Casamento Por Contrato

2 Capítulo 2: Uma Pequena Mudança


Notas iniciais
Oi pessoal! Bem, são 01:17 da manhã e eu estou acordada apenas para terminar o capítulo (e quando eu digo terminar é passar do caderno para o computador com umas pequenas mudanças) e esse era meu último capítulo pronto. Espero que gostem, comentem seus lindos. A gente se vê nos comentários.

–Ravena, o que foi o que aconteceu? –A voz da minha amiga já estava preocupada.

–Não dá pra falar pelo telefone, mas é muito sério.

–Você está me assustando. Conta.

–Eu estou indo pra aí. Para a gente conversar pessoalmente.

–Estou esperando. –Assim que ela disse isso eu desliguei o celular.

Respirei fundo tentando ignorar o nó na garganta que se formava sem permissão. Saí da mansão o mais rápido que podia, ignorando totalmente os carros e indo em direção á minha moto negra (meu xodó diga-se de passagem). Subi em cima, dei partida e segui em alta velocidade, com a visão meio embaçada devido ás lágrimas que ficavam presas nos meus olhos, que eu me recusava á deixar cair. A minha sorte é que eu poderia ir para casa de Kory até de olhos fechados.

Kory era minha melhor amiga. Conhecemos-nos na escola. Eu, como sempre, repelia as pessoas, mas ela foi persistente comigo, não me pergunte por que. Por mais que eu tentasse afasta-la, ela estava sempre lá, com sua felicidade extremamente contagiante até pra mim. Aos poucos ela foi quebrando minhas barreiras, derrubando meus muros, penetrando meus escudos, se infiltrando em minhas defesas e quando eu dei por mim já éramos amigas inseparáveis. O que eu contei á ela eu nunca tinha contado pra ninguém. Com ela eu deixava minhas emoções aparecerem normalmente, contava sobre meus medos e inseguranças, enfim, sobre tudo. Melhores amigas servem pra isso e por isso era exatamente dela que eu precisava no momento.

Por algum milagre eu consegui chegar á casa da minha amiga sem nenhuma multa o que foi bom já que o meu humor não estava dos melhores e levar uma multa só iria me fazer ficar ainda mais nervosa, se é que isso é possível.

Estacionei á moto em frente á casa. Não era tão grande quanto á minha, mas continuava sendo uma das mais luxuosas que eu já conheci e melhor que isso, era um dos lugares no qual eu mais gostava em toda a minha vida. Eu costumava dizer que ali era meu recanto feliz e de fato a maioria dos momentos em que eu estive realmente feliz eu estava naquela casa ou com um de seus moradores.

Toquei á campainha e Kory me atendeu praticamente no mesmo momento. Ela já estava vestida, mas os cabelos ligeiramente desarrumados e os olhos um pouco vermelho indicavam que ela havia acabado de acordar, provavelmente eu a acordara com a minha ligação. Ao vê-la, a pessoa que eu mais confiava no mundo inteiro, minhas emoções surtiram efeito. A raiva, a tristeza, o desespero me atacaram todos de uma vez o que fez com que eu caísse nos braços da minha amiga com as lágrimas finalmente escorrendo livremente pelo meu rosto:

–Meu Deus! –A ruiva exclamou me abraçando e ligeiramente surpresa. –Vem, vamos entrar. Lá dentro você me conta tudo.

Assenti com a cabeça e ainda chorando entrei na casa que eu conhecia tão bem. Ela estava vazia, afinal deveriam ser no máximo seis e meia da manhã. Victor provavelmente estaria dormindo e os pais deles já tinham ido para a empresa.

Eu e minha amiga subimos as escadas e entramos no quarto dela. O quarto super colorido dela, que me deixaria extremamente feliz se não fosse naquela situação. Assim que a porta foi fechada, nós duas nos sentamos na cama e ela simplesmente me abraçou e ficamos em silêncio por uns bons vinte minutos até eu me acalmar:

–Agora você pode me contar o que está acontecendo?

–Meu pai. –Um soluço me cortou enquanto eu limpava o rosto molhado tentando voltar ao controle. Eu simplesmente detestava chorar na frente das pessoas, me fazia parecer fraca. –Ele... Ai Kory... Ele quer me casar com um cara que eu nunca nem vi na vida, aquele tal de Garfield Logan. Se eu não me casar, ele para de enviar dinheiro para os meus parentes.

Minha amiga arregalou os olhos numa expressão que me faria gargalhar se eu não estivesse como estava:

–Será que ele pensa que estamos no século XIX? Pelo amor de Deus! Rae, isso não é justo com você!

–E o que Trigon faz que seja justo? Kory, eu não posso me casar! Eu vou para a faculdade ano que vem. Finalmente eu ia poder sair de casa, ia me ver livre do meu pai, ele ia se ver livre de mim, todo mundo ganhava! Droga, eu terminei os meus malditos estudos aos dezesseis anos, consegui entrar para a faculdade que eu queria mesmo com pouca idade! Tudo estava se encaminhando. Mas... Eu não posso deixar meus parentes! Eles são ás únicas pessoas do meu sangue que me amam e eu amo muito eles. E eu sei que é porque eles me amam que eles abririam mão disso por mim, mas eu nunca me perdoaria se eles voltassem á passar fome. Definitivamente, não sei o que fazer.

–Eu imagino o dilema que está passando e por Deus, também não sei o que dizer! Eu sei o quanto você estava feliz com a faculdade ano que vem e isso é tudo o que eu mais quero que você seja feliz. Mas eu também te conheço como a palma da minha mão, sei que ama seus tios e primos e que ficaria eternamente culpada se eles voltassem...

–Não fala! Eu não consigo nem imaginar! Minha tia acabou de ter a Juliana, Juh tem só cinco meses! Não quero que eles voltem á passar necessidades!

Fechei os olhos e lembrei de cada um dos meus parentes. Das histórias que de vez em quando eles contavam. Minha mãe havia sido á mais nova de cinco irmãos e ela fora á única que conseguiu entrar numa universidade. Eles viviam em pobreza extrema. Dois dos meus tios são autistas, um não tem o movimento das pernas. Nossa família tem uma lista extensa de problemas físicos e mentais ao longo das gerações, cada gravidez é um medo. A irmã mais velha e a irmã mais nova daquela geração saíram saudáveis e como meus avôs morreram, a minha tia, Luz, ficou encarregada de criar de todos os quatro até que minha mãe tivesse idade para ajudar. Tendo só o Ensino Médio e tendo que cuidar de quatro pessoas mais ela mesma não é muito difícil imaginar que a vida deles não foi fácil. Com a minha tia já bem mais velha, mesmo ela agora na faculdade, seria difícil porque ela continuava á cuidar dos irmãos doentes e ainda tinha que cuidar das filhas. Gabriela era dois anos mais nova que eu, quatorze anos, não conseguiria emprego e a Juliana, com apenas cinco meses... Pobre da Luz, ainda tinha o divórcio se organizando.

–Não Kory. Eu sou uma, eles são vários. Não é justo que eu sacrifique todos por causa de mim. Eu não sou injusta, eu não sou como o meu pai. Não tem como fugir. Julho do ano que vem eu não vou para a faculdade porque estarei casada.

Acho que ela não sabia o que fazer então simplesmente puxou minha cabeça para o colo dela onde eu voltei á chorar silenciosamente enquanto ela afagava meus cabelos. Chorar sempre me dá sono e eu não sei dizer quando eu apaguei.

Acordei e pisquei várias vezes encarando o colorido do quarto de Kory. Olhei o relógio digital e vi que já eram onze da manhã. Chutei a coberta que me cobria para um lado e pulei da cama tentando entender como eu havia dormido até tão tarde. Provavelmente a tristeza era o motivo. Toda vez que eu me sentia triste ou chorava, me sentia cansada.

Dobrei a coberta e desci as escadas coçando os olhos indo diretamente para a cozinha onde o cheiro de café praticamente me guiava. Quando cheguei á copa encontrei Kory fazendo waffles e Victor na mesa.

Victor era o irmão da minha amiga e enquanto ele me considerava como uma irmã mais nova, eu o considerava como um irmão mais velho. Antenado em tudo que é tecnologia era conhecido como Ciborgue ou simplesmente Cib. Bastante alto (o que só me fazia parecer ainda mais baixinha), negro e bonito muito diferente da irmã, ruiva, longos cabelos e altura mediana. Cib era adotado, mas só se percebia isso por causa das diferenças de aparência por que realmente naquela casa as pessoas não davam à mínima pra isso.

Revirei os olhos ao sentir o cheiro de comida. Os dois geralmente acordavam bastante tarde então na hora que eu estava almoçando eles ainda estavam tomando café da manhã.

–Rae, tão cedo?! –Cib sorriu pra mim colocando café numa xícara.

–Não contou á ele? –Perguntei á Kory.

–Nem deu tempo, ele acordou agora.

Suspirei e me sentei-se à mesa também me servindo de um pouco de café. Como eu já era de casa, não tínhamos muitas cerimônias. Já disse, eu era praticamente da família.

–Contar-me o que gente? Boiei agora.

Então suspirando eu repeti á ele tudo o que tinha falado á ruiva que cozinhava. A reação dele seria cômica se a situação não fosse trágica:

–Mas o que? Rae, não! Você não pode! Não pode se casar, eu não vou ver minha irmãzinha casada tão cedo, não, não! Não. Poxa vida, você vai pra faculdade ano que vem. Não Ravena, definitivamente você não pode se casar.

–O que eu não posso é simplesmente tirar o sustento principal da minha família.

–Eles abririam por você.

–Então eu posso fazer isso por eles.

–Não é justo com você.

–Nunca é. Mas não quero pensar nisso agora, embora o pensamento esteja ferroando o tempo todo. Eu daria um dedo da mão para achar algo que me distraísse por pelo menos algumas horas disso tudo.

Minha amiga ruiva sorriu e colocou waffles em cima da mesa:

–Então pode me dar um dedo da mão, o polegar de preferência, porque eu acabei de ter uma ideia.

–Por que será que eu estou com medo? Koryander, o que você está aprontando?

–Você. Sabe. Que. Eu. Detesto. Que. Me. Chame. De. Koryander. –E ela revirou os olhos fazendo a mim e Victor rir. –Enfim, eu tive uma ideia genial que vai te distrair por pelo menos umas duas horas, vai fazer seu pai pensar que você está passando por isso sem nem se abalar, vai deixar seu marido babando e vai me fazer muito feliz.

–Então fala mulher.

–É muito simples. Eu vou te levar ao shopping, te repaginar por inteira, te fazer comprar um novo guarda-roupas e jogar todas as roupas velhas fora.

Meus olhos se arregalaram tanto que por um momento acho que eles tocaram no meu cabelo:

–Não! Ficou maluca?! Eu adoro minhas roupas.

–Bem, como eu disse. Vai te distrair, seu pai vai achar que você não está nem um pouco ferida, eu vou ficar extremamente feliz porque sempre tive vontade de ter uma Barbie em tamanho real e vou deixar seu futuro marido literalmente babando. Você só tem a ganhar. –E então ela deu aquele sorrisinho de quem quer algo de verdade.

Fiz um muxoxo. O fato é que eu nunca gostei muito de shopping, compras e essas coisas, mas pensei bem. Eu faria qualquer coisa que me distraísse daquela situação por algum tempo e iria adorar meu pai pensando que eu estava bem (embora eu duvidasse que ele iria pensar, mas se eu chegasse lá repaginada ele iria pensar que não estava doendo tanto como realmente estava) e de quebra ainda deixaria a Kory feliz.

–Você venceu dessa vez ruiva. –Ela soltou um gritinho agudo e deu um pulo enquanto Cib deixou o garfo cair na mesa de forma quase teatral.

–O que?! –Ele praticamente gritou. –Você vai deixar a Kory te levar para o shopping?! Quem é você e o que fez com a Ravena? Cara, o dia hoje está muito estranho.

Eu ri:

–É, vou. Mas com duas condições: Não mude a cor do meu cabelo, gosto dele exatamente com essa cor.

–Pode ser.

–E me deixe terminar meu café da manhã.

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Já na entrada do shopping, Kory resolveu deixar uma coisa bem claro:

–Ravena, é o seguinte: A senhorita vai me obedecer porque acredite, eu sei o que vai ser melhor pra você.

–Estou com medo.

–Não fique, no final disso tudo você ainda vai me agradecer.

Olhei pra ela com descrença, mas assenti com a cabeça imaginando se aquilo iria mesmo me distrair. Distraiu, eu tenho que admitir. Acho que fui numas quatrocentas lojas com a Kory, onde ela me fez comprar todo o tipo de coisa, mesmo coisa que eu nunca imaginaria vestir. Numa das lojas ela já me fez ficar com uma das roupas no corpo. Tive que trocar meu colã e minha capa por uma calça jeans, uma regata branca com um lenço preto com roxo e uma bota de inverno preta com salto. O colã e a capa a ruiva jogou no primeiro lixo que viu o que me fez ficar com uma dorzinha no coração. O pior era saber que aquele seria o destino de todas as minhas outras roupas antigas.

Nossa ultima parada foi o cabeleireiro. A esse ponto nós tínhamos sacolas até a cabeça.

Minha amiga me obrigou á sentar na cadeira e sussurrou alguma coisa no ouvido da cabeleireira que logo depois veio em minha direção sorrindo:

–Então você está sendo repaginada? Isso é bom, você é linda. Já tenho planos para o seu cabelo. Mas, de acordo com sua amiga, você não pode ver até ficar pronto.

–Koryander!

–Se me chamar assim mais uma vez eu juro que faço ela pintar seu cabelo de rosa! –Ameaçou minha amiga. –Seja boazinha e confie em mim.

Suspirei rendida e me deixei levar. Acho que fiquei mais ou menos uma hora e meia de olhos fechados enquanto sentia mexerem no meu cabelo, no meu rosto e nas minhas unhas, até que enfim tudo parou. Alguém que eu supus ser a Kory me guiou pela mão até á um lugar por perto, não dei mais de seis passos. Então, falou para eu abrir os olhos.

Juro que não me reconheci no primeiro minuto. Estava de frente á um espelho de corpo inteiro e foi um choque perceber que aquela garota linda era eu. Meus cabelos estavam um pouco abaixo dos ombros, com ondas suaves e a cor original. No meu rosto uma maquiagem leve deu á ele um pouco de cor e destacou os meus grandes olhos violeta deixando-me com um ar leve misterioso e sedutor. Pela primeira vez eu não usava colã e capa e aquela roupa mesmo sendo simples realçava meu corpo e eu percebi que ele tinha curvas bastante atraentes. E isso me fez perceber que eu era linda e no espelho eu parecia bastante confiante. Mais do que me distrair isso me deu um novo ânimo para enfrentar aquela situação. Sim, eu tinha muito o que agradecer á Kory.