Casamento por obrigação
30 Capítulo 30
O silêncio do corredor colonial foi quebrado pelo barulho agressivo de socos na madeira fina da porta.
— ARMANDO! ARMANDO! — gritava a voz histérica da noiva na penumbra.
— Mas o que diabo você quer a esta hora da noite, Marcela? — resmungou Armando lá de dentro, o peito subindo de puro cansaço e irritação. — Vá para o seu aposento!
— Abra esta porta agora mesmo, Mendoza!
— Você enlouqueceu de vez, mulher? — esbravejou o caubói, abrindo uma fresta com o cenho franzido.
— Estou louca... louca de desejo! Abra esta porta de uma vez por todas e me deixe entrar! — exigiu ela, tentando empurrar a madeira com o corpo.
— Mas que gritaria desavergonhada e que escândalo são estes no meio do corredor, Marcela?! — a voz fria e cortante de Daniel Valência ecoou das escadas, interrompendo o alvoroço.
— Daniel! — Marcela sobressaltou-se no susto, ajeitando o robe de seda.
— Mas que modos vulgares de cocheira são estes de ficar esmurrando a porta do quarto de um homem de madrugada para que ele lhe abra as intimidades? — repreendeu o irmão, com o seu tradicional cinismo de terno caro.
— Eu não estava fazendo nada de errado, Daniel! Só ia falar mui rápido com o meu noivo! — mentiu ela, afastando-se da porta com passos pesados e marchando em direção à sala principal, enquanto o irmão a seguia de perto com o olhar predatório.
— Noivo!... — Daniel desdenhou, soltando uma risada mansa na penumbra do salão. — Por acaso vocês dois já marcaram a data definitiva para subirem ao altar perante o padre?
— No próximo jantar oficial das nossas famílias, nós marcaremos de vez! E com pompa!
— Pois tome mui cuidado, minha querida irmã... É melhor se apressar com esses papéis! Porque o seu noivo caubói não parece nem um tiquinho animado com a ideia desse compromisso oficial de sociedade.
— E você por acaso oficializou a sua situação com aquela caipirazinha dos fundos? — atacou Marcela, destilando o seu veneno de dondoca.
— Sim, com toda a fidalguia do mundo. Eu acabo de pedir oficialmente a mão da Beatriz Aurora em casamento para os pais dela no jantar de hoje! E, claro, o Velho Hermes Pinzón aceitou o meu compromisso de mui bom grado. Ficou lisonjeado!
— Também... um genro rico, poderoso e de linhagem como você, quem diabo nesta roça não haveria de querer para a família? — Marcela deu de ombros, com desdém. — E a Beatriz? Como ela reagiu ao dote?
— Ela ainda está um bocado arredia e cheia de marra caipira... mas logo, logo ela aceitará o destino dela. Não há como fugir das minhas rédeas, Marcela.
— Destino ou uma imposição sua e do papai por trás das aparências?
— Ora, pouco me importa o nome que você queira dar ao negócio! — Daniel deu de ombros, com total frieza de mercado.
— E por acaso você não se importa nem um milésimo com o fato de aquela menina não estar nem um tiquinho apaixonada por você, Daniel? Que ela te olhe com asco?
— Mas que tolice... essas coisas românticas de livros da Capital não me iludem nem um tiquinho, irmãzinha! A Beatriz vai ser minha fêmea e pronto, acabou-se a prosa. Por acaso você se importa em saber se o Armando Mendoza gosta de verdade de você perante a igreja?
— O Armando me ama com a alma dele, Daniel! — Marcela gritou, o orgulho de dondoca ferido. — Nós sempre estivemos juntos correndo por estes campos desde adolescentes! Ele é meu!
— Sim... esteve junto com você, com a Karina, com as camponesas dos estábulos, com as mundanas da rumba na cidade e com todas as saias que cruzam o caminho dele! — debochou o irmão, aveludado.
— Quando ele assinar o casamento e se casar de papel passado, ele será um homem fiel! O Armando me ama, eu tenho a certeza absoluta!
— Ave maria... Só você mesma na face da terra para ter a inocência de acreditar numa carochinha dessas, Marcela! — Daniel deu uma gargalhada fria.
— E você por acaso ama a Beatriz, Daniel? Olhe nos meus olhos!
— Amor de alma não, não sejamos caipiras. Mas admito para o meu sangue que aquela jovem me atrai com uma força mui grande. Esse jeito de menininha pura... além do mais, a Beatriz é extremamente inteligente com os números e as finanças. Ela pode mui bem me ajudar no que eu quero arquitetar perante os negócios da Ecomoda. E você sabe perfeitamente bem que, pelas regras do papai, um dia eu terei que me casar e assentar a cabeça para poder herdar a nossa fazenda vizinha por completo.
— Eu só não consigo compreender o porquê de você ter escolhido justamente ela, Daniel... uma garota que não pertence à nossa classe social, uma filha de empregado dos fundos! Fica feio perante a sociedade!
— Silêncio, Marcela! Você não sabe uma única linha do que está dizendo com essa sua língua comprida! Mas não importa... a Beatriz será minha e ponto final!
— E se ela se recusar de todas as formas? Se ela disser não perante o juiz? Pretende forçá-la na marra, ameaçá-la pelas costas ou cometer algum abuso contra o corpo dela na mata?
— A Beatriz Aurora será a minha esposa legítima, Marcela! E com a minha própria esposa eu tenho o direito de fazer o que eu bem quiser debaixo dos lençóis quando ela estiver trancada no meu quarto! Ela vai me servir!
— Mas você fala exatamente como o canalha ordinário e sem escrúpulos que eu sempre soube que você era, Daniel Valência! — a voz rústica e furiosa de Armando ecoou do portal da sala, quebrando o sigilo da conversa.
O caubói havia descido os degraus em chamas, o peito subindo e descendo de puro ciúme doentio ao escutar as nojeiras que o cunhado planejava contra a sua Bettica [🎭].
— Ora, ora... vejam só quem temos aqui plantado na penumbra! — Daniel virou-se devagar, ajeitando as abotoaduras com o seu sorriso mais cínico. — O patrãozinho Mendoza em pessoa. Acaso você guarda algum tipo de ciúme de peão por causa da minha noiva, Armando?
— Ciúmes?! — Armando travou o maxilar, os punhos cerrados de tanta raiva contida perante o rival. — Não diga asneiras na minha casa, Valência! A Beatriz... a Beatriz é como se fosse uma prima querida de sangue para mim. Uma irmãzinha de criação!
— Pois fique sabendo que perante os meus olhos de homem... não parece nem um bocado carinho de priminhos inocentes!
— Daniel! O que diabo você está querendo insinuar com essa insinuação maldosa perante o meu noivo?! — perguntou Marcela, intrigada com o tom da conversa, olhando de um para o outro.
— Ele sabe mui bem do que eu estou falando, Marcela! — Daniel sibilou com veneno, fitando o Mendoza com desdém. — O jeito exagerado e selvagem com que o Armando cuida, zela e protege os passos da filha do caseiro por todo este pátio não é nada comum de parentes de berço! Há fogo ali!
— Eu sempre cuidei e defendi a Beatriz de qualquer engraçadinho desde que ela era apenas uma moleca indefesa nos fundos, Valência! É o meu dever de homem da terra!
— Pois espero de todo o coração que seja puramente isso, Mendoza! Mas você já está sabendo da grande novidade da noite? O honrado Seu Hermes Pinzón aceitou de braços abertos o meu pedido oficial de cortejo e dote!
— Infelizmente... infelizmente essa sujeira de jantar já chegou a meus ouvidos, Valência! — Armando respondeu com a voz rouca de ódio, o peito ardendo.
— Então, sendo as coisas desse jeito legítimo, você já não precisa mais se preocupar ou meter o bico nos horários dela, Mendoza! Pois a partir de amanhã cedo, eu mesmo faço questão de cuidar e gerenciar os passos da minha linda noiva!
— Eu sempre, até o fim dos meus dias, cuidarei do bem-estar e da honra da Beatriz, Daniel! Não se esqueça disso!
— Veja só que espetáculo de farsa, Marcela! — Daniel deu uma risada de escárnio, dando as costas para caminhar até a saída. — Eu duvido imensamente que o seu noivo caubói se preocupe tanto com o seu enxoval ou contigo quanto ele vive se torturando e se preocupando com o destino da minha Beatriz! Passam mui bem!
Depois de mais algumas discussões azedas e gritos finos na sala de jantar, os irmãos Valência finalmente pegaram o carro importado e foram embora na escuridão da estrada de terra de Filandia.
Armando Mendoza ficou sozinho no meio do salão deserto, segurando o sombrero com as duas mãos trêmulas de nervoso. A sua primeira reação de homem foi caminhar direto até a casinha dos funcionários para ter uma prosa mui séria com o Seu Hermes sobre o absurdo e a tirania de querer obrigar a própria filha a casar-se por obrigação com um monstro asqueroso como o Daniel. Mas ele travou os passos no meio do cascalho do pátio; percebeu, com uma amargura pesada no peito, que aquela intervenção seria totalmente inútil e hipócrita da sua parte. Afinal de contas, ele mesmo estava passando exatamente pelo mesmíssimo martírio e pela mesma situação de cabresto com os Valência por causa das dívidas de seu pai! Quem era ele para ditar regras de casamento por amor na fazenda?
Tampouco o caubói tinha com quem desabafar as suas angústias e o seu sofrimento carnal ali na roça. Ele sentia uma saudade imensa, uma falta danada dos tempos em que o seu grande amigo Mário Calderón morava na fazenda vizinha e os dois passavam as noites bebendo e conversando sobre as mulheres. Armando precisava urgentemente dos conselhos astutos e safados do comparsa de Bogotá para entender o tamanho desse feitiço da Betty que estava lhe tirando todo o juízo de macho. O Freddy e o Wilson eram boas pessoas, funcionários mui leais e dedicados na lavoura, sim... mas eram homens simples da colheita, não serviam de jeito nenhum para entender os dilemas e as finanças da alta sociedade.
Armando não via a hora de poder pegar o jipe de linha e ir até a cidade vizinha para desabafar no tinto com o amigo Calderón, mas as obrigações pesadas com a colheita do algodão e a gerência do café ainda fariam com que aquela viagem demorasse algumas longas semanas. Até lá... ele teria que aguentar a tortura diária de ver o Daniel rondando a cada final de tarde.
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