Cartas para um Amor Imaginário
1 Introdução
Notas iniciais
Sentada na varanda, olhando o mar, sentindo o vento acariciar seu rosto, Isabel tentava se lembrar onde tudo aquilo começou. Fora há muitos anos atrás, isso não podia negar. Em uma época onde não haviam os cabelos brancos sob o delicado chapéu que usava, quando seu corpo tinha a força da juventude e quando não haviam vozes a chamando de “vovó” enquanto pequenos pezinhos corriam pela casa.
“Sim”, imaginava. “O tempo passa e as lembranças ficam.” Agora estava com cinquenta e seis e, trinta e nove anos depois, ainda sentia aquele vazio em seu peito.
A Saudade de tudo era o que mais machucava. Saudade do que viveu e saudade do que não havia vivido.
O vento soprou novamente e ela fechou os olhos para absorver melhor os sentimentos que mar lhe trazia naquela manhã. Quando voltou a abri-los dois pares de grandes olhos castanho-escuros lhe fitavam e ela sorriu.
— Bom dia Bianca. Dormiu bem?
— Bom dia vovó, dormi sim. Por que estava de olhos fechados?
Isabel olhou atentamente para Bianca e o garotinho que estava ao lado dela, provavelmente da mesma idade que a menina.
— De olhos fechados nós podemos escutar melhor o som do mar, meu amor. — sorriu — Não vai me apresentar esse rapazinho?
— Claro! — Bianca sorriu — Esse é o Miguel. Ele mora naquela casa bonita e azul que passamos em frente quando estávamos vindo para a casa de praia. — ela parou de falar, olhou para baixo, e depois olhou para a avó novamente — Na verdade, vovó, nós queríamos te fazer uma pergunta.
Isabel, vendo que os dois estavam um tanto envergonhados, sorriu e disse que poderiam perguntar qualquer coisa, então Bianca continuou:
— Vovó, você acredita em amor verdadeiro?
Isabel se surpreendeu. Não esperava essa pergunta de uma menina de 12 anos, porém ela sabia que a neta sempre fora mais parecida com ela do que com a mãe.
— Acredito sim, meu anjo. Acredito com todo o meu coração. Mas porque a pergunta?
Bianca adquiriu um semblante triste e se sentou ao lado a avó. Miguel, que até então não falara nada, sentou-se também, segurando uma das mãos de Bianca entre as suas. Bianca sorriu para ele e disse:
— Se importa de pegar um copo de suco para mim?
— Sem problemas — ele respondeu — Volto já. — Deu beijo em seu rosto e foi em direção à cozinha.
Isabel olhou para a neta com um sorriso brincalhão, mas não disse nada, deixou que a garota continuasse.
— Há duas semanas eu estava caminhando na praia, pegando conchinhas para a minha coleção, e foi quando eu conheci o Miguel. Ele estava sentado em uma daquelas rochas grandes que tem lá na frente e quando me viu tentando controlar meu cabelo que o vento insistia em bagunçar, sorriu, veio até mim e colocou algumas mechas atrás da minha orelha. Ah vovó, naquele momento meu coração não era mais meu e eu não sabia se poderia ficar com as bochechas mais vermelhas do que já estavam. — ela parou um segundo para ver se a avó estaria pronta para rir dela, mas quando viu que a senhora sentada ao seu lado estava prestando atenção em cada palavra que dizia, continuou — Nós caminhamos juntos, conversamos, e daquele dia até hoje, cada segundo que temos disponível, nós estamos juntos. Mas eu estou triste vovó porque nós vamos embora na semana que vem. Quando fui tentar conversar com mamãe sobre o quanto eu estou infeliz, ela riu de mim e disse que os livros que leio estão me deixando boba. Disse que vou conhecer várias pessoas no decorrer da minha vida e que ter conhecido ou não o Miguel não terá importância nenhuma para mim daqui alguns anos. Mas eu sei que isso é mentira vovó. Eu sei o que eu sinto, só não sei como reagir à distância que vai existir entre nós quando eu for embora.
Isabel não sabia o que dizer diante daquela revelação. Nunca imaginou que Bianca, a garotinha que ainda corria para ela toda feliz quando ganhava um livro novo, fosse capaz de usar palavras tão sentidas, muito menos de ter sentimentos tão profundos, tão cheios de ternura e medo, por um garoto. Ela então suspirou e disse:
— Sabe Bianca, pode ser que sua mãe tenha razão. Pode ser que tudo isso não passe de empolgação inspirada pelo lugar lindo e naturalmente romântico no qual estamos. Pode ser que daqui seis meses você esteja tão empolgada com o lançamento de um livro novo que, este simples livro, vai ser mais importante do que tudo o que viveu aqui. — Ela olhou o semblante triste daquela menina ao seu lado, e continuou — Porém, pode ser que tudo o que está sentindo seja verdadeiro, que seus sentimentos são os mais puros que existe. Pode ser que quando saia daqui, metade do seu coração fique com esse garoto e você vai passar cada dia da sua vida desejando estar ao lado dele. Você vai crescer, vai se tornar uma mulher maravilhosa, e acima de tudo, uma mulher que nunca irá desistir de acreditar que encontrará aquele menino novamente e sentirá tudo o que sentiu nos momentos em que estiveram juntos.
Bianca ficou surpresa com a resposta da avó e não conseguiu dizer nada pelos próximos dois minutos, até que Miguel chegou e lhe entregou o copo com suco de morango, seu preferido.
Ela agradeceu bebeu em silêncio absorvendo tudo o que Isabel havia lhe dito. Miguel olhava atentamente para o mar enquanto acariciava de leve a mão de Bianca.
Observando aquela cena, aquele casal de jovens vivendo as dificuldades de um primeiro amor tão inocente e injusto, Isabel se lembrou de quando ainda acreditava que, em algum lugar, existiria um romance de novela esperando por ela. Ela acreditava sim em amor verdadeiro, afinal ela havia vivido um, mesmo que por pouco tempo. Porém ela também sabia que a realidade era cruel e que sem forças suficientes, era impossível fazer o amor entre duas pessoas durar para sempre, mesmo que o sentimento dentro dela nunca tenha morrido.
— Bianca, meu amor. Vocês gostariam de ouvir uma história? — perguntou Isabel quebrando aquele silencio.
— É uma história real? — perguntou Miguel, interessado
— É sim querido.
— Eu quero! — respondeu Bianca com uma faísca de animação por trás de uma lágrima que escorria sem querer. — Vovó, você deixa eu anotar os detalhes enquanto conta? Se for uma boa história, um dia vou escrever um livro baseado nela.
Isabel sorriu e disse:
— Pode sim, menina. Agora, cubram-se com essa manta, o vento que vem do mar é gelado essa hora da manhã. Vou buscar uns biscoitos que fiz, estão quentinhos. Só um minuto.
Enquanto colocava os biscoitos em um prato para que as crianças pudessem comer, ela imaginava quais sentimentos, ao reviver o passado, ela traria de volta. Não sabia se era uma boa ideia, mas gostaria de reviver tudo aquilo novamente. Mesmo que fosse apenas em suas memórias.
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