Casamento por obrigação
18 18 O herói das virgens
Daniel não podia acreditar no que os seus olhos viam. Armando Mendoza estava ali, emergindo na lateral do barco, completamente molhado. Estava vestido apenas com a sua calça jeans colada, exibindo o peitoral másculo, largo e os belos braços enormes e musculosos em chamas. A camisa quadriculada e o cinturão de couro com o chicote ele havia deixado jogados na grama da margem antes de pular com tudo no lago. O caubói havia ido atrás de sua amiga; seu faro de arriero sabia muito bem que as intenções do cunhado com a filha do caseiro não eram flores que se cheirassem. E depois de procurá-los feito um louco pelas divisas da fazenda, avistou o barco parado imóvel bem no centro das águas profundas e sacou a covardia. Não podia escutar os gritos de longe, mas conhecia a podridão de Daniel e sabia que ali tinha maldade. A Beatriz havia crescido debaixo do seu teto, sempre fora a melhor companheira de Camila e ele sempre, desde que ela era uma menininha, a protegeu de todos que a perturbavam nos estábulos. E agora não seria nem um tiquinho diferente.
— Saia já daqui, Mendoza! — gritou Daniel, recuperando a pose, embora tencionasse os músculos no susto. — Não vê que você está invadindo a minha propriedade legítima e que eu estou mui bem acompanhado na embarcação? Vá correndo que a minha irmã Marcela está atrás de você no casarão!
— Pouco me importa a Marcela ou as suas terras, Daniel! Largue a Betty agora mesmo, ou eu te quebro os dentes! — o Tigre de Quindío rugiu, os olhos injetados de um ciúme possessivo devastador [🎭].
— Hahaha! E você acha mesmo que eu acato as suas ordens de caubói, Armando? Não está vendo que eu e a sua amiga estamos mui à vontade aqui no chamego? Ela até me pediu com jeitinho para lhe ensinar as coisas do amor, mas como ela é mui menina e inocente até para o meu paladar, vou apenas ensiná-la a beijar como um homem da cidade faz!
— Armando, socorro! Me tire daqui, por favor! — implorou Betty, chorando.
— Shiu, fique calada, empregada! — Daniel sibilou, apertando o pescoço dela. — Fora daqui, Armando! Nas águas dos Valência você não manda absolutamente nada!
Armando não esperou mais nenhuma provocação. Com a força de um touro bravo, ele se lançou para dentro do barco de madeira e arrancou Daniel de cima dela com um safanão violento.
— O que diabo você pensa que está fazendo contra uma moça direita, seu canalha?! — esbravejou Armando, segurando-o pelo colarinho do terno molhado.
— E por acaso você não sabe que uma mulher da roça não se obriga a fazer o que não queira, Mendoza? — debochou Daniel, limpando a boca.
— Armando! — Beatriz tentou se colocar nos braços protetores de seu salvador, procurando o amparo daquele peito largo, quando Daniel, tomado pelo ódio e pela covardia, deu um empurrão violento nas costas dela. Por mui pouco Betty não caiu direto nas águas escuras.
— Eu só estava querendo um beijo de moça! — Daniel limpou o terno, desdenhoso. — Mas a verdade é que essa caipira não vale tanto a pena assim. Eu estou acostumado com mulheres finas da Capital que me imploram de joelhos por um desfrute.
— Eu nunca, jamais te imploraria nada nesta vida, Daniel Valência! Você me dá é um nojo profundo! — Betty gritou, agarrada com todas as forças à cintura de Armando, escondendo o rosto na pele quente dele.
— Ah, é? Então você prefere esse caubói chucro aí, não é, Beatriz? Fique sabendo que eu sou mui melhor e mais homem em tudo do que o Armando Mendoza! — provocou o vilão.
— A Beatriz não é uma dessas mulheres da rumba que você pode sair pegando na marra e jogando fora na sarjeta, Daniel! Ela é uma moça de respeito! — Armando defendeu, postando-se na frente dela.
— Olha só quem resolveu pregar moral no pátio: o Santo Armando! O protetor das virgens!
— Eu posso não ser nenhum santo nesta vida, Valência... mas eu nunca, jamais obrigo uma fêmea a fazer o que ela não quer! Eu tenho a honra de um homem da terra!
— E quem foi que te disse que ela não queria o meu beijo, hein, Mendoza? Como você pode ter tanta certeza de que não foi essa sonsa que me provocou de propósito com esse decote para subir no meu barco?
Com medo de que Armando acreditasse na mentira do cunhado, Betty balançou a cabeça de forma desesperada em sinal de negativa, derramando lágrimas de aflição; ela não suportava o Daniel e jamais, em toda a sua existência, provocaria um monstro daqueles.
— Ela é apenas uma empregadinha de fundo de quintal, Armando... uma filha de criado! Eu já peguei muitas dessas camponesas virgens na lavoura e você também, ou vai me dizer que a sua memória de garanhão não lembra mais das nossas safadezas na adolescência? É tudo a mesma carne!
— Não fale assim dela! A Beatriz não é igual às outras... a Beatriz é a minha amiga querida! — o rugido de Armando fez o barco balançar.
— Pois fique sabendo que a minha irmã Marcela vai saber tim-tim por tim-tim dessa história, Mendoza! Ela vai adorar saber que o noivinho dela está no meio do lago abraçado com a empregadinha feia dos fundos... e você sabe mui bem o quanto a Marcela detesta a cara dessa garota!
— Conte o que você bem quiser para a Marcela, Daniel! Eu não tenho medo das suas fofocas de asfalto! Suma daqui!
Com raiva profunda por saber que não venceria o Armando em uma briga de socos de verdade ali dentro — já que o Mendoza tinha o dobro do seu tamanho e os braços calejados pelo pesado da roça —, Daniel resolveu jogar a última cartada de covardia. Num tranco rápido, ele pulou com todo o seu peso na água na lateral da embarcação, fazendo com que o pequeno barco de madeira virasse por completo de supetão, jogando Armando e Betty direto para as águas profundas do lago.
O lago naquela divisa era mui fundo e Betty, tomada pelo pânico e pelo desespero de não saber nadar bem com os saltos, começou a se debater na água, engolindo o líquido escuro. Armando, mui ágil, a tomou em seus braços gigantes no meio do mergulho; Betty agarrou-se desesperadamente ao pescoço dele, abandonando o seu corpo inteirinho à proteção do caubói. Logo em seguida, Armando conseguiu se colocar firmemente em pé no leito de cascalho do lago. O herdeiro era um homem mui alto e forte, de modo que a água cobria apenas a altura do seu abdômen musculoso, deixando todo o restante de seu peito másculo de fora do perigo. Beatriz agarrou-se ainda mais forte contra o calor dele, tremendo feito uma vara verde.
— Eu... eu jamais iria provocá-lo, Armando... eu juro pelo sagrado! — ela soltou um soluço, escondendo o rosto molhado no pescoço dele. — Aquele monstro queria me forçar... não queria só um beijo de cortesia na boca! E eu jamais, em toda a minha vida, daria um beijo voluntário naquele ser asqueroso!
— Acredite em mim, minha Bettica... eu conheço a podridão daquele sujeito o suficiente para saber mui bem que ele não queria apenas um beijo — Armando confortou, a voz rouca e terna, apertando a cintura de boneca dela contra o peito com uma posse selvagem. — Fique calma, você está salva comigo.
— Eu morreria... eu me mataria se aquele monstro tivesse me obrigado a me entregar para ele na marra, Armando!
— Se ele tivesse encostado um único dedo a mais nessa sua pele, Betty... eu mesmo o mataria com as minhas próprias mãos aqui dentro deste lago! — o caubói decretou, com os olhos injetados de uma fúria possessiva protetora.
— Você tinha toda a razão sobre o caráter dos Valência... Como eu fui tão ingênua em acreditar que ele havia mudado e virado um bom moço? Ele parecia tão gentil e fidalgo no almoço dos seus pais...
— Eu te avisei mui bem, Betty! Eu conheço o veneno daquela raça!
— Por sorte... por sorte o meu príncipe protetor estava novamente por perto para salvar a minha vida! — disse ela, apertando os braços ao redor do pescoço dele com total devoção e amor.
— Eu sempre estarei por perto para salvá-la de qualquer maldade, Betty... você sabe disso. Mas teria sido mui melhor se você tivesse evitado vir passear sozinha nas terras dele — ponderou o caubói, caminhando com ela nos braços até a margem de grama.
— Atchim! — Betty soltou um espirro curto, o corpo tremendo com o sereno da água fria.
— Você vai acabar pegando um resfriado terrível desse jeito com as roupas molhadas, menina!
Por sorte do destino, antes de pular na água para o salvamento, Armando Mendoza havia retirado o seu chapéu de palha e a sua camisa quadriculada de mangas longas, deixando as peças secas e limpas guardadas em cima da grama da margem. Agora, ele tinha uma roupa com o seu cheiro de terra e tabaco para cobrir o corpo de porcelana de Betty e protegê-la do frio de Quindío durante todo o caminho de volta para a Fazenda Laços.
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Com raiva de ver sua caça fracassada, mas limpando a boca da água e do próprio veneno:
-Ainda vai implorar para estar em meus braços, deliciosa Beatriz! Este idiota do Armando não vai colher esta fruta antes de mim!
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