Cartas que nunca serão entregues

1 Eu nunca soube o que fazer. E continuo não sabendo


Notas iniciais
Carta escrita para um alguém que ainda vive em mim.

"Não me entenda mal, amigo. Eu só não sei como fazer isso. Na verdade, eu nunca sei de nada. Eu me sinto tão perdida, talvez dê pra ver em meus olhos. Como vou escrever isso? Nunca escrevi sobre mim, do meu ponto de vista, colocando meu nome na personagem. Sempre criei personagens e coloquei em cada um, um pedaço de mim, como um quebra-cabeça. Um daqueles de milhares de peças e do qual, tudo, quase sempre não faz o menor sentido. Aqueles que a gente só tem um relance da figura que formará, que tudo que conseguimos entender é a imagem de capa. Eu me sinto tão confusa! O que você está pensando? Quem tu pensas que é? Chega na minha vida como uma tempestade de verão, borra minha maquiagem, molha meus cabelos e me desestabiliza toda, e então me pergunta coisas das quais eu não tenho respostas. Por que você é tão doce e gentil? Porque enxerga tantas possibilidades em futuro tão imprevisível? O que diabos você vê em mim? Como eu vou poder ser alguém pra você quando eu nem sei que alguém eu sou? É tão difícil ser como todos os outros? Obcecado por esportes e arrogante. Eu só queria conseguir te odiar. E quanto mais minha mente grita que te odeia, mas meu coração aumenta a voz e diz o contrário. O que é que você e os outros veem em mim? Sinceramente, hein? Meu cabelo está sempre bagunçado. Eu quase nunca uso maquiagem. E quando uso, está sempre borrada, não porque eu estive chorando. Na verdade, eu quase nunca choro, e você sabe disso. Eu amo meu corpo, mas reconheço que ele não tem nada atrativo, não se comparado ao das outras. Eu sempre visto a mesma camiseta e o mesmo suéter surrado. E aquela minha saia de corações. E não se esqueça do tênis esfarrapado. Eu sou arrogante e egocêntrica. Meu humor é negro. Eu não gosto de abraços e de contato físico. Eu gosto de música triste, e de fazer tudo sozinha. Eu afasto todo mundo. E construo muros ao meu redor. E de repente você quis atravessá-los, e dizer que gosta de mim. E você me derrubou. Derrubou as minhas proteções. Meus muros, cada tijolo deles. E eu não pude dizer que não era recíproco. Eu não consegui mentir, não dessa vez. E agora eu estou fugindo. Porque eu tenho alma de camaleão. Eu pertenço a todos e a ninguém. Eu amo e odeio. Eu choro e dou risada. Eu estou triste e feliz. Eu tenho o melhor e o pior do mundo em mim. Eu sou o calor mais gelado de todos. O paradoxo mais confuso que você vai conhecer. E eu não acredito que te arrastei pra isso. Pra confusão de coisas que eu sou. Eu tenho olhos opacos e obliquados. Um espírito de escritora com coração de artista. Confusa e deturpada. Eu sou de tudo, e também de nada. Eu sei que eu vou mudar. Sei que um dia, eu vou parar de mudar e vou deixar de ser esse caleidoscópio de coisas e sentimentos. Meu conselho pra você é esperar, ou não. Eu, no entanto, não posso te odiar, nem te amar. Sinceramente, você deveria desistir. De mim. Talvez você ame muito mais a ideia de gostar de mim, do que essa bagunça que eu sou. Mas sei lá, que culpa tenho eu, se você resolveu gostar de um furacão?"

Notas finais
Eu continuo não sabendo o que fazer.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.