Notas iniciais
Obrigada pela leitura!

O estado de Sakura, como ela mesma poderia definir, era de pura angústia. O dia inteiro ela ouviu Ino falar sobre Sai e os problemas que enfrentava com ele no relacionamento, e sentiu-se mal por não conseguir oferecer a devida atenção. No entanto, estava em estado completo de atordoamento, não podia se concentrar em qualquer coisa que Ino falava, era como se Sakura mal existisse naquela dimensão, sua mente completamente absorta no misterioso Sasuke Uchiha.

Agora, somente agora, ela pensava em como ele poderia ser um maluco, um completo maluco que agora sabia seu endereço. Não apenas o endereço, o seu nome completo. Sakura queria enfiar a cabeça na terra, esconder-se ali e esperar ser engolida de alguma maneira. Pensava que deveria trocar as fechaduras e avisar a segurança do prédio que qualquer homem que se chamasse Sasuke estava proibido de entrar. Pensou, em completo desespero, que talvez ele não se chamasse Sasuke, um pseudônimo qualquer para enganá-la… Havia algum golpe assim ultimamente? Pessoas que encontravam casas pela internet e matavam os residentes?

Enquanto Ino tagarelava sobre outro assunto, Sakura pensava em quem seria Sasuke e se deveria pesquisar pelo nome dele na internet. Bom, se a internet fornecia endereços, então poderia muito bem fornecer nomes. De qualquer maneira, não deveria ser difícil encontrar um caso em que pais foram mortos pelo próprio filho. Sakura mordeu os lábios… E se na verdade era Sasuke o assassino e agora procurava uma nova vítima?

— Sakura você está bem? — Ouviu a amiga perguntar, um pouco irritada, pelo que percebeu. Sakura arregalou os olhos, há quanto tempo Ino tentava chamá-la para o mundo real?

— Eu… Eu estou um pouco nervosa. — Admitiu à amiga, sabendo que talvez ela pudesse ser a única pessoa que a entenderia. Ainda assim, sentiu que talvez nem a melhor amiga seria capaz de compreender por completo o que estava acontecendo.

— Que ocorreu? É Shikamaru? — A expressão de Ino mudou, sabia que Shikamaru podia ser difícil em muitos momentos e que frequentemente Sakura se chateava com alguma coisa. Usou aquilo como sua saída.

— Sim! — Ino se sobressaltou com o tom da amiga, que foi mais alto que o esperado. — Bem, ele pareceu chateado ontem com a minha bolsa de estudos… Não nos falamos mais desde então.

Ino pareceu pensar um pouco no assunto, para o alívio de Sakura a amiga ficaria pensando nisso o resto da conversa. Dessa maneira, o desconforto de Sakura estava explicado e ela não precisava falar nada sobre Sasuke Uchiha. De alguma maneira, Sakura se sentia um pouco imbecil de não falar disso com a amiga, se ocorresse algo, Ino seria a única que poderia dizer alguma coisa… Sakura pensou se não seria uma daquelas pessoas que somem de repente e ninguém sabe do paradeiro, porque a pessoa escondeu a verdade de amigos e parentes.

— Já sei! — Sakura se sobressaltou, ouvindo a amiga com atenção, quase como se esperando uma resposta para os seus pensamentos. — Shikamaru só deve estar ansioso, pensando que pode te perder, amiga.

— Me perder? — Sakura franziu o cenho.

— Claro! Você é bonita e inteligente, e ainda por cima estará sozinha em outra cidade, completamente nova… Prato cheio para qualquer outro cara te rodear. — Ino pontuou as qualidades de Sakura como se fossem óbvias. No entanto, a garota não pensava que esse era o único motivo para que Shikamaru estivesse incomodado, não disse isso para a amiga, porém.

Concordou lentamente com a cabeça.

— Bem… — Começou, observando Ino com atenção, ela estava realmente ansiosa pelo que Sakura diria, mais que o normal. — Posso concordar, realmente. Ao menos, faz sentido tudo o que você apontou. — Ino sorriu com a resposta da amiga e ficou simplesmente extasiada com a concordância de Sakura.

A amiga não percebia como Sakura estava ainda infeliz, acreditava que era porque tentava enfrentar o problema e resolveu que continuar pressionando a menina, poderia ser um problema. Sakura, por outro lado, estava infeliz pensando no misterioso homem que a encontrou por meio da internet, enviou uma carta e ainda por cima agora sabia seu nome completo.

Enquanto Ino arrumava as coisas para ir embora, Sakura pensava no endereço de Sasuke… Acreditava que era perto, talvez umas sete horas de viagem? O correio deveria levar um dia se as cartas fossem enviadas logo cedo, dependendo do dia… Pensou que como enviou uma carta no primeiro horário de um dia útil, era bem capaz que Sasuke pudesse ler sua carta agora. Calculou quanto tempo ele levaria para responder. ele responderia?

Por que não responderia? Sakura não conseguia imaginar porque alguém procuraria uma estranha como uma forma de pedir ajuda e simplesmente sumiria. Bem, há muitas razões racionais para que Sasuke Uchiha nunca a respondesse, mas Sakura já não pensava racionalmente. Despediu-se de Ino roboticamente, com Sasuke dominando sua mente… O que ele responderia? Será que enviaria uma carta tão prontamente? Ela poderia esperar por uma carta dele no dia seguinte, se ele também enviasse no primeiro horário.

Seus pais estariam na cidade, teria alguns compromissos com eles, sabia disso e não poderia desmarcar. Leria a carta somente na parte da noite, se ela chegasse na tarde seguinte. Era um grande se a chegada dessa carta misteriosa.

De qualquer maneira, Sasuke poderia simplesmente não respondê-la. Ela fora atenciosa, franziu o cenho para si mesma, por que Sasuke não a responderia? Para começar, porque era uma história estranha demais essa, uma estranha respondendo uma carta misteriosa? Certamente que ele veria razão em algum ponto dessa trajetória e Sakura seria apenas a menina boba que cometeu o deslize de enviar uma carta com seu nome completo e endereço. Ok, poderia aceitar aquilo como resposta, poderia ser a menina boba que respondera uma carta maluca. Mostraria apenas que ela era inocente demais, pensou enquanto se preparava para dormir, e esperando que o dia seguinte não fosse um problema.

(...)

Sakura não sabia a quem realmente ela tentava enganar. A primeira coisa que fez ao acordar foi checar a correspondência: nada. Ficou frustrada. Bom, não esperava que Sasuke Uchiha fosse perder o tempo dele enviando uma carat tão tarde da noite para que ela recebesse logo pela manhã, no primeiro horário. Todos sabem que as cartas enviadas de madrugada são aquelas que chegam mais rápido, um mito que se mostrava bem real. Ainda assim, Sakura ficou frustrada.

De hora em hora, checava a caixa do correio, perguntava pela correspondência na segurança do prédio e até mesmo chegou a conversar com sua vizinha em busca de uma correspondência perdida. A carta não chegara e não haveria como chegar no tempo que ela imaginou. Bufou um pouco e resolveu se arrumar o mais languidamente possível para encontrar seus pais. Tentaria atrasar aquele encontro de alguma maneira, assim talvez pudesse ler a carta antes do jantar.

Mesmo as tentativas de Sakura em secar o cabelo e se maquiar duas vezes, alegando para si mesma que a primeira tarefa não estava boa o suficiente, não foram suficientes para atrasar a garota o suficiente. Nenhuma carta chegou nesse meio tempo e de repente Sakura pensou em todo o sistema dos correios do país. Ele era muito bom, achava que o governo podia muito bem se orgulhar do funcionamento daquela entidade… Ainda assim, estava sendo completamente ineficiente quando Sakura mais desejava receber uma carta.

A caminho do restaurante pensou porque desejava tanto uma resposta de Sasuke Uchiha… Talvez fosse a melancolia do garoto em relatar a tragédia de sua família, afinal, se ele precisava recorrer a uma estranha completa, certamente que estava sozinho. Sakura sentiu um embrulho no estômago, pensava que ele estava desamparado e não podia deixar de imaginar como estava desesperado por atenção se decidiu recorrer àqueles meios para se comunicar com alguém de fato.

A primeira parte do jantar podia simplesmente ter acontecido sem a presença de Sakura, estava angustiada com a perspectiva de Sasuke de repente ter seguido um rumo completamente diferente. Cartas de suicídio, era nisso que pensava, e se aquela era uma carta de suicídio? Teria ele recebido a carta de Sakura? A carta dela seria uma forma dele se agarrar à vida? Empalideceu com a perspectiva de simplesmente nunca saber o que aconteceria com o garoto misterioso se aquela fosse sua última carta… Sakura poderia fazer algo?

— Filha, você está bem? É só uma diminuição… — A mãe de Sakura demonstrava extrema aflição com a brancura que perpassou o rosto da filha repentinamente. Sakura pensou que o tópico da conversa poderia ser preocupante, realmente e tentou focar no que diziam.

— Hein?

— Sei que parece difícil diminuir os gastos, mas é necessário, querida… Com a bolsa talvez seja mais fácil. — Foi o pai de Sakura quem falou agora e então ela entendeu porquê estavam ali.

— Ah! — Sobressaltou-se. — Não é um problema realmente. Não me importo de diminuir alguns gastos se for um problema… Posso usar minha poupança também, qualquer coisa.

— Não, minha menina, sua poupança está completamente fora de cogitação, ela ainda é sua e não deve ser usada. Guarde mais suas economias com algo para você. — respondeu a mãe com doçura. — São apenas alguns gastos que podem ser substituídos facilmente, menos fast-food, por exemplo. — E olhou para a filha como se ela fosse quase obesa, ainda que Sakura estivesse em um peso completamente saudável. Segurou o impulso de revirar os olhos simplesmente.

— Mas não pense que esquecemos do seu aniversário, ainda pode pedir o que quiser… Um carro talvez? — O pai riu da própria piada e Sakura segurou o riso também. Sabia que os pais fariam de tudo para presenteá-la aquele ano, principalmente com a bolsa de estudos que recebera, eles tentariam dar o que ela pedisse, mesmo um carro.

— Preciso pensar um pouco mais… — E o assunto do presente se encerrou por ali, mesmo os gastos não foram citados. Por algum motivo, Sakura imaginou que estava sendo fútil por empalidecer no momento em que falaram dos gastos, mas sabia que sua mente nem estava na conversa.

Observou os pais e sabia, de alguma maneira sabia, que o pai não acreditava nem por um segundo que ela era fútil. Seu olhar, carinhoso e severo ao mesmo tempo, demonstrava a preocupação de um ente querido quando o outro não estava bem. Ainda assim, não ousou tocar no assunto, temendo que a angústia de Sakura pudesse ser algo muito difícil de lidar no momento… Bom, pensou Sakura, cada um consegue lidar da sua maneira.

Seus pais não pareceram se importar muito que Sakura não estivesse muito presente naquela noite. Ao menos, não tocaram no assunto em momento algum e deixaram que a menina ficasse absorta em seu próprio mundo, imaginando se Sasuke Uchiha estava bem. Quando chegou em casa e viu uma carta em sua caixa de correspondências, sentiu o coração saltar por meio segundo, mas era apenas uma cobrança de seu banco… Teria que resolver no dia seguinte, porque agora só queria dormir para esquecer da existência de Sasuke Uchiha.

Ao acordar, porém, sabia que não havia esquecido o garoto. Foi a primeira coisa em que pensou ao amanhecer e seu coração parou uma vez mais quando viu que a correspondência da manhã já aparecia em sua caixa… Aproximou-se devagar e procurou, tentando parecer despreocupada para si mesmo, a carta que poderia ser de Sasuke. estava ali.

Não tentou se enganar nem por mais um momento, rasgou o envelope e leu a carta ali mesmo, de pé e de camisola, sem nada no estômago e certamente nada preparada para os compromissos do seu dia. Não achava que Sasuke Uchiha se importaria com uma coisa daquelas, afinal, riu para si mesma, ele nem sabia disso. Leu a carta com ávida atenção, procurando por qualquer sinal de que o garoto não estava bem e planejava se suicidar por conta da tragédia.

Querida Sakura Haruno,

Acho que devo iniciar essa carta primeiro agradecendo por responder um completo estranho, mas também a lembrando de que sou um desconhecido e talvez você não devesse responder minha carta em primeiro lugar. Assim, devo perguntar qual a sua idade e se os seus pais sabem que você está se comunicando com um estranho. Ficarei mais aliviado, se bem que de certa forma você poderia simplesmente mentir para mim, o que ainda assim seria um risco.

Obrigado por querer me ouvir, acho que ainda estou um tanto quanto machucado pelo que aconteceu. Meu irmão foi preso recentemente e me envia cartas semanalmente para que eu o visite, acho que deixarei que elas acumulem, ainda não sei. O problema, porém, não é nem essa necessidade do meu irmão de me ver, mas a falta que minha família de repente fez… Parece, e isso pode soar muito estranho (não que essa situação seja normal), que minha mãe ainda está pela casa de alguma maneira, penso muito nela nos últimos dias, principalmente quando preparo batatas assadas, algo que tenho evitado desde que eles morreram.

Eu não sei se você acredita em vida após a morte, eu não sei nem se eu acredito nessa possibilidade, mas não acho que minha mãe realmente se foi. Ao menos, não quero acreditar nessa possibilidade, porque é mais doloroso se ela ainda estiver por aqui. Talvez eu deva procurar um novo apartamento, ainda que eu não queira gastar toda a minha herança até que eu tenha certeza de que meu irmão nunca poderá me assombrar novamente. Penso que talvez eu nunca realmente me livre dele, mesmo que eu mude o endereço e as cartas parem de chegar, ele sempre será essa presença em minha vida, aquele quem matou a minha família.

Não sei realmente o que fazer e não espero que você possa mostrar o melhor caminho, seria exigir demais de você que essa situação inteira pudesse ser resolvida de repente, e simplesmente porque eu decidi me comunicar com uma desconhecida. Creio que nesse momento, posso apenas agradecer por ouvir (ler) minhas palavras, elas são de grande ajuda, afinal, posso externar algumas coisas que me são ainda estranhas, como a presença de minha mãe em casa.

Aliás, não quero tornar as cartas muito mórbidas (ao menos, mais do que já são) e gostaria de ouvir sobre você também, se assim você quiser. A escolha é sua, no fim das contas, em continuar nossa correspondência.

Ternamente,

Sasuke Uchiha.

Sakura sorriu, soltando a respiração, sem notar que a prendia.