Cartas pra Você.
10 Capítulo 9
Notas iniciais
Deeeeeeeeeeeeeeeeeus, que dor nas costas! To parecendo minha vó, com dor sem nenhum motiv... Há, entendi. Eu dormi no chão. Babando com um lápis na boca ainda por cima. Que jeito espetacular de começar uma manhã.
Tudo que eu comi de manhã estava com gosto de madeira. Estou me sentindo uma castora. Eu quase fiz um totem mágico com o lápis na boca. Parece que eu mordo enquanto durmo.
De repente fiquei com nojo de mim agora. Em fim...
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Eu: Bom dia Ci!
Cindra: Bom dia. E ai, fez os convites?
Eu: Fiz... Só tem um que eu acho que eu vou ter que refazer depois...
Cindra: Por que?
Eu: Eu meio que babei em cima dele... A noite toda.
Cindra: Pra isso servem os babadores. Esquece, pode jogar esse fora, se faltar, a gente faz mais depois.
Peguei o convite meio babado e joguei pra um canto qualquer do ônibus. Ajudaria muito se Andy não colocasse a cara na direção onde a bolinha esta indo.
Andy: Quanto amor.
Eu: Desculpa!
Andy: Tudo bem... Mas e ai gente, tudo bem?
Cindra: Tudo suave na nave.
Eu: Sussa na montanha-russa.
Cindra: Legal no pedal.
Eu: Firmeza na represa.
Andy: Acho que eu já entendi, né?
Cindra: Desculpa ai colega. Olha isso, a Cady fez ontem na casa dela.
Andrew: Convites pra Color-ai? Legal, ficaram bonitos. Por isso você saiu apressada de casa ontem?
Eu: É. Desculpa, ou eu fazia isso, ou eu iria morrer afogada numa privada de banheiro publico.
Cindra: Você foi na casa dele ontem, sua vaca? E não me chamaram?
Andy: Não era nada importante, a gente tava estudando.
Cindra: Sei. Estudando o corpo humano, né? Safados.
Demos risada e de repente Andy parou pra pensar no café da manhã de Albert Einstein em 1850. Eu nem sei em que época esse cara viveu, aff.
Andy: Cindra, eu posso falar com você mais tarde?
Cindra: Claro que pode.
Eu: Alô. Eu to aqui. Posso saber sobre o que vão falar?
Andy: Sabe o que é, é um assunto meio particular...
Eu: Há, sendo assim, tudo bem. Sem problemas.
Eu nem tinha me dado conta, mas o ônibus tinha parado e o motorista estava de pé do meu lado, me olhando como se eu tivesse roubado a alma de um dos 8 filhos dele. Só o que ele queria era que eu jogasse o papel do convite fora. E que eu me sentasse.
De verdade, eu tenho um pouco de medo de ficar de pé no ônibus, mas dessa vez eu nem me dei conta. Da ultima vez que fiquei de pé, parada no corredor, acabei virando adesivo no vidro lá da frente.
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Sabe, eu bebi muito de manhã pra tentar tirar aquele gosto incrivelmente delicioso de madeira da minha boca. E bebi de tudo: Suca, água, café, refrigerante... E nada adiantou. Agora, alem de estar com gosto de madeira mergulhada na coca na boca, estou apertada. Muito apertada. Eu sinto que vou estourar. Preciso sair daqui.
Como a professora não esta na sala, eu vou dar uma fugidinha.
Eu: Gente, já volto, é rapidinho.
Cindra: Vai e fica lá, ninguém vai sentir sua falta.
Fiquei emocionada com o comentário cheio de carinho e cuidado da Cindra, mas não a culpo. No lugar dela, eu também não iria sentir minha falta.
Depois de me aliviar no banheiro, fui até a pia e lavei o rosto. Haviam duas meninas conversando do meu lado. Eu ouvia a conversa enquanto me secava. Pelo jeito, uma delas tinha sido traída pelo namorado e a outra a estava consolando. Tadinha, ela esta até chorando. Que tristeza.
Eu, como tenho uma sorte da porra, devo ter trago aquele clima ruim do banheiro comigo. Quando cheguei na sala, Andy e Cindra estava brigando.
Andy: E eu tenho culpa que isso aconteceu?
Cindra: TEM. TEM TODA A CULPA. VOCÊ ESTRAGOU TODOS OS MEUS PLANOS. NÃO DIRIJA MAIS A PALAVRA A MIM, ANDREW.
Ela se virou e sentou em sua carteira, toda invocada e com o nariz empinado. Me sentei atrás dela e Andy, atrás de mim.
Eu: O que aconteceu?
Andy: Nada. Eu falei uma coisa e acho que ela ficou meio nervosa.
Eu: Meio? Eu que nem sei qual é o assunto, sei que ela esta EXTREMAMENTE nervosa com você. Mas tudo bem, relaxa. Amanhã ela vai te pedir desculpas.
Andy: Não sei. Odeio quando ficam com raiva de mim.
Eu: Esquece isso.
A professora ainda não tinha entrado na sala. Cindra se levantou e procurou um jeito de acalmar os animais dessa Amazônia que é a minha sala.
A professora tem duas mãos de vidro que ela sempre deixa em cima da mesa como enfeite. Eu nunca entendi pra quê. Mas acho que Cindra descobriu uma utilidade para essas “mãos”.
Ela pegou uma das mãos e passou os dedos pela lousa, fazendo um esplendoroso som de 50 gatos no cio. Todos olharam pra ela, alguns querendo saber o que aconteceu, e outros, querendo xingar mesmo.
Cindra: Ô matilha, é o seguinte, a Color – ai vai ser dia 31, e o esquema é o mesmo dos outros anos. O convite é cinco reais, na entrada é dez, se alguém deixar os professores ou os funcionários do colégio saberem, esse ser vai morrer engasgado com testículos de gato, e blá blá blá... Muito obrigada pela atenção e podem voltar ao canibalismo matinal de vocês.
É, Eu diria que ela esta um pouco mais nervosa do que de costume.
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Mais um papel. O que esta escrito dessa vez?
“Oi linda! Tudo bem? Sabe, eu estava pensando... Vai ter uma festa na sua escola, não é? Talvez eu apareça por ai. E talvez a gente dance junto também... Pelo menos, assim espero. Hehe. Há, olha eu deixei uma surpresa pra você no seu armário. Da uma olhada ai. Espero que goste.
Ass: Seu admirador secreto.”
Haaaa, finalmente. Eu quero mesmo conhecer quem é esse fofo que esta me mandando essas cartas. E essa caixa aqui deve ser a tal “surpresa”.
Algo me diz que meu admirador gosta de gordinhas. E pelo jeito eu não sou suficiente pra ele. Ele me mandou chocolates. Em fim, vou comer enquanto eu posso.
Eu: Olha que delicia, ganhei chocolates. Quer um?
Andy: Não, obrigado.
Eu: Beleza. Sobra mais pra mim.
Andy: Gordisse modo on.
Ignorei o comentário totalmente amável dele e comi dois bombons que estavam realmente muito bons. Se eu pudesse, vivia só desses chocolatinhos.
Cindra passou aqui perto com uma cara muito brava.
Eu: Ci, vem aqui.
Cindra: Que foi? Fala logo, hoje minha paciência ta menor que roupa de biscate.
Eu: Eu só queria saber o que ta pegando. Por que você ficou tão brava de repente?
Ela bufou e olhou pro chão.
Cindra: Nada, é besteira.
Eu: Não parece. Há, tudo bem. Quando quiser desabafar, é só falar comigo.
Andrew engoliu em seco. Parecia com medo de alguma coisa.
Eu: Que foi Andy?
Andy: Nada, nada... Só tava pensando na minha bezerrinha que morreu.
Ok, os dois estão muito estranhos. Tem alguma coisa errada aqui.
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Dois pra frente e dois pra trás. Essa dancinha até que é fácil. E é bonitinha também. Mas eu não conseguia parar de pensar no motivo da briga entre o Andy e a Cindra. Era compulsivo.
A professora deu alguns minutos de descanso pra gente. Fui até o canto do ginásio e peguei minha garrafinha d’água. Cindra veio falar comigo.
Cindra: Cadê o Andy? Eu quero falar com ele.
Eu: Eu não sei, ele estava aqui até agora... Há, ele esta ali no meio do ginásio. Vai lá.
Ele estava mexendo no celular, teclando com nervosismo. Quando ele percebeu que Cindra estava andando até ele, deixou o celular cair.
Cindra: Era uma vez um celular. Tava fazendo o que?
Andy: Nada. Por você ta tão calma agora? Tava parecendo uma javali grávida até agora a pouco.
Cindra: É a TPM. Olha, eu queria pedir desculpas. Se essa é sua decisão, eu tenho que te apoiar, como verdadeira amiga.
Andy: Você ouviu quando eu falei que não tinha certeza, né?
Cindra: Ouvi, porra. Você quer ajuda ou não?
Antes que ele respondesse, a professora pediu que todos fossem pro canto do ginásio. Ela estava com uma sacola cheia de papéis embaixo do braço. É, que tal um papel que veio de um saco cheio de suor?
Marcia: Pessoal, não sei se vocês sabem, mas os times de futebol e vôlei da escola perderam muitos jogadores no ultimo semestre e agora estão distribuindo estes papéis pra quem quiser fazer teste pra entrar em algum dos times. Peguem os papéis e assinem seus nomes.
Me aproximei dos dois babões.
Eu: E ai, já fizeram as pazes.
Cindra: Parece que sim, né?
Eu: Eu sabia. Um lambe sal do outro. Em fim, vão se inscrever?
Andy: Pra ficar no meio de um monte de garotos fedidos e suados correndo atrás de uma bola como se fosse a ultima coisa comestível da terra? Não, obrigado.
Cindra: Acho que eu vou escrever meu nome lá. Eu não faço porra nenhuma à tarde, vai ser melhor pra mim.
Eu: Eu também vou. Estamos no mesmo barco.
Pegamos um dos papéis e assinamos nossos nomes. Marcia nos liberou logo depois disso.
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O resto da tarde foi um lixo. Fiquei assistindo TV enquanto me entupia de Doritos e Coca-Cola.
Ok, assistia não é bem a palavra. Eu apenas olhava a TV. Eu só conseguia pensar no motivo que causou a briga que assisti de manhã. Por que a Cindra e o Andrew não queriam me falar nada?
Quer saber? Eu vou lamber meus dedos que estão totalmente laranja e vou puxar uma palha aqui no sofá mesmo. Me acordem quando a páscoa chegar.
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