Casamento por obrigação
28 Capítulo 28
Era uma tarde daquelas abafadas e mui quentes na Fazenda Laços, na qual os mosquitos faziam a festa ao terem sangue fresco de colono para saborear. As roupas de algodão grudavam no corpo de tanto suor. Dentro daquela cabana rústica que servia provisoriamente de escola, a situação não era mui melhor. Beatriz, com uma trança enorme e negra caindo por suas costas, e Karina, com um rabo de cavalo alto, abanavam-se desesperadas mesmo vestidas com simples vestidos de chita, tamanho era o mormaço, enquanto anotavam com pressa as lições dos adultos no quadro-negro.
E a coisa não melhorava muito para o juízo de nenhuma das duas. Além do clima infernal de Quindío, a sala improvisada estava cheia de alunos peões, e Armando Mendoza estava plantado bem ali na frente delas. A presença do herdeiro, de jaqueta de couro entreaberta, esquentava ainda mais o ambiente para as duas professoras, que não paravam de implicar, trocar farpas e jogar indiretas venenosas uma para a outra por causa do espaço.
O turno da tarde já estava terminando quando, de suetão, a Marcela Valência chegou de surpresa para ver o noivo. Ela detestava com todas as forças que o Armando desse aquelas aulas tendo as duas como colegas de lousa. Na mente esnobe de Marcela, a Beatriz não passava de uma sonsa abusada, uma reles filha de funcionário que se achava cheia de direitos e fidalguia, e que agora andava muito mais metida e cheia de marra só porque havia voltado bonita da Capital — a ponto de o seu próprio irmão Daniel estar de namorico oficial com ela nos fundos. Mas a que mais arrancava os cabelos da noiva era a tal da Karina. Com certeza absoluta, aquela professora loira guardava algum caso antigo de carne com o Armando. Por isso, para demarcar o seu território, Marcela não se intimidou nem um tiquinho perante as carteiras e tratou de abraçá-lo com força na frente de todos os peões adultos.
— Mas o que é que o meu noivo querido está fazendo trancado aqui a esta hora? — perguntou ela, esticando o pescoço para dar-lhe um beijo possessivo na bochecha.
— Dando aula para os nossos trabalhadores, Marcela! Que coisa! — Armando resmungou rústico, tentando soltar-se do aperto.
— Ora, Armando, você não tem a menor necessidade de se misturar com isso! Você é o futuro dono legítimo destas terras! Deixe que essas duas “professoras” deem o conteúdo por aí. Afinal de contas, é para isso mesmo que você as tem aqui trabalhando e recebendo salário! — desdenhou a Valência, apontando com o queixo.
— Sabe mui bem que para o meu peito é uma imensa satisfação dar estas aulas de reforço para o povo da lavoura, Marcela.
— Sei... — ironizou ela, aproximando o rosto do dele. — Você deve estar se satisfazendo é com outras coisas mui diferentes no meio desse feno!
— Mas que cruz pesada que eu carrego! — Armando murmurou entre dentes, os olhos virados de pura frustração.
Betty, assim que viu a Marcela cruzar a soleira com toda aquela pompa, já havia passado à frente com os seus cadernos de relatórios, de modo a bater em retirada e sair do galpão sem nem ao menos se despedir de Armando, e mui menos ter que encarar a cara debochada da loira Karina. A rival, embora também detestasse a arrogância da noiva de sociedade, sabia perfeitamente o quanto a filha do caseiro estava chateada com o flagrante.
Mas, como dissemos antes, o dia era de um mormaço de rachar o crânio. Ao caminhar pela trilha de terra batida perto do rio, Betty não resistiu ao calor e resolveu fazer de uma vez o que havia planejado em pensamento com o seu caubói: tomar um banho refrescante de rio. Exatamente como fazia desde a sua meninice. Virou a cabeça para um lado e para o outro, aguçou o ouvido, e como não avistou vivente nenhum na divisa, tirou o vestido de chita com pressa, pendurou o tecido em um galho de árvore e mergulhou nas águas correntes.
Naquele mesmo rio de Quindío, quando eram apenas crianças, ela, o Armando, o Mário Calderón, a Marcela e a Maria Beatriz se banhavam nos dias de sol, e o Armando sempre tinha que entrar no meio da água para defendê-la dos bullyings e das chacotas pesadas que os filhos dos fazendeiros faziam por conta de suas roupas de banho remendadas e totalmente fora de moda.
Mas esses tempos de humilhação já eram passado na roça. Agora, Beatriz exibia uma bela e deslumbrante forma de fêmea, embora guardasse no peito a mesma doçura simples e o recato de sempre.
Minutos depois, ao caminharem em direção ao casarão principal, com a Marcela grudada feito carrapata no seu braço, Armando Mendoza não pôde deixar de reparar, através das folhagens, no belo corpo da jovem que se banhava nas águas cristalinas. O caubói simplesmente não conseguia sair do seu estado de assombro. Ele já a havia visto várias vezes daquele jeito nos seus encontros às escondidas. Já havia sentido aquele corpinho de porcelana tremer inteiro no seu colo debaixo d'água... Mas, a cada novo amanhecer, os seios dela pareciam mais redondos e maiores sob o sol, e as suas coxas pareciam palitões grossos e fartos que escondiam o maior e mais precioso tesouro daquela fazenda. Um tesouro de inocência que ele preferia morrer antes de deixar qualquer outro homem do vilarejo ousar desfrutar. Armando sentiu a virilidade pulsar com força dentro da calça jeans colada, completamente excitado, mas precisava disfarçar o tranco e não dar na vista de jeito nenhum; a Marcela estava ali do lado e, se percebesse um milésimo daquela febre, não ia deixá-los em paz enquanto não mandasse a filha do caseiro embora de Filandia com as malas na mão.
Assim, Armando ficou flutuando e pensando naquela aparição do rio até colocar os pés dentro de casa, onde iria jantar formalmente com os seus pais e com a noiva. Realmente, o mormaço estava infernal naquela tarde e ele daria tudo o que tinha para também poder largar as obrigações e tomar um banho selvagem com a sua Bettica na cachoeira.
— Mas o que é que há com você hoje, Armando, que está tão aéreo e com o juízo perdido na mesa? — cobrou Marcela, batendo o garfo.
— E-eu... eu estava apenas pensando no... no andamento das coisas da colheita, Marcela — gaguejou o caubói, ajeitando o lenço vermelho no pescoço.
— Com toda a certeza do mundo ele estava pensando é nos detalhes do nosso grande casamento de sociedade, não é, meu filho? — sorriu Dona Margarida, orgulhosa.
— Si-sim... no casamento perante a igreja. Que outra coisa de valor eu pensaria? — mentiu ele, engolindo o nó na garganta.
Neste exato momento de mentira, Beatriz materializou-se bem na frente deles no portal da sala de jantar. Estava usando o seu vestido seco de chita, mas o cabelo enorme, negro e cacheado estava completamente molhado, escorrendo em cascata pelos ombros e acabando por molhar o chão de madeira encerada da sala dos Mendoza a cada passo.
— Mas olha só que espetáculo deplorável! Parece um pinto molhado no meio do salão! — disparou Marcela, com uma voz carregada de puro deboche e raiva de dondoca.
— Er... desculpe... me perdoem o mau jeito, eu realmente não sabia que os senhores tinham visitas importantes na mesa... Desculpe-me! — Betty abaixou os olhos de café, o rosto queimando de vergonha.
— Tudo bem, Betty, não seja por isso, minha filha! — acalmou o Seu Roberto Mendoza, mui amável e fidalgo. Para o velho fazendeiro, aquilo era o costume da casa; a Camila e o Armando várias vezes entravam correndo daquele mesmo jeito, encharcados, depois de tomarem banho no rio. A Betty havia nascido ali e era tratada como uma sobrinha querida.
— Visita de sociedade aqui é você, Beatriz! Eu sou a noiva legítima e a futura esposa dele! — esbravejou Marcela, levantando-se da cadeira com fúria. — Quando nós assinarmos os papéis e nos casarmos, eu te garanto que não permitirei mais esse tipo de abuso e de molecagem pelos tapetes!
— MARCELA! CHEGA! — Armando levantou-se num salto, o rugido fazendo os copos vibrarem. — Você não tem motivo nenhum para falar nesse tom de grosseria com a Beatriz! — ele tentava se controlar com as últimas forças, mas ver aquela ninfeta descalça e molhada na sua frente estava deixando o caubói completamente fora dele mesmo, louco de tesão e proteção.
— Ah, vejam só! Agora o meu noivo também vai permitir e bater palmas para esse tipo de abuso por parte dos empregados da fazenda?! — a Valência gritou, histérica.
— A Betty não é nenhuma empregada comum desta lavoura, Marcela! Ela também nasceu, cresceu e foi criada com todo o respeito dentro desta casa, exatamente como o Mário Calderón e eu fomos criados! Ela tem direito! — Armando defendeu a honra de sua amada, o olhar faiscando.
— Ora essa, mas que audácia!
— Mas o que é que está acontecendo aqui na frente que tanta gente grita? — a voz firme de Dona Margarida cortou o alvoroço, saindo da cozinha.
— Margarida, eu pensei de verdade que a senhora soubesse dar modos e rédeas curtas aos empregados dos fundos! Veja só o estado desta garota! Está aqui parada com este cabelo imundo molhado, achando-se a dona legítima da casa grande! — reclamou Marcela, apontando o dedo.
Betty sentiu as lágrimas de humilhação queimarem os seus olhos de porcelana. O seu único desejo era correr e se trancar no quarto de cima para chorar, mas nesse exato momento de vergonha, o Seu Hermes cruzou a entrada com os papéis da lavoura na mão.
— Mas o que diabo está acontecendo aqui que se ouve a gritaria do pátio? — perguntou o caseiro, parando no portal de cenho franzido.
— Ah! Que bom que o senhor chegou, Hermes! O senhor precisa dar modos e ensinar conduta urgentemente para a sua filha! — exigiu a dondoca.
— O que foi que você aprontou desta vez, Beatriz Aurora? — o pai cobrou com severidade de arriero, a voz rústica assustando a moça.
— Não há absolutamente nada com que se preocupar ou fazer tempestade, Seu Hermes — interveio Armando rapidamente, postando-se na frente de Betty para protegê-la da cinta do pai. — Acontece apenas que a Beatriz tomou um banho mui refrescante de rio na volta da escolinha, o que é natural com o mormaço infernal que está fazendo hoje em Filandia. Eu confesso para o senhor que, por mui pouco, eu mesmo não convidei a Marce para tirar o vestido caro e fazer o mesmo no lago.
— Ah, foi só isso então!... — soltou Dona Margarida, aliviando o semblante e respirando fundo perante a fofoca.
— Mas ele fala como se uma audácia dessas não fosse nada demais! — protestou a noiva, inconformada.
— Mas não é nada demais, Marcela! Nós tomávamos banho juntos e descalços neste mesmo rio todos os dias quando éramos apenas moleques correndo pelos pastos, você não lembra? Você também vinha de carona com a Maria Beatriz! — cortou Armando, firme.
— Sim, Mendoza... mas naquela época éramos apenas crianças inocentes! Eu não fazia a menor ideia de que a Beatriz era a filha do caseiro dos fundos! — desdenhou a Valência, empinando o nariz.
— O Hermes é muito mais do que um funcionário de respeito nesta propriedade, Marcela... Ele é um grande e fiel amigo meu de toda a vida! — decretou o patriarca Roberto Mendoza, colocando um ponto final na arrogância da ninfeta.
Marcela soltou uma risada curta e mui debochada de canto, pois em sua mente esnobe achava que o quase-sogro estava soltando aquela caridade apenas porque o caseiro estava ali plantado no portal e ele não queria magoar o coitado, por ele ser um empregado mui prestativo com as contas do algodão.
— Bem... — resmungou a noiva, rendida.
— Beatriz Aurora! Olhe para o chão! — ordenou o pai, sério.
— Com a licença de todos... eu vou me recolher para o meu aposento — disse Betty, com as lágrimas escorrendo pelo rosto alva, a voz falhando de tanta dor. — Dona Margarida, Don Roberto... me perdoem pelo incômodo do tapete.
Betty virou as costas com pressa, correndo pelos degraus da escada colonial, procurando cobrir o decote e o corpo molhado com os braços. Não queria de jeito nenhum ouvir os repreendimentos e os sermões machistas de seu pai na frente dos patrões; já estava mui desgostosa e com o coração despedaçado ao ver a Marcela de braços dados e cheia de chamego com o seu namorado de sonho de toda a vida. Além disso, o seu peito guardava um pavor terrível de que o Daniel Valência aparecesse naquela reunião de família de repente para perturbar ainda mais o seu juízo com as ameaças de casamento do jantar.
Para Armando, a fuga dela foi um verdadeiro alívio de Deus. O homem estava se segurando com as últimas forças dos músculos para não avançar ali mesmo no meio da sala, arrancar a Marcela de perto, abraçar o corpo molhado da sua Bettica e dar-lhe um beijo faminto e selvagem na boca perante os pais.
—___
Seu Hermes era o mais perturbado de todos, apesar de sempre ouvir de Roberto que era um bom amigo, sabia que classe social era algo que dividia as pessoas, pois embora passassem horas conversando e bebendo, não compartilhavam da mesma mesa e gostos, como Roberto e Júlio Valencia faziam. Por isto, estava tão iludido que D Valência estivesse interessado em sua filha. Tanto que nem pensava o porquê disso.
Quando Marcela foi ver coisas com Dona Margarida e Roberto chamou Hermes para tomar umas doses de vinho. Armando aproveitou para ir até o quarto de Betty se desculpar pelo que Marcela havia falado.
—Desculpe a mim, por causar-lhe tantos problemas com sua noivinha!
—Marcela é assim mesmo. Sabe que não a suporto. Você tem tanto direito a nadar no rio quanto eu. Esta fazenda está em nome de minha família e você foi criada aqui e não ela.
—Eu sei, mas... É melhor que eu não vá mais. Ela está assim, pois pensa que vai se casar com você e vai ser dona também da fazenda Mendoza! E aí ai de meus pais!
—Não vão tocar em um fio de cabelos deles! Te prometo. Olha, quero que continue...
—O quê?
—Tomar banho de rio e...
—Não sei como sabe.
—Eu sei porque a vi tomando e estava junto de Marcela.
—Ai que vergonha.
—Vergonha nenhuma. Estava muito calor mesmo. Eu mesmo teria te acompanhado se Marcela não tivesse comigo.
—Como no outro dia?
—Sim.
Ela emocionada o abraça e roçam os lábios.
—Não sei como pode ser noivo da mulher mais chata que conheço. Vocês não tem nada em comum.
—Eu sei, mas... A fazenda.
—Se eu tivesse esta grana te livraria disso.
—Me compraria?
—Não! Assim não tem graça. Comprar um noivo! Ojojo! Se eu tivesse esta grana, pagava esta dívida para te livrar do compromisso, para que fosse livre para seguir seu caminho, mesmo que... significasse...
—O quê?
—Vê-lo rodeado de muitas mulheres. -disse sofrendo -Se fosse feliz.
—Oh, Betty... Você tem um coração puro e generoso. Merece o melhor.
Ele a abraçou
—E sei o que quero; -disse abraçando-o mais forte, mesmo que impossível.
—Fique bem!
—Vou ficar.
Ele deu um beijo doce e saiu com sorriso nos lábios.
Ao fechar a porta, não deu cinco minutos e encontrou a noiva na cozinha
—Onde estava?
—Marcela! Me dá cada susto!
—O que estava fazendo?
—Namorando por aí, não viu? Imagina, a mulher estava aqui agora mesmo.
—Não duvido nada. Todas o querem. Mas você é meu!
Armando virou os olhos. Odiava que ela falasse isso. Não se sentia dela, nem de ninguém. Era um homem de alma livre, não amava ninguém, só estava preso pelo compromisso que seus antepassados firmaram, estava preso pelo amor à fazenda, embora, seu sonho mesmo fosse voar, e trabalhar na fábrica da Capital.
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