Procrastinação. Essa era a nova palavra favorita de Killua. Quando recebeu a mensagem de Gon, não pôde evitar o sorriso. Mal se despedira dele, e a saudade já batia. Desejava muito escrever a carta. Só havia um problema.

— O que, raios, eu vou escrever para o Leorio?

Após tanto tempo, finalmente aprendera o nome do mais velho. Mas não tinha a menor ideia de como iniciar a carta. De todos, seu melhor amigo sempre fora Gon. As idades próximas facilitavam a compreensão um do outro e a disposição para as mesmas brincadeiras. No fundo, Killua queria escrever para Gon e apenas para Gon.

— Eu estou perdido... — resmungou, esfregando o rosto. — Olha a furada em que você me meteu. Caramba, cara...

— Maninho? — chamou Alluka, entrando no quarto com uma bandeja de doces. — Como está indo? Conseguiu escrever a carta do tio Leorio?

— Nada ainda. — Ele pegou um bolinho e enfiou na boca. — E já estou enrolando há dias. Ah, se eu não escrever logo, o Gon vai ficar tão chateado...

— Por que não conta sobre os nossos passeios?

— Nós não fizemos nada tão legal assim, Alluka. E depois... — Ele esfregou o pescoço. — O Leorio sempre foi meio chato.

— Eu achei ele legal — disse a menina, provando o mousse de chocolate.

— Você acha todo mundo legal, Alluka.

— Bem, eu vou para a sala assistir Hiato x Hiato. Até mais, maninho! Boa sorte! Manda um beijo para o tio Leorio por mim.

— Até mais, Alluka.

Killua recostou-se na cadeira e pôs os miolos para funcionar. O máximo que conseguiu foi queimá-los todos. Enraivecido, apertou a caneta e a esfregou em seus cabelos até estar repleto de eletricidade.

— Eu não sei! — bradou, batendo a cabeça na escrivaninha. — Que droga, Gon! Por que você sugeriu essa ordem maluca? Por que eu não podia escrever para você, e o Leorio para o Kurapika. Aqueles dois sempre foram próximos mesmo. Ah! — grunhiu, esfregando os cabelos com as mãos. — Quer saber? Vamos fazer isso agora!

Ele puxou de leve o papel que grudara em seu braço eletrizado. Teve de lutar um pouco para controlar o próprio nen — e o nervosismo — antes de rabiscar as primeiras palavras:

E aí, tio?

— Isso não vai dar certo...

Se ao menos já tivesse recebido a carta de Kurapika, seria mais fácil. Ou talvez não. Algo lhe dizia que o Kuruta escreveria qualquer coisa apenas para se livrar da obrigação e não deixar o Freecss chateado.

— Eu preciso de uma ideia...

Levantou-se e foi até a cozinha buscar um copo d’ água. Alluka ria horrores diante da televisão. Movido pela curiosidade, Killua decidiu espiar.

— Do que está rindo?

— Do Lionel! Ele é muito bobo!

Killua encarou o jovem negro. Realmente, Lionel era muito bobo. Assim como...

— Ele é igual ao Leorio!

— Verdade! — Alluka bateu palma. — Eles me fazem rir.

— Obrigado, Alluka. Isso me deu uma ideia!

Ele beijou a bochecha da irmã e disparou como um raio até o quarto. Sentou-se e, mais uma vez, afastou o papel do braço.

— Agora, sim!

Olá, Liolio,

Tudo bem? Hahaha, é brincadeira! Eu sei que seu nome é Leorio Paladik... Paradi... Leorio alguma coisa! Como está a sua faculdade? Espero que não tenha tido muitas reprovações.

Fez uma pausa, contendo o riso. No cômodo ao lado, Alluka gargalhava.

Brincadeira de novo. Sei que ser médico é seu maior sonho e desejo muito que você o realize. Não existe nada mais bonito neste mundo do que alguém que gosta de curar os outros.

Nova pausa. A risada de Alluka era tão gostosa.

Eu e minha irmãzinha temos nos divertido bastante. Estou muito feliz por tê-la tirado daquele calabouço horrível. Ela gostou de você, sabia? Vive falando do “tio Leorio”. Que ciúmes, seu maldito!

Killua meditou por alguns segundos. Achou melhor riscar a última frase.

Hoje de tarde, ela disse uma coisa muito hilária. Estávamos assistindo Hiato x Hiato (conhece esse desenho? É muito bom! Passa no Doggy Channel) e a Alluka mandou esta aqui: o tio Leorio parece o Lionel; os dois são bobos! Hahahaha!

— Francamente, Killua, você parece um louco escrevendo essas risadas. Controla isso aí!

Ele riscou as últimas risadas. Se não tomasse cuidado, a carta ficaria uma zona.

Quando vamos nos ver de novo? Eu gostaria que a Alluka conhecesse todos vocês. Só falta o Kurapika agora. Nós deveríamos nos encontrar. Como no Exame Hunter. Foi... divertido.

Killua hesitou. Não sabia como terminar a carta. Na verdade, ela parecia emotiva demais. O Zoldyck não se lembrava de ter mudado tanto.

Obrigado por ter ido me buscar lá em casa daquela vez. E por ter cuidado do Gon quando... quando aquilo aconteceu. Obrigado por ser meu amigo.

Com carinho,

Killua

Emotivo. Ele deveria rasgar a carta e começar tudo de novo com um provocativo “Fala, velho”. Mas não podia negar que havia sinceridade em suas palavras. Gon era seu melhor amigo no mundo. Mas Leorio e Kurapika eram importantes também.

P.S.: A Alluka mandou um beijo.

— Pronto. Feito!

Ele girou na cadeira, feliz por ter parado de procrastinar. Releu a carta uma vez só para ter certeza de que estava tudo bem. Guardou-a no envelope, preencheu os dados do correio e ficou encarando sua obra-prima.

— Amanhã eu envio — prometeu a si mesmo, indo para a sala assistir Hiato x Hiato com a irmãzinha.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!