Casa de Bonecas
3 • Fugitivas. •
Notas iniciais
Junho, 2006. Duas semanas depois.
“Querido Ernesto,
Creio que você já sabe que o meu amor por você já se esvaiu há tempos.
Ou melhor, será que já existiu o amor algum dia? O mesmo amor que sinto por Richard? Talvez só senti amor fraterno e sei que num relacionamento como o nosso ele não serve mais, principalmente agora que até ele não existe mais. Não sei lhe dizer se sumiu com o tempo ou de uma vez só (minhas apostas vão na primeira opção), só sei que ele sumiu... E duvido que volte algum dia.
Tenho total conhecimento da sua amante, a conheci (indiretamente, claro) na festa de Joana na semana passada e percebi que você está feliz com ela. Então pensei que, talvez, você pudesse ser feliz com ela para sempre, sem minha presença interferindo o relacionamento dos dois e causando peso na consciência (como acontecia comigo e com Richard). Resolvi fugir.
Não pense que estou à deriva da sociedade, tenho com quem viver. Fugirei com Richard, meu único e verdadeiro amor.
Talvez você pense que isso é uma completa loucura e que meu cérebro está completamente corroído, afinal como pode eu, uma moça de família, com a vida perfeita, fugir com um relé. Mas estou bem sã, acredite. Não acho que seja loucura fugir com alguém que você passa o dia pensando, que você compra uma roupa pensando se ele gostaria ou vai a algum lugar e pensa como ele agiria e o que falaria. Acho que isso não é loucura da minha parte (nem da dele em me aceitar).
Quanto a nossos filhos prefiro não leva-los comigo. Eles gostam mais de você (principalmente a Anabel) e estarão mais estáveis economicamente. Talvez seja egoísmo de minha parte, mas o que posso fazer? Isso será o melhor para eles.
Se quiseres divulgar o quão infiel e má eu sou pode, não me preocupo com minha imagem. Não mais. Se quiseres se fazer de vítima e esconder o que já fez no passado, pode, não vou me preocupar.
Quanto a pensão, não se preocupe, não a desejo. Se quiser fazer um divórcio envolvendo a lei, me avise antes para providenciar meus advogados. Seguem abaixo meu novo endereço e telefone, caso queira me procurar.
Boa sorte hoje e sempre
P.S.: Deixarei minha herança sob sua tutela. É destinada aos nossos filhos, apenas a eles.
Aurélia D’Cruz."
Guardou a caneta preta no porta canetas novamente, dobrou a carta cuidadosamente para não amassar e a colocou no envelope branco, fechando-o em seguida. Lentamente ergueu-se da cadeira de couro do escritório de Ernesto, observava tudo atentamente. Os livros organizados em ordem alfabética na estante de madeira envernizada. A mesa de madeira igualmente envernizada a sua frente, com seus papeis cuidadosamente organizados. Além dos papeis, havia um porta canetas e um porta retrato com a foto dos quatro membros da família sorridentes.
A loira pegou o porta retratos delicadamente, analisando os rostos dos filhos, notando os sorrisos falsos que adornavam seus lábios e os olhos vazios – principalmente o de Marcos. Analisou o rosto de Ernesto e o seu próprio, o marido trazia um quê de superioridade e frieza no olhar, já ela trazia uma pequena tristeza, quase invisível. Era incrível como os sorrisos podiam mascarar qualquer sentimento, era incrível como ninguém nunca notou aqueles olhos tristes. Tudo era um pedido de socorro, tentavam mostrar que nada era perfeito, mas ninguém nunca notou. E nunca notaria.
Colocou o porta retrato novamente na mesa, pegou suas malas e caminhou até a porta. O único barulho que se fazia presente era o do seu salto contra o piso de madeira. Fechou a porta silenciosamente, abrindo um pequeno sorriso.
Sua liberdade estava mais próxima que imaginava.
Δ•Δ
Julho, 2007.
Ela via a fumaça do charuto cubano de Paulo subir, formar alguns desenhos e fugir pela brecha da janela. O senhor gorducho a sua frente fitava a parede branca já desgastada, seus olhos estavam semicerrados e tamborilava os dedos no braço da cadeira, tudo aquilo indicava que estava pensativo. Talvez até demais. Aline mexeu-se desconfortável na cadeira de madeira, o medo crescia em seu ser assim como o silêncio no recinto.
Era estranho estar ali, pedindo permissão para simplesmente sair após tanto tempo. Ela já estava acostumada a enganar, roubar e matar; já estava acostumada a não desenvolver nenhum sentimento com a vítima, se acostumou a não se importar com vida que estava prestes a tirar. Mas então Ernesto chegou e fez questão de mudar tudo.
O plano era simples, chegar, enganar, roubar e matar. Aline já estava acostumada a fazer aquilo, era tão natural quanto respirar. Mas ela começou a desenvolver algo que nunca havia sentido por ninguém – a não ser por si. Se o Cupido aparecesse na sua frente ela seria capaz de mata-lo enforcado com as próprias mãos; ele estragara tudo, a deixara à mercê do mais belo, puro e irracional sentimento. Aline queria sentir raiva de Ernesto por provocar isso nela, mas não conseguia.
Paulo ergueu-se da cadeira e jogou o charuto pela janela, o observou cair e aterrissar no asfalto.
— Então você quer simplesmente sair e abandonar tudo? — Perguntou por fim, virando-se em sua direção. — Quer abandonar a quadrilha, abandonar tudo o que já conseguimos e me abandonar por amor? Pelo amor que sente por um cara que mal conhece?
— Eu conheço o Ernesto já faz dois anos. — Murmurou em resposta, erguendo a cabeça afim de encará-lo.
— Você pensa que o conhece, mas não o conhece. Ele esconde coisas de você, coisas macabras que até ele tem medo de saber.
— Todo mundo tem seus segredos, Paulo, não o trate como um ser raro.
Ele bufou e deu um soco na mesa.
— Você está COMPLETAMENTE cega, menina! Você está abandonando tudo por nada. — Rosnou, fitando-a.
Aline cerrou os punhos e ergueu-se, sentia o sangue pulsar com mais violência em suas veias, a raiva voltar à tona.
— O que é o tudo, Paulo? Viver a margem da lei, escondidos? Ficar enganando, roubando e matando as pessoas porque esse foi o jeito que você arrumou de prosperar? — Retrucou, levantando-se. — Você disse que eu ia te abandonar... Bem, sorte minha te abandonar, certo? Afinal você só é um pedófilo maníaco que acha que só porque tirou a gente da favela devemos te cultuar como um Deus. — Sibilou, sustentando seu olhar. — Por anos você usou eu e as meninas como escravas para conseguir seu lindo império, o que recebemos em troca? Exatamente, nada; talvez umas roupas de grife, mas só ganhávamos elas para conseguir enganar as pessoas. Eu que tive sorte por conseguir ficar com a merda do apartamento que o Ernesto me deu.
Antes que a morena conseguisse ter qualquer forma de se defender Paulo deu um tapa em sua cara, fazendo-a cair no chão. Aline colocou a mão no rosto, sentindo-o queimar com o impacto; em seus olhos haviam lágrimas que demostravam mil e um sentimentos: raiva, desespero, tristeza, desprezo...
— Dentre todas as meninas foi a você que dei mais amor, que mais respeitei. Não admito que saia daqui me tratando dessa forma; não admito que saia daqui. — Ele agachou-se ao seu lado, acariciando seu rosto. — Você vai se afastar dele e vamos nos esquecer desse episódio, O.K?
Ela juntou toda saliva que conseguiu e cuspiu em sua cara.
—Você é nojento e maníaco, Paulo. Você precisa se tratar. — Falara, o nojo e o desprezo eram evidentes em sua voz.
— Tsc, tsc, tsc, tsc. Menina má, menina muito, muito má. — Murmurou, limpando a saliva de seu rosto. — Não ia acontecer nada com você, mas agora vai ter que dormir no porão.
Aline arregalou os olhos e agarrou o pulso de Paulo. Sentiu seus pelos eriçarem e um frio passar pela sua espinha ao lembrar-se das noites que passara em claro no porão.
— Não, por favor, não. — Suplicou. O desespero evidente em sua voz, transbordava pelos seus olhos em forma de lágrimas. — Eu faço qualquer coisa para não entrar lá de novo.
— Qualquer coisa, é? — Perguntou Paulo, abrindo um sorriso.
— Sim, qualquer coisa. — Repetiu, engolindo em seco.
Silenciosamente, ela se ergueu da cama, usufruindo de uma maior cautela para não acordar Paulo, atravessou o quarto na ponta dos pés, tentando não tropeçar em nenhum móvel e então abriu a porta, agradecendo mentalmente por ela não emitir barulhos ao abrir. Seguiu pelo corredor úmido e escuro, apoiando-se nas paredes já descascadas, desceu a escada lentamente, segurando no corrimão mal pintado de vermelho. Ao chegar no térreo andou, ainda com cautela, pelos corredores, atravessando a casa até chegar a cozinha.
Acionando o interruptor, a luz esbranquiçada alastrou-se por todo cômodo, deixando tudo mais visível, tudo mais fácil. Rapidamente começou a procurar as seringas, abrindo e revirando gavetas e portas, por fim, no fundo falso de um armário, encontrou a maletinha branca. Ergueu-a de lá, colocando sobre a pia de mármore e com as mãos um pouco trêmulas a abriu, tirando de lá sua arma. Pegou as luvas de látex e vestiu, pegou uma das cinco seringas novíssimas e abriu o frasco de arsênico que estava lacrado. Despejou o líquido na seringa, observando com um pequeno sorriso nos lábios. Ser uma das preferidas do chefe lhe garantia saber de alguns segredos, entre eles saber onde Paulo escondia o veneno que usava para matar os empresários. Quem diria que Paulo seria o cúmplice de sua própria morte?
Guardou a caixinha, jogando o frasco, agora vazio, fora. Mais uma vez fez seu percurso até o quarto, fechando a porta com mais força que o necessário, acordando Paulo.
— Onde você esteve? — Ele perguntou com a voz embargada.
— Fui comer algo, estava morrendo de fome. — Respondeu, segurando com mais força a seringa.
— Hunf, desse jeito você vai engordar. Só quero ver alguém gostar de uma pessoa gorda. — Resmungou, virando-se na cama a fim de vê-la. — Aí serei obrigado a matá-la.
— Você seria tão cruel assim a ponto de matar uma de suas preferidas? — Perguntou, forçando uma falsa tristeza na voz. Sentou-se ao seu lado, cruzando os braços. — Lembre-se que não existe mais nenhuma Aline no mundo, querido. Não como eu. — Sussurrou abaixando-se. Beijou aos poucos seu pescoço. Deixou a seringa bem ao seu lado, a destra ainda pousada sobre ela.
— Às vezes precisamos cometer um ou outro sacrifício, imagine se você conta para a polícia meus negócios?
— Você faz isso com todas as... — Ela pensou por um momento, a procura de uma palavra. — Inválidas? — Perguntou, erguendo-se rapidamente. Por puro reflexo apertou a seringa até os nós de seus dedos ficarem brancos.
— Com as inválidas perigosas sim.
— E quem são as perigosas?
— Você não está querendo saber demais não? — Perguntou, semicerrando os olhos.
— Só me responde isso, quero evitar ser uma perigosa. — Mentiu, fazendo um beicinho.
— Perigosas são aquelas que tentam se opor a mim de todas as formas, aquelas que não me obedecem, que perguntam demais. — Respondeu, afiado. — Você já se tornou uma perigosa, querida. Mas é minha perigosa preferida. — Proferiu com a voz calma, como se fosse a coisa mais normal do mundo revelar que, mais cedo ou mais tarde, a pessoa morreria.
Aline segurou a seringa como se sua vida dependesse dela. Sentia suas mãos suarem e um calafrio passar por sua espinha. Ela já havia feito aquilo mil e uma vezes, porque estava amarelando agora? “Porque foi ele que te induziu a fazer isso mil e uma vezes”, a vozinha da razão sussurrou.
— É uma pena que eu seja uma das perigosas, então acho bom eu começar a fazer coisas boas para a organização. — Murmurou. — A partir de agora. — E então com a maestria de uma assassina cravou a seringa na jugular dele, apertando o êmbolo com toda sua força.
Vestiu sua roupa rapidamente, retirando as luvas e guardando-as na bolsa junto com a seringa. Ela ousou dar uma última olhada para trás, observou atentamente a figura de Paulo convulsionando e então saiu do quarto, contente consigo mesma.
•
Apoiada na mureta da varanda Aline fitava a cidade que se estendia a sua frente, a brisa suave acariciava seu rosto e bagunçava seu cabelo, seus pensamentos voavam alto e seus, agora vazios, olhos castanhos vagavam a procura de um porto seguro, de alguma direção. Um único pensamento, uma única frase ousava tomar conta de sua mente. “O que você fez?”. No calor do momento ela não pensara no que pudesse acontecer com ela, mas agora, quando a consciência chegou, quando conseguiu raciocinar sobre o feito, percebera que cedo ou tarde abandonaria seu apartamento na zona nobre da cidade e começaria a viver atrás das grades. Ou pior, morta pelas mãos dos sócios de Paulo; pelas mãos daqueles que, assim como ela, optaram por viver naquela vida suja.
Ela sentiu as mãos de Ernesto passarem por sua cintura e subirem até seus ombros, fazendo massagem nos mesmos, destruindo os pontos de tensão que haviam se formado. Sentiu sua barba por fazer roçar em seu pescoço e sua voz baixa e preocupada fazendo a pergunta que ela tanto temia.
— O que há com você?
Lentamente ela virou-se e o encarou atentamente, prestou atenção na ternura no seu olhar, querendo guardar aquela expressão para sempre em sua memória. Não queria lembrar-se da raiva que tomaria conta de Ernesto quando soubesse a verdade. Engoliu em seco e abriu um sorriso trêmulo.
— Eu matei um homem. — Revelou, calma. — Um não, vários, durante toda minha vida... Mas esse que eu matei é o mais perigoso, o mais importante. É aquele que me induziu a matar os outros, antes dele; foi ele que mandou eu te matar.
Ernesto ficou a encarando por um tempo, processando a informação, julgando se era verdade ou se era só mais uma das inúmeras brincadeiras de Aline, mas os olhos da morena não mentiam. Ele deu alguns passos para trás, atordoado, levando a mão a boca, a ternura em seus olhos se quebrou, sendo substituída por medo, dúvida e raiva. Ao perceber a última emoção,Aline soltou um soluço, como assim ele estava com raiva dela? Aquilo doeu tanto quanto uma facada.
“Ah meu lindo Ernesto de olhos de chocolate, não me tema, por favor. Ainda sou sua musa de cabelos negros como a noite; ainda te amo.”, ela queria falar, queria tocá-lo, explicar... Mas faltou-lhe palavras na hora. Doía nela ao ver aqueles olhos de chocolate se contorcendo em dor. Doía saber que ele estava sofrendo internamente por sua causa dela.
— Me explica isso, Aline. — Ordenou sentando-se pesadamente no sofá.
E então ela explicou. Explicou sua vida sofrida na favela, onde sua mãe era uma drogada e seu pai estava preso, onde ela tinha que ajudar a cuidar de seus outros seis irmãos mais novos; explicou a chegada de Paulo, oferecendo uma vida melhor a todas as crianças, dizendo mentiras de uma ONG que nunca existira; detalhou a vida na casa de Paulo, a preparação das meninas para enganar, roubar e matar e o treinamento dos meninos de atirar, correr e morrer pelas mãos do tráfico. A impossibilidade de fugir já que, por mais cruel que ele fosse, oferecia uma vida melhor a todos eles. Revelou o nome das pessoas que já matou e como as matou.
— Seu pai não era dono de uma pousada? — Ernesto perguntou após ouvir tudo o que ela disse, confuso.
— Eu menti sobre isso. Aliás, menti sobre várias coisas. Paulo mandou eu mentir, Paulo me ensinou a matar... Ele mereceu morrer.
— Por que ninguém o matou antes se ele é tão ruim assim?
— Por medo, oras! Matamos ele e morremos. Ele tem aliados, Ernesto, e graças a esses aliados de merda eu vou morrer agora.
As palavras ecoaram pelo apartamento fazendo Aline tremer. Ela tinha poucos dias, talvez horas... Se tivesse muita sorte teria umas duas semanas. Institivamente olhou para o relógio, vendo o ponteiro dos segundos correrem. Sentia o fio da sua vida sendo consumido aos poucos, o anjo da Morte se aproximar mais pronto para levar sua alma para o Inferno.
— Eu não vou deixar. Não vou deixar te matarem. — Disse Ernesto, erguendo-se rapidamente do sofá. — Caso a Justiça venha atrás de você contratarei os melhores advogados desse Estado, talvez do País. Eu não vou deixar te pegarem, ouviu Aline? Não vou. Não posso. — Completou, andando de um lado para a outra na sala. A fúria na sua voz era evidente, quase palpável.
— Mas eu ia te matar! Você não pode fazer isso por mim. — Retrucou erguendo-se num pulo. — Isso é loucura.
— Você ia me matar, Aline. Mas preferiu matar Paulo, preferiu me escolher. E por causa dessa escolha você pode morrer. — Suspirou profundamente, cobrindo o rosto com as mãos.
— Desculpe por isso, eu...
— Shh, não fala nada, certo? — Descobriu o rosto e abriu um sorriso triste. Olhou para o relógio e fez uma careta. — Tenho que ir agora, não quero ser um pai desnaturado igual a mãe deles é. — Aproximou-se dela e deu um beijo em sua testa. — Vou estar sempre ao seu lado, nunca desconfie de mim. Nunca, certo?
Aline assentiu e abriu o melhor sorriso que pode, queria mostrar que estava bem, não queria ser mais um fardo na vida de Ernesto. Observou-o sair, ainda mantendo o sorriso, e só quando teve certeza que ele já entrara no carro desabou. Permitindo, pela primeira vez desde o assassinato, que as lágrimas escorressem.
Δ•Δ
Outubro, 2011.
Ela odiava admitir aquilo, mas sua mãe tinha razão. Sua mãe tinha razão quanto o casamento; tinha razão em arranjá-lo; tinha razão de ser tão egoísta... Aurélia odiava admitir, mas, talvez, uma das melhores coisas que seus pais já fizeram por ela fora arrumar aquele maldito casamento. Mas, infelizmente, ela havia arruinado tudo. Havia arruinado um futuro de jóias, maquiagens, viagens, roupas de marca...
Ela tinha tudo que podia nas suas mãos, era a mulher mais rica da cidade, estava prestes a ser conhecida por todo o Estado, mas largou mão de toda glória, de todo dinheiro e poder por conta do amor.
Ah, o amor... Como ela já foi tola por ter acreditado nele uma vez, como foi tola por deixar que esse sentimento idiota tomasse conta do seu corpo, contaminasse sua alma. A história dela com Richard não passava de uma paixãozinha adolescente que por quatro anos ela sustentou, dizendo a si mesma que nenhuma jóia no mundo compensaria aquele momento, mas tudo tem um começo, um meio e um fim e, para ela, aquela vida já tinha que acabar.
Aurélia sentia falta do peso de um colar de diamantes, sentia falta das camisolas de seda roçarem em sua pele, sentia falta das festas que fazia só para esbanjar o dinheiro que tinha. Ela odiava admitir, mas estava virando uma Juliana 2.0, estava deixando que a Ambição acabasse com seu Amor. E saber aquilo doía.
Ela se lembrava que no começo tudo era flores. Uma pequena casa alugada, um emprego num café a alguns quarteirões de sua casa, um amor de infância para uma vida toda... Parecia aqueles filmes Hollywoodianos em que a mocinha larga tudo para viver uma aventura. O único problema desses filmes é que eles nunca mostram o que acontece depois; depois que a primeira briga acontece, quando a realidade chega como um tapa, quando o pecado fica mais forte que o mais puro sentimentalismo, quando um cansa do outro e começam a se evitar.
Só depois que passou a viver com Richard ela pode notar que o dinheiro sempre regeu sua vida. Ela sonhava ir para shows e mais shows a custas do dinheiro do pai; sonhava em fazer a melhor faculdade do país a custas do dinheiro do pai; sonhava em trabalhar numa Editora famosa e ganhar um ótimo salário e ter um lindo e espaçoso apartamento. Talvez seus pais passaram a mensagem da forma errada, mas agora ela havia amadurecido e entendia perfeitamente o significado: o dinheiro era tudo na vida de uma pessoa.
Talvez fosse por isso que ela entrou novamente em contanto com Ernesto. Talvez fosse por isso que eles entraram num acordo mútuo de criar uma historinha que o casamento havia voltado para que ambos saíssem favorecidos (ambos com a imagem limpa na mídia e ela com todo luxo que quisesse). Talvez fosse por isso que ela deixou uma carta sobre a mesa da cozinha se despedindo de Richard.
Fale com o autor