Cartas pra Você.
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Ai senhor. Tem um bicho passando na minha perna. Deve ser um rato peludo, sujo e mutante, por que essa coisa é grande demais pra ser um rato comum.
Kiki, juro que qualquer dia eu te taco na parede, cachorra! Ta louca?
Não, pelo jeito quem está louca aqui sou eu. São 6:00 da madruga e daqui 30 minutos o ônibus vai passar na minha rua. Fudeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeu geraaaaaaaaaaaaaaaal.
Comi, bebi, escovei os dentes, dei uma ajeitada no cabelo, to no ponto. Bem a tempo, o ônibus ta passando.
Subi no ônibus e esse motorista FDP (Fandangos De Presunto) acelerou antes que eu pudesse me sentar. Resultado = Meti a boca no chão e quase virei a mão na cara de um menino ali perto. Quem não adora pagar mico de manhã?
Cindra: E qual é o gosto do chão?
Eu: Gosto de sola de sapato e água de chuva. Gostinho de delicia.
Me sentei correndo ao lado dela. Tomara que ninguém tenha visto isso alem dela e o menino que quase foi estapeado por mim.
Meus dedos estão congelados. Esta muito frio e essa blusa do colégio não esquenta porra nenhuma. Cindra (tentava) ficar desenhando rostinhos no vidro embaçado, mas os movimentos do ônibus não a deixavam. Ela desenhou um rostinho sorridente no vidro, com um sorriso que pareciam duas salsichas amassadas por uma manada de elefantes.
Cindra: Olha Cady, igualzinho você.
Eu: Vai se fuder Ci.
Eu olhava pro chão do ônibus pensando na origem do universo quando de repente um par de all stars preto passou diante dos meus olhos. Ergui a cabeça e lá estava o menino com piercings e maquiagens. Cara, me ensina a ser linda?
Uma mão gelada encostou na minha bochecha e eu sai de transe. Cindra, sua fandangas de presunto.
Cindra: Para de secar o menino, pelo amor de Deus? Ta me dando agonia.
Eu: O que eu posso fazer se ele é gato?
Ela pegou um pirulito de dentro da bolsa e colocou na minha boca, provavelmente, pra calá-la. Não vou reclamar, é 7 belo.
Na minha escola, é “termina e expressamente proibido chupar balas ou pirulitos em sala de aula”. Foda-se, só se é jovem uma vez, eu tenho mais é que quebrar as regras mesmo.
----------------------------------------------------//----------------------------------------------------
Estava havendo uma guerra de bolinhas de papel no fundão da sala. Uma acertou minha cabeça e eu a joguei no lixo. Juro que se eu descobrisse quem foi que me acertou, afundaria a cabeça dessa pessoa na privada com a descarga ativada.
Alguem rabiscou um belo dum “vá se fuder” na lousa, com letras daqueles pichadores de rua. Que coisa linda. Meus olhos chegam a estourar só de olhar pra isso.
A professora entrou. Acho que alguém esta ferradooo... (8)
Neusa: Olá pessoal, sou a professora Neusa e serei a professora de artes de voc... Ora, ora ora, o que temos aqui? Quem foi que fez isso?
Uma bolinha de papel voou na cara da professora. Ela abriu e o leu em voz alta.
Neusa: “Sai daí, sua vagabunda miseravel.” Eu darei 10 segundos pra que a pessoa que fez isso assuma. 10... 9... 8...
Oh oh. Olhei pra trás pra ver se alguém assumiria a responsabilidade. Aposto que nenhum desses insetos vai se levantar. Ótimo, estamos fudidos. Bufei e coloquei a mão em cima da cabeça com tanto desespero.
Neusa: 3... 2... 1... Ninguem? Ótimo. Arranquem uma folha do caderno de vocês e escrevam uma redação com 1000 palavras sobre o por que vocês devem sempre respeitar os professores. Há, detalhe: Se vocês errarem qualquer palavra, deverão escrever tudo de novo em outra folha. Podem começar.
Professora, você não sabe disfarçar. Todo mundo já percebeu que você é o capeta.
Arranquei outra folha preciosa do meu caderno e comecei a escrever. Até que foi rápido. Olha só:
“Eu sei que devemos sempre respeitar os professores, principalmente a Neusa, porque ela é muito muito muito muito muito muito muito muito muito muito muito muito muito (...) Brava. Com amor, Cady.”
Perfeito. Achei que fosse demorar mais.
Entreguei minha redação a professora e ela me olhou com aquela cara de assasina mortífera. Acho que é assim que o demônio demonstra felicidade, então sorri de volta pra ela.
----------------------------------------------------//----------------------------------------------------
Ultima aula. Hora de suar que nem macaco na sauna.
A professora nos reuniu no centro do ginásio e nos disse que pra algumas aulas, nós precisaríamos de pares. Então ela começou a nos separar em casais.
Ela disse que eu deveria ficar com o tal do Andrew Biersack, o mesmo menino o qual eu peguei a carta.
O garoto gatinho do ônibus esta vindo na minha direção. Ai Deus.
- Oi, você é a Cady?
Eu: S – sou eu mesma. Como sabe?
Andrew: Você é meu par da aula de dança. Oi, meu nome é Andrew.
Ok. Ele é o garoto da carta. Coincidência essa, né?
Eu: Nossa, que coincidência! Eu peguei a sua carta na aula da Sônia!
Andrew: Eu também peguei a sua.
Eu: Você parece desanimado... – Falei pra parecer preocupada. Pessoas normalmente gostam disso.
Andrew: É sono. E fome. E cansaço.
Eu meio que tenho problemas de socialização, então não sabia o que dizer. Merda.
A professora nos passou alguns passos de jazz novamente, mas dessa vez em duplas, claro.
Dizem que tudo que é bom, dura pouco ou passa rápido. Essa aula passou em praticamente um segundo.
----------------------------------------------------//----------------------------------------------------
Em casa, almocei e já fui ligando o computador. Enquanto isso, separava minhas roupas pra ir tomar banho.
Assim que sai do chuveiro, a campainha de casa tocou. Fui ver quem era.
Cindra: Cady, vamos sair. Agora.
Eu: Como assim, sair? Pra onde?
Cindra: Eu estava passeando e achei um lugar que faz muito tempo que a gente não vai! Rápido, vamos logo!
Desliguei meu computador e fui correndo pro portão. Ela me guiou até um lugar que me deixou totalmente nostálgica.
Era uma clareira no meio do mato que costumávamos ir quando éramos pequenas. A única diversão daquele lugar era um balanço feito com um pedaço de madeira e uma corda amarrada num tronco de uma árvore. Claro que agora a corda já estava bem velha e desgastada, mas ainda agüentava nosso peso.
Cindra e eu passamos a tarde ali conversando sobre tantas histórias e situações que passamos naquela clareira. E eu lembrava de cada detalhe: A velha reclamona da casa 127, o sorveteiro caolho e até o garoto de preto que ficava abandonado numa pedra perto do balanço.
Sei lá por que, mas... Esse garoto meio que me remete a imagem de Andrew.
Fale com o autor