Cartas pra Você

5 Dance Little Liar


I heard the truth was built to bend

A mechanism to suspend the guilt

Is what you are requiring still

You've got to dance little liar



Eram 11h45 da manhã e o almoço de Kyungsoo já estava frio como o gelo do Alasca. Mas nada no mundo o faria os seus gritos internos se calarem depois da carta que havia acabado de ler. Sua boca estava aberta em choque e seus amigos pareciam gritar de tanta preocupação do piripaque que ele tinha acabado de ter. Mas Kyungsoo não poderia ao menos dizer qualquer coisa, pois havia um detalhe muito peculiar sobre tudo aquilo: isso nunca havia acontecido com ele antes. Nunca, nunquinha. Na história do Cartas pra Você, nunca haviam mandado uma carta de amor para ele. Na verdade, na história da sua vida também.

Aquilo era uma novidade em todos os Universos de Do Kyungsoo.

"Deixa eu ver se entendi…" Chanyeol começou, olhando bem para o celular do podcaster sentado do seu lado "Ele está apaixonado por você? É isso? Mas não quer que você poste a carta…" Ele fez uma pausa "Bem, um pouco de sensatez, né?"

Kyungsoo não diria que era sensatez, mas talvez um pouco de vergonha. Quer dizer, quem é que queria ter esse tipo de atenção? Não era como se ele fosse ler uma carta dele mesmo ao vivo no programa. Isso faria dele um hipócrita? Kyungsoo achava que não. Porque o programa era dele, e ele era quem julgaria sobre a sua própria hipocrisia. Bem, talvez isso fizesse dele um pouco hipócrita sim.

“Kyungsoo… acho que é melhor você tomar alguma coisa. Você está branco, cara.”

O moreno olhou para Luhan, seu melhor amigo, que agora lhe encarava com muita preocupação em seus olhos. Do estava afetado com tudo aquilo, mas o que poderia fazer? Ignorar que agora tinha alguém no mundo que… gostava dele? Ah, até mesmo pensar sobre isso era esquisito.

"Eu não estou conseguindo entender!" Ele disse, frustrado.

Chanyeol sorriu largo, tomando o celular da sua mão como se tivesse a permissão! Kyungsoo ficou chocado. Seu amigo era mesmo um enxerido de marca maior.

“De repente, tudo me faz lembrar a você, Kyungsoo. Será que o meu coração está ficando tolo?’ Ah... sim, meu caro. Você só pode estar ficando completamente maluco!”

Kyungsoo socou o ombro do garoto abusado do seu lado.

“Não fale assim do meu…" Doh fez uma pausa. "Hã… ouvinte.”

Park gargalhou tão alto que boa parte do refeitório da escola deveria ter escutado. Isso, também havia sido um erro que Kyungsoo já estava se arrependendo: abrir o e-mail no meio do refeitório onde poderia chamar a atenção de diversas outras pessoas. Era um tiro no próprio pé. Sempre fazia isso enquanto almoçava porque não era muito legal passar o intervalo com Luhan e Chanyeol brigando o tempo todo. Mas não esperava que apenas um e-mail iria fazer com que a sua vida virasse de cabeça para baixo!

“Cara, você só pode estar brincando comigo. Você também se apaixonou por ele por causa de uma carta? É sério isso?” Park Chanyeol disse, em tom de deboche.

“Não seja ridículo, Chanyeol!” Luhan o cortou. “Kyungsoo só está emocionado. Na verdade, você precisa parar com isso Kyungsoo! Qualquer cara que sorri pra você, você já fica assim todo bobo!”

Do Kyungsoo se encolheu no banco, um pouco envergonhado pelo seu melhor amigo ter jogado tantas verdades assim na sua cara.

Porque aquilo era verdade. Não saberia contar quantas vezes já havia se apaixonado no último mês, era completamente fora de controle. Mas o que poderia fazer se achava as pessoas tão interessantes assim?

“Isso é porque ele tem Vênus em Peixes.” Chanyeol afirmou como se fosse uma verdade absoluta.

Luhan dessa vez riu de Park Chanyeol, entrando em acordo pela primeira vez desde que pisaram no refeitório. Kyungsoo cruzou os braços, não achando nada engraçado. Seus dois amigos bobocas só se uniam quando o assunto era falar sobre ele. Aqueles dois eram quase como um clã de fadas madrinhas do mal.

“Vocês não estão me ajudando." Ele protestou.

Luhan respirou fundo, recobrando a própria sanidade. Ele fazia muito isso quando estava bancando a voz da razão entre os dois ali, coisa que Kyungsoo julgava como uma chatice. Luhan era racional até demais para o seu eu sonhador.

"Você deve responder o e-mail. Esse é o primeiro passo. O segundo passo é…"

"O segundo passo é abrir um projeto pra isso aqui." Chanyeol lhe interrompeu, roubando a atenção dos outros dois amigos.

Ele parecia extremamente empolgado como se já tivesse programado toda uma ideia sobre a situação. O que na opinião de Kyungsoo era uma loucura.

Tudo aquilo era uma loucura imensa. Que tipo de projeto poderia se resultar de uma situação como aquela?

"Projeto para o quê, Chanyeol?" Luhan questionou, curioso.

Park se levantou, usando as mãos para exemplificar, como fazia sempre que estava apresentando um seminário da aula de história e ciências sociais.

"O Projeto 'Cartas para Mim." Ele disse, gesticulando bem na frente de Kyungsoo "Serão diversas inscrições de pessoas que irão mandar Cartas pra você por quase um mês."

"Isso é exatamente o que eu faço, Chanyeol." Kyungsoo disse, achando graça.

Park dispensou o argumento do moreno com um aceno.

"Não, me escuta… fazemos um teste com ele. Ele vai ver que várias pessoas vão tentar dar em cima de você, e aí ele vai se revelar por se sentir intimidado."

Kyungsoo torceu os lábios, duvidando muito que aquilo poderia acontecer.

"Não seja bobo." Disse ele, enquanto pensava sobre o que Chanyeol estava falando.

Fazia sentido em algum nível?

"Pense bem! Poderia ajudar!"

"Não, não poderia." Luhan se virou, encarando o podcaster "Tá maluco Kyungsoo? Se o cara não quer ser exposto, ele não quer te encontrar também. Ponto final."

Chanyeol bufou, puxando o braço do amigo para que ele lhe encarasse. Kyungsoo percebeu que ele estava muito esquisito, e que um Chanyeol empolgado com alguma coisa também poderia muito facilmente parecer como um maníaco.

"Esquece o Luhan, Soo. Pensa aqui comigo: é um concurso! Mais pessoas irão se interessar! Você vai aparecer na televisão!"

Kyungsoo riu novamente. Aquilo sim era um senhor exagero!

"Não exagere, Chanyeol."

"É uma ótima ideia para o seu canal!" Ele disse, tentando lhe convencer com os olhos medonhos e arregalados.

"Não é um canal, eu não sou youtuber-" Kyungsoo começou a dizer, no mesmo momento que foi interrompido.

"Mi-lha-res de cartas por dia. Cinco mil delas até o final do mês!"

"Você é péssimo com matemática!" Do disse, achando graça de sua empolgação.

"A fama que a gente poderia ter!"

"A gente?" Dessa vez Kyungsoo ficou exasperado. "Isso me parece muito presunçoso, Chanyeol. E obviamente uma péssima ideia!”

Como ele poderia sequer pensar sobre aquilo? Era bem óbvio que Kyungsoo não era o tipo de rapaz que iria aprovar uma coisa daquelas. Fama em cima dos sentimentos de alguém? Aquilo era bem desumano.

"Isso é porque Chanyeol é um presunçoso." Luhan completou, olhando feio para o amigo mais alto.

"Eu não sou presunçoso!" Park se defendeu, extremamente ofendido com o seu comentário.

"Você é sim!" Luhan insistiu.

"Você é que é!" O mais alto rebateu.

"É? Bem... isso é o que um presunçoso como você diria."

Kyungsoo revirou os olhos para as farpas que os dois tontos estavam trocando na sua frente.

"Esquece isso, gente. Não importa. Eu não vou fazer um projeto pra saber quem é o tal A.M." Kyungsoo interveio, tentando apaziguar o ambiente.

Chanyeol ergueu uma sobrancelha em surpresa.

"Ele tem um nome agora?"

"É claro que ele tem um nome, Chanyeol!" Luhan rebateu como se fosse óbvio "A questão na realidade é outra. Você, Kyungsoo… vai ou não vai responder esse garoto?"

Kyungsoo de repente se sentiu nervoso. Poderia responder o garoto sim, mas a que custo? Não fazia ideia do que dizer pra ele, e com toda toda a certeza do mundo também não sabia como reagir àquilo. Tinha que pensar muito bem sobre isso antes de agir de fato, pois qualquer ação poderia intervir na vida do outro rapaz.

"Eu vou pensar."

"O quê?" Chanyeol parecia desacreditado "Como assim? Não tem o que pensar! Você deve responder e perguntar quem ele é!"

Kyungsoo sorriu.

"Isso não vai acontecer. Não vou perguntar quem ele é quando ele me pediu enfaticamente para que não fizesse isso." Disse, dando um ponto final naquela história toda.

"M-mas…"

"Chanyeol… isso é uma decisão dele." Luhan apaziguou, parecendo querer dar o assunto como encerrado. "Agora… espero que saiba o que está fazendo. Você, mais do que ninguém, deve saber como é delicado lidar com os sentimentos das outras pessoas."

Dessa vez Kyungsoo ficou em silêncio. Porque em teoria, ele sabia sim como era lidar com os sentimentos dos outros: era praticamente a única coisa que fazia na vida. Mas na vida real, as coisas eram diferentes. Na vida real você não tinha tempo para aconselhar ou se distanciar daquela intensidade como se fosse um experimento. Era completamente o contrário.

"Eu… disse que ia pensar." O moreno respondeu "Enfim…" Ele pigarreou alto, limpando a garganta "O que houve com você e o senhor stalker? Ouvi dizer que vocês terão que fazer algum tipo de maratona."

Luhan de repente parecia como alguém que foi brutalmente jogado aos lobos. Havia um nervosismo claro em sua face, como se estivesse próximo de vomitar. Ele parecia extremamente nervoso apenas com a menção de Sehun na conversa.

"É um evento esportivo, mas parece que o esporte será outro..." Chanyeol respondeu, provocando o atleta.

"Cala a boca, Chanyeol." Luhan disse, um pouco envergonhado.

Kyungsoo riu baixo.

"O que é que aconteceu? Perdi alguma coisa?"

Chanyeol sorriu, como se desafiasse o amigo a desembuchar. Aquilo tudo só estava deixando Kyungsoo extremamente curioso.

"O que houve, gente?" Ele perguntou.

"Diz aí o que aconteceu, Lu. Só estamos ouvindo."

Luhan respirou fundo, desviando o olhar para o prato na sua frente. De repente a comida parecia bem mais interessante do que a pergunta de Kyungsoo.

Ele cruzou os braços, antes de começar a revelar o que realmente havia acontecido:

"Eu… acabei aceitando fazer a dupla com ele." Luhan confessou bem baixinho, morrendo de vergonha.

Kyungsoo achou graça porque ele tinha as bochechas rosadas. Luhan sempre ficava envergonhado quando o assunto era Oh Sehun, desde quando o rapaz lhe viu pelado pela primeira vez, anos atrás.

"Não, você BERROU que queria fazer a dupla com ele, se me lembro bem."

"Não espalha, Chanyeol!" Luhan sussurrou, fazendo os dois amigos rirem.

"Tá brincando? Você berrou? Como foi isso?" Kyungsoo perguntou, extremamente curioso.

"É, como foi isso Luhan? Você escondeu de mim essa parte."

O atleta ainda parecia constrangido. Cruzou os braços mais apertado e continuou desviando o olhar como se estivesse tentando se proteger dos olhos curiosos dos amigos.

"Sehun ficou sem dupla. Nós dois… acabamos sobrando junto com mais três garotos. O professor Choi começou a perguntar um por um, a quem se voluntariava para fazer dupla com as pessoas que sobraram, e quando chegou no Sehun… e-eu… eu não pensei."

Kyungsoo segurou a risada. Aquilo era um óbvio caso de amor cruzado. Era tão óbvio que ele ainda não entendia porque os dois não haviam se resolvido.

"E o que você disse então?" Chanyeol questionou, curioso como era.

"E-eu… me levantei rapidamente. E fiquei gritando "eu, eu, eu! Eu me voluntario". Ai meu Deus, foi horrível."

Bastou apenas três segundos de silêncio para que ambos os garotos começassem a gargalhar.

"Cala a boca! Isso não tem graça!"

Chanyeol bateu a mão sobre a mesa, rindo como se Luhan tivesse contado a maior piada do século.

A cena era realmente ridícula. Seu melhor amigo tão composto e racional perdendo todas as estribeiras por conta de um amor, era algo que Kyungsoo nunca imaginou estar vivo para ver.

"Você praticamente foi a Katniss Everdeen da Educação Física!" Kyungsoo disse, tirando as lágrimas dos olhos com as costas da mão.

"Eu não devia ter contado. Vocês são muito…" Ele sugou a própria fala.

Luhan arregalou os olhos, diretamente para as costas de Kyungsoo. O moreno ficou confuso por alguns segundos, até perceber que havia alguém parado do seu lado.

O moreno ergueu o olhar, percebendo que não era apenas alguém, mas justamente quem não deveria estar nem perto dali.

"Luhan… será que posso tomar um minuto?" A voz afiada de Sehun cortou o clima no mesmo segundo.

Luhan desviou o olhar desesperado para Kyungsoo, que apenas lhe encarou de volta. O que ele queria que o moreno fizesse? Esse era o pepino que o atleta deveria carregar, e não ele.

"Estou interrompendo?" Ele questionou, parecendo perceber só agora que haviam mais pessoas ali na mesa.

"N-não, não." Chanyeol disse, empurrando os ombros de Kyungsoo descaradamente. "Nós estávamos de saída já… não é? Bora, Soo!" Chanyeol fez menção de se levantar, mas Sehun negou com um aceno.

"Não precisa." Ele fez uma pausa, de mãos nos bolsos, olhando diretamente para Luhan "O treinador pediu… er… o seu número de celular. Não pra ligar, não. É para o caso de emergências. Você sabe... por causa de amanhã."

Silêncio preencheu o lugar, mesmo que o falatório do refeitório ainda estava fazendo tudo ficar meio abafado para que Kyungsoo pudesse ouvir com clareza. Luhan olhou bem para Sehun, antes de tirar o celular do bolso. Ele teclou alguma coisa bem rápido, e engoliu em seco quando terminou, encarando Sehun com timidez.

Kyungsoo assistia tudo aquilo como se fosse uma câmera lenta: seu amigo estendeu o braço e entregou o celular para Sehun, que se esticou sob a mesa para alcançar o aparelho.

"É só digitar o número que está aí." Luhan disse, fingindo uma calma absoluta.

Kyungsoo sentia como se estivesse acompanhando o final da novela ao vivo e em cores, bem na sua frente. Sehun concordou com um aceno de cabeça, tirando o próprio celular do bolso enquanto digitava rapidamente o número exposto na tela de touchscreen.

Luhan olhou para Kyungsoo enquanto esperava, claramente nervoso. Era um dos primeiros contatos que os dois estabeleciam e estava sendo bem no horário de almoço, na frente de um monte de gente. Se algum boato começasse a surgir por causa disso, era bem provável que seu amigo surtasse — Luhan já não era muito do tipo que gostava de tanta atenção assim.

Sehun entregou o celular para ele novamente, assim que terminou de salvar o número em seu aparelho. Luhan o tomou de volta, sem lhe encarar de fato, mesmo que Sehun ainda estivesse bem na sua frente parecendo esperar por algo.

Chanyeol e Kyungsoo trocaram um olhar confidente.

“Hã…” Sehun limpou a garganta “A gente então… se vê por aí.” Disse por fim, encarando Luhan.

Luhan, no entanto, olhou para Kyungsoo em primeiro lugar, que simplesmente deu de ombros com a situação. Não era como se ele tivesse muita experiência no campo dos crushes, principalmente o crush maluco do seu melhor amigo. Essa seria uma barra que Luhan teria que carregar sozinho.

Kyungsoo fez a sua melhor expressão de: “Cara, você tem que encarar isso aí de uma vez porque já tá ficando feio”. E Luhan lhe respondeu com um olhar que dizia algo como: “Foda-se Kyungsoo!”

Sehun ainda estava bem paciente do seu lado, encarando a sua futura dupla com os olhos semi abertos. Ou talvez fosse apenas o olhar natural dele — Kyungsoo não sabia muito bem. Porque, veja, ele tinha um pouco de medo de atletas que não fossem o seu melhor amigo, e evitava contato com todos eles.

“Luhan…” Chanyeol interviu “O sinal já vai bater, cara.”

Luhan pareceu despertar do torpor, desviando o olhar para encarar o rapaz na sua frente. Kyungsoo podia perceber que ele estava extremamente envergonhado, mais do que todas as vezes que ele já havia sido pego furando a dieta no meio da semana de treinos.

“Eu… vejo você amanhã.” Luhan se levantou, trocando um olhar com seus dois melhores amigos “Vamos.” anunciou, como se eles tivessem mesmo um lugar pra ir.

Mas nenhum dos dois discordaram. Chanyeol e Kyungsoo lhe seguiram, levantando-se da mesa do refeitório enquanto Sehun parecia ter pegado a deixa. O rapaz concordou com um aceno e deu meia volta, indo embora o mais rápido possível dali.

Luhan seguiu o caminho para fora do refeitório em silêncio com seus dois amigos logo atrás. Assim que os três já estavam um pouco mais afastados de toda aquela loucura, o garoto conseguiu enfim respirar fundo.

Estavam no corredor agora, apenas esperando o sinal bater para as próximas aulas começarem. Kyungsoo fitou o seu melhor amigo se encostar contra o próprio armário, parecendo ter uma dor de cabeça daquelas. Do colocou a mão sob o ombro de Luhan, que lhe lançou um olhar de partir o coração. Era o desespero que estava estampado ali.

Kyungsoo sorriu pequeno, apertando mais ainda os seus ombros. Sabia que para alguém tão tímido quanto Luhan, uma abordagem daquelas poderia ser bem exaustiva. Mas também sabia que onde quer que estivesse, enquanto seus amigos precisassem dele, estaria ali. Como um bom ouvinte confidente que tanto lutava para ser.

"Soo, porque me enfio em tantas roubadas?" Luhan perguntou, fechando os olhos em frustração.

"Isso eu não sei." Kyungsoo riu baixinho "Mas pelo menos agora, depois de sete anos, você finalmente tem o número do seu crush."

Luhan sorriu, achando graça.

"Obrigado por me dar uma outra perspectiva."

Kyungsoo sorriu, sentindo-se útil pela primeira vez naquele dia. A sua habilidade de resolver os problemas das outras pessoas e ignorar os seus próprios era o que mantinha Kyungsoo estagnado no mesmo lugar. Ele sabia disso. Mas não deixava de ficar feliz em ajudar um amigo. Por isso, foi sincero quando disse:

"Estou aqui pra isso."

Porque estava mesmo.



A tarde havia caído, e o Sol já estava mais escondido do que o loiro realmente gostaria. Baekhyun não gostava nadinha dessa hora do dia, justamente por ser o horário mais lotado da cafeteria. Então era claro que isso também significava que ele estava tendo muito mais trabalhos por segundo.

Queria poder reclamar que muito trabalho assim poderia se tornar exaustivo para a sua rotina, mas a realidade é que, no fundo, estava completamente grato pela distração. Porque todo aquele trabalho lhe mantinha ocupado o suficiente para não ter que pensar no que havia feito no dia anterior.

Já se faziam horas desde que mandou aquela carta para Do Kyungsoo, e nenhuma resposta havia chegado. Seu coração batia forte cada vez que o celular vibrava para lhe alertar de alguma notificação em suas redes sociais, mas ainda não havia chegado nada na caixa principal de seu e-mail. E se fosse sincero, Baekhyun esperava muito que essa notificação nunca chegasse. Pois o medo de Do Kyungsoo lhe julgar por um maluco completo era maior que a curiosidade de saber o que ele havia pensado sobre a sua carta.

Enquanto limpava a mesa da cafeteria, a única coisa que conseguia pensar além da besteira que havia feito, era o outro problema crucial que estava assombrando a sua paz interior naquela semana: o novo concerto da Seoul Revival.

Baekhyun suspirou, terminando de higienizar a porcaria da mesa de madeira do salão. Ainda havia muitas pessoas para atender ali, mas ele era o único que limpava todas as mesas sozinho, desde que o outro rapaz havia pedido demissão no mês passado. A economia também já não estava das melhores para uma nova contratação acontecer, então era claro que Zhang Yixing iria fazer de tudo para que ele segurasse as pontas até o seu próprio limite para economizar dinheiro.

A Café Universe era um local bem popular entre os jovens, e principalmente aqueles que gostavam de uma boa música. Esse era o maior orgulho do seu patrão, que se divertia promovendo festivais de concertos independentes durante as férias de verão. Ou ainda, naquele período perto das férias de inverno em que estavam no momento.

A neve não havia chegado ainda, mas Baekhyun podia sentir que o frio já estava para ameaçar. As chuvas estavam cada vez mais parecidas com geadas, e a velha capa de chuva que o rapaz costumava usar para se proteger estava ficando cada vez mais gasta.

Ali dentro da cafeteria, Baekhyun ainda podia contar com o teto que protegia a sua cabeça. Mas na sua mente ansiosa, o receio de ter que esperar no ponto do ônibus sozinho e com frio estava começando a lhe atingir. Faltava bem pouco para que o lugar fosse fechado, e as gotas de chuva já batiam contra a janela para lhe atormentar sobre esse fato. Precisaria urgentemente comprar um guarda-chuva.

Ele suspirou, terminando a limpeza. Jogou o pano dentro do balde sem água, e empurrou o utensílio de limpeza amarelo com a mão, enquanto caminhava para os fundos do lugar. Ainda havia bastante clientes ali, por conta da chuva, então ele teria que ser rápido para terminar de anotar todos os pedidos que Jinki não iria conseguir dar conta.

Guardou tudo o que tinha que guardar no depósito da limpeza, e voltou para o salão principal. A jukebox estava ligada, tocando uma seleção de música que o próprio Byun havia selecionado na semana passada. Naquele momento, "If You Wanna" de The Vaccines invadia o salão como se estivessem em uma pequena festa particular. Baekhyun sorriu, porque algumas pessoas estavam dançando ao som da música. E como uma boa pessoa viciada em fazer playlists, seu ego foi nas alturas por saber que a sua estava fazendo tanto sucesso.

Ele cruzou o salão, e acabou parando no mesmo lugar quando viu seu melhor amigo ali, sentado sozinho numa mesa com a feição extremamente triste. Baekhyun torceu os lábios. Se alguma coisa havia acontecido com o Oh Sehun, era bem capaz que o rapaz enfrentaria o mundo inteiro para lhe defender. Seu maknae era uma pessoa muito especial na sua vida, e Baekhyun sempre teve um instinto protetor com relação à ele.

O loiro caminhou até a mesa do seu amigo, com uma sobrancelha erguida. Sehun percebeu que ele estava ali, e abriu espaço, com uma cara que dizia: "Pelo amor de Deus, Baek, preciso desabafar". E Baekhyun também precisava abrir o seu coração, então não se importou de fazer uma pequena pausa para falar com ele.

Sentou no banco bem do lado do seu amigo, que logo correu para passar os braços em volta da sua cintura. Ele estava mesmo muito abalado pelo jeito.

"Sehun? O que aconteceu?" Perguntou, preocupado com o garoto.

"Baek, eu sou um burro desmiolado, não sou?"

Baekhyun sorriu largo, sem que ele pudesse ver.

"Se você diz, posso concordar."

Sehun se afastou, claramente ofendido.

"Você é ridículo." Disse, fazendo um beicinho apelativo.

Baekhyun dessa vez riu com gosto.

"O que aconteceu, Hun?"

O garoto cruzou os braços, emburrado. O bico que costumava ser pequeno e delicado, agora estava estufado em irritação.

"Aconteceu que eu sou um panaca. Aconteceu que as pessoas vão rir de mim agora, por ser tão besta assim."

"Sehun…" Baekhyun interviu "Quer me explicar?"

Sehun suspirou, finalmente olhando pra ele com atenção. Os olhos, Baekhyun percebeu agora, estavam vermelhos. Talvez ele até havia chorado e não contou nada para o amigo mais velho.

"Foi o Luhan, hyung. Ele… eu não sei qual é a dele. Sabe o que aconteceu hoje? Ele me fez passar uma vergonha absurda. Quer dizer… eu… não achei tão ruim assim. Mas muita gente agora vem pegando no meu pé por causa disso."

"Disso o quê?"

Sehun desviou o olhar, um pouco envergonhado.

"Ele… gritou pra todo mundo ouvir no clube de esportes. Gritou que queria ser a minha dupla do desafio, e todo mundo achou bem esquisito. Agora várias pessoas estão pensando coisas da gente, e pra piorar…" Sehun gemeu em frustração "Pra piorar, o treinador me fez pedir o telefone dele hoje, na frente do refeitório inteiro! Você acredita? Acho até que foi de propósito! Alguma dinâmica de grupo ou algo do tipo. Que tipo de treinador não tem o contato dos seus alunos?"

Baekhyun riu baixinho. Dramas adolescentes sempre o entretia. Mesmo que ele mesmo já não fosse tão adulto assim -- havia acabado de sair do ensino médio.

"Não ria de mim! É sério! Eu morri de vergonha!"

Pedir para segurar a risada sempre fazia com que Baekhyun risse mais ainda. Então não ficou nada surpreso quando sentiu os socos do se amigo desferidos no seu braço injustamente.

"Hey! Para com isso, garoto." Baekhyun advertiu de brincadeira. "E você tem que se controlar. Não tem nada ver isso aí de vergonha. Vocês claramente se gostam, então porque essa coisa de ficar se segurando?"

Sehun evitou olhar para ele quando respondeu:

"Eu não me sinto seguro pra me assumir agora. E acho que ele não gosta de mim desse jeito. Quer dizer, é complicado. Quer dizer, eu… aaaah!" O garoto bateu a cabeça na mesa, cobrindo os olhos.

Baekhyun revirou os olhos.

Adolescentes…

"Você quer ouvir uma outra desgraça alheia pra aliviar?"

"Bor fabor." A voz de Sehun saiu abafada pelo moletom preto que estava usando.

Baekhyun suspirou, enquanto ele mesmo cruzava os braços. A música já havia mudado, e agora a trilha sonora da sua tristeza estava sendo amparada por "The Suburbs", de Arcade Fire.

"Mandei uma carta para Do Kyungsoo."

“Você fez o quê?” Sehun gritou, pulando da mesa.

Exagerado como sempre, Baekhyun já deveria ter adivinhado. Contar as coisas para Sehun era sempre um sacrifício.

“Shh… fale baixo, Sehun!”

“Isso não faz o menor sentido! Por que mandou uma carta pra ele? Achei que ia chamá-lo pra sair quando ele voltasse aqui… você sabe, como uma pessoa normal!”

Baekhyun negou com um aceno.

“Não posso fazer isso no meu local de trabalho. Ficou doido?"

“É só você chamar ele em um canto?”

“Sehun… eu não sou esse tipo de pessoa. Só de escrever aquela carta já me tremi inteiro. Fico… nervoso quando falo com ele.”

Sehun riu debochado.

“Você é muito desgraçado mesmo.”

“Muito obrigado.”

O moreno torceu os lábios, achando graça.

“Não se preocupa que ele possa postar a carta? Com certeza ele vai querer te procurar, Baekhyun.”

“Eu pedi por privacidade. E também…" Baekhyun suspirou, se sentindo um grande idiota "A verdade é que não era pra eu ter enviado nada, foi um acidente. Mas acho que… acho que ele vai respeitar isso.”

Esperava do fundo do seu ser que Do Kyungsoo fosse lhe respeitar sobre aquilo. Não estava nada preparado para lidar com uma exposição por conta de uma carta que nem sequer queria ter enviado. Principalmente porque ainda se sentia um tanto ridículo por ter escrito as coisas que escreveu. Aquele era um desabafo sincero da sua alma atormentada pelos próprios pensamentos que tinha sobre si mesmo, e sobre o próprio podcaster também. Sabia que o garoto não iria resolver a sua vida, muito menos esperava que aquela carta fosse respondida de verdade. Mas falar com Do Kyungsoo, de alguma forma, havia aliviado.

"Baekhyun, o que você tem que fazer de verdade é esquecer isso cara. Ou então, você poderia..."

Baekhyun, que estava antes prestando toda a atenção do mundo no que o seu melhor amigo estava falando, de repente já não conseguia mais se concentrar. A visão que estava tendo agora, da entrada da cafeteria, era tudo o que ele não queria ver.

"Ah… essa não. Essa não, essa não, essa não!"

"O quê?"

"Do Kyungsoo!" Baekhyun sussurrou.

"É… bem, eu sei o nome dele, sabe? eu não sou um idiota!" Sehun fez um bico irritado "Sinceramente? Você fala desse cara até demais. Não é que você não deve falar dele, mas eu acho engraçado que-"

"Oh Sehun! Estou falando pra você! Ele está bem ali!" Baekhyun disse, apontando com a cabeça para a entrada do lugar.

Kyungsoo sorria para si com o óculos cheio de gotículas de chuva. Os olhos formaram duas meia-luas, e o cabelo parecia ter sido cortado recentemente. Ele estava… muito bonito, Baekhyun constatou. O que ainda era um tanto estranho para o loiro processar, já que havia passado anos apenas ouvindo a sua voz através do podcast. Tendo agora uma imagem nítida a quem associar, e sendo essa imagem tão boa assim de olhar, fazia coisas à mente de Baekhyun.

Kyungsoo acenou com a mão enquanto deixava o guarda-chuva amarelo dentro do porta utensílios da cafeteria. Caminhou em direção às mesas do salão, parecendo um tanto indeciso com qual delas deveria escolher.

Sehun virou o olhar descaradamente para onde Baekhyun estava olhando, sem disfarçar. O loiro entrou em desespero, puxando o corpo do seu amigo para si.

"Ficou maluco? Ele vai perceber que estamos falando dele."

"Bem, acho que agora vai ser difícil que ele não perceba. Você não sabe disfarçar, Baek."

Baekhyun engoliu seco, nervoso. Percebeu que o rapaz escolheu uma mesa um tanto afastada. Estava sozinho, e carregando uma mochila amarela clara que de alguma forma fazia Baekhyun se lembrar da gema do ovo. Talvez fosse porque a cor era extremamente forte, e bem viva. Algo que não esperava ver Kyungsoo usando.

"E… eu acho que você tem que atender ele, Baekhyun." Sehun sussurrou.

Baekhyun se levantou, sentindo o coração bater mais forte. Olhou para o seu amigo, que parecia estar se divertindo bastante com o seu desespero interior. Um grande hipócrita de marca maior.

Baekhyun mordeu os lábios, deixando seu amigo pra trás. Teria agora que encarar o bendito Do Kyungsoo, razão principal de sua noite de insônia. Ou talvez devesse culpar o seu próprio desespero por isso, pois se não tivesse mandado aquela carta nada disso teria acontecido. Porque a culpa de ter enviado aquela carta era inteira de Baekhyun, e só dele.

Estava frente a frente o garoto agora, olhando diretamente para o seus óculos molhados e cabelos respingados pela chuva. Será que ele não sabia usar o guarda-chuva?

"Boa tarde." Baekhyun disse, formalmente.

Kyungsoo parou de sorrir no mesmo instante. Seus olhos se abriram um pouco maiores que o normal por de trás das lentes respingadas, fazendo-o retirar rapidamente do rosto. Ele era um tanto engraçadinho de se olhar. Baekhyun tentou segurar a risada enquanto lhe observava.

"Hey, Byun Baekhyun, sou eu. Você… lembra de mim?" Ele falou, um pouco hesitante. "Hã… Do Kyungsoo. M-meu nome é Do Kyungsoo. Eu te falei meu nome ontem. Eu acho. Meu Deus, vou ficar quieto. Desculpa. É óbvio que você não tem o dever de se lembrar de mim, você é-"

Baekhyun riu baixinho, interrompendo-o.

"Eu me lembro de você, Kyungsoo. Seja bem vindo novamente."

O sorriso que o moreno lhe deu naquele momento era tão grande que podia iluminar o mundo inteiro.

"Sério mesmo? Ah…" Ele riu sem graça "Eu… vim aqui na verdade porque esse lugar me deu muita sorte sabe."

"Sorte?" Baekhyun franziu o cenho em confusão.

"Ah… sim." Ele fez uma pausa "Eu… tenho um amigo." Ele começou, um tanto hesitante.

"Eu… fico feliz que o Senhor tenha um amigo."

Kyungsoo riu, envergonhado.

"Caramba, me desculpe. Estou divagando de novo. Eu faço muito isso, você vai ver."

Você vai ver. Baekhyun repetiu aquelas palavras na própria cabeça. O que elas queriam dizer, ele não fazia ideia.

"Não se preocupe. Estou aqui para descodificar tudo o que você diz." Baekhyun sorriu, apontando no caderninho de pedidos para ele. "Esse é o meu trabalho, sabe?"

Kyungsoo sorriu com o seu senso de humor.

"Você é mesmo incrí-... aah, muito obrigado." Kyungsoo se interrompeu.

Pigarreou alto, um tanto alto demais, e desviou o olhar.

Era engraçado, porque ele parecia uma pessoa completamente diferente do que Baekhyun esperava. No seu podcast, Kyungsoo era extremamente extrovertido. Um tanto tagarela como também estava sendo agora, mas ainda assim, não imaginava que ele poderia agir com tanta timidez perto das pessoas. Para alguém que sabia lidar tão bem com pessoas, ele era um tanto atrapalhado demais.

Não que Baekhyun fosse reclamar.

"O que tem o seu amigo?" Baekhyun perguntou pra ele, genuinamente interessado.

Kyungsoo cruzou os braços, checando a área como se estivesse prestes a contar um segredo de estado.

"Um amigo meu…" Kyungsoo começou, hesitante como sempre "Uh… e-ele é podcaster… esse meu amigo."

Baekhyun parou de sorrir no mesmo momento. Não podia ser que…

"Isso é… muito legal."

Kyungsoo concordou veementemente.

"É muito legal mesmo. É… incrível. O podcast, quero dizer."

"Certo."

Ele estava falando sobre ele mesmo? Seria isso? Ou realmente tinha um amigo que também era podcaster? Tantas dúvidas corriam pela mente de Baekhyun.

"Me perdoe Baekhyun, eu… olha eu precisava muito falar com alguém e… eu… acabei pensando em você. É isso."

Ah não. Isso não podia estar acontecendo, não ali, não na sua frente. Aquilo só podia mesmo ser algum tipo de karma. Baekhyun estava prestes a enlouquecer, mas tudo o que fez foi concordar com um aceno para disfarçar. Tiraria o band-aid de uma vez, teria que ouvi-lo confessar.

"Eu estou com um problema enorme para resolver, porque… Eu… sou do tipo de pessoa que gosto de ajudar meus amigos. Você entende?"

Baekhyun entendia sim. Entendia muito bem a ironia que era a sua vida também. Mas ele apenas concordou, já sabendo onde aquilo iria dar.

Kyungsoo pareceu aliviado. Era exatamente o sinal que precisava para desabafar tudo de uma vez sobre aquela loucura toda.

"Esse meu amigo, ele recebe cartas de pessoas para ler num podcast."

Então era verdade, ele estava falando sobre ele mesmo.

Baekhyun não podia acreditar.

Se não estivesse de frente a frente para ele, provavelmente estaria chorando de vergonha. Era o pior dia da sua vida ali, com toda certeza. Nunca sentiu tanta vergonha antes, podia até mesmo sentir a bochecha queimar.

"Legal o projeto desse seu amigo." Baekhyun disse, na maior cara de pau que conseguiu formar.

"Ah…" Dessa vez era Kyungsoo que parecia envergonhado "Muito obrigado, nossa. Eu fico muito feliz em ouvir isso de você, porque eu coloco muita… ah, quer dizer." Ele se calou, pigarreando alto. "O meu amigo… ficaria muito feliz de saber disso."

Baekhyun sorriu largo. Droga, ele era fofo. Muito fofo. Principalmente por ser tão tonto do jeitinho que ele era. Com muito custo, o loiro desviou o olhar dele, tentando esconder o seu divertimento.

"E o que houve então?" Baekhyun perguntou, mesmo que soubesse exatamente do que Kyungsoo estava falando.

"Ontem, precisamente, ele acabou recebendo… hm… um recado caloroso de um fã. Aí ele acabou pirando porque isso nunca aconteceu antes na história da vida dele!"

Ah. Ele tinha pirado por conta daquilo? Quem diria. Estavam os dois no mesmo barco sem Baekhyun ter a mínima ideia.

"É-é mesmo?" Perguntou o loiro, nervoso.

"Sim!" Kyungsoo concordou, eufórico "Isso nunca aconteceu antes! Caramba, eu não sei o que responder pra ele, porque a mensagem tinha tanto sentimento! E saber que alguém gosta tanto do trabalho dele me deixou emocionado."

"Você é um bom amigo." Baekhyun disse com um sorriso, mesmo que no fundo ele queria mesmo era gritar. "Talvez o seu amigo não precise dar tanta bola assim pra essa carta. Pessoas mandam cartas para ele todo dia, certo?"

Kyungsoo negou com fervor. O plano de Baekhyun de reverter a situação tinha ido por água abaixo, ele não iria deixar isso pra lá.

"Acho que eu não expliquei direito, a carta…" Kyungsoo agora estava completamente vermelho "E-era uma declaração de amor."

Baekhyun morreu por dentro com aquelas palavras. Declaração de amor? Meu Deus. Era assim que havia parecido?

Porque é que não conseguia se expressar direito?

"Acho que não é pra tanto, vai?"

"Não! Você tinha que ter lido para entender. Ela foi… perfeita. Eu queria muito saber quem é o tal garoto."

Isso seria impossível. Baekhyun preferia a morte do que revelar a sua identidade para ele.

"Hm, talvez a pessoa seja tímida."

Kyungsoo concordou com pesar.

"Eu entendo isso. Mas eu realmente… gostei, sabe? Quer dizer… eu achei bonitinho." Kyungsoo riu baixinho.

"Bonitinho?" Baekhyun perguntou, um pouco indignado.

O moreno arregalou os olhos.

"Não posso achar? Você acha que é ruim dizer isso?" Ele estava genuinamente preocupado com o que Baekhyun estava pensando.

Mas o loiro apenas suspirou. Já estava tudo ferrado mesmo. Ele bem que podia responder a altura. Teria que aconselhar o rapaz para a própria burrada que fez. Isso só poderia ser uma intervenção divina para arrumar a burrada que fez.

"Olha, talvez o seu amigo devesse responder essa pessoa com sinceridade. Do tipo, você sabe, agradecer coisa e tal. E depois colocar uma pedra sobre isso e nunca mais falar do assunto."

"Isso não é… meio desumano?" Kyungsoo questionou, franzindo a sobrancelha.

"Não! Não, de jeito nenhum! As pessoas gostam de um desafio, sabe?"

"Um desafio? Tipo, criar outro projeto pra saber quem o A.M é? Chanyeol havia me sugerido isso!"

"Não, não! Nada de projetos, Kyungsoo." Baekhyun suspirou.

Por que é que havia entrado nessa roubada?

"Espera… como é que você falou? Quem é Chanyeol?"

Kyungsoo fez uma pausa.

"O meu amigo."

Ele era ridículo quando mentia, a cara toda mudava de cor como se estivesse prestes a ser pego. Baekhyun acharia graça se não estivesse irritado. Kyungsoo havia mostrado a carta para mais pessoas quando ele havia pedido para que não o fizesse.

Baekhyun cruzou os braços, tentando se controlar. Estava se sentindo ridículo, e um tanto nervoso. Não queria que outras pessoas desdenhassem dos seus sentimentos porque eles eram verdadeiros. Saber que o tal Chanyeol estava fazendo isso havia tocado na sua ferida.

"Eu… não vou fazer isso. Na realidade, eu não me importo tanto com isso. Quer dizer, sim, eu gostaria muito de saber quem ele é." Kyungsoo hesitou "P-porque o meu amigo gostou bastante daquela carta. Por isso eu gostaria de saber como ele é. Você sabe, o meu amigo ficaria muito feliz de descobrir isso, então eu também fico."

"Mesmo?" Baekhyun perguntou baixinho.

"Sim! E é por isso que preciso da sua ajuda! O que acha que devemos responder?"

Baekhyun sorriu pequeno.

Ele estava mesmo empenhado na sua carta. Baekhyun não sabia muito bem o que sentir sobre isso, porque não era a sua intenção ter feito tanta caso assim de uma carta que foi enviada por acidente. Ainda mais porque ele mesmo era a única pessoa que poderia aconselhá-lo, já que foi o próprio quem tinha escrito aquela carta.

"Eu acho que o seu amigo deve responder aquilo que está no coração dele."

Kyungsoo lhe encarou, parecendo sem palavras. Talvez não estivesse esperando que a resposta do loiro seria tão profunda assim.

"Falarei isso pra ele." Kyungsoo murmurou. "Mas, agora, acho que tenho que pedir alguma coisa né?"

Baekhyun sorriu. Ele havia se lembrado da última vez?

"Sim, você deve pedir."

Kyungsoo sorriu, abrindo o cardápio na sua frente.

"Seria muito ruim se eu pedisse um café?"

Baekhyun negou com um aceno.

"Já estamos fechando, mas ainda não fecharam a cozinha de vez. E… isso aqui é uma cafeteria, né?"

Kyungsoo riu, concordando.

"Você tem razão."

"Um café então?" O loiro perguntou.

"Sim, sim. Só um café americano está bom."

"Certo." Byun riscou o pedido no caderninho, enquanto sorria largo "É pra já!"

Estava prestes a se virar, quando ouviu seu nome ser chamado pela voz grossa do rapaz. Baekhyun respirou fundo, recobrando a calma. Voltou o olhar para o moreno, que apenas sorria para si.

"Obrigado." Ele disse.

Byun sorriu, apesar de tudo. Porque mesmo que Kyungsoo não soubesse que aquela carta era dele, havia mantido a discrição sobre o seu conteúdo. E saber que ele havia gostado, também fazia o coração do garçom se encher de um sentimento quente. Não fazia ideia se um dia ele iria lhe responder de verdade sobre aquilo, mas sabia que acima de tudo, Kyungsoo havia levado os seus sentimentos em consideração. E aquilo já era mais do que poderia esperar. Por isso, foi sincero quando disse:

"Não tem de quê."

Porque também não poderia deixar de se sentir grato pela dedicação e delicadeza dele. O que só fez com que Baekhyun tivesse a sua teoria comprovada: Do Kyungsoo era um garoto doce. E estava ficando cada vez mais difícil de ignorá-lo.