Notas iniciais
Feliz natal pessoal. Feliz ano novo e que 2021 seja um bom ano sem virus e sem tragédias. Boa leitura

...

Após um tempo depois que Isaak adormeceu, Camus o colocou na cama e o cobriu. Cuidou de seus ferimentos passando pano com antisséptico e se lamentando pela inevitável mancha que ficaria ali marcada. Não fora um corte fundo, mas o suficiente para gotejar sangue. Iria ter cuidado redobrado agora com ele, não desconfiava dessa baixa autoestima de seu irmão e lamentação excessiva.

Cuidado do mais novo, Camus saiu do quarto para checar se Hyoga estava bem, no quarto ao lado percebeu que a porta estava aberta. Um mal pressentimento pairou no ar, mas Camus pensou que Isaak não fechou a porta direito.

Pôs a mão na maçaneta e pensou em abrir, mas ao invés disso fechou a porta.

Hyoga precisava descansar e o barulho do corredor poderia atrapalhar seu sono. Não iria entrar no quarto, confiava na sua intuição que ele deveria estar dormindo.

Voltou ao quarto que dividia com Isaak e fechou a porta.

...

Passou pela porta da igreja e viu que seu interior estava iluminado por velas, mas mesmo assim estava escuro. O altar era enfeitado de flores e estátuas de santos que não conhecia, não sabia sobre eles ou da cultura católica.
Tinha mais sombras no interior da igreja, mas todas foram desaparecendo conforme ele se aproximava do altar onde a noiva chorava.

Nada disse quando se aproximou, apenas ficou ao lado dela enquanto ela começou a falar depois de uns momentos em silêncio.

Sabe... Eu sempre quis me casar, ter uma família, cuidar dos filhos... Eu tinha uma visão dentro de mim se meu primeiro filho fosse menino, eu iria ensinar ele a cantar, e se fosse menina, ensinaria a dançar.— Ele continuou calado ouvindo. — Mas aconteceu que, nada disso aconteceu em vida... Quem diria que eu fosse me casar depois de morta...

Ela descontraiu a conversa, e o rapaz continuava em silencio.

Papai dizia que eu seria uma grande bailarina, e mamãe queria que eu fosse mais longe do que isso, que eu estudasse música e me tornasse uma brilhante solista. E eu... Queria me casar com alguém que fosse o homem ideal.

Ela olhou para Hyoga, estava com as mesmas roupas de quando se encontraram na primeira vez, mas dessa vez ele estava descalço e seus pés estavam sujos. Já o seu rosto não estava mais esqueletizado, seu rosto agora possuía bochechas e os lábios carnudos escondiam os dentes, mas seus olhos ainda continuavam negros.

Hyoga... Estive pensando esse tempo todo. Eu não sou a esposa ideal para você, por que você me pediu em casamento? Por que você me tirou da escuridão?

O rapaz soluçou, não poderia falar simplesmente que aquilo foi um engano que causou tudo isso. O anel não era para ela. Mas nada disse.

Se eu contasse a minha história de morte... Você não iria mais querer continuar casado comigo...— Ela chorou.

Não é verdade— interrompeu, ela olhou para ele surpresa. — A verdade é que... Se você ouvisse minha história de vida, você que não gostaria de continuar casada comigo...

Ela piscou algumas vezes confusa, o rapaz caminhou até ela e sentando-se ao seu lado.

Sabe... Eu percebi que eu não nasci pra esse mundo desde meus 6 anos. Eu nasci da união de um cara rico com uma pianista, mamãe era uma mulher linda, nunca vi outra mulher com a beleza igual a ela na minha vida. Não se passou nenhum dia que eu não pensasse nela. Foi ela que me ensinou a tocar piano quando eu era criança... Eu também sei tocar piano. E ela também se esforçava bastante pra cuidar de mim sozinha. Tanto que eu ficava esperando num banheiro ou num depósito do trabalho dela até ela terminar de trabalhar. E num desses trabalhos foi num navio que tragicamente naufragou.

Não havia botes salvas vidas para todos, não existiu a história de mulheres e crianças na frente. Foram todos os ricos na frente, e só os trabalhadores e criados que ficaram no navio. Eu fui no bote porque eu era criança, mas minha mãe teve que ficar.

Ela morreu no navio que eu vi afundar com meus próprios olhos na minha frente. E eu gritava por ela... Mas nenhum adulto naquela hora fez nada, apenas me agarraram e brigavam comigo pois eu estava fazendo muito barulho.

Aquela coisa foi tão traumática para mim que eu passei quase 1 ano sem falar nenhuma palavra, nem dormir eu conseguia... Acredita que até hoje eu tenho pesadelos com a morte de minha mãe?

Ela nada disse. Ele continuou

Eu conheci meu pai depois de alguns dias, mas ele não me tratava como seu filho, ele nunca me olhou nos olhos, nunca me chamou de seu filho ou se quer olhava para mim. Para ele, ele me olhava como um menino de rua que estava ali na sua casa comendo de sua comida e dormindo numa cama que não deveria ser sua.

Eu dormia num quarto do compartimento dos criados, diferente de meus irmãos... Sim, eu tenho outros irmãos mais velhos por parte de meu pai... Mas eles também não me tratam como se eu fosse irmão deles. Eles são até bem cruéis comigo, diferente dele que me ignora, eles fazem questão de deixar tudo claro que eu sou um filho bastardo.

Minha vida foi praticamente isso, sendo resumida a ser filho postiço.

Eu estava de casamento marcado com outra garota que eu nunca vi na minha vida... Me mandaram para uma cidade longe pra caramba para que eu me casasse e saísse daquela casa onde eu nunca fui bem vindo...

Por 8 anos de minha vida eu fui deixado de escanteio em tudo, eu fui deixado de lado, fui jogado pra debaixo dos panos, nem ter direito de reclamar eu tinha já que estavam fazendo um imenso favor para eu me deixar ficar na casa do que na rua... Que eu deveria estar dormindo na rua ao invés de uma cama, que eu deveria estar comendo lixo do que num prato. — Agora abraçava suas pernas apoiando sua testa em seu joelho. Doía demais falar isso.

— Isso não é vida... — Disse ela.

— Nunca foi, Éris... Eu nunca tive uma vida para chamar só de minha.

— ... Eu sinto muito.

— Não sinta, você já passou por muita coisa...

— Hyoga... Eu fui estuprada, roubada e morta... Enquanto eu estava na escuridão eu ficava me remoendo de culpa por ter saído de casa naquele dia... De ter desobedecido meus pais... E eu fui castigada por ter feito isso...

— Espere... Você não foi castigada. Não pense que você foi punida por ter desobedecido seus pais.

— E o que você sabe? O que você pode dizer sobre o que eu passei antes de morrer? Não foi com você.

— Não, não foi. Mas não confunda o seu assassinato com uma punição... Ninguém deveria passar pelo que você passou...

Os dois ficaram em silencio por um tempo, depois de se acalmarem Éris continuou.

— Você também não deveria ter passado por tudo isso...

— Você também não.

Depois de minutos em silencio Éris novamente quebra a quietude da igreja.

— Você disse que iria se casar... É verdade?

— Sim...

— Seria com aquela moça de cabelo preso?

— Sim... A Eiri.

— E eu dei um tapa nela...

— Eu não lembro disso.

— Ela me chamou de monstro! — bufou a cara.

— Mas você está parecendo um... Desculpe. — Ele reparou que ela se sentiu ofendida com isso. Não era culpa dela estar morta.

— Hyoga... Você queria mesmo se casar comigo...?

— ...

— Pode dizer, eu não vou ficar triste...

— ...

— Não...?

— Não.

— Eu sabia...

E novamente eles ficaram em silencio por momentos.

O ambiente do interior da igreja era como de fora, havia neblina dentro, mas não tanto como era do lado de fora. A luz das velas iluminava o local deixando misto de azul, cinza e amarelo.

— Sabe, eu sinto falta de ouvir música... Desde que eu vim para cá não pude mais ouvir nenhuma. Nem mesmo o barulho do vento.

— Como assim?

— Não há música nesse lugar, não há sabor, não há cores... Por isso eu odeio esse lugar.

— Que lugar é este que estamos?

— É o mundo dos mortos. — Ele eletrizou de choque. — Apenas quem morreu na cidade pode ficar por aqui... Como eu morri na floresta e nunca fui enterrada... Eu fiquei presa naquela escuridão, clamando todos os dias para que alguém me salvasse...

Então aqueles vultos negros, rostos que encontrava no caminho... Eram fantasmas... E o cheiro podre era de cadáveres...

— Foi você que me tirou da escuridão... Mesmo você não querendo...

— Então porque estamos aqui... Digo, por que você está aqui?

— Eu não sei Hyoga, eu achava que eu estava enterrada por muito tempo e não conseguia sair dali e eu não tinha dado conta que eu estava morta... Para mim era como se eu estivesse apenas presa sem me mover. Quando você me tirou daquele lugar, eu pensei que eu estivesse livre, mas eu estava apenas no seu mundo... e quando me tiraram de você, eu percebi que eu estava morta... E então voltei para este lugar sem que eu percebesse.

— ...

— Eu recobrei minhas memórias de quando eu era viva... Eu lembrei de tudo... Até mesmo coisas que eu não queria ter me lembrado... Hyoga, você não pode ficar aqui... Você está vivo.

— ... Éris

— Sim...?

— Eu não quero ir embora.

— Mas como...? — disse confusa.

— Se eu for embora, eu irei voltar para minha vida, e eu dei um jeito de estragar tudo que eu tinha. Sabe, eu disse que eu não queria me casar. Então eu dei um jeito de “estragar” o casório. Pensei que com aquilo iriam adiar o casamento em 1 dia ou 1 semana... Mas nada deu certo.

Quando eu sumi, eu achei que finalmente iriam esquecer esse casamento, mas daí eu acabei voltando porque eu estava com medo de ser punido... Eu estava com medo das consequências e de meu pai... Droga, eu nem gosto de chamar aquele homem de meu pai. Ele...

Eu vou voltar para mesma vida de bosta que eu tinha antes de ter vindo para cá... — Lembrou das coisas horríveis que os parentes de Eiri disseram quando eles chegaram à mansão. - E a família da minha noiva nem gosta de mim, eu teria que viver com eles desde então... E minha vida seria um inferno pior do que já vivo.

Não é uma vida para se viver... Então eu não quero mais ficar lá... Eu quero ficar aqui com você. — Disse olhando para ela.

Éris piscou duas, três, várias vezes confusa, agora tinha cílios. Numa hora queria que a vida de Hyoga estivesse segura, mas agora ele está dizendo que não quer mais continuar vivo.

Hyoga, se você permanecer aqui, você morrerá.

— Eu sei, estou ciente disso. E é isso mesmo que quero... Por isso eu escolhi você Éris.

Os olhos de Éris recobraram as cores, o branco da córnea e o azul da iris. Seu rosto azulado agora adquiria uma cor rosada e suas bochechas ficaram vermelhas. Seu cabelo todo ressecado e volumoso abaixava e seus cachos estavam retornando a serem o que era quando viva, adquirindo um loiro escuro.
Infelizmente o vestido continuava sujo e rasgado com as rendas desfiadas.

— Éris... Você é linda...

Ela olhou para seus braços desajeitada, viu que eles estavam “normais” até demais, não relembrava que suas mãos eram assim. Com o elogio inesperado do rapaz fez ela ficar mais vermelha ainda, e lembrou que ele mesmo disse que nunca encontrou uma mulher tão linda quanto a mãe dele.

— P-pare com isso!

Ele riu. Ouvira a sua risada pela primeira vez. Ela tinha um tom tão aconchegante de se ouvir... Acalmava sua alma, mas em seguida voltou a ficar triste.

— Hyoga, você não pode ficar aqui, entenda.

— Mas por que eu não posso ficar aqui?

— Porque você está vivo! Este mundo é somente para os mortos.

— Então por que eu vim parar aqui?

— Eu não sei... Mas você não deve ficar aqui.

Uma das velas do altar se apagou pois chegou ao fim de seu pavio. Já estava amanhecendo e isso trouxe um mal presságio para a noiva.

Hyoga se distraia em quebrar as asas da borboleta como se fossem feitas de papel. Ele estava determinado em ficar ali com ela. Por um lado, estava feliz, mas do outro estava preocupada. Lembrou do que aquele homem que carregava Hyoga disse.

“- Você está morta, e ele está vivo. Achas que o matando ele seria seu?

— ...

— Você que não quer ver o que desejas é uma coisa que está fora de seu alcance. Se eu entregar o menino a você, você irá o matar.

— Eu nunca faria isso com ele!

— Você faria... assim como fizeram com você, você irá fazer com ele.”

Seu coração, mesmo não batendo, estava doendo. Não queria ficar sozinha, mas também não queria o mal para o rapaz. Não sabia o que fazer, se ficava com ele ou voltava a ficar sozinha.

O que fazer, o que deveria fazer...

...

Notas finais
Me dói saber que já está terminando a história. Não esqueçam de deixar um review, favoritar a fic. ^-^