Casa das Serpentes
2 Chapéu Seletor
Notas iniciais
Hogwarts era mais deslumbrante do que eu tinha imaginado, e eu não era o único que se sentia assim. Pude ver outros alunos do primeiro ano olhando ao redor encantados. Fomos guiados até o Salão Principal, e vi pela primeira vez seu teto estrelado, decorado com velas flutuantes.
Vi as quatro enormes mesas, uma para cada casa, e vi James sentado na mesa da Grifinória. A Diretora Minerva McGonagall iniciou seu discurso de boas vindas aos novos alunos, sobre como funcionavam a seleção e as casas, mas eu não prestei muita atenção em suas palavras. Também não prestei atenção quando o Chapéu Seletor iniciou uma canção sobre as quatro casas de Hogwarts.
Eu estava nervoso, o momento que eu temia se aproximava. De sua mesa, James me observava com um sorriso de escárnio e vi seus lábios formando a palavra 'sonserina'. Eu estava tão preocupada que não notei que Scorpius estava comentando alguma coisa comigo.
— Albus! — ele chamou mais alto, fazendo-me olhar para ele — Aconteceu alguma coisa? — ele perguntou, parecendo preocupado comigo.
— Não é nada, eu só estou nervoso — respondi.
— Não se preocupe — ele segurou a minha mão e me deu um sorriso. Ouvi algumas pessoas comentarem, mas não me importei.
— Nem sei para que casa eu quero ir — desabafei, embora eu já estivesse um pouco mais calmo com Scorpius segurando a minha mão.
— Em qual daquelas mesas você se imagina? — ele me perguntou. Eu não sabia o que responder, então ficamos em silêncio.
A Diretora chamou o primeiro nome, mas eu não estava prestando atenção na seleção dos outros alunos. Continuava perdido em meus pensamentos. Eu sou filho do grande Harry Potter, o Eleito, o herói do mundo bruxo. E, por mais que eu ame o meu pai e me orgulhe dele, eu sinto que vivi sob a sua sombra até aquele momento.
Eu sabia que o mundo bruxo não me via como Albus Severus Potter, ou simplesmente como mais um desses alunos esperando a sua vez de definir a sua casa. Para os outros eu era, antes de tudo, o filho de Harry Potter. Com isso, todos esperavam que eu fosse para a Grifinória. A 'casa dos heróis', ou pelo menos era essa a sua fama, pois eram de lá o Trio de Ouro e maior parte dos seus amigos. Sonserina, por outro lado, de onde saiu maior parte dos Comensais da Morte e o próprio Voldemort.
Todos esperavam que eu fosse para a Grifinória, e não me refiro apenas à minha família. Era apenas o natural a se pensar. Mesmo James, quando dizia que eu iria para a Sonserina, dizia apenas para me atormentar. Como se fosse algo horrível ir para a Sonserina. Esse pensamento fez com que eu ficasse irritado. Como se eu tivesse sido ofendido.
Meus pensamentos estavam confusos e sequer seguiam uma linha de raciocínio coerente. Continuava segurando a mão de Scorpius, o que me trazia um pouco de segurança. Vi Helena Ayers olhando na nossa direção por um instante, com aquela expressão indecifrável. Bem, Scorpius não se importa com para qual casa eu vou. E Helena também parece não se importar. Mas ela não parece se importar muito com nada.
Mas o tempo estava passando e eu não cheguei a nenhuma conclusão. Scorpius só soltou a minha mão quando seu nome foi chamado.
— Boa sorte — falei para ele, que me agradeceu antes de se afastar.
Não demorou nem três segundos para o Chapéu Seletor anunciar que Scorpius iria para a Sonserina, o que não era surpresa para ninguém. Seus novos companheiros de casa aplaudiram com entusiasmo enquanto ele se dirigiu à mesa com um sorriso no rosto. Ao menos ele sabe qual é o seu lugar.
Eu me remexi inquieto vendo mais cinco alunos serem selecionados, depois de Scorpius, antes de chamarem meu nome. Respirei fundo e comecei a andar. Meu coração estava muito acelerado e eu me sentia trêmulo. Esforcei-me para esconder todo o meu nervosismo e manter uma postura digna enquanto caminhava. Ainda tinha o meu orgulho, apesar de tudo.
Pensei que talvez fosse mais simples abandonar todos esses pensamentos e deixar a decisão inteiramente por conta do Chapéu. Sentei-me no banquinho e um professor que eu não sabia o nome — é nisso que dá não prestar atenção — colocou o Chapéu Seletor sobre minha cabeça. Como o chapéu era maior do que minha cabeça, acabou cobrindo meus olhos, o que, de certa forma, me isolou para meus pensamentos.
Meu pai havia me dito que eu podia pedir para ficar na Grifinória, foi o que ele fez. Mas eu não precisava fazer a mesma coisa que ele, certo?
"Em qual daquelas mesas você se imagina?". Levei minhas mãos ao Chapéu Seletor, puxando-o um pouco para trás para descobrir meus olhos. Olhei para cada uma das quatro mesas. Não havia ninguém que eu conhecesse na Lufa-lufa. Na mesa da Corvinal, tinha minha prima Rose. Ela é legal, mas não conseguia me imaginar ali, sentado ao lado dela. Na Grifinória, meu irmão James e seus amigos riam de alguma piada que eu não sabia qual era, certamente algo idiota, e possivelmente sobre mim. Na mesa da Sonserina, Scorpius sorria em apoio para mim, passando-me a sensação de calma e segurança de quando ele segurou a minha mão. Foi nesse exato momento, enquanto eu olhava para Scorpius, que o Chapéu Seletor anunciou "SONSERINA".
Três mesas caíram em um silêncio absoluto, mostrando choque e surpresa. Mesmo James. Apenas a mesa da Sonserina não estava em silêncio. Meus novos colegas de casa aplaudiam da mesma forma que fariam com qualquer outro aluno. Entre os alunos que ainda não foram selecionados, vi Helena Ayers aplaudir discretamente também. Sem me importar com a reação do meu irmão e dos outros alunos, fui em direção à mesa da Sonserina.
Sentei-me ao lado de Scorpius, recebendo algumas boas-vindas.
— Ficamos na mesma casa! — Scorpius falou animado e não pude deixar de ficar contente também.
Os outros alunos foram selecionados um por um. Mais um garoto chamado Henrique Rosier veio para a Sonserina e me senti um pouco envergonhado por não ter prestado atenção nos que foram selecionados antes de mim.
Ouvi o nome da Helena ser chamado e prestei atenção. Scorpius a chamava por apelidos como 'princesa' e 'jovem dama', mas não pude negar que combinava enquanto a via caminhar com elegância e graciosidade até o Chapéu Seletor e sentar-se no banquinho de madeira com a mesma arrogância de quem se senta em um trono de ouro.
O professor colocou o Chapéu sobre sua cabeça, e não houve nenhuma resposta imediata. Pude ver que o Chapéu e Helena conversavam, mas não ouvi o que eles diziam. Por fim, o Chapéu Seletor falou, dirigindo-se a todo o salão "Nunca achei que esse dia chegaria mas... SONSERINA!"
O silêncio foi mais evidente do que na minha seleção, pois nem a nossa mesa se manifestou no primeiro instante. Confesso que eu estava tão surpreso quanto todos os outros. Depois de um segundo de silêncio absoluto, onde qualquer respiração podia ser ouvida, ouvi um aplauso solitário ao meu lado e vi que era Scorpius. Seguindo seu exemplo, também me levantei e aplaudi. Depois, recuperando-se do choque, aos poucos os outros alunos da mesa aplaudiram também. Nem todos, porém. Uma ruiva, que parecia também ser do primeiro ano, por exemplo, permanecia de braços cruzados e uma expressão assassina enquanto Helena aproximava-se da mesa e sentava ao meu lado.
Vários olhares de curiosidade eram dirigidos à nossa direção, não sabia bem se era por mim ou por Helena. Ou os dois. Elizabeth Midford também veio para a Sonserina, uma garota de volumosos cabelos loiros cacheados e olhos verdes.
Quando todos os alunos foram selecionados, Minerva terminou seu discurso e anunciou o início do banquete. Eu conversava com Scorpius e Helena comia silenciosamente ao meu lado. Ela tinha os modos de uma princesa à mesa também. Mas maior parte dos alunos da Sonserina tinham.
Os outros alunos do primeiro ano também conversavam, e, por vezes, se dirigiam a mim ou a Scorpius. Foi Henrique Rosier — um rapaz de cabelos castanhos claros e olhos de uma cor bem peculiar: era azul mais no centro, e tornava-se violeta no contorno — quem se dirigiu a Helena, perguntando o motivo do Chapéu Seletor ter mandado uma nascida trouxa — o termo sangue-ruim, felizmente, caiu em desuso nos últimos anos — para a Sonserina.
— Porque eu desejo poder acima de qualquer coisa. — foi a resposta dita em um tom frio e firme de Helena.
É meio assustador ouvir uma criança de onze anos falar assim.
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