Casamento por conveniência
1 Capítulo único (Oneshot)
Notas iniciais
As terras gélidas de Freljord vivem de longas tradições. Em uma guerra constante contra o frio e em busca de proteção contra invasores, Freljord sempre pôde contar com líderes fortes, capazes de doarem até mesmo suas vidas pelo reino. Avarosa foi uma lenda, a renomada rainha do que um dia foi a magnífica e unida Freljord, e a inspiração de Ashe, desde que começara a ouvir suas histórias ao lado de uma fogueira quando criança. Embora todos ao seu lado duvidassem de sua capacidade e a repreendessem por sua tolice, Ashe jurou que um dia uniria aquela nação, e que todos os povos voltariam a viver em harmonia novamente. Ela sabia que, se conseguisse, suas terras prosperariam novamente, alcançando a grandeza que tiveram no passado.
Ao completar 15 anos, Ashe perdeu sua mãe em um ataque imprudente à uma tribo, e fora repentinamente forçada a assumir o papel de líder, tomando a difícil decisão de buscar a paz ao invés da vingança que tanto ansiava. Apesar do amor que tinha por sua mãe, ela compreendia que sua morte fora apenas o resultado de seus próprios atos, e a sede de sangue significaria continuar com aquele ciclo infinito de guerras desnecessárias entre um mesmo povo.
Alguns homens de sua tribo não a reconheciam como a grande líder que sua mãe um dia foi, e portanto, criaram um conluio para matá-la. Em uma de suas caçadas matinais, Ashe fora emboscada, e sem saída, foi salva por um grande e majestoso falcão, que parecia advertir os homens para que mantivessem distância. Ela aproveitou aquele momento de hesitação para fugir, correndo em desvantagem por horas, até que aquele mesmo falcão aterrissasse à sua frente, como se estivesse guiando-a por um caminho específico. Sem nada a perder, a jovem líder depositou sua confiança naquela belíssima criatura que a salvara, seguindo-a até uma pequena clareira, entulhada por rochas pequenas, nas quais a ave pousara de modo majestoso antes de gritar e voar para longe. Aproximando-se mais daquele local, Ashe sentiu um frio ainda mais intenso, que não parecia vir diretamente daquele clima congelante. As runas de Avarosa chamaram-lhe a atenção, porém antes que pudesse averiguar mais à fundo aquele local, os assassinos encontraram-na. Ashe recuou e buscou uma das runas de Avarosa como um amuleto para proteger-se daquela situação desfavorável, revelando o que as rochas escondiam: O arco gélido da falecida rainha.
Sem nada a perder, Ashe apanhou o arco, agonizando com a dor que sentia à medida que o artefato congelava seus dedos. Era a sua vida e o futuro de Freljord que estavam em jogo, portanto ela não decidiria recuar. Virou-se rapidamente, atirando uma flecha em meio aos olhos de um dos homens, que não resistiu ao golpe. O mesmo com os outros, derrubando-os um a um, enquanto sentia sua pele congelar a cada flecha. Aquele poder adormecido dentro dela havia acordado ao empunhar o arco de Avarosa, fazendo-a capaz de transformar flechas comuns em flechas gélidas, como um ataque congelante.
Exausta, ela agradeceu pela ajuda da antiga rainha, e voltou para a sua tribo com a arma lendária em suas costas, que foi rapidamente reconhecida como uma bênção da própria Avarosa, e Ashe, como sua sucessora. Com aquele arco e sua visão pacífica, pouco a pouco Ashe prosperava, tornando sua tribo a maior de Freljord, e nomeando-os como Avarosianos.
Tryndamere era um homem desolado, com uma aura que exalava sede de vingança após perder toda a sua tribo para uma figura sombria e misteriosa. Após esse ataque, encontrou-se sozinho em meio à tempestade de neve que estava por vir, e assim que a adrenalina de seu corpo esvaiu-se, sucumbiu à gravidade de seus ferimentos, ficando inconsciente em meio à neve. Avarosianos encontraram o seu corpo já quase sem vida, e levaram-no até a tribo, visando prestar-lhe auxílio. Sua vida foi salva, e Ashe vira potencial naquele homem. A sua força era tremenda, e facilmente visível, visto seus ferimentos e o fato de ainda estar vivo após um ataque deste calibre. Ele deveria estar morto, porém não estava, e assim como havia acontecido consigo, Ashe acreditava que estava vivo pois o destino assim queria, e que seu encontro era também destinado a ocorrer.
Alguns anos se passaram, e Tryndamere havia finalmente conseguido reconstruir a sua tribo, unindo-a com os Avarosianos através de um matrimônio arranjado com sua líder, Ashe. Ele sentia que deveria pagar sua dívida por terem salvado a sua vida, e ajudá-la a ficar um passo mais perto de seu sonho parecia uma boa maneira de começar.
— Aonde pretende ir no meio de uma tempestade de neve? – Tryndamere indagou, observando enquanto Ashe se dirigia até a porta.
— Caçar. As tempestades estão dificultando o armazenamento de suprimentos ultimamente, então vou aproveitar enquanto ainda não é tão perigoso.
— Eu vou, você fica. É perigoso, então me deixe fazê-lo por você. – Disse, levantando-se.
— Eu não preciso de sua proteção. Apesar de sermos casados, é uma relação estritamente política, inclusive você mesmo já me disse para não misturarmos as coisas. – Retrucou. – Além disso, se está preocupado com o povo, não é necessário. Eu sou competente, voltarei em breve com a carne. – Completou, com um sorriso vitorioso enquanto retirava-se.
Tryndamere suspirou conformado. Era realmente apenas um matrimônio realizado graças aos interesses de ambas as partes, porém após tantos anos juntos ele questionava-se se era tão errado preocupar-se com Ashe. Era uma mulher complicada e de pulso forte, que carregava todo o peso daquela responsabilidade sozinha, e não permitia-se dividir o fardo com ninguém. Apesar disso, ele confiava naquela mulher, e portanto, decidiu caminhar pela tribo e fazer o que deveria fazer como um líder, resolvendo os problemas internos enquanto Ashe lutava sozinha pela sobrevivência de seu povo.
Em meio aos pinheiros com as folhas cobertas em neve, Ashe esgueirava-se visando encontrar um local adequado. Deveria ser silencioso e afastado, para que nenhum barulho assustasse a sua presa. Respirou fundo e retirou o arco de suas costas, posicionando uma flecha na corda sem puxá-la. Continuou caminhando naquela posição em passos silenciosos, sempre mantendo a sua guarda alta. Repentinamente, cessou os movimentos ao ouvir um ruído vindo em sua direção. Pareciam passos. Eram quatro. Seriam patas? Talvez um cervo, um tigre, ou até mesmo um urso. Ashe ajoelhou-se calmamente para aguardar a passagem de sua presa e preparou a sua mira na direção dos ruídos que se aproximavam.
O som estava cada vez mais próximo, e após um breve momento, um cervo amedrontado revelou-se saltando de trás dos arbustos. A arqueira puxou a corda e permitiu a trajetória da flecha, certa de que acertaria em cheio. Ao aproximar-se, percebeu sua flecha fincada em um tronco, e já não conseguia mais sentir a presença do animal.
— Eu errei? – Murmurou confusa, enquanto retirava a sua flecha da árvore.
— Não, você acertou em cheio, meus parabéns. – Uma voz chamou-lhe a atenção, fazendo-a levantar a guarda novamente enquanto ouvia aplausos solitários ecoando em meio àquele silêncio.
— Quem está ai? – Questionou, mantendo as costas protegidas ao encostar-se em um pinheiro. Olhou para todos os lados, buscando o dono daquela risada incômoda que parecia estar ao seu lado, embora não conseguisse enxergá-lo. – Revele o que está oculto! – Exclamou, utilizando seus poderes para a criação de um falcão de gelo, que pudesse averiguar de cima o local.
A noite parecia ter caído mais rápido, mesmo que a tarde estivesse apenas começando. A visão tornava-se mais falha enquanto lutava para acostumar-se com a repentina mudança de luminosidade, e os reflexos pareciam mais lentos. Uma brisa gelada soprou algumas palavras até o ouvido de Ashe, amedrontando-a enquanto cada pelo de seu corpo arrepiava. “Não se preocupe, jovem rainha. Nós cuidaremos muuuito bem de você”, ela ouviu, antes de perder a consciência.
No vilarejo, Tryndamere apaziguava a situação ao acalmar sua tribo, dando-lhes certeza de que sua rainha voltaria sã e salva, com o alimento que havia prometido. Ele sabia que aquele olhar determinado não falharia, porém havia uma certa dúvida em seu coração. Aquela névoa escura que cobrira toda a floresta anteriormente era visível à distância, e suas preocupações aumentaram ao descobrir que aquela floresta era a preferida de Ashe para sua caça diária. Ela poderia ser a reencarnação da destemida Avarosa ou até mesmo uma rainha forte e determinada, porém para Tryndamere era mais do que isso. Ele nem ao menos se dava conta do quão importante Ashe era para ele até aquele momento, quando seu coração falhou uma batida ao imaginar que algo poderia ter acontecido àquela mulher. A tarde já estava próxima de seu fim, e ainda não haviam sinais de sua volta.
— Preciso que você deixe a guarda alta. – Murmurou, para um de seus soldados mais confiáveis.
— Percebeu alguma coisa, meu rei?
— Estou com um péssimo pressentimento. Vou sair um pouco para averiguar. – Prosseguiu, enquanto vestia um casaco de peles e buscava a sua espada.
— No meio dessa tempestade? Isso é loucura! – O homem exclamou.
— Fale mais baixo. – Retrucou, colocando o dedo indicador nos lábios de seu subordinado para calá-lo. – Tome conta da tribo, estou depositando minha confiança em você.
Tryndamere olhou para ambos os lados, visando ter a certeza de que não seria seguido ou observado. Assim que confirmado o fato de estar sozinho, afastou-se do vilarejo, rumo à floresta em que Ashe provavelmente estaria, de acordo com as fontes que possuía. Era possível sentir uma aura muito distante. As pegadas feitas com sangue na neve ainda estavam parcialmente visíveis, embora a nevasca estivesse dificultando a busca por quaisquer pistas. Não estava fácil caminhar naquele chão de neve profunda que afundava seus pés até pouco abaixo dos joelhos, porém desistir não era uma opção. Um pedaço de tecido azul preso à uma farpa da árvore chamou-lhe a atenção. Era da vestimenta de Ashe, e a prova necessária para que Tryndamere soubesse que, em algum momento, ela esteve ali.
— Que bela visão. Um rei em busca de sua rainha. – Aquela voz ecoou por toda a floresta, quebrando o silêncio misterioso que ali existia.
Tryndamere não se moveu, nem ao menos um centímetro. Fechou os olhos em uma calma impressionante, apenas aguardando o momento certo para reagir. O som brusco das folhas de um pinheiro se movimentando rapidamente chamou a sua atenção, e agora ele já sabia com toda a certeza a localização do homem que proferira aquelas palavras.
Para um homem conhecido como o detentor de uma poderosa fúria, era complicado para Tryndamere manter-se tão calmo enquanto seu sangue fervia. Sua vontade era de cortar em pedaços o homem responsável pelo sumiço de Ashe, porém para a segurança da moça, ele não poderia. Ao menos não antes de conhecer o inimigo.
A silhueta desconhecida movimentava-se pelas árvores como se pedisse para que Tryndamere a seguisse. Poderia ser uma armadilha para capturá-lo, ou até mesmo a sua trilha da morte, contudo era também a sua única opção no momento. O destino final era nada mais do que um armazém abandonado, coberto por neve e afastado de qualquer povo residente em Freljord. O local perfeito para um assassinato, ou até mesmo dois.
— Típico de mercenários. – Tryndamere bufou, enquanto caminhava sorrateiramente até a entrada da frente.
A entrada frontal não parecia a melhor escolha, tampouco a mais segura, contudo seu orgulho jamais lhe permitiria agir de outra forma. Era parte de sua pessoa encarar toda e qualquer guerra pela frente, mesmo quando em desvantagem. Adentrou vagarosamente o local escuro e sentiu logo sua respiração mais forte. Freljord era congelante, mas ali, naquele cômodo, Freljord parecia até mesmo uma terra ensolarada. A sensação de estar ali era próxima do insuportável para um ser humano comum, que poderia morrer em segundos caso seu corpo não estivesse acostumado com baixas temperaturas.
— Ora, se não é o grande guerreiro sanguinário das tribos Avarosianas. – Era possível ouvir alguns passos se aproximando enquanto as botas do inimigo batiam no chão encoberto por gelo. – Presumo que esteja aqui para buscar sua rainha, não? – A figura se revelou ao aproximar-se. Era um homem com o olhar de um maníaco sanguinário, ainda mais sedento por guerra do que Tryndamere. Seus cabelos compridos e platinados cobriam as cicatrizes que lhe custaram o olho direito, e apesar do clima congelante, utilizava apenas um leve terno e calças comuns, como se não fosse afetado pela temperatura martirizante do armazém.
— Eu não faço negócios com gente do seu tipo. – Retrucou calmamente, tentando manter a compostura enquanto sentia a presença de inúmeros lacaios inimigos aglomerando-se ao seu redor. Arrastou a espada alguns centímetros, riscando o gelo do solo.
— Não acho que realmente queira fazer isso. – Seu adversário lhe interrompeu, com um sorriso vitorioso estampado em seus lábios secos. – Quero dizer, você não gostaria de ver o pescoço dela pendurado em um mastro, não é? – Completou, jogando bruscamente o corpo acorrentado de Ashe ao chão. Ainda estava viva, porém sua respiração ficava cada vez mais fraca, e sua pele já azulada demonstrava o quão grave era a sua situação no momento. Não demoraria muito para que seu coração congelasse por completo.
As memórias dolorosas de quando perdeu a sua tribo para um ataque surpresa agora enchiam a sua mente. Estava atordoado, de mãos atadas. Tryndamere podia ser um homem cruel ao lidar com inimigos, porém até mesmo ele não conseguiria suportar a dor de outra grande perda. Ao menos não se tratando de Ashe. Algumas emoções que ela o fazia sentir nem mesmo ele conseguia compreender, muito menos explicar. Aquela cena em especial deveria deixá-lo furioso, mas ao invés disso, uma pontada de tristeza lhe torturava como uma faca afiada que perfurava seu peito.
— O que vocês querem? – Murmurou, derrotado.
— Pensei que não negociasse com “esse tipo de gente”. – O sequestrador ironizou, com uma expressão satisfeita.
— Não é uma negociação, é uma chance. Um aviso, talvez. – Prosseguiu, mantendo a guarda alta internamente enquanto permanecia aparentemente calmo e desinteressado. Passou os dedos lentamente por toda a extensão de sua lâmina, como se a apreciasse. – Três, dois... – Sussurrou uma contagem regressiva, confundindo o inimigo.
— Esse imbecil enlouqueceu de vez. Apenas matem a mulher e prendam-no até que eu me decida sobre o que fazer com ele.
O homem virou as costas para retirar-se do local, porém fora interrompido por um barulho nostálgico de uma lâmina fincando a carne humana. Virou-se rapidamente para averiguar, deparando-se com Tryndamere em meio à uma cena macabra enquanto segurava fortemente o corpo frio de Ashe em seu braço direito. As cabeças de seus subordinados fora cortada em apenas um rápido movimento, e até mesmo seus próprios corpos pareciam incapazes de captar a mensagem instantaneamente. Alguns segundos se passaram antes que o gelo e a neve se manchassem com o mar de sangue jorrado daqueles corpos já inanimados.
— Eu disse que era um aviso. Ela sempre odiou guerras nestas terras, e você me obrigou a jorrar sangue Freljordiano em sua presença. – Tryndamere aproximou-se em passos lentos do homem que o ameaçara anteriormente, fazendo-o recuar desesperadamente até que não houvesse mais espaço entre seu corpo e a parede. Não demorou muito para que, irritado, fincasse sua espada no torso de seu inimigo. – Suas ações são imperdoáveis. – Terminou.
Em meio à uma pilha de corpos e com os pés banhados em um rio de sangue, Tryndamere sentiu a temperatura do local amenizar, mesmo que pouco. Não fora difícil para ele compreender que aquele clima insuportável era causado pela magia do líder daqueles homens, e que caso não fosse pego com a guarda baixa, teria provavelmente lhe dado muito trabalho em combate. Talvez saísse vitorioso, porém não ileso.
— Try... Mere... – Ashe murmurou algumas palavras incompreensíveis para ele, porém fora o suficiente para dar-lhe esperança. A esperança de que ela ainda estava ali, ao seu lado.
— Vamos tirar você daqui. Não sucumba ao frio. – Retrucou, enquanto se locomovia com dificuldade em meio àquela tempestade de neve.
Ele recordava-se de ter visto um pequeno casebre abandonado enquanto perseguia a figura que pretendia emboscá-lo, portanto decidiu adentrá-la para buscar abrigo. Eles não sobreviveriam no armazém, e muito menos do lado de fora. O local possuía uma pequena lareira empoeirada, coberta por teias de aranha, e uma pequena mesa quadrada de madeira, que não demorou muito para tornar-se lenha nas mãos de Tryndamere, lutando desesperadamente pela sobrevivência de Ashe. As roupas de ambos estavam úmidas, e Tryndamere não hesitou em retirá-las. Ele não se importava com as consequências desde que conseguisse mantê-la viva. Entrelaçou os braços ao redor da moça e abraçou-a com força, para transmitir-lhe o calor de seu corpo. Sentou-se próximo da lareira enquanto ainda a segurava e cobriu-lhes com o casaco de peles que, por dentro, ainda permanecia seco e quente.
— Está frio. – Ashe sussurrou, enquanto tremia. Suas forças pareciam estar voltando, porém ainda não era o suficiente. Seus lábios estavam ainda azulados, e mal conseguia manter-se de olhos abertos por mais do que alguns segundos.
— Já vai melhorar.
— Você deve me achar uma fraca.
— Muito pelo contrário. – Ele a aproximou, deslizando o dedo indicador para retirar os cabelos de Ashe de seu rosto. – Não são muitas as mulheres que conseguem sobreviver à um frio tão intenso.
— Estou viva pois você me salvou. – Ela protestou, conseguindo abrir os olhos para encará-lo. – Eu sou patética. – Bufou.
— Também já fui salvo por você uma vez, minha rainha. – Tryndamere puxou a mão de Ashe para cima, levantando-a até a altura de seus lábios, para que pudesse beijá-la gentilmente. – Você é fascinante.
Aquele momento provocara uma confusão na mente de ambos. Eram sempre tão distantes e formais, dormiam até mesmo em quartos separados, e não estavam acostumados com flertes entre si. Não era fácil admitir que, após tanta luta de ambos os lados para manterem-se distantes e fazerem jus à sua união por conveniência, agora estariam florescendo sentimentos que jamais imaginariam possuir dentro de si. Aquele gesto galante de Tryndamere surpreendeu até a si mesmo, porém não lhe causava arrependimento algum. Os sentimentos que despertara no momento em que viu Ashe à beira da morte já lhe dominavam por completo, e ele não mediria esforços para demonstrá-los.
— Nós estamos... Nus? – Ashe indagou, desviando o olhar. A situação já era fora do comum, porém o seu comentário feito antes de pensar conseguiu piorar ainda mais as coisas.
Tryndamere lutou para manter a compostura, limpando a garganta brevemente antes de respirar fundo para que pudesse respondê-la.
— Não se preocupe, são apenas as vestimentas superiores.
— Ah, sim, certo... – Respondeu, sem graça, apoiando suavemente a cabeça no torso desnudo de Tryndamere, que não parecia ser contra o ato.
Um silêncio constrangedor tomou conta do local por alguns segundos, porém Ashe logo fechou os olhos para tentar repousar. Ainda sentia-se fraca, porém não era este o motivo de querer encerrar o assunto por ali.
— Sua respiração parece estar ficando mais estável.
— Sim, está aconchegante aqui. – Ashe suspirou, desanimada. – Estou preocupada com nosso povo. Minha caçada foi um fracasso, e ambos estamos afastados da vila.
— Não fique, seria desrespeitoso. É uma tribo de fortes guerreiros, dizer que são dependentes de nós seria como chamá-los de fracos.
— Mas somos os líderes. – Protestou, levantando-se para encará-lo corretamente.
— E é por sermos os líderes de pessoas assim que não deveríamos nos preocupar. Todos decidiram segui-la pois simpatizam com o seu pensamento e reconhecem sua força. Por ser a mulher que conseguiu unir tantas tribos que antigamente eram rivais, deveria conhecer mais do que ninguém aqueles que depositaram suas confianças em você.
As preocupações de Ashe se esvaíram rapidamente com aquelas palavras encorajadoras. Ela agora apreciava Tryndamere mais do que nunca, e começava a perguntar-se o motivo de nunca tê-lo deixado se aproximar. Em um movimento quase involuntário, selou os lábios nos dele, sentando-se em seu colo enquanto passava suavemente as mãos em suas costas.
Assim que percebeu a expressão surpresa e confusa daquele homem, afastou-se rapidamente, desviando o olhar enquanto tentava se recompor.
— Me desculpe, eu... – Antes que pudesse completar a sua frase, Tryndamere puxou-a novamente para perto de si, interrompendo-a.
— Está certa disso? – Sussurrou.
— Posso acabar me arrependendo pela manhã. – Provocou, com um sorriso de canto.
— Eu consigo conviver com isso. – Ele completou, beijando-a com desejo.
De modo cuidadoso, Tryndamere deitou Ashe em seu casaco de peles, utilizando-o como um colchão para deixá-la confortável. Encarou-a por alguns segundos para ter a certeza de que ela não estaria hesitando, porém Ashe apenas assentiu, segura de sua decisão. Distribuiu beijos desde seu pescoço até pouco abaixo do umbigo, parando apenas para retirar o resto das roupas que atrapalhavam o seu trajeto. Deslizou a língua em movimentos suaves, arrancando gemidos baixos de Ashe, que apesar de acanhada, deleitava-se com a situação.
Tryndamere retirou as próprias roupas também, voltando a distribuir beijos pelo corpo de sua parceira enquanto movimentava dois dedos levemente dentro da moça, fazendo-a arquear as costas de prazer. Ele a tocava com toda a delicadeza que conseguia exercer, com medo de machucá-la com sua brutalidade excessiva de sempre. Ashe, no entanto, decidiu tomar as rédeas da situação, puxando Tryndamere para baixo enquanto trocava de lugares, tornando-se a pessoa dominante. Apesar de inexperiente, estava segura de si, especialmente quando observava as expressões de prazer daquele homem à medida que deslizava a língua ao redor de sua intimidade, intercalando entre lambidas e fracas mordiscadas, com a intenção de provocá-lo. Aquele sorrisinho vitorioso de Ashe o excitava mais do que imaginara, fazendo-o inverter novamente as posições, prensando os pulsos de Ashe no chão enquanto a apreciava com um olhar cheio de desejo, antes de penetrá-la com vontade. Ele se deleitava ao observar os seios da moça saltando à medida que fazia movimentos de vai e vem, e tê-la tão vulnerável apenas para si era muito agradável.
— Não desvie o olhar. – Tryndamere murmurou, segurando o queixo de sua parceira para fazê-la encará-lo diretamente. – Eu quero vê-la.
O coração de Ashe falhou uma batida com aquelas palavras. Seu corpo estava cada vez mais quente, e era inevitável soltar alguns baixos gemidos em alguns momentos. Aquele homem que tanto lutava para manter afastado agora estava mais próximo do que nunca, e a vontade de tê-lo cada vez mais dentro de si a consumia de dentro para fora, como se todas as partes de seu corpo estivessem em chamas, e ela não se arrependia de nada. Puxou o seu rosto para perto de si, trocando um beijo apaixonado e ofegante, enquanto Tryndamere finalizava o que havia começado.
— Talvez eu não me arrependa tanto assim. – Ashe sussurrou ofegante, enquanto fitava de modo doce os olhos daquele homem, que sorriu de canto com sua alegação.
Tryndamere a puxou para perto, abraçando-a carinhosamente. Ainda estavam desnudos e sujos com suor e outros fluídos corporais, porém nada disso importava. Exaustos e satisfeitos, apoiaram-se na parede próxima a lareira para descansarem, cobertos por aquele casaco que já guardaria tantas lembranças daquele dia que fora o marco inicial para uma mudança em suas vidas.
— Você é realmente excepcional. – Ele disse em baixo tom, próximo à orelha de Ashe, que aconchegou-se em seu ombro.
Na pequena janela quadrada de madeira do casebre, era possível perceber algumas luzes que iluminavam aquela montanha. Uma aurora boreal irradiou a noite de ambos, cobrindo-os com as bênçãos dos observadores enquanto se permitiam descansar após um dia cheio de dores e prazeres. Ambos sabiam que pela manhã deveriam voltar como os líderes Avarosianos, porém não seriam os mesmos de sempre. Agora já não seria mais um casamento por conveniência, pois o rei e a rainha da futura unida Freljord estavam mais próximos do que nunca.
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