Cartas para Julieta
6 Quem é este senhor?
Notas iniciais
Todos caminhos trilham pra a gente se ver
Todas as trilhas caminham pra gente se achar, viu
Eu ligo no sentido de meia verdade
Metade inteira chora de felicidade
A qualquer distância o outro te alcança
Erudito som de batidão
Dia e noite céu de pé no chão
O detalhe que o coração atenta
(Tudo Diferente- Maria Gadú)
O primeiro dia de trabalho de Julieta e Camilo em São Paulo fora de agenda cheia, inúmeras reuniões com advogados, negociantes, compradores, tudo ia se desenrolando de maneira perfeita e harmônica; a nova proposta que mãe e filho haviam recebido ia completamente de encontro ao que planejavam para os negócios da família, poderiam expandir seus negócios para o setor industrial com comodidade, sem deixar de trabalhar com o café e a atividade pecuária, era quase um casamento perfeito; eles adquiriram uma pequena fábrica voltada a produção de sacas de café e demais embalagens necessárias à exportação mas com possibilidades de expansão tanto para a produção têxtil como para o setor alimentício, sabiam que os ânimos estavam exaltados no mercado europeu e era melhor prevenirem-se frente a possibilidade iminente de um conflito entre os países que eram os principais compradores do café.
Com o passar das horas a felicidade de Julieta por receber oportunidades concretas para seus negócios foi minando-se pouco a pouco graças ao cansaço misturado a um sentimento surpreendente de ansiedade em reencontrar-se com as cartas de Aurélio; ela não sabia explicar exatamente o porquê de sentir-se desta forma, talvez por saber e devido aos compromissos ela e Camilo ainda não poderiam voltar ao Vale, só sabia que não via a hora do dia acabar para correr até aquele pedaço de papel e depois ouvir a voz de seu amado ao telefone.
E assim ela seguiu o dia pensando o quão engraçada era aquela situação produzidas pelas cartas, é como se aquela volta as memórias comuns do casal a fizessem sentir as mesmas emoções e sensações do início do relacionamento, era como reviver o prenúncio daquele amor que preencheria completamente sua alma escura e vazia e transformaria seus dias nos mais felizes. Sentia naquele momento o gosto do início da paixão, as mesmas borboletas no estômago, o coração disparado, a vontade de cruzar com aqueles belos olhos azuis de Aurélio e se deslumbrar — e porque não se assustar- com a surpresa que cada encontro com ele trazia, sentir as mãos transpiram e o descompassar da respiração- “ e eu me achava a dona absoluta das minhas emoções, como fui tola”- riu alto com este pensamento.
— Que foi mãe? Porque a senhora está rindo sozinha? — disse Camilo- ambos estavam no carro dirigindo-se para mais um encontro de negócios.
— Não é nada meu filho, estava apenas recordando algumas destas passagens curiosas da vida e como ela é capaz de nos surpreender- Julieta fez uma pausa e suspirou — vou te contar algo interessante que me ocorreu esses dias, acredita que me deparei com várias cartas que Aurélio me escreveu e nunca me entregou? — disse emocionada, ela estava feliz por poder compartilhar com seu menino detalhes de sua vida, algo que ganharam desde a reconciliação.
— Sério dona Julieta? E o que havia nestas cartas que é capaz de transportá-la em pensamentos para longe daqui? — disse em tom de curiosidade.
— As cartas descrevem cada um dos momentos que antecederam o nosso relacionamento e como Aurélio se sentiu neles, são palavras tão doces, tão carregadas de amor e carinho- Julieta fez uma pausa e outra vez suspirou, era realmente surpreendente perceber o quão devoto a ela era seu marido desde o primeiro olhar, então concluiu- ah meu filho, Aurélio era tudo o que eu precisava e que eu não sabia que precisava, ainda bem que o encontrei.
Neste momento Camilo se aproximou de sua mãe, pegou as mãos dela com uma mão, com a outra secou uma lágrima que escorria solitária e disse:
— Minha mãe eu nunca lhe disse isso, mas admiro tanto a forma como Aurélio a ama, é algo tão sublime, com tanta dedicação e veneração, eu não conheço um homem tão apaixonado por sua mulher como ele é pela senhora — disse emocionado, beijando-lhe a testa- eu fico tão feliz que a senhora tenha alguém que a ame tanto, exatamente como a senhora merece.
Julieta sorriu, acarinhou as mãos de seu filho e seguiu compartilhando sobre suas cartas, Camilo a ouvia atentamente e se admirava por descobrir mais detalhes da vida de sua mãe que lhe haviam escapado. E assim seguiram naquela conversa entre mãe e filho até chegarem ao compromisso de trabalho.
O dia de Aurélio tinha sido bem diferente do de Julieta, ele havia ido trabalhar pela manhã para dedicar a tarde aos seus netos, Julietinha, Afrânio e Caetano, os gêmeos de Ema, na companhia de seu sobrinho Estilingue; o jovem moço havia se tornado um grande companheiro do tio e já havia decidido que em sua homenagem dedicar-se-ia futuramente a Medicina Veterinária. Assim o dia passou voando para o Botânico e ele não via a hora de contar a sua esposa os agradáveis momentos que tivera com as crianças.
Após o jantar Julieta decidiu dedicar-se a algo que a muito não fazia, tocar o piano, Camilo a acompanhou durante boa parte das execuções pois havia aprendido com ela a apreciar a música, porém com o passar das horas ele acabou se retirando, deixando a mãe sozinha. Ali na companhia das teclas e de suas peças favoritas de Chopin a Rainha do Café viu-se mais uma vez perder-se em pensamentos e quando se deu conta estava novamente pensando aquele belo par de olhos azuis que tanto amava; foi então que se recordou do combinado e se levantou para fazer o telefonema, antes disso decidiu passar no escritório e pegar a próxima carta para se possível compartilhar brevemente com ele aquelas letras.
Quando o telefone tocou na Fazenda Ouro Verde, Aurélio estava sentado ao sofá tendo em seu colo sua neta, ela amava estar na companhia do avô para ouvir histórias antes de dormir; foi então que lhe ocorreu uma ideia, executada assim que a ligação completou:
— Boa noite meu querido marido, como foi seu dia? — disse Julieta após ter a ligação completada.– Boa noite vovó, sou eu- disse a menina em sua voz suave e infantil.
— Meu amor, que saudades de você, me diga o que você está fazendo agora?- disse Julieta em meio a um sorriso, sentia seu coração encher de amor ao pensar em sua bonequinha dos cabelos claros e olhos castanhos como a noite- “iguais aos meus”- pensou orgulhosamente.
— Lendo com o vovô sobre cavalinhos. Te amo vovó, volta logo- disse completando a frase, já com voz sonolenta.
— A vovó também te ama minha bonequinha, agora vá descansar que eu sei que sua mamãe deve estar te chamando- pausou ao ouvir um suspiro- um beijo- concluiu docemente.
— Tenho certeza que ela também te mandou um beijo, vovó coruja, mas ela dormiu com o telefone na mão- respondeu Aurélio em meio ao riso- Como foi seu dia minha Julieta? O meu foi cercado de alegria, passei a tarde toda brincando com as crianças.
— Aurélio, como me acalenta ouvir sua voz meu amor — disse Julieta suavemente, em tom apaixonado- o meu dia foi muito agitado e cansativo, mas estou muito feliz, parece que faremos bons progressos em nossos negócios, além disso, é sempre uma alegria passar algumas horas com meu filho, acho que nunca conseguiremos recuperar o tempo perdido mas estamos cada dia mais e mais próximos, contei a ele de suas cartas- finalizou em tom de confissão.
— Ai meu Deus meu amor, e o que ele achou? Estou até envergonhado.– Ele adorou a ideia, disse que se pudesse faria o mesmo para que Jane soubesse como ele se sentiu desde que se conheceram- Julieta respirou e falou em tom sugestivo e animado- aliás, por falar em cartas estou com a próxima aqui em minhas mãos!
— Você quer ler agora? Embora eu ache que a telefonista vai nos interromper por segurar a linha por tanto tempo- disse Aurélio.
— Ah, verdade, espero que no futuro inventem uma forma das ligações durarem por horas sem cortes- afirmou Julieta em tom de protesto- que tal se fizermos o seguinte, desligamos o telefone, você vai e lê o meu diário, enquanto eu leio a sua carta e assim que terminarmos fazemos uma nova ligação?
— Acho uma excelente ideia meu amor, como todas as que você tem- disse conclusivo- voltamos a nos ligar em meia hora, te amo, não se esqueça nunca. – Você é mesmo um bajulador- disse em meio ao riso- até logo meu querido- finalizou e desligou.
Julieta se levantou foi até a adega e pegou uma taça de vinho, depois retornou a sala, retirou os sapatos, ajeitou-se no sofá- apoiando a taça sobre a mesinha- e pôs-se a leitura.
“Estimada Sra. Julieta,
Desde nosso último e conturbado encontro eu não consigo mais tirar a senhora de meus pensamentos, sigo completamente intrigado pela senhora, curioso em desvendar quem és e quais mistérios estão escondidos atrás desta enorme fortaleza negra. Sei que o tom o qual me dirijo a senhora talvez não seja dos mais respeitosos, mas quero que saiba, como já lhe disse anteriormente, que tenho por ti uma grande admiração que cresce constantemente a cada dia e a cada lembrança de seus doces lábios sobre os meus; este novo fato entre nós transforma o nosso assunto não mais em uma relação comercial e de negócios, mas de sentimentos; algo que eu gostaria muito de conversar com a senhora em algum momento, aliás era isso que eu pretendia fazer ontem a noite.
Achava que reunião organizada na casa do Coronel Brandão seria um fortuito encontro para nós dois, para colocarmos tudo nos termos corretos, já que ainda me incomoda a forma como finalizamos nossas duas últimas “reuniões”. Me parece estranho tudo o que nos envolve, algo estabelecido na mesma proporção entre brigas e algo a mais, uma conexão profunda, que faz algo vibra dentro do nosso interior, algo que resultou no nosso beijo e isto dona Julieta não é algo rotineiro, algo normal que acontece a cada esquina entre duas pessoas. Além disso, me parece que ultimamente todos os caminhos trilham para nos vermos e todas as trilhas caminham para nos acharmos, é como se eu te alcançasse independente das distâncias que a senhora impõe a mim.
Era sobre tudo isto que eu gostaria de lhe falar pessoalmente, até que fomos interrompidos por aquele senhor; a forma que ele a observou tão próxima e sobretudo a forma como lhe dirigiu a palavra chamando-a de minha querida me fez recuar, mais que isto, me devastou, foi como se meu coração se despedaça-se em mil pedaços, fazendo com que agora eu me encontre ainda mais confuso e me sinta um completo idiota, tomado por um ciúme que queima dentro de mim com toda força. Afinal quem é este senhor? Qual vínculo ele tem com a senhora? Só de pensar que talvez ele esteja com a senhora em uma relação de proximidade eu me desespero, por favor me diga que não há nada entre a senhora e ele.
Sei que eu posso lhe incomodar com esta impertinência, mas se de fato a senhora tem algo com este homem, eu não sei o que farei, pois algo contraditório se manifesta dentro de meu peito; ao mesmo tempo que quero me desculpar por tudo que lhe causei, quero mostrar-lhe que não há entre ele e a senhora o mesmo vínculo que temos comprovado concretamente no beijo que demos naquela festa; ele é prova da admiração que sinto pela senhora e desta energia que nos liga um ao outro.
Creio que algo está nascendo em meu interior e sentir ciúmes seja o prenúncio de um novo sentimento, creio que nosso assunto deva prosseguir para além de conversas ríspidas, permita-me ir além delas.
Com todo respeito,
Aurélio Cavalcante”
Julieta interrompeu a leitura por diversas vezes para rir da tolice de seu amado de fato Olegário o havia assustado e isto ela recorda bem, contudo, ela não sabia da dimensão e da imensidão que a presença daquele homem havia causado em Aurélio, ela sabia que ele queria explicações de quem ele era dados os encontros posteriores a aquele que tiveram na casa de Brandão mas não imaginava que aquele ciúmes tinha gerado no coração do Botânico a certeza de que algo novo nascia entre eles, o prenúncio de um grande amor. Embora ansiosa para rir do ciúme bobo dele ao telefone, ela decidiu esperar mais um pouco, permitindo-se finalizar sua taça de vinho.
No Vale do Café, Aurélio prosseguia com a leitura do diário de sua amada- “sem ela de corpo presente mas com ela em meu coração, cheiro e palavras”- pensou fazendo círculos naquelas páginas abertas.
“Vale do Café, Março de 1910
Hoje me encontrei mais uma vez com aquele senhor impertinente o qual tive o desprazer de sentir em meus lábios, sim ele mesmo, Aurélio Cavalcante, o dono dos mais belos e enfeitiçadores pares de olhos azuis, dono de uma gentileza e bondade que o faz insuportavelmente presente. Confesso que quando ingressei naquele ambiente onde ocorreria uma reunião sobre a tal figura do Motoqueiro Vermelho e me deparei com ele levantando da cadeira com a minha chegada, senti um frio percorrer de cima a baixo o meu corpo, tentei me fazer de imponente e fria mas na verdade por dentro eu sentia uma enorme fraqueza, que óbvio, não deixei transparecer por ser Rainha do Café, eu sou muito mais forte que qualquer emoção torpe tendo total controle delas.
Por sorte, a reunião tirou meu foco daquele homem e me levou de volta ao lugar de negócios que me cabe, ao me inteirar dos assuntos do Vale e me fazer conhecer meus possíveis adversários, caso daquele desprezível Xavier, que aliás teve a audácia de vir me cumprimentar após a reunião, eu claro o coloquei no devido lugar, os homens deste Vale gostam mesmo de ser impertinentes.
Após falar com este senhor, achei que eu estava livre para ir embora até que de repente lá estavam novamente aqueles olhos azuis penetrantes e aqueles lábios macios, os mais bonitos que já toquei — meu Deus acorde Julieta, olha que besteira estás dizendo — acho que devo novamente ir me confessar porque eu não consigo me esquecer deste pecado luxurioso, não consigo esquecer aquele, aquele, aquilo que aconteceu entre eu e este senhor no meu escritório em São Paulo no dia daquele maldito baile de máscaras. Como eu estava dizendo, de repente lá estava o senhor Aurélio novamente, outra vez fazendo-se presente, desta vez em uma proximidade que me deixou sem ar, tentei desviar falando de negócios mas ele insistentemente queria retomar o que dizia ser o nosso real assunto- nosso assunto, um sublime e assustador assunto — que eu não saberia como contornar -claro que saberia Julieta, você e a Rainha do Café e homem nenhum te tira do prumo-, felizmente, parece que os céus cooperam na manutenção de minha sanidade e me afastam de tudo que me traga confusão, ao enviar aquele doente do senhor Olegário que fingiu estar me acompanhando.
Claro que me incomoda a forma que este homem cortou a conversa entre eu e o senhor Aurélio, mas foi muito melhor assim. Eu não me renderei a cortejos baratos e me parece que talvez uma estratégia a utilizar seja ter algo que impeça este senhor de se aproximar de mim; só espero que ele não saia pensando que tenho outra pessoa, porque na minha mente não há espaço para mais ninguém além dele, quer dizer, além dos negócios que me interessam envolvendo a família Cavalcante”.
Aurélio nem pensou duas vezes, pegou o telefone e pediu à telefonista que ligasse para a casa de sua família em São Paulo, assim que ele percebeu que a ligação havia se completado e de que sua esposa o escutava ele falou:
— Quer dizer então dona Julieta que a minha insistência em me fazer insuportavelmente presente a fazia ficar sem ar e a sentir um frio lhe percorrer toda a espinha?- concluiu em tom de provocação.
— Ah quer dizer então que o senhor meu marido corroeu-se de ciúmes de Olegário- riu-se Julieta- de Olegário, Aurélio? Eu já sabia mas jamais pensei que era nesta dimensão, meu Deus meu amor, que tipo de mulher você pensava que eu era? Uma viúva que se dava a todo tipo de desfrutes?
— Claro que não meu amor, pelo contrário eu sempre a vi de forma respeitosa e distinta, com total admiração, como já lhe disse mais de um milhão de vezes mas me entenda, eu ainda não sabia exatamente o que eu sentia por você, havíamos nos beijado e de repente aparece um outro homem te chamando de minha querida?- respirou- eu fiquei fora de mim, confesso.
— Ai Aurélio, só você mesmo meu amor, como eu poderia ter olhos pra outro homem? Aliás neste período eu estava tão cega de ódio por Camilo que talvez nem tenha percebido a dimensão do que eu escrevia em meu diário, eu já sentia tanto por você e eu não enxergava, pelo menos até este dia que você leu a pouco- concluiu.
— Você reparou o que eu escrevi na carta? — disse Aurélio- que todos os caminhos trilhavam para nos vermos e — não prosseguiu pois foi interrompido pela voz de sua esposa.
— Todas as trilhas caminhavam para nos acharmos- concluiu Julieta- sim meu amor eu vi — disse comovida- e de fato nossos caminhos nos levaram até o nosso amor, estava escrito e determinado pelo destino, nos encontraríamos a qualquer distância.
E assim continuaram aquela conversa, cheia de amor e saudades, com as palavras tentavam suprir a falta de toques físicos, até que foram interrompidos pela telefonista pois haviam congestionado as linhas do Estado de São Paulo inteiro por minutos a fio.
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