Cartas para o Universo
2 Amor Feral
Notas iniciais
O que de bom pode nascer da destruição? Não foi hoje nesse quarto trancado que demos errado. Nascemos fadados ao fracasso e você sabe. Eu era o brinquedo dos sonhos quebrado em um antiquário. Você sabia que peças faltavam, mas não se incomodou em arrumar, acho que teve medo de perder, precisar devolver o brinquedo ao dono original, mas a questão é que nunca tive dono.
Estávamos no topo do nosso universo particular. Forcei-me a acreditar que você era tudo que eu precisava e durante muito tempo essa máxima foi real. Você era meu fogo, meu calor, meu caos controlado e eu era gasolina, pólvora, uma bomba prestes a explodir e buscávamos o prazer que há na dor. Eu sabia que nunca teríamos uma chance, eu estava quebrado e você não estava lidando com isso, mas eu me agarrei com todas as minhas forças a qualquer coisa que me ligasse a você.
O começo do fim... A dependência competia com o amor. Você que era simples, virou uma extensão do meu caos, eu absorvi tudo de bom que existia em você. Me permiti o toque, descobri o beijo, me entreguei ao desejo, em troca roubei você de si. Um paraíso sem regras, o jogo de poder sempre corrompeu nossa relação. Quem magoa mais? Quem resiste mais as magoas? Foi assim desde o começo, criamos o Natal para esconder nossa farsa, justificar nossos erros e enfeitar nosso futuro.
A morte era certa e a gente brincou com os riscos, isso que nos movimentava, era assim que nos sentíamos vivos. Você me odiava na sala e me fodia na cozinha, gritar comigo era simples, Beijos quentes depois da raiva, sufocamento com segundas intenções, no limite do risco, sempre na beira do abismo, a um passo de se jogar no fim. Eu olhava no fundo dos seus olhos e pedia socorro... Eu fui uma farsa de mim mesmo durante anos, atuando estar vivo, fingindo sorrisos, me perdendo no nada, eu viajava, me desconectava, fugia de mim e você sabia... mas não ligou.
Não tinha mais nada de você pra sugar e nosso equilíbrio caótico rompeu. Você não me amava mais, retornamos ao jogo de poder. Não podíamos aceitar que depois de tanta destruição seguiríamos separados... Do que adiantou tanta dor então? Você amou minha liberdade tentando me prender, você amou meu caos querendo que eu fosse controlado, você amava minhas diferenças tentando me tornar igual. Eu não te culpo por isso... Eu sempre tive ciência do que estávamos fazendo, mas parte de mim queria ser consertado. Eu sempre acreditei que você estava tentando me arrumar e me proteger do mundo, mas essa função não era sua e eu não tinha o direito de jogar essa responsabilidade em você.
Eu te via com a pureza de uma criança, corria em sua direção como alguém que encontra a paz, confortavelmente alojado em seu abraço e durante anos você me olhou como se eu fosse seu mundo, até que você parou de me enxergar. Não éramos mais movidos pelo fogo, tudo que tinha pra queimar foi queimado. Começamos com uma pessoa quebrada, terminamos igualmente derrotados. Essa batalha não teve vitorias, empatamos, te mostrei todas as minhas fraquezas e te conduzi rumo ao punhal que você cravou no meu peito, mesmo assim você é muito melhor que eu... Você me golpeou de frente com toda a honra que existe em seu ser.
Mesmo com todo o barulho da guerra que travamos, eu vejo você sorrir pra mim do outro lado do campo de batalha, gentilmente me convidando para baixar as armas e nesse momento eu imploro aos céus para ser normal, eu quis com todas as minhas forças ter uma vida simples com você. Uma casa com vários cachorros e um despertador no mesmo horário de segunda a sábado. Eu podia aceitar uma vida de cafés da manhã na cama, afinal nunca te faltou romantismo, anos seguidos de presentes horríveis, deitar no seu peito ouvindo música alta, caminhar de mão dadas sem rumo, cozinhar coisas incríveis para comer e conhecer lugares não tão bons assim...
Labirinto de espelhos, lado a lado e nunca juntos. A gente se perdeu... Quando você me reencontrou eu já não era mais eu e você não era mais meu, então eu acendi o fósforo e deixei queimar o resto de nós dois que restava, mesmo sabendo que não tinha nada pra queimar.
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