Casamento Intergaláctico
6 Capítulo 06: Angélicas.
Notas iniciais
Capítulo 06: Angélicas.
No meu sonho, eu estava sentada numa campina verdejante, a minha frente um tapete feito com belas flores e um céu que vivia a mudar de cor, meu rosto tinha lágrimas escorrendo em abundância, os olhos vermelhos e inchados. Meu corpo tremia de frio e dentro de mim havia tristeza, angústia e o sentimento de perda. Minha pele estava branca de forma exagerada sendo coberta apenas por um vestido de algodão simples e branco, uma grande nuvem cinza ao longe e o vento frio destacava que uma grande tempestade vinha na minha direção, o céu trovoava constantemente dando a impressão de que o tempo estava mostrando meu atual estado de Espírito.
一 Débora?一 a voz conhecida chamava-me confusa e apática.
Virei o rosto procurando da onde vinha a voz que caminhava lentamente para minha mente trazendo lembranças tão boas que o sentimento de saudade era grande e me fazia sorrir singelamente apreciando a nostalgia de tempos maravilhosos, a figura dos meus pais atrás de mim, minha linda mãe sorria, tão perfeita com seus cachos negros caindo emoldurando seu rosto em formato de coração abraçada de lado com meu pai, os olhos intrigantes e julgando o que ocorria, ambos dando tchau com sorriso no rosto.
一 Não. Esperem. 一 gritei levantando rapidamente.
O vestido em que estava começou a transformar em azul marinho como a do meu casamento, o tecido agarrando-se em minha pele quase queimando, lentamente a figura dos meus pais foi ficando distante e translúcido, e quanto mais apertava o passo para ficar perto, mais afastado ficava, e mais desesperada me sentia. Logo notei a aliança em meu dedo, linda e mortalmente perigosa, parei de correr pois a chuva desceu e impossibilitava minha visão adiante, havia um buquê na minha mão, com rosas murchas e mal cortadas, fiquei olhando para aquilo com curiosidade. Levantei a cabeça sentindo alguém me olhar, Drax me avaliava de longe, seu boca mexia-se, o som não chegava, a chuva me impedia de ouvir. Senti medo era da figura atrás dele, Roxye mostrava seu sorriso perverso e monstruoso. Roxye me mostrava maldade.
Planeta B’Etor — 27 de Dezembro de 2017, Mansão Zol-Thiren
Abri os olhos e sentei rápido na cama, as imagens ainda vívidas, Draxfot me olhar da poltrona que estava sentado, o livro aberto em sua mão indicava que ele estava lendo, o alien largou o objeto em cima da mesa.
一 Bom dia. 一 ele disse cruzando as mãos na frente do corpo.
Ele estava apenas com uma regata e uma calça de moletom que grudava nas suas coxas, o cabelo estava uma bagunça como alguém que acabara de acordar e passara a mão pelo cabelo, pude ver mais nitidamente a leve vermelhidão que detinha nos olhos de todos os Zol-Thiren. Ele era um alien bonito, mesmo com toda sua estranheza.
一 Bom dia, que horas são? 一 indaguei levantando e arrumando a cama, os bons modos aprendidos com minha família nunca me deixariam.
一 São 9:30 da manhã, deseja algo? 一 ele levantou, colocou a mão no meu ombro esquerdo. 一 Precisamos conversar.
一 Aconteceu algo? 一 minha voz tinha vacilado por breve momento.
Drax passou o peso da perna para outra, ele estava desconfortável, seja o que fosse que ele ia falar era um assunto que o deixava desconfortável. Ele suspirou derrotado.
一 Nada demais, entretanto essa semana é de adaptação. 一 ele cruzou os braços flexionando os músculos. 一 Vamos nos mudar em breve.
一 Gostaria de aprender a usar o comunicador. 一 sentei na beirada da cama. 一 Me sinto imprestável.
一 Não assuma toda a culpa. Vamos iniciar com calma. Primeiro comer. 一 ele sorriu de lado.
Acenei entendimento, logo segui ele pelo corredor agora bem iluminado através das janelas, na noite passada devido a escuridão reparei em pouco detalhes, o chão da casa era madeira polida na cor negra, a casa era realmente pintada inteiramente em cores neutras, as paletas iam de bege claro a preto carvão, pela janela via as árvores roxas, amarelas e rosas, a terra azul era de se perder de vista, completamente belo, cheio de pássaros diferentes.
Ao descer as escadas pude ver Dny no quintal, estava podando uma árvore diferente das outras do terreno, essa tinha a aparência de uma planta terrestre. A aparência dos troncos marrons e as folhas verdes nada comuns em B’Etor, as flores brancas com o centro amarelado.
一 São…
一 Angélicas. 一 interrompi Drax que sorriu, apesar de eu achar que aquilo era um sorriso, não tenho muita certeza. 一 Como?
一 Bom, seria um desperdício não pegar algumas amostras da fauna e flora do seu planeta, são bonitos e eles podem sobreviver em outros habitats, se bem que podem ocorrer variações na cor por um tempo prolongado 一 ele olhou a si mesmo, como que dizendo que poderiam ficar azuis ou roxos.
一 Você sabe o significado das angélicas? 一 perguntei olhando nos seus olhos.
一 Não. Na verdade nem sabiam que tinham significados. 一 ele ficou sério, talvez tentando entender o por quê de terráqueos darem significados a seres não pensantes.
一 União. Harmonia. Paz. 一 fechei os olhos imaginando o cheiro característico da flor, doce e pura.
Houve apenas o silêncio e o passar suave do vento enquanto ele passava por mim, por um momento, um breve momento senti um calor próximo aos meus lábios, fiquei ansiosa por algo que nunca sequer imaginei, senti o calor nas bochechas e abri os olhos vendo Drax me fitar tão triste.
Ele tinha medo e anseio, seus olhos gritavam por ajuda, a conversa da noite passada ainda passava pela minha mente, e tudo que descobri até agora só me deixava mais ansiosa pelo passar dos anos. Ali naquele momento vi como Drax me via, eu era intrusa na sua vida. Eu que destrui todo seus planos por um acordo de sobrevivência e me senti tão mal. Ele deu uma tossida nervosa.
一 Vamos tomar o café certo? Depois fazer contato com Maria. 一 ele falou tentando esconder o momento íntimo que trocamos ali.
一 É… 一 consegui responder virando o rosto quebrando o contato.
Desci a escada lentamente, pude ver Jami colocando botas altas e grossas demais para seu estilo, creio que estava saindo para ir trabalhar no campo. Ela era uma mulher delicada, com feições um pouco orientais se fossemos jogar para o lado da Terra, braços finos, com uma cintura não muito marcada, estava de calça leve e uma blusa folgada, levava na cintura uma espécie de pochete com ferramentas que nunca havia visto.
Ela virou com um sorriso arrebatador, e retribui dando um tchau, Dny entrou pela porta, estava suado demais e sorriu para mim também. Ele tinha parecia ter um espírito de aventura. Parecia sempre feliz demais e nisso eu desconfiava, ninguém é feliz demais… Nunca há só felicidade.
Caminhei para cozinha, acabei passando pela sala e vendo Leo assistindo uma programação, ele sorriu de lado, ainda desconfiado pelo que vejo, o cabelo antes arrepiado encontrava-se a sua normalidade. Agora mais corado, cheio de energia, tinha o rosto neutro e pensativo, lembrei que ele tinha perdido a esposa, a dor que deve ter sentido, o vazio que ele tinha agora e que nunca seria preenchido.
一 Sabe, você precisa colocar uma roupa melhor, ninguém é obrigado a ficar vendo feiúra pela manhã. 一 proferiu Roxye com sua cara bela e arrumada.
一 Roxye… 一 rosnou Dny, seu rosto demonstrava certo desprezo e um aviso mudo para não prosseguir com o resto da frase ou de qualquer coisa que ela pensara em fazer.
Aquilo de fato não me atingira, quer dizer, sei que não sou o exemplo de beleza terráquea, muito pelo contrário, sempre fui fora do peso e fugi de padrões estéticos, nunca pensei que isso me seguiria até aqui. Não neste momento. Mas ela estava certa, não estava propriamente vestida e havia me esquecido disso. Subi rápido vendo que Drax iria falar algo.
一 Só cale a maldita boca. 一 resmunguei enquanto corria para dentro do quarto novamente seguida de Drax. 一 Você podia ter me avisado.
一 No momento não lembrei e não achei que seria algo de importância, você acha que eu deixaria algo assim passar? 一 a calma na sua resposta me irritava, ele simplesmente não entendeu a situação ou fingia não entender o que só me deixava com certa raiva.
一 Bom agora já foi não é, você não liga, pois tem o corpo lindo, não pensa nisso.... 一 falei rápido e me dei conta do que falei.
一 Que? Você…
一 Só sai do quarto, vou me trocar. 一 empurrei ele para fora do quarto.
Fiquei com a costa na porta respirando rápido e irregular, pude ouvir o farfalhar do vestido de Roxye, baixei meus olhos até a fechadura, não conseguia ver nada, então pressionei fortemente meus ouvidos na porta tentando ouvir algo. No começo havia só os ruídos, no entanto logo as vozes começaram a alterar, principalmente de Drax.
一 Nós podemos fazer isso funcionar, é só largar ela em qualquer canto da galáxia. 一 ela sussurrou docemente.
一 Isso não daria certo. Isso…
Sua voz foi suprimida, ouvi apenas o barulho de um beijo, e doeu, como doeu, e nem tínhamos começado algo, Drax não faria isso certo? Ele, não nos abandonaria por um rabo de saia, Deus por favor que ele espere me recuperar e andar com as próprias pernas.
Enquanto minha mente entrava em colapso, tive uma crise de medo, não conseguia respirar, lágrimas tentavam sair, mas as fazia retornar, não daria esse gosto a ela, não mesmo. Suprimi a dor até onde aguentava, poderíamos passar por isso até termos o suficiente para fugir e viver fora do caminho dele.
Ouvi as batidas na porta, engoli qualquer dúvida na voz, engoli meu orgulho, engoli qualquer coisa que me fizesse vacilar na voz. Corri silenciosamente para o banheiro e liguei o chuveiro, ele poderia entrar no quarto, mas não entraria no banheiro, ele era um cavalheiro, não faria isso.
Fiquei sentada no chão me vendo através do espelho, os olhos vermelhos e inchados, cabelo despenteado, ouvi a porta abri devagar, e passos entrando desesperados. Ele se aproximava mais do banheiro, e então a porta abriu.
Meus olhos arregalaram vendo Drax me fitar, ele fechou os olhos, ele leria meus sentimentos, não deixaria isso acontecer, então dei um tapa na cara dele, foi com todas as minhas forças descontando os sentimentos que ele me fazia ter e eu não entendia. E não queria entender, pois isso iria resultar em mais um coração quebrado.
一 Tudo bem você me trair, até então entendo que não sintas nada além de pena por mim, mas nunca… nunca mais me traia na minha frente ou dentro da casa da sua família. 一 falei num sussurro alto, nunca fui chegada a escândalos.
一 Foi apenas um beijo. 一 ele sorriu de lado enquanto massageava a bochecha que ficava arroxeada levemente. 一 Nunca imaginei que seria ciumenta.
一 Que? Lógico que não, estou pensando na minha honra. 一 dei um passo para trás.
一 O que falei pra você era sério. 一 ele segurou meu braço fazendo-nos ficar cara a cara. 一 Te escolhi como esposa e te acompanharei eternamente. Aquilo com Roxye…
一 Não me interessa. 一 rosnei para ele que sorriu, parecia ser divertido para ele. Seus dentes eram tão brancos e os caninos pareciam um pouco mais proeminentes.
一 Ela apenas ainda não entendeu o seu lugar nessa casa. 一 ele continuou a falar. 一 Agora continue o que estava a fazer, você tem que comer, tenho muito o que te ensinar.
Ele deixou o banheiro com um suspiro aborrecido, desculpe senhor alien se você não tem noção de respeito, e apesar disso comecei a tirar a roupa para entrar no banheiro, estava tão aborrecida que quase bati meu rosto no espelho, ao ligar a ducha a água quente fez maravilhas nos meus músculos. A sensação quentinha e a névoa, realmente a cura para o estresse estava no banho com água quente.
Me arrumei rápido, apesar de tudo estava bem curiosa sobre tudo, coloquei uma calça jeans 一 acho que jeans, ou tecido similar 一 encontrei Drax vestido com bermuda e regata tomando sabe-se lá o que, ele explicou que nós humanos chamaríamos de chá matte, o sabor não era parecido, na verdade não chegava nem perto, o sabor do líquido era extremamente doce e enjoativo.
A cozinha era bem grande, como se algum tempo atrás ele tivessem planejado ser uma grande família, mesa grande e branca com vidro, uma jarra com flores brancas no centro, a cor era bem antiquada, um marrom bem claro, detalhes de porcelanato, uma grande caixa metálica, deveria ser a geladeira, várias janelas adornavam o local, a luz entrava naturalmente, cortinas que iam até o chão, pareciam tão sedosas que vontade de tocar era muito. Fora o barulho de pássaros e animais que não eram do meu conhecimento, a cozinha era na parte de trás da casa então a paisagem era uma grande fazenda de cereais ao longe com um céu claro e cheios nuvens coloridas.
一 Vamos ligar para Maria. 一 ele disse ao colocar na mesa o aparelho que tínhamos comprado e virou o pulso mostrando uma pequena protuberância, quase imperceptível. 一 Isso é a base central de qualquer sistema de registro intergaláctico, vou colocar um em você, pois agora precisas de um registro para transitar entre galáxias.
一 Ele é basicamente um RG e Passaporte num chip? 一 indaguei curiosa olhando para o aparelho que ele segurava.
一 Tecnicamente ele está em estado líquido para adaptar-se a sua fisiologia, não me pergunte como funciona, não fui o cientista a inventá-la, apenas sigo as ordens de registro. É isso ou ficar presa nessa casa, sem ligações e sem compras você decide. 一 ele olhou-me chateado, isso seria sempre, ele parecia não gostar de perguntas.
Dny entrou segurando um outro aparelho, Leonardo entrou na cozinha me olhando assustado, eu odiava agulhas, ele “só” tinha PÂNICO, sentou na cadeira a minha frente e a frente dele Dny pediu para estender o braço, Drax ainda falava algo sobre ter uma leve ardência e formigamento no local após a picada, mas só pude ver seu irmão aplicar o tal gel em Leo que deu um ganido, ele suava frio, logo começou a coçar o local, dizia que formigava e muito, Dny dizia ser normal.
一 Uma égua que vou colocar isso, tira essa joça da minha frente 一 levantei tão rápido que nem me dei conta que estava grudando minha costa na parede.
一 É uma reação normal, em alguns segundos vai estar tudo bem, vou ficar do seu lado enquanto passa pela fase. 一 ele fez aspas como se indicasse que aquela reação era uma frescura total.
Só vi a parte que Dny estava atrás de mim, Drax jogou o aparelho, ele puxou meu braço e o maldito irmão dele aplicou em mim o gel, no começo houve uma picada, logo a ardência de algo pegajoso entrando no meu sistema e logo depois a dormência, ao menos Drax cumpriu o prometido, ficou ao meu lado enquanto colocava bolsas de gelo.
Não doía de fato, mas incomodava o cão, e tinha uma reação adversa que ele não havia mencionado, você meio que ficava atordoado e vendo umas luzes esquisitas e coloridas passarem pela sua visão. Não durou mais que 10 minutos, logo Leonardo voltava a seu estado normal e conversava com Dny e Sr. Calisto que havia entrado na cozinha para tomar o líquido doce.
一 Todos tem essa mesma reação, alguns se fazem de forte e ficam quietos, outros são mais escandalosos, mas é normal qualquer reação, afinal não é algo natural. 一 Sr. C explicava cada detalhe para Leonardo, o homem mais velho olhava Leo como uma criança, vi um pouco de carinho fraternal nele.
一 É algo extremamente não natural, mas que ajuda e facilita muito a vida. 一 meu irmão deu de ombros, logo foi seguindo o Sr. C que estava falando sobre Leo produzir projetos de construção e expandir o negócio dos Zol-Thiren.
一 Fazia tempo que não via papai entusiasmado com um projeto. 一 Dny alegou com a mão na cintura. 一 Que tal levarmos eles para um passeio para conhecer a fazenda?
一 Ótima ideia, mas primeiro precisamos ligar para uma amiga. 一 Drax colocou a pulseira no meu braço. Dny deu de ombros e me deu um sorriso, então Drax apareceu na minha frente. 一 Você não queria falar com Maria?
一 Sim, na verdade quero muito. 一 afirmei balançando a cabeça afirmando que isso me faria bem feliz.
一 Foco em mim então. 一 ele grasnou com o rosto sério e o corpo tenso.
O clima tinha ficado um pouco pesado, Dny saiu lentamente da cozinha, isso fez Drax relaxar um pouco mais, ele me ensinava a mexer no “aparelho” tanto por físico 一 que era em formato de celular só que era apenas uma peça fina de vidro 一 quanto por ondas, a pulseira era para quando o aparelho não estivesse por perto, ele falou que logo me acostumaria a separar os pensamentos dos comandos do telefone, gravamos todos os contatos importantes para caso de alguma eventualidade, inclusive ele me mostrou que agora eu e Leonardos teríamos uma conta só nossa.
一 Da onde saiu toda essa quantia? 一 perguntei temerosa, quase não me segurando para não fugir.
一 Quando planetas são tomados por rebeldes, no seu caso a Tropa Intergaláctica de Ocupação, os sobreviventes sempre ganham uma parte, como se fosse um abono pela perda que tiveram. 一 seu rosto ficou triste, ele pegou o sentimento que eu também senti.
一 Ao menos eles ajudam hun… 一 disse tentando disfarçar o caroço que se formou na minha garganta.
Tentamos ligar para Jami para testar a funcionalidade do aparelho, deu tudo certo, como imaginei ela estava no campo trabalhando, cabelo preso e suando muito, logo depois ligamos para Maria. A cada “túúúúúúúú” ficava ansiosa.
一 Olá? 一 o rosto dela apareceu na minha frente. 一 Débora?
一 Oi Maria. Como você está? 一 perguntei pra ela tentando parecer normal, mas na verdade queria perguntar milhares de coisas importantes. Inclusive o que era aquele roxo no canto esquerdo do lábio dela.
一 E-Eu tô bem. 一 ela sorriu devagar, olhando para os lados.
一 Onde está Va’nic? 一 Drax perguntou sem rodeios.
一 Está trabalhando. Você não quer me ligar outra hora? 一 Maria sorriu sem graça.
一 E o que demais você está fazendo agora? Trabalhando? 一 interroguei irônica, mas a falta de respostas me deixou preocupada. Ouvimos o barulho alto, como de quando alguém abre a porta no chute.
一 Me liga amanhã. 一 ela desligou rápido, tentava esconder o que quer que tenha acontecido ali. Aquilo estava me deixando muito mordida.
一 Égua, o que aconteceu? 一 perguntei pensativa.
一 Bom… 一 iniciou Drax.
一 É uma pergunta retórica, não precisa de uma resposta, pois já sei. 一 reclamei levantando da mesa.
一 Isso é confuso. 一 ele olhava pensativo.
一 Quero ir visita-la. 一 virei pra ele.
一 Não podemos, não devemos e nem temos autorização, fora que é burocrático entrar no planeta que ele está, são maníacos por poder sem senso de honra. 一 ele juntou os braços, franziu as sobrancelhas e chegou-se ao meu lado. 一 Sei que está preocupada, mas não temos provas suficientes…
一 Ela está com medo e com um roxo na boca, você quer mais provas?
一 Débora, meu mundo não difere muito do seu, o poder ainda fala mais alto e tem muita maldade, nós teremos que achar algo mais…. palpável para levar a juízo ou ao menos interceder para a GSGU já que foram eles quem fizeram o acordo.
Não era como se tudo fosse um conto de fadas, mas ele me abraçou, foi caloroso e aconchegante, fechei os olhos inalando o cheiro doce que ele tinha, retribui o abraço passando meu braço pelo seu pescoço.
Meus pensamentos voltaram ao passado, quando ainda tinha uma pessoa que me abraçava do mesmo modo, que me acalentava, que sonhava comigo, e então tudo desceu ladeira abaixo, voltei a realidade, Maria precisava de ajuda, ela só tinha eu, o que não ajudava muito, estávamos tão ferradas.
Por dentro rezava, mesmo com todo o mundo em chamas, ainda mantive a fé de algo maior, e rezava para Maria aguentar um pouco mais, se era prova que eles queriam, eu faria de tudo para achar, nem que tivesse que aprender outras línguas, uma amiga nunca pode ser deixada para trás.
Abri os olhos e meu estômago embrulhou, Roxye estava apoiada no umbral da porta, ela sorria ironicamente, lembrei do meu sonho, o mesmo olhar, a mesma postura, e maldade mostrando-se lentamente nos seus olhos magenta, meus pelos do corpo arrepiando-se, ela não gostava de mim, precisamente me odiava.
Separei abruptamente do abraço, eu não me meteria naquele problema, não atrapalharia ela, afinal o que eu era? Só um problema para a família que parecia estar unida para nos fazer esquecer de um passado trágico. Drax olhou para o lado e resmungou algo inaudível, outras de suas habilidades que eu nunca entenderia.
Não olhei para nenhum deles, apenas caminhei para fora da cozinha, vi Leonardo em uma mesa ao fundo conversando seriamente com Jami, ela parecia sentir-se culpada, pensei em ir lá conversar, mas a ideia de Jami por perto com a possibilidade dela ler meus sentimentos ou pensamentos era assustadora.
“Okay Débora, hora de conhecer sua nova casa, sozinha, sem ninguém, solitária, mas quem sabe fazer amigos, vamos caminhar, apreciar a vida de campo”. Comecei a pensar coisas sem sentido, mas seria bom afastar-me por uns momentos, ficar sem medo de pensar, ser eu mesma. Foi só o que pensava enquanto abria a porta da mansão e saia. Ao longe senti a fragrância das flores angélicas. Ao menos o primeiro passo foi conquistado. União.
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