Cartas para Lucy
10 39 dias: Sobre (não) seguir em frente
Notas iniciais
Querida Lucy,
Depois de muitos dias, finalmente voltei a guilda. Ao contrário da última vez que estive lá, as coisas estavam mais animadas. Quase a Fairy Tail de sempre.
Quase.
Apesar de toda a alegria costumeira dava para sentir o ar meio tenso, com algumas partículas de tristeza a espera.
Mesmo assim, todos sorriam e, de certa forma, se divertiam.
A princípio isso me deixou pasmo. Mas apenas para vir a raiva depois.
Como eles conseguiam se divertir com você estando perdida por aí?
Como eles ousam sorrir com você tão longe de casa?
Estranhamente – ou nem tanto – tudo se aquietou assim que cheguei.
Foi como os primeiros dias que se seguiram a sua partida. Tudo ficou quieto, apenas o som dos meus passos sendo ouvidos e, novamente, uma nuvem de tristeza se instaurou por ali.
E, ah, estava tudo tão tenso que era quase papável.
Mira tentou sorrir e dizer algo como um “bem-vindo de volta” que soou tão baixo que quase não pude escutar. Cana repousou o barril que estava bebendo ao seu lado. Erza me encarou por alguns segundos antes de abaixar a cabeça, mordendo o lábio inferior. Gray abriu a boca, seu rosto contorcido em uma careta, preste a gritar algum insulto, mas tornou a fechá-la. Juvia apenas abraçou-o e murmurou um “tudo bem. Tudo vai ficar bem, Gray-sama” que, em resposta, não tentou afastá-la.
E, ah, nem mesmo o mestre parecia se espantar com o fato de todos estarem agindo dessa forma.
Porquê, é claro, eles podiam seguir com suas vidas longe de mim. Porém, comigo ali, os punhos cerrados e – tenho certeza – um olhar que misturava dor e raiva, ninguém tinha coragem de abrir um sorriso.
Ninguém, exceto Lisanna.
Ela foi a única que abriu um enorme sorriso e, sem nem hesitar, veio correndo em minha direção, me envolvendo em um abraço não retribuído.
Mira a chamou em uma repreensão baixinha, que foi prontamente ignorada.
Não consigo me lembrar direito o que ela gritava para mim enquanto eu me afastava em direção ao quadro de pedidos. Era como se ela estivesse atrás de um vidro, não importando o quanto gritasse, suas palavras não conseguiam me alcançar.
Ela só se calou quando Erza bateu a mão no balcão e gritou para que ela calasse a boca.
Novamente, ninguém disse nada.
Apesar de que podia ouvir alguns suspirarem.
Não olhei para o quadro, apenas estendi a mão e puxei o primeiro panfleto que estava grudado ali, sem me importar com que tipo de trabalho ou recompensa seria. Happy fungou ao meu lado, murmurando baixinho (mas de forma decidida) um “Aye, sir!”
Estava quase chegando a porta quando Asuka veio correndo atrás de mim.
Ela me abraçou, ofegante pela corrida, e pude sentir suas lágrimas antes mesmo de ouvir seus soluços.
“Natsu-kun, a Lucy vai voltar, não? Ela nunca nos abandonaria. Você está indo trazê-la de volta?!”
Passei as mãos em seus cabelos em um carinho silencioso e a afastei silenciosamente.
Happy abaixou a cabeça quando continuei andando em direção a saída, os gritos de Asuka partindo meu coração.
Porém, não havia forma de respondê-la.
Hey, Lucy, você vê o que está fazendo?
Olhe o estado em que fui obrigado a deixar Asuka.
Assim como eu e Happy, ela também sente sua falta.
E, sabe, apesar da guilda estar seguindo em frente, eu não consigo.
Eu não sou capaz disso, entende?!
Você deveria voltar logo para casa, Lucy.
Para que se manter tão longe?
Onde você está agora?
Happy e eu, finalmente, pegamos um trabalho.
O primeiro em trinta e nove dias. O primeiro desde que você se foi.
E, possivelmente, o último.
Vamos partir daqui a pouco e, agora que lhe escrevo, consigo entender que não poderei voltar mais a guilda.
Lá já não é mais o meu lar, assim como nenhum trabalho possui sentido em ser realizado.
Porque eu não consigo entrar na Fairy Tail sem me lembrar de você.
Hey, Lucy, você amava aquele lugar.
Você amou a guilda assim que a viu, diferente de todos nós que tivemos nosso problemas antes disso.
Quando fecho meus olhos ainda consigo ouvir você gritando meu nome, correndo com um sorriso no rosto enquanto exibia o carimbo da Fairy Tail em sua mão.
Você sorria de uma forma radiante naquele dia.
Hey, Lucy
Eu e Happy estamos largando a guilda por tempo indeterminado até que você retorne.
Então, vê se volta logo pra casa.
Com amor,
Natsu.
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