Casamento por obrigação
37 Capítulo 35- Após o amor
Armando Mendoza dormia tranquilamente com um sorriso terno nos lábios, nu ao lado de Betty, quando ela abriu os olhos na primeira luz da manhã. Seu corpo ainda sentia o peso e a dor daquela noite, mas ela sorriu. Ao vê-lo ali, mais lindo do que nunca, como veio ao mundo ao seu lado, lembrou-se dos momentos em que o ouviu gritar de puro prazer. No meio de sua própria dor de menina inocente, ela havia chegado a sentir um vislumbre daquela febre.
— E ele é meu... todo meu... — sussurrou Betty, acariciando o ombro forte do caubói.
Queria ficar aninhada ali para sempre, mas ao se mover, viu que tinha sangrado nos lençóis do hotel e sentiu uma ponta de vergonha.
"Com certeza nenhuma de suas mulheres e amantes da rumba sangrou assim", pensou ela, com um nó de timidez no estômago.
Logo ela se levantou devagar, não sem antes dar-lhe um beijo casto na testa. Foi para o seu quarto se banhar e reviver os únicos momentos de prazer que teve naquela madrugada. Precisava ficar de molho na água quente da banheira, fechar os olhos e recuperar as forças do seu corpo.
Minutos depois, o sol forte de Bogotá invadiu o quarto de Armando, acordando-o. Ele abriu os olhos assustado e, por um segundo, pediu a Deus que tudo aquilo tivesse sido apenas mais um dos seus sonhos impuros com a filha do contador. Mas a realidade o encontrou: não só estava nu sob as cobertas, como havia uma mancha nítida de sangue em sua cama.
Era verdade. Ele a havia feito mulher.
— O que foi que eu fiz? Sou um verdadeiro canalha! — praguejou Armando, batendo com o punho na cabeceira. — A Betty confiou em mim e eu prometi ao Seu Hermes que ia protegê-la...
O que ele mais queria era se trancar naquele quarto o dia inteiro para não ter que encará-la, mas havia prometido que a levaria para ver o seu Tio Lázaro e precisava cumprir a palavra de homem. Com o peito apertado, ligou para o quarto de Freddy e ordenou que preparassem o jipe imediatamente.
— E os senhores irão conosco hoje! — avisou Armando pelo telefone.
— Mas patrãozinho... o senhor havia dito que teríamos o dia livre na Capital! — reclamou Freddy do outro lado da linha, com a voz de ressaca.
— Mudei de ideia! Estejam prontos em dez minutos!
Armando precisava que os capatazes fossem junto, pois a presença deles serviria de escudo para adiar a conversa séria que teria de ter com Betty. Ele não saberia o que dizer a ela hoje; seu próprio corpo ainda estremecia ao lembrar do prazer brutal que sentira. Sentia-se um aproveitador, e o remorso por tê-la feito sentir dor o consumia.
No entanto, quando desceu para o saguão, Betty apareceu toda feliz e sorridente. Ela já havia se recuperado do susto da madrugada. Sentia-se uma mulher completa, a legítima mulher de Armando Mendoza, e esperava que no próximo encontro estivesse pronta para satisfazê-lo sem dor. Mas o seu sorriso se desfez na hora ao ver que o jipe não seria apenas dos dois.
A casa do Tio Lázaro ficava quase na saída de Bogotá, em uma área mais pacata. Se não fosse pela carta antiga guardada, Betty não se lembraria do caminho, pois há muito tempo não pisava ali. Quando as tias Pinzón abriram a porta de madeira e as viram, ficaram loucas de felicidade.
— Boa tarde, minhas tias!
— Ave maria, não posso acreditar! Bettica?!
— Sim! Sou eu mesma, ojojo!
— Olhem só quem está aqui, corram! É a Bettica! Mas que linda você está, minha filha!
— Fiz uma mudança de look completa lá na faculdade da Capital, minhas tias.
— E estes rapazes fortes quem são? — perguntou a Tia Aurora, ajeitando o avental.
— Ah, a senhora conhece o meu pai. Deixe-me apresentar: estes são o Freddy e o Wilson, que trabalham conosco na roça... E a senhora se lembra do Armando Mendoza, não?
— Mas claro! Quem poderia esquecer um moço bonito e elegante desse? Sejam muito bem-vindos à nossa casa!
— Grato pela gentileza, senhorita! — disse Freddy, tirando o sombrero.
— Grato, dona! — completou Wilson, imitando o gesto.
Os três rapazes levantaram os chapéus em cumprimento, esbanjando a simpatia do homem do interior, quando uma voz rústica e cansada ecoou do corredor dos fundos.
— Mas o que está acontecendo aqui na frente que tanta gente fala?
— Tio Lázaro! Ojojo! Que prazer imenso em revê-lo! — Betty correu para abraçá-lo.
O velho ajeitou os óculos fundos, olhando-a de cima a baixo com desconfiança.
— Quem é a senhorita de roupas finas?
— Papai, é a Bettica! A filha do Hermes! — avisou a tia.
— Bettica? Quer dizer a minha sobrinha Beatriz Aurora Pinzón?
— E Solano, tio! Ojojo!
— Mas você não se parece em nada com a menininha desajeitada que saiu daqui para estudar!
— Ela mudou de look na Capital, papai! Ficou moderna!
— E ficou muito mais linda, o senhor não acha? — sorriu Betty.
— Não achei não! — resmungou o velho Lázaro, limpando os óculos. — Era muito mais bonita quando se parecia com uma Pinzón de verdade!
— Mas sou eu mesma, tio! — ela riu, abraçando o pescoço dele.
— Está bem... — o velho amoleceu, retribuindo o abraço com carinho. — Esta risada de ojojo só poderia pertencer a uma Pinzón legítima. Desculpe o mau jeito.
— Desculpe-me o senhor se eu demorei para vir visitar, tio. É que estou morando e ajudando na fazenda de novo.
— Na fazenda?... — o semblante do velho mudou, ganhando um tom amargo. — Na velha Fazenda Laços?
— Sim! Mas a propriedade está muito melhorada hoje em dia. Os meninos aqui cuidam bem de tudo, claro, com todo o apoio e os investimentos do jovem herdeiro... Não sei se o senhor o conhece, o Armando.
— Sua cara de bom moço não me é estranha... Mas eu não conheço nenhum Armando! — desversou o velho, encarando o rapaz da jaqueta de couro.
— Creio que o senhor deve conhecer o meu pai, então... O Senhor Roberto Mendoza — interveio Armando, dando um passo à frente com educação.
— MENDOZA?! — o velho Lázaro travou no lugar, os olhos arregalados.
— Sim, eu sou Armando Mendoza! — o caubói estendeu a mão firme e sorridente para cumprimentar o idoso.
— Como ousa um Mendoza colocar os pés imundos dentro desta casa?! — gritou Lázaro, cheio de raiva, recolhendo a mão bruscamente e dando um passo atrás.
Betty ficou sem ação, olhando de um para o outro em choque. Seu tio-avô Lázaro olhava com olhos de puro ódio para o seu amado Armando.
— Ti... tio Lázaro, o que é isso?
— Ponha-se daqui para fora agora mesmo, Mendoza! — esbravejou o velho, apontando para a rua. — Logo vi a semelhança maldita! Já não basta o que os seus antepassados fizeram contra o nosso sangue no passado?
— O que eles fizeram? Do que o senhor está falando? — perguntou Armando, completamente confuso e ofendido.
— Jovem, é melhor que o senhor venha comigo para o jardim — interveio a outra tia, segurando o braço de Armando com pressa. — O tio fica muito nervoso quando escuta esse sobrenome. Venha.
— Mas, dona... eu não fiz nada!
— Entenda que não é nada pessoal contra o rapaz! — cochichou a tia para Betty, enquanto arrastava Armando, Freddy e Wilson para fora da casa. — Mas um Mendoza entrou aqui... Ave maria, que perigo!
Lá no jardim da frente, os três homens da roça olhavam-se desconcertados, sem saber o que fazer.
— Olha, patrãozinho... é a primeira vez na minha vida de peão que eu vejo um homem rico ser expulso de casa de pobre desse jeito! — cochichou Wilson, coçando a cabeça.
-O que o velho tem contra os Mendoza?
-Não sei. Meu pai nunca falou-me sobre isso. Betty vai ter que me falar.
-Se o velho contar para ela...
O velho já havia ido com dificuldade para o fundo da casa.
-Tio, agora pode me explicar?
-Beatriz Aurora, terei muito prazer em explicar.
-O que tem contra o Armando?
-Armando. Pessoalmente, não conhecia o jovem, nem de nome, posso afirmar. Há muito tempo não vou à fazenda. Meu problema é com os velhos como eu!
-Os Mendoza? Diz Seu Roberto e Dona Margarida?
-Assim se chama, Roberto Mendoza, a senhora não conheço.
-É a esposa dele.
-Logo se vê. O jovem Roberto se casou.
-Jovem?
-Para minha época sim.
-Armando é filho dele.
-Por isso, não ouvi falar. Mas a semelhança é notória.
-Roberto e Margarida são casados, donos da fazenda Laços.
-Donos? SEI...
-Não entendo o que quer dizer.
-Pelo visto nosso assunto será longo. Hermes nunca escutou o que lhe dizia na juventude, nem mesmo abriu nenhuma das cartas.
-Meu pai é de pouca leitura.
-Mas você, ao que me disseram, é a melhor de sua classe.
-Sim, sou formada e ganhei uma bolsa para estudar Administração, Economia, mas tive que trancar.
-Está na fazenda agora?
-Sim. Mamãe está doente e estou cuidando dela e também da escolinha da fazenda como professora. Armando é o diretor e dá aulas.
-Passa muito tempo com o tal Armando?
-Somos ... amigos desde pequenos, quer dizer, eu era pequena. Ele sempre me protegeu das outras crianças quando me ofendiam.
-Quem ousou te ofender?
O velho Lázaro bateu o bastão no chão com força, os olhos brilhando de fúria.
— Os Valência?! Isso me cheira ainda pior do que os Mendoza! Ladrões da mesma laia!
— O senhor também conhece os Valência?
-Não creio que conheço estas crianças de quem fala, mas os pais...
-S. Júlio e Suzana.
-Jovenzinhos, mas os pais...
Betty estava confusa, nunca soube que seu tio-avô conhecera os Valencia. Nem sabia que ele havia ido à fazenda algum dia.
-Preciso que se sente. O estranho é que não conheça nada de sua história, Beatriz. Há poucos dias recebi a visita de um senhor que disse que veio a mando de Hermes.
-Como assim?
-Ele trazia cópia da carta que lhe enviei por seu aniversário.
-Esta carta?
-Sim. "Querida sobrinha, feliz aniversário. Infelizmente, meu estado de saúde não permite que a visite na ocasião de seu aniversário, motivo pelo qual, enviei sua tia. Espero que possa visitar-me em minha casa, que será sempre sua, tão logo, esteja na Capital. Obs: Assunto referente a sua herança.
Agora que tem 18 anos tem que saber a verdade. Nada é o que parece.
-Sim, era a cópia dessa carta. Disse que você não poderia estar pessoalmente, por isso, gostaria de saber.
-Estranho, pois não falei desta carta com ninguém. Nem com meus pais. Como era este jovem?
-Vestia terno, muito elegante e refinado, cabelo castanho, branco, da mesma idade deste Mendoza ai. Ele tem irmãos?
-Não, Armando só tem uma irmã. Qual era o nome dele?
-Agora não me lembro. Aurora, qual era o nome do moço que veio?
-Davi, disse que era Davi Valenz. Era bem estranho.
— Agora você diz que era estranho, Aurora! — resmungou Lázaro de volta. — Na ocasião você disse que o sujeito era muito simpático, refinado e bem bonito!
-Ela só pensa em casar!
-Boba!
Beatriz ficou bem intrigada, não conhecia ninguém com este nome, mas sentiu um aperto no peito.
-E o que falou?
-Como mostrou cópia da carta e disse que você e seu pai o tinham enviado, deram detalhes, infelizmente, contei algumas coisas.
-O que contou, tio?
-Mostrei-lhes uns papeis. Ele queria levar, mas não deixei.
-O que diziam estes papeis?
-Beatriz Aurora, sente-se que vai conhecer a história verdadeira. Nada é o que parece. Por favor, Aurora, vai lá para fora.
— E o que esse homem falou para o senhor, tio? O que ele queria?
— Como ele me mostrou a cópia da sua carta de aniversário e disse que você e o Hermes o haviam enviado como advogado da família, ele me deu detalhes que só nós sabíamos... Infelizmente, eu acreditei na farsa e acabei contando algumas coisas para ele.
— O que o senhor contou para ele, tio Lázaro? Pelo amor de Deus! — Betty segurou as mãos trêmulas do velho.
— Eu mostrei para ele alguns papéis e escrituras antigas do século passado. Ele tentou de todas as formas levar os documentos originais embora na pasta dele, dizendo que era para o processo, mas eu sou velho, Beatriz, mas não sou bobo! Eu não deixei ele tocar nos originais.
— E o que diziam esses papéis antigos, tio?
— Beatriz Aurora... sente-se firme nessa cadeira e escute com atenção, porque você vai conhecer agora a história verdadeira do nosso sangue. Nada naquela Fazenda Laços é o que parece. Por favor, Aurora, vá lá para fora servir os rapazes e nos deixe a sós!
— Eu não posso ouvir a história agora, papai? — reclamou a Tia Aurora, saindo com a bandeja. — Sendo que o senhor contou tudo para o tal Davi Valenz que nem sabia quem era! Ele parecia um advogado de verdade, eu também acreditei nele!
A Tia Aurora saiu resmungando pelos corredores, decidida a levar o café com bolos para os moços bonitos do jardim antes que eles fossem embora. No quarto dos fundos, o silêncio ficou pesado.
— Não entendo, tio... o que um desconhecido como esse Valência teria de interesse na história dos Pinzón? — perguntou Betty, com o coração batendo compassado.
O velho Lázaro olhou fixamente nos olhos de café da sobrinha, com uma seriedade que fez o sangue dela congelar.
— Porque a nossa história e o nome dos Pinzón envolvem o que aquela gente da alta sociedade mais cobiça, Beatriz... Envolve poder absoluto, ambição desmedida e a maior traição que Quindío já viu no século passado. Sente-se e escute!
Beatriz sentou-se na beira da cadeira e ouviu atentamente, sem desviar os olhos por um segundo, tudo o que o seu tio-avô começou a revelar sobre o passado oculto das terras dos Pinzón.
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