Cartas para um Amor Imaginário
3 Capítulo 2
— Mas vovó, — Bianca perguntava empolgada com história — Você chegou a conhecer ele pessoalmente?
— Sim Bia, nós nos encontramos uma vez. — Isabel olhou para o mar tentando não deixar que algumas lágrimas caíssem enquanto se lembrava daquele dia.
Bianca percebendo como a avó estava se sentindo, pegou as mãos dela carinhosamente, olhou-a nos olhos e disse:
— A senhora realmente o amou muito, não é vovó?
Isabel esboçou um sorriso triste e fez que sim a cabeça.
— Eu o amei com todo o meu coração, e sei que aqui, dentro de mim, esse amor nunca se foi totalmente. Eu me controlo ao máximo para não me deixar levar pela saudade e ler novamente as cartas que ele me mandou. Cartas estas, eu já li e reli mais vezes do que posso contar.
— A senhora ainda tem todas as cartas que ele te enviou? — perguntou Miguel.
— Tenho sim, querido. Isso não é uma coisa que a gente jogue fora, sabe. São como pedaços do meu coração.
— Você nos deixaria ver as cartas, vovó?
— Eu não as trouxe comigo, estão em casa. Tenho apenas uma que eu sempre levo comigo aonde eu for. É como um pedacinho de mim naquele papel. — Isabel pensou um pouco, depois se levantou — Está tudo bem vocês lerem. Venham comigo até meu quarto.
As crianças se levantaram e seguiram a avó, que mantinha um sorriso um tanto triste e distante no rosto.
No quarto, Bianca e Miguel se sentaram na cama enquanto Isabel pegava dois papeis dobrados, amarelados pelo tempo, de dentro de um livro que estava na cabeceira da cama.
— Aqui está, vocês podem ler. Vou estar sentada na varanda, quando terminarem coloque de volta dentro do livro, por favor. — Ela sorriu.
— Vovó, posso fazer só mais uma pergunta? — Isabel assentiu e Bianca continuou — Porque vocês nunca mais se encontraram? Porque não ficaram juntos? Eu sei que ele não é o vovô, o nome é diferente.
Isabel pensou, e suspirou antes de responder.
— Porque o destino adora nos pregar peças, Bia. E o destino quando se junta com a distância, é capaz de nos deixar loucos. Eu só queria ter sido mais forte que tudo isso e ter enfrentado os obstáculos para viver o amor que eu sonhei desde menina. Mas a gente cresce. E os adultos se esquecem da beleza do amor, a beleza de se arriscar, de viver o que deseja sem se importar com as consequências. Sem perceber, vamos perdendo o que sonhamos e, quando percebemos isso, já é tarde demais.
Bianca assentiu, sem palavras. Depois que a avó saiu, ela olhou para Miguel e os dois abriram a carta e começaram a ler.
“Querida Isabel, eu escrevo como um louco tentando, em vão, colocar em palavras os sentimentos que crescem cada vez mais dentro de mim.
Eu já não tenho mais vontade de abrir os olhos, sendo que é quando estão fechados que posso enfim te encontrar.
Não sei o que aconteceu comigo. Desde que me vi apaixonado por você, sinto-me insano, capaz de fazer qualquer coisa só para estar ao seu lado.
Tudo o que eu queria era poder olhar em seus olhos, segurar suas mãos e te prender em um beijo calmo e apaixonado, como sempre sonhei te dar.
Ontem a noite, antes de dormir, eu fechei meus olhos ao som de uma música bonita, e tudo o que me vinha à mente era nós dois.
Nós dois de mãos dadas, caminhando descalços pela areia da praia, olhando o sol se pôr.
Ninguém precisava dizer nada, o silêncio e os olhares que trocávamos dizia tudo.
Sua mão na minha era o mais novo sentido de proteção, segurança, carinho.
Nós paramos de frente para o mar, o vento brincando de bagunçar nossos cabelos. Juntos olhamos para trás. Estávamos bem longe da casa, ninguém poderia nos ver.
Então nos olhamos e foi como se tudo ao nosso redor soubesse que fomos feitos um para o outro.
O vento, gentilmente, levava seu rosto para perto do meu. Seu sorriso leve e lindo.
Ninguém precisava dizer mais nada. Ninguém nos julgaria. O mar era nosso juiz e as ondas, a mando dele, nos dizia em sussurros, para que nos aproximássemos. E foi isso que fizemos.
Nos aproximamos num beijo lindo, calmo como o vento e que logo se tornou voraz como as ondas.
Os sussurros das ondas, o toque do vento. Tudo parecia conspirar para que o momento fosse perfeito.
Mas a música acabou, me forçando a abrir meus olhos e deixando que uma lágrima solitária se soltasse.
Esses pensamentos que me tomam, torturam, me levam pra perto de você, ao mesmo tempo insistem em me mostrar o quão longe estou de ver todos os meus sonhos se tornando realidade.
Então, coloco outra música, fecho os olhos e, mais uma vez, por aproximadamente quatro minutos, somos apenas nós dois.
Ah minha Isabel, meu amor, mesmo correndo o risco de você me achar um louco, quero te pedir uma coisa. Feche os olhos e nos imagine.
Pense no que eu passo as noites a sonhar.
Imagine por um momento que tudo o que importa somos nós dois.
Deitados juntos sob as estrelas, ou abraçados olhando o mar.
Sonhando com o dia em tudo vai dar certo para nós.
Que somos a personificação do amor.
Caminhando juntos, mãos dadas, o coração quieto e a alma em paz.
Somos o que somos e sentimos o que a vida nos deu para sentir.
A única coisa que desejo, mais do que tudo no mundo, é poder viver meus sonhos com você. Nem que seja por apenas um dia.
Não sei quanto tempo mais vou aguentar ficar longe de ti. E quando minha alma estiver cansada de tanto esperar e meu coração machucado demais para aguentar mais um dia sem você, espero que aceite fugir comigo. Iremos para onde quiser ir. Qualquer lugar com você é o paraíso para mim.
Eu amo você.”
Com os olhos cheios de lágrimas, Bianca dobra a carta e olha para Miguel. Ele, vendo como a menina estava prestes a desabar, a abraçou apertado e esperou que ela colocasse para fora do coração o que tanto a machucava.
— Eu não quero nunca sofrer dessa forma, Miguel. Enlouquecendo em meio a devaneios. — disse em meio as lágrimas.
— Eu nunca vou deixar que você se sinta assim. E também, nosso caso é diferente. Eles nunca tinham se encontrado até então, por isso a única opção era se imaginar nos braços um do outro. E a imaginação é um vício. Já nós dois, nós nos conhecemos pessoalmente. Não precisamos imaginar como seria, porque nós já vivemos e sabemos como é quando estamos juntos. — ele parou um momento e colocou as mãos no rosto de Bianca, enxugou algumas lágrimas e disse — Eu sei como é olhar em seus olhos, te abraçar, te ter por perto... — e com os olhos fixos nos olhos dela, disse por fim — E eu sei qual é a sensação de te beijar. — se inclinou e colocou seus lábios nos dela da forma mais carinhosa do mundo.
O beijo durou apenas três segundos, mas foi o suficiente para acalmar o coração da menina, fazendo com que ela sorrisse da forma mais linda que Miguel já havia visto. “Com certeza,” pensou ele “nunca irei me esquecer desse sorriso.”
Desviando o olhar, envergonhada, Bianca disse:
— Eu faria qualquer coisa para ver a vovó feliz. Para fazê-la sentir novamente o que eu estou sentindo agora.
— Eu tenho uma ideia! — disse Miguel, subitamente, fazendo Bianca se assustar — Eu tenho certeza que o Fernando nunca se esqueceu de sua avó. Um amor tão grande assim não se perde sem deixar rastros. E se nós tentássemos encontrá-lo?
— Encontrá-lo? Como Miguel? Nós só temos o nome dele. E ele não deve ser o único do mundo a se chamar assim.
— Podemos tentar encontrar parentes e, aos poucos, tentar chegar até ele. Podemos começar pela internet. Não custa tentar.
— Mas... E se ele não quiser ver a vovó? Ela ficaria arrasada.
— Ela não precisa saber, Bia. Se tudo der certo, poderemos fazer uma surpresa boa para ela. O que acha.
— Eu não sei, Miguel. Acha que conseguiríamos alguma coisa?
— Como eu disse, não custa tentar. Podemos ir para a minha casa e começar a busca. O que acha?
Bianca pensou por um momento, depois sorriu e assentiu com a cabeça. Colocaram a carta dentro do livro, pegaram as anotações que Bianca fizera com a parte da história que a avó havia contado e correram em direção à casa de Miguel, onde começariam sua busca pelo amor verdadeiro de uma senhora que havia perdido as esperanças.
Fale com o autor