Cartas pra Você

3 She's Thunderstorms


Notas iniciais
Olá... voltei aqui de novo antes que eu me esqueça de passar todas as histórias para esse sitekkkk Cartas pra você até agora só tem 2 capítulos prontos (sem conta o prólogo) mas é a história que estou me dedicando no momento. As outras, eu apenas estou repostando aos poucos de outros sites... Acho que é só isso mesmo que eu tinha pra falar kakaka boa leitura!

She's thunderstorms

Lying on her front

Up against the wall

She's thunderstorms

In an unusual place

When you're feeling far away

She does what the night does to the day

Era mais um dia em que o jovem deveria checar seus trocentos e tantos e-mails parados na caixa de entrada. Já tinha dor de cabeça apenas em imaginar o tanto de carta que teria que ler, analisar, corrigir e preparar para ler em seu podcast, o Cartas pra você. Isso tinha sido uma ideia maluca, confessava. Bem maluca, por sinal. Mas foi uma ideia que havia dado certo em um nível que até mesmo lhe dava um certo orgulho.

Kyungsoo recebia bastante carta por mês. Às vezes beirava a cinquenta, mas raramente chegava perto de dez. Sempre tinha uma média de vinte ou vinte cinco cartas na caixa de entrada todos os meses, desde quando havia aberto o formulário no tumblr no primeiro ano do ensino médio. As pessoas simplesmente não paravam de lhe mandar suas histórias.

O que era bem legal, na verdade.

Já havia juntado muitos casais, e obviamente, havia separado muitos deles também. Mas era o sacrifício que se dispunha a fazer, já que o podcast era destinado para qualquer pessoa com interesse de querer ter uma voz ali. Era um espaço democrático de amor e esperanças – pelo menos era essa a sua visão sobre tudo.

Normalmente, o garoto procurava por um lugar agradável para poder fazer o seu trabalho extra. Então sempre pegava o metrô e ia até a cafeteria no centro da cidade depois da aula. Era um espaço bem iluminado e aconchegante, ótimo para escrever e corrigir páginas e mais páginas das diversas cartas paradas no seu email. Por isso, estava lá novamente com seu notebook em mãos e o headphone por cima dos cabelos morenos como de costume.

Claro que haviam muitas cartas ali. Bem mais do que poderia contar, e um pouco menos românticas do que esperava. A verdade era que as cartas pareciam estar mudando de tema, se sujeitando a assuntos mais ligados com os problemas pessoais de seus ouvintes do que declarações de amor, que era o intuito do podcast. Não que ele fosse reclamar — Kyungsoo adorava ler todas as cartas possíveis —, mas gostaria de poder variar um pouco, juntar alguns casais como fazia antigamente, antes do podcast se abrir para os outros tipos de amores que existiam no mundo. Por mais que o seu coração quisesse ajudar todas aquelas pessoas, também tinha vontade de desvendar um romance. Ou talvez fosse ele pessoalmente querendo viver um.

É, poderia ser isso também.

Kyungsoo removeu os fones dos cabelos, observando o ambiente da cafeteria. Haviam vários casais ali. Pouquíssimos que fossem do mesmo gênero, mas ainda assim parecia um lugar com bastante romance no ar. Era para se sentir inspirado por tudo isso, mas ele apenas conseguia sentir um sentimento esquisito. Como se sentisse falta de algo que nunca havia tido antes. Era o que as pessoas chamavam de nostalgia? Melancolia? Não sabia dizer.

De repente uma música começou a se fazer presente no ambiente, chamando a atenção do moreno para a jukebox. Era uma música ruim, coisa pop dos anos 2000 que ele odiava com todas as forças. O atendente que havia colocado com toda a certeza tinha um gosto bem ruim para música.

"Com licença, senhor. Você já pediu?" Kyungsoo pulou na cadeira no mesmo momento.

Um rapaz loiro estava olhando para ele, com uma caderneta na mão como se estivesse esperando pela a sua listagem de pedidos e acompanhamentos. O que era esquisito – Kyungsoo havia parado ali apenas para escrever, editar, e editar novamente durante o dia todo. Mas sabia que não podia ficar ali sem comprar, ou ia acabar sendo chutado pra fora.

"Hum... vocês vendem... água?" Perguntou, piscando mais do que o normal para ele.

É, Do era terrível nisso. Com toda a certeza do mundo o rapazinho estaria lhe julgando por dentro, mesmo que a única coisa que ele fez foi piscar esquisito tal como ele havia feito, e responder:

"S-sim, senhor."

Ele havia gaguejado? Bem, então Kyungsoo estava bem mal na fita. Poderia pedir a sua água e ir embora. Ou, quem sabe, mais tarde, pedir algum biscoito que coubesse no seu bolso. Ou algo do tipo. Ou poderia pegar as suas coisas e ir embora agora, nesse exato momento, já que estava pagando um papelão.

"V-ai..." O rapaz limpou a garganta "Vai ser só isso?" O loiro fez uma pausa. "S-senhor...?"

Kyungsoo não estava entendendo mais nada. Talvez o rapaz só estivesse gripado e não era nada demais, mas a atitude fez com que ele ficasse nervoso.

"Sim, por enquanto é só isso mesmo." O loiro novamente pareceu olhar para ele como uma estátua.

E foi aí que Kyungsoo percebeu.

Reparando bem no rosto dele, foi que percebeu que ele era lindo de morrer. Não, talvez nem isso fazia jus a beleza dele. Do pensou que nunca na sua vida havia visto um cara tão bonito antes. Talvez o Legolas de Senhor dos Anéis poderia chegar perto, mas, ainda assim, esse rapaz parecia ser bem mais bonito do que um elfo bonitão com habilidades questionáveis para a natureza humana (não para elfa, no entanto). Uma pena que não pode ler o nome dele no crachá, já que quando foi abrir a boca novamente, o rapaz saiu de cena correando para o seu posto na cozinha.

Kyungsoo se sentiu frustrado.

Sua mente começou a trabalhar em mil maneiras para ter o loirinho bonitinho de volta, ao mesmo tempo que também começou a pensar se não seria mal interpretado. Quer dizer, devia deixa-lo trabalhar em paz. Sim, deveria mesmo deixa-lo em paz. Mas a sua curiosidade também podia acabar lhe matando.

O moreno suspirou, voltando a sua atenção para os textos da sua caixa de entrada. Não iria conseguir trabalhar se ficasse imaginando coisas sobre o atendente da cafeteria. Teria que se dispor a terminar tudo e começar pelo menos a escolher a música de entrada que iria apresentar o episódio da vez. Claro, que seria mais uma de Arctic Monkeys. Ele só precisava decidir qual.

A coisa era que: Kyungsoo nunca sabia que música colocar. Sentia que já havia explorado a discografia inteira de Arctic Monkeys no podcast, e parecia que qualquer outro artista não combinaria com a vibe do programa. Ou talvez fosse que ele apenas amava muito essa banda e não conseguia imaginar nenhuma outra apresentando o programa.

É, essa parecia mais como a verdadeira verdade de tudo isso.

Ainda estava concentrado na sua discografia particular, quando ouviu sair da jukebox algo que ele não imaginava. Era uma música do Suck it and See, que fez o garoto sorrir. She's Thunderstorms. Uma de suas prediletas. Kyungsoo ergueu os olhos para ver que era o rapaz loiro que estava perto da jukebox. Isso o fez sorrir mais amplo do que qualquer outra coisa. Não poderia ser real. Além de bonito ele também tinha um bom gosto para música? Ah. Estava apaixonado. Já poderia contar as borboletas no estômago e tudo mais.

Do esperou até que ele voltasse para perto da porta que separava o salão da cozinha, para lhe levantar um polegar em aprovação. O garoto parecia assustado com a sua reação, o que fez Kyungsoo rir novamente. Do gesticulou um "Obrigado" com os lábios, tentando ser mais claro com o seu agradecimento. O loiro apenas concordou, sumindo atrás das duas portas da cozinha.

É. Talvez ele não fosse muito fã de conversas.

Kyungsoo procurou pela música que estava tocando no momento, para encaixar com a sua abertura do programa. Aquela sim era uma música perfeita, para um dia perfeito, que daria um programa perfeito. Agora, só faltava escolher a carta perfeita também. E aí, tudo estaria nas mil maravilhas.

O moreno foi procurando entre os textos como se estivesse desbravando os sete mares. Havia muito sentimento contido ali. As pessoas agora já mandavam cartas que falavam sobre solidão, sentimentos de insuficiência e outras coisas um pouco mais difíceis de ler. Acabou que o "Cartas pra Você", havia virado um "Cartas para Mim", em que Kyungsoo estava recebendo mais e mais pessoas que queriam ser ouvidas – ou lidas – por sua pessoa, e não repassar uma mensagem de amor. Não que isso fosse exatamente um problema – não era. O problema seria se essas pessoas começassem a achar que ele tinha a resposta para tudo na vida, quando na realidade ele ainda lidava com a vida do ensino médio/cursinho/ensaios de karaokê, como todo adolescente normal de 19 anos (18, se fosse se ocidentalizar).

Bem, talvez ele devesse começar a falar de uma maneira mais assertiva dessa vez. Deixar claro que o podcast era apenas o seu ombro amigo, e não um psicólogo de verdade. Até porque, Kyungsoo queria cursar Jornalismo e não sabia absolutamente nada sobre as questões da mente humana (além do mínimo de drama que o seu amigo Luhan fazia quando estava apaixonado). Resolveu que iria escolher uma carta com a qual ele pudesse realmente conversar dessa vez.

Desceu o cursor, procurando pelos títulos no campo assunto que se resumiam em: "Me divulga aê!", "Por favor, leia esse aqui!", ou até mesmo "Do Kyungsoo eu sei quem você é!", mandado por Chanyeol. Sério mesmo, seu melhor amigo era uma coisa...

Kyungsoo tentou procurar como quem caçava ouro, até que se deparou com a carta de uma menina. O assunto era "Cansada de performar". Parecia ser adolescente também, escrevendo um desabafo para a mãe deixar de pegar no pé dela e simplesmente ser quem ela era. Kyungsoo não podia dizer muito, porque não conhecia a vida das garotas coreanas, mas percebia que a mãe estava cobrando a garota de coisas que não deveria se cobrar alguém. Isso deveria acontecer muito quando se era uma garota, a vida era bem mais complicada, ele sabia.

Não pode deixar de anotar algumas palavras para dizer enquanto lia. Nada muito desconfortável, apenas sugestões para que houvesse alguma conversa entre as duas, coisas assim. Esperava que fosse dar certo, porque ele não tinha muito como resolver dessa vez.

Do já estava quase acabando com as anotações, quando o rapaz loiro voltou novamente com o seu pedido. O moreno sorriu enquanto o atendente carregava a bandeja com um copo de água gelada. Era ridículo. Mas era o que Kyungsoo havia pedido, e agora teria que aceitar.

Dessa vez a sua mente ligeira conseguiu ler o nome que estava escrito no crachá, logo em cima do bolso da camisa listrada de vermelho e branco. Lia-se "Byun Baekhyun", com um pequeno foguete desenhado com o que parecia uma caneta preta. Curioso. Não era um desenho tão típico de se desenhar em roupas de trabalho, então o moreno achou peculiar.

"Eu percebi que você tem um bom gosto." Kyungsoo não se controlou, e acabou tagarelando.

A ideia era agradecer, sorrir, e deixar que ele fizesse o seu trabalho. Mas como ele havia acabado de salvar a sua pele com a jukebox, não pode deixar de comentar sobre a música. Era mais forte do que ele.

"Desculpe?" Baekhyun parecia confuso.

O que era totalmente compreensível, já que Do estava agindo feito um maluco ali.

"Você tem um bom gosto. Arctic Monkeys..." Ele apontou para a jukebox, como se explicasse tudo o que deveria ser explicado.

Mas não parecia ter explicado, então Do completou:

"É... uh... é demais."

O rapaz ficou lhe encarando. Era um pouco esquisito, mas já estava meio que acostumado com aquilo. As pessoas costumavam encará-lo dessa forma.

"Ok." Ele respondeu.

Kyungsoo achou engraçado.

"Ok?"

"Ok."

"Ok." O moreno sorriu de novo. "Isso está ficando esquisito. Parece aquele filme de adolescentes, em que todos eles têm alguma doença... alguma coisa das estrelas."

Isso fez o outro rapaz sorrir pequeno.

"É um livro. A culpa é das estrelas de John Green."

"Você gosta?"

"Eu-"

"Baekhyun!" Uma voz gritou no fundo com raiva.

O rapaz provavelmente ficaria encrencado se não fosse até o chamado do seu suposto chefe.

"Licença." Ele disse, fazendo uma reverência.

Droga!

Kyungsoo não queria que ele fosse, mas pode apenas concordar em resposta, com um sorriso amigável. Ou ele pelo menos achava que era amigável. Poderia estar dando o seu sorriso reto – como Chanyeol sempre lhe incomodava – o famoso "forma de T maiúsculo". Não era muito o seu preferido, mas as vezes ele aparecia. E meio que podia sentir a sua bochecha naturalmente forçar a boca em uma linha reta.

Ok. Já deu.

O que ele poderia fazer para que continuasse falando com o atendente bonitinho – que agora tinha todo o seu coração – sem que tivesse que gastar muito dinheiro, já que ele... bem, não tinha dinheiro nenhum? Poderia chama-lo para sair depois do expediente? Não. Ele não iria aceitar. Quer dizer, haviam acabado de se conhecer (se é mesmo que poderia usar a palavra "conhecer"), então era meio óbvio que Byun Baekhyun não iria aceitar. Será que poderia falar sobre o seu podcast? Será que iria ser muito cafona? Ridículo? Meu Deus... se apenas Do Kyungsoo pudesse lhe ajudar...

Háhá. A ironia.

As pessoas achavam que ele era bom em resolver problemas, mas Kyungsoo na verdade não sabia de nada sobre isso. Era sim sensível o suficiente para ser empático com as pessoas. Gostava de ajudar — era uma característica sua. Gostava de ouvir os outros também, e, principalmente, gostava de quando a sua ajuda dava certo. Mas quando o assunto era si mesmo? Desespero. Total.

Do suspirou, olhando para a tela cheia de barras e botões de edição.

Talvez ele devesse apenas pedir alguma coisa e terminar logo o começo do episódio. Se não começasse a gravar, não daria tempo para lançar o programa no mesmo horário de sempre, que seria daqui exatamente duas horas. Então era melhor que ele partisse e voltasse para o conforto do seu quarto, onde ele não era um completo desastre ambulante em relacionamentos.

Kyungsoo começou juntar seus pertences, quando um outro garçom apareceu com algum prato para fazer entrega. O moreno o observou pensando se deveria fazer o que o seu coração estava mandando. Ou se a racionalidade manteria a sua dignidade intacta e ele poderia passar por essa sem passar vergonha. Mas Do Kyungsoo resolveu fazer algo que Do Kyungsoo lhe aconselharia:

"Hey, garçom, espera aí rapidinho..." chamou, já se arrependendo quando o rapaz alto e ruivo deu meia volta e caminhou na sua direção.

E agora? O que ele poderia dizer? O rapaz com certeza pensaria que ele estava atrás de algum pedido. Mas, na realidade, seu pedido era outro muito mais peculiar...

"Sim, senhor?" O garçom perguntou, esperando pelo o que ele tinha a dizer.

Do parou por alguns segundos, sentindo o coração e a dignidade sair para fora da própria boca:

"Não quero te atrapalhar... mas você sabe se o rapaz loirinho ainda vai voltar aqui?"

Isso. Não doeu. Bem, talvez tenha doído um pouquinho. O garçom ergueu as sobrancelhas como se não pudesse acreditar que isso estava acontecendo. No mesmo momento Kyungsoo quis se esconder na última camada da Terra.

"Não tenho como te dar essa informação, Senhor." respondeu seco.

Kyungsoo sentiu sua face na hora esquentar na mesma hora.

"Oh, certo. Eu... me perdoe." O garçom saiu, sem nem ao menos dizer mais alguma coisa.

Era possível que ele fosse pagar mais micos do que já estava pagando? O que seus ouvintes pensariam de si, se soubessem que Do Kyungsoo nada mais era do que um desastre no amor? Ai, o que havia feito para merecer isso.

Kyungsoo suspirou, voltando a se sentir desiludido com a situação. Talvez realmente tivesse sido melhor deixar pra lá, as vezes as coisas simplesmente não são para ser. Quer dizer, ele era mesmo uma pessoa persistente que sempre tentava seguir os seus sonhos — mesmo que o sonho consistia em conhecer melhor o garçom da cafeteria. Mas alguma hora ele deveria saber que os sonhos nem sempre se realizam, e... Ah, espera aí. Ele estava mesmo voltando para o salão?

Kyungsoo sentiu o coração dar um solavanco. Mal podia acreditar que ele estava ali, voltando, mesmo que fosse completamente racional, já que era o garçom do lugar. Bem, racionalidades a parte, seu coração sentia que deveria ficar por ali mais um pouquinho. Por isso colocou novamente todos os pertences na mesa, sentando-se reto como se estivesse na escola novamente.

O garoto estava levando alguma coisa na bandeja com toda a calma do mundo. Sorriu quando deixou sob a mesa do cliente, com o mesmo sorriso brilhante que havia exibido para ele mais cedo. Kyungsoo respirou, tentando pensar em como abordá-lo de uma forma racional e composta. Quer dizer, ele não podia simplesmente gritar ele pela cafeteria e achar que o garoto iria corresponder a sua... peculiaridade.

Por isso, ele esperou.

Quando o garoto estava voltando, quase chegando perto do corredor onde faziam o trânsito dos garçons, ele resolveu agir, chamando por ele como uma pessoa normal e educada:

"Hey! Você aí..." Disse, como um grito.

Bem, pelo menos ele imaginou que conseguiria ser uma pessoa normal, mas pelo jeito o seu coração não estava conversando muito bem com o seu cérebro. Porque, se fosse honesto, seu cérebro já havia mesmo virado geleia. O rapaz se assustou, claro. Até porque, quem não se assustaria com uma voz grossa como a dele gritando ele por aí? Kyungsoo só podia mesmo ser muito maluco para achar que aquilo iria dar certo.

"Sim?" O loiro perguntou em reflexo, com os olhos arregalados.

"Você tem um bom gosto." Ele indicou a jukebox, que ainda tocava uma playlist de Arctic Monkeys muito boa.

O garoto sorriu timidamente, olhando para baixo. Era adorável como ele torcia os pés, e a maneira que o sorriso retangular ficava ligeiramente caído. Ah, ele era mesmo muito bonitinho.

"Obrigado." Ele disse, num murmúrio.

Kyungsoo sorriu. Será que ele daria conversa pra ele?

"Então..." Ele começou, mesmo que não tinha ideia do que falar.

Mas obviamente, disse a primeira coisa que veio na cabeça:

"Me indique um café!" Ele soltou, soando meio como uma ordem.

Tentou reformular, pigarreando antes de dizer:

"Hum... é, quer dizer... você poderia me indicar um café?"

O garoto parecia confuso pela maneira que ele estava agindo. Pudera, Kyungsoo também não sabia o que estava fazendo.

"Café?" Perguntou, tentando se situar na conversa.

"Sim! O melhor daqui!" Do continuou gritando com entusiasmo sem fazer ideia do porquê.

"Oh... eu... não faço idéia. Não tomo café." Baekhyun de repente ficou vermelho.

Talvez ele fosse novo ali? Ah... não havia dado certo a sua quase-cantada.

"Você não é o garçom? Como isso é possível?" Kyungsoo disse, provocativo.

O rapaz loiro riu para ele. Riu como se fosse um coral de anjos, deus, como a risada dele era incrivelmente linda. Kyungsoo ficou cego. Ou melhor, surdo. Ou talvez fosse apenas seu coração já se emocionando com pouca coisa assim.

"Sou um péssimo funcionário." Ele disse, com um sorriso tímido.

Ah, ele estava brincando com ele também?

"Não diga isso pra você mesmo. Deixe que o seu chefe faça isso. De tudo, você tem que pensar que é o melhor garçom de toda a história dos garçons." Agora o seu modo podcaster havia ativado.

Era claro que ele estava brincando, mas o moreno não queria que ele se sentisse assim. Queria que ele soubesse que era tudo bem não gostar de café ou decorar todas as quarenta e cinco bebidas daquele estabelecimento. Quer dizer, nem ao menos dono deveria saber de todas elas. Quem é que tem tanta memória assim?

Ele estava sorrindo acanhado para o seu comentário. Kyungsoo sentiu que poderia muito bem começar a fazer perguntas sem parecer extremamente inconveniente — pelo menos ele esperava. Mordeu o lábio inferior antes de tomar coragem de lhe perguntar de uma vez:

"Qual o seu nome?" Disse, olhando para ele.

Mesmo que já soubesse o seu nome, queria ouvir o rapaz se apresentar para si, como uma conversa normal. Se é poderia chamar aquilo de conversa — e de suas atitudes — como normais.

"M-meu... o que?" O loiro perguntou, confuso.

"Qual o seu nome, Baekhyun?" Ele franziu a sobrancelha.

"Baek... hyun...?" Kyungsoo riu de leve pela sua confusão.

"É muito chato que eu não pude fazer a troca digna e cordial de informações, já que você tem um crachá. Mas ver a sua cara de confusão foi bem divertido." Baekhyun sorriu largo dessa vez.

Ai, será que havia enfim conseguido conquistar ele um pouquinho? Por Deus... só um sorriso desse já deixou o moreno bem feliz. O sorriso dele era tão lindo, mas tão lindo, que chegava a ser uma injustiça para todos os outros sorrisos. Kyungsoo daria para ele o primeiro lugar na competição dos sorrisos.

"Crachás são ridículos. Não é como se todo mundo ligasse pra quem eu sou." Ele disse, mexendo o pequeno broche quando encarou o crachá na própria blusa.

Kyungsoo sorriu em reflexo, dando de ombros como se guardasse uma informação óbvia:

"Ainda bem que eu não sou todo mundo, né?" Byun ficou surpreso.

Uma voz de repente se fez presente, gritando no fundo da cozinha:

"Baekhyun! Pedido para a mesa 4 saindo!" O rapaz olhou para trás, e voltou novamente a lhe encarar.

"Moço, talvez... queira pedir antes de eu ir?" Ele parecia ligeiramente desconfortável por terem chamado a sua atenção,

Kyungsoo sentiu-se mal. Estava fazendo brincadeira enquanto o garoto só queria trabalhar. Não era o melhor lugar para ficar incomodando ele com coisas idiotas e acabar prejudicando a imagem dele no trabalho.

Baekhyun de repente parecia um pouco esquisito. Olhou para ele ansioso, como se não quisesse estar ali. Ah, Doh havia mesmo errado em ficar cheio de brincadeiras pra cima dele.

"Hm... você... precisa pedir alguma coisa ou vão te mandar embora." Ele disse, fazendo o moreno ficar envergonhado.

Então era isso? Estava com vergonha de manda-lo embora dali? Um sorriso brotou novamente nos lábios de Kyungsoo. Nem tudo estava perdido então.

O podcaster pigarreou, fazendo questão de fazer um pedido para tranquiliza-lo:

"Quero uma torrada então." Disse, assistindo ele anotar no caderninho com rapidez.

"Anotado." Ele disse, com um sorriso tímido.

Kyungsoo ficou olhando para ele querendo realmente fazer uma última coisa que o seu coração estava mandando. Já estava interessado nele, e sabia que a probabilidade do garçom lhe corresponder agora era mais alta. Por isso abriu um sorriso amigável, quando disse:

"Do Kyungsoo."

Baekhyun ficou confuso, franzindo a testa de uma maneira bonitinha.

"O que?" Perguntou, olhando pra ele.

O podcaster sorriu largo, apontando o dedo indicador para si mesmo.

"É o meu nome. É Do Kyungsoo."

Baekhyun definitivamente, em um milhão de anos, nunca imaginou que teria a possibilidade de conhecer Do Kyungsoo nessa vida. Talvez em sonho? Sim, isso parecia ser racional. Ou em algum tipo de evento que ele estivesse presente, como um influencer famoso de muitos seguidores. Mas na sua cafeteria? Enquanto estava casualmente "em mais um dia de Sol" e labor? Nunca. Nunquinha.

A verdade era que: sim, ele tinha um crush (bem irracional) em Do Kyungsoo. Então ter ele ali, na sua frente, em carne e osso, fazendo brincadeiras com aquela voz grossa como se fossem amigos de longa data? Fez a pequena cabecinha oxigenada de Baekhyun explodir. Seu coração não tinha mais espaço ou velocidade para bater dentro do peito. Era completamente inútil.

Então enquanto ele estava parado ali, com o dedo apontado para si mesmo como se fosse a coisa mais óbvia que poderia fazer naquela situação, apresentando-se para ele, o loiro não soube o que dizer. Até porque, em primeiro lugar, ele era bem bonito. Não imaginava que ele fosse tão bonito assim pessoalmente, mas era a realidade: os óculos redondos, o sorriso vermelho em formato de coração e o olhar que parecia penetrar a sua alma — era todo o conjunto que fazia o moreno parecer uma pessoa interessante.

Ele vestia um moletom com uma frase engraçada, escrito "O gato de Schrödinger está vivo", com "vivo" riscado, significando que ele estava, na realidade, morto e vivo. O que o garçom achou genial demais para dizer em voz alta. Seria embaraçoso se mostrar empolgado com uma camiseta, então ele guardou para ele mesmo. Do mesmo jeito que queria guardar aqueles poucos segundos que faltavam com ele ali, antes que Baekhyun se colocasse para correr pra longe.

"Hm... prazer em conhecê-lo, Do Kyungsoo." Byun disse, sem demonstrar que de fato já o conhecia.

"O prazer é todo meu, Baekhyun." Ele disse, com o sorriso característico.

O loiro suspirou por dentro. O que iria fazer agora? Deveria ir até a cozinha ou Lee Jinki iria fazer um churrasquinho de sua pele. Mas havia algo dentro do seu corpo que simplesmente não queria sair assim. Ele queria no mínimo causar uma boa expressão para que, talvez, só talvez, ele pudesse voltar na cafeteria novamente.

"Eu..." ele começou, mas percebeu logo depois que o rapaz estava arrumando as coisas.

Ah, ele iria embora então. Um ponto perdido para o seu lado.

"Devo ir, Baekhyun, mas um dia volto com mais tempo." ele fez uma pausa "Seria muito rude perguntar qual o seu turno? Juro que não sou um stalker assustador como Joe Goldberg."

Baekhyun sorriu largo. Ele tinha um senso de humor que o loiro não estava esperando, nem um pouco. Sarcasmo não era uma coisa que esperaria de alguém como Do Kyungsoo. Mas no entanto, talvez não dê para conhecer as pessoas apenas pela sua persona de trabalho.

"Tudo bem, Do Kyungsoo. Será muito bem vindo." Kyungsoo sorriu, colocando os fones grandes no alto da cabeça.

"Então até a próxima, eu acho..."

O loiro concordou com um aceno, antes de virar as costas para ele. Afinal, era um cliente e eles não eram amigos de verdade. Seria muito esquisito ficar ali e mostrá-lo a saída. Não estava na sua casa. Porém, meio que sentia que estivessem.

Baekhyun sorriu com carinho, pensando nisso. Era bem claro que Do Kyungsoo era uma pessoa extremamente confortável. Fosse porque suas palavras eram sempre as que muitas pessoas gostavam de ouvir ou fosse porque ele faria de tudo para deixar o ambiente leve. Não sabia porque estava tão surpreso, se era uma coisa tão óbvia para quem ouvia o "Cartas pra Você".

O loiro passou o resto do turno com um sentimento bom dentro de si. Trabalhou como de costume, até quase as 18h da tarde, e logo quando estava prestes a acabar, seu chefe fez questão de lhe chamar de lado.

Zhang Yixing era um bom chefe, daquele tipo que você até desconfia. Ele era o mais de velho de... Baekhyun não fazia ideia de quantos irmãos. A questão era que: administrar pra ele era tão fácil quanto respirar. Então era óbvio que nunca teve um problema sequer com o chefe. Salários eram pagos no dia certo, tudo na cafeteria nunca atrasada (ou pelo menos, não por culpa dele), o sistema de contagem de horas era perfeito, e o lucro da cafeteria parecia fluir naturalmente. Até mesmo parecia coisa de outro mundo.

"Baek... preciso dar uma palavrinha com você." ele disse, aproximando-se como se fosse um modelo desfilando na passarela.

Por que sim, além de ser extremamente eficiente, Zhang Yixing era bem bonito. Do tipo que você só vê em televisão ou coisas assim. Então era bem injusto que ele tivesse simplesmente todas as qualidades do mundo, e — pasme ou não — um par de covinhas lindas na cara!

"Sim, chefe!" Zhang sorriu, dando vida as covinhas mais lindas que Byun já teve a sorte de ver.

"Não precisa de tanta formalidade." disse, amigavelmente ­"Você sabe que teremos um festival aqui em breve, certo?" Baekhyun concordou positivamente.

Os festivais eram comuns na cafeteria. Ultimamente, muitas bandas indies estavam estourando independente, e Zhang, como um ex-guitarrista ele mesmo, amava poder manter o contato com a sua juventude musical cedendo esse espaço na sua cafeteria. O que significava que Kim Minseok — seu melhor amigo e vocalista da Seoul Revival — teria mais uma chance para mostrar suas músicas novas (e talvez ganhar um dinheiro com isso).

"Você quer que eu faça os flyers e distribua?" Zhang negou com um aceno.

"Não dessa vez." ele pigarreou, como se fosse muito difícil pedir um favor "Eu quero Kim Minseok e sua banda aqui, como atração principal no próximo mês. Acha que consegue fazer isso?"

Baekhyun ficou em silêncio.

Minseok não era uma pessoa tão amigável assim, ele tocava para um público mais alternativo. Adolescentes doidos por café não fazia muito o seu estilo, e uma apresentação dessas... podia arruinar a imagem da banda. Sabia que entre os rockeiros existia isso: frescuras e mais frescuras. Mas o que poderia dizer ao seu chefe? Que não iria ao menos tentar? Era Zhang Yixing! Ele merecia uma tentativa.

"Eu posso tentar convencê-lo sim." Zhang abriu o maior sorriso que as suas covinhas poderiam aguentar.

"Mesmo? Caramba, Baek! Muito obrigado! Será perfeito com ele aqui, a Seoul Revival é a melhor!"

"Mas... sabe que não pode chamar a Five Odd Bears, né? Quer dizer... Minseok não se dá bem com o baixista deles."

"Kim Jongin? Mesmo?" Baekhyun concordou meio sem jeito.

A Five Odd Bears era a banda favorita do seu chefe. Compunha com três membros apenas, e cantavam um indie folk bem gostoso na opinião de Baekhyun. Porém, nunca poderia mencionar isso na frente se Minseok. Seu amigo odiava tanto Kim Jongin que poderia mata-lo por telepatia. Términos de namoros, quando acabados mal, viravam uma guerra, era assim que Baekhyun pensava.

"Bem... então, aí... fica complicado." Byun deu de ombros.

"Será uma escolha, chefe. Se eu fosse você apenas escolhia um lado para não ter intrigas." Yixing concordou.

"Chame pelo seu amigo. Talvez uma outra vez podemos ligar para Jongin e marcar um concerto."

"Ok, chefe." Zhang sorriu novamente.

"Obrigado, Baek. Pode ir agora. Vejo você amanhã." o moreno lhe deu um tapinha no ombro como se ele fosse uma criança.

Baekhyun ficou parado e estático. Era bem peculiar a maneira que o Sr. Zhang tratava as pessoas, mas achava que nunca iria se acostumar. O loiro, então, andou até o ponto de ônibus habitual com uma sensação nova no peito.

Olhou para o próprio celular, percebendo que já era hora do ônibus passar, ao mesmo tempo em que percebeu uma notificação na tela: o programa do "Cartas pra Você" tinha acabado de sair. Foi quando Baekhyun sorriu mais largo, buscando seus fones de ouvido como um louco. Assim que colocou o fone nas orelhas e apertou o play no Spotify, seu coração falhou uma batida.

Pois era a sua música que estava tocando na abertura do programa.