vai se casar! -disse de costas, tentando secar suas lágrimas.
Restou ao caubói to mais escuro tribunal de sua consciência de arriero dominado, pronto para vestir as calças mui frustrado. Sem conseguir dormir e tendo Marcela ao lado na pequena cama, o que o impedia de se mexer, o homem resolveu que aquele quarto era muito pequeno para os dois.
O que ele não sabia é que ao ver Marcela adentrar o quarto, Betty ficou à espreita e já ia para seu quarto quando ouviu algo que não eram os gemidos frequentes, haviam discutido, por algo que não conseguia entender. Logo, ouviu uma porta ranheta abrir e dela sair Armando. Se escondeu e foi para seu quarto.
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