Casa comigo, Neptune
1 Prólogo
Notas iniciais
Eu vou morrer solteira.
É a única coisa que se passa em minha mente ao virar a quarta dose de um drink cor de rosa qualquer. Desconheço o nome da bebida, mas a sua cor é bonita, brilhante. E eu gosto de coisas bonitas.
Inclusive, meu melhor amigo, que está se divertindo do outro lado do lotado bar, é perigosa e irresistivelmente bonito. E é óbvio que eu tolamente me apaixonei por ele, que apenas me vê como uma pequena e frágil irmã.
Sim, estou experimentando uma bebida completamente desconhecida e banhada a álcool porque Ryan, meu melhor amigo, está, neste exato momento, beijando uma garota qualquer que ele acaba de conhecer.
— Eu tenho medo de morrer solteira. — Confesso em um murmuro arrastado. Talvez seja efeito do álcool viajando em meu sangue pela primeira vez em vinte e um anos. Ou talvez eu esteja com sono. Ou ambos.
O garoto que está sentado ao meu lado no balcão do bar abaixa a cabeça e sorri discretamente. Ele definitivamente me escutou, apesar da música alta que ecoa pelo ambiente.
Mordo os meus lábios ao repousar os meus olhos sobre ele. Pequenos e delicados cachos castanhos preenchem a sua cabeça e, de alguma forma, sinto vontade de acariciar o seu cabelo macio. Sua pele bronzeada e quente me lembra a calmaria de uma praia no verão. E a imperceptível argola prata presa em sua orelha traz a sensação de ondas rebeldes que se quebram à beira da areia.
Ele é bonito, muito bonito. Ou o álcool está distorcendo a minha visão. Ou ambos.
— O quê? Você não tem esse medo? — Pergunto impulsivamente.
— Eu jamais vou morrer solteiro, gatinha. — Ele dá de ombros, como se não desse muita importância ao assunto.
Ao meu lado, uma garota se apoia sobre o balcão para pegar uma bebida. O garoto pisca sem timidez alguma para ela, que o retribui com um largo sorriso.
— Viu? Sem chance. — Pela primeira vez naquela noite, os seus olhos castanhos escuros repousam em mim. Ele observa com atenção o suéter rosa que eu mesma tricotei e que está por cima de uma camisa social branca qualquer. Observa, também, as minhas duas tranças loiras, levemente bagunçadas.
— Mas imagine que você chegue aos trinta anos sozinho. Sem relacionamento algum. Sem namorada. Sem ninguém. — Tento falar rapidamente, mas sinto a língua se enrolar em minha boca, pateticamente. Definitivamente o álcool. — Não é assustador?
— Especificamente trinta anos?
— Trinta anos.
— Por que a fixação com essa idade? — Um sorriso preguiçoso nasce em seus lábios, como se estivesse se divertindo.
— Porque ninguém quer estar solteiro aos trinta anos de idade. — Respiro profundamente enquanto observo o copo à minha frente. — Aos trinta você começa a preencher a solidão com jardinagem e animais de estimação. E eu gosto de jardinagem. Mas sou alérgica a cachorro, então... Vou morar em uma casa, sozinha. Sem ninguém. Apenas eu e... plantas.
O garoto ao meu lado se engasga com a bebida por um curto e breve segundo, rindo disfarçadamente.
— Assustador é você realmente pensar sobre isso.
— Assustador é você não pensar sobre isso. — Devolvo.
Eu não posso ser a única em um mundo de mais de oito bilhões de pessoas que realmente se preocupa com o quão solitário é a vida de um solteiro aos trinta anos de idade.
— Você viu o caso daquela mulher que passou dois anos morta no apartamento? — Repouso delicadamente o cansado rosto em minha mão, suspirando demoradamente. O hálito de álcool sobe à minha narina, deixando-me extremamente tonta. — E se eu tiver um ataque cardíaco e morrer sozinha no meu apartamento?
— Ataque cardíaco aos trinta?
— Um namorado evitaria isso. — Ignoro-o porque, neste momento, eu estou simplesmente pensando em voz alta.
— Evitaria o ataque cardíaco ou passar dois anos morta no apartamento?
— Os dois, talvez. — Suspiro mais uma vez.
— Você é engraçada. — Vejo-o se espreguiçar sobre a cadeira enquanto um sorriso leve preenche os seus lábios largos. O som da sua risada é agradável. — Certo, vamos fazer um acordo, gatinha.
— Um acordo? — Inclino a minha cabeça para o lado, levemente, ao vê-lo pegar um papel e uma caneta que estavam jogados largamente sobre o velho e sujo balcão de madeira escura.
— Isso. — O garoto rapidamente rabisca algo sobre a folha branca. — Se estivermos solteiros aos trinta, nos casamos.
— O quê? — As palavras escapam de maneira extremamente arrastada. E, sem que eu perceba, estou rindo sozinha. — É a coisa mais absurda que eu já ouvi.
— Disse a garota que está com medo de ter um ataque cardíaco por estar solteira. — Ele, então, empurra a folha em minha direção ao terminar de escrever. — Aqui.
Acordo de Casamento
Partes Envolvidas:
1. James Turner.
2.
Termos do Acordo:
1. Ambas as partes concordam em se casar ao completarem trinta anos de idade;
2. Este acordo é válido apenas se ambas as partes estiverem solteiras ao completarem trinta anos.
— O que você ganha com isso? — Pergunto ao analisar o contrato extremamente sério.
— Uma segunda opção. — James dá de ombros, como se a resposta fosse óbvia o bastante.
— Está me usando como segunda opção? — Olho-o incrédula, sentindo-me extremamente ofendida.
— Você também me usará como segunda opção, gatinha. — Ele se defende. — Assim você pode deixar de pensar em plantas e infartos precoces.
Respiro profundamente, ainda rindo, sozinha. De alguma forma inexplicável, as mínimas coisas tornam-se absurdamente engraçadas quando há mililitros de álcool misturados em seu sangue. O riso torna-se fácil, leve, assim como a tontura ao virar minimamente a cabeça.
O contrato é simplesmente terrível, ilógico, mas, felizmente, não passa de uma estranha brincadeira entre dois jovens levemente bêbados. Então, sem a presença da sanidade e da racionalidade em minha mente, assino aquela amassada folha com pingos de bebida que imediatamente borram a tinta azul da caneta.
Rimos, juntos. E o seu sorriso é estupidamente lindo, charmoso. Estamos realmente nos divertindo com o contrato de mentira. Ou talvez o álcool esteja simplesmente realizando o seu trabalho. Ou ambos.
— Neptune Angelini… — James ergue a sobrancelha ao finalmente ler o meu nome. — Parece que temos um acordo.
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