Cartas para Julieta
9 Como dizer nunca mais ao que já é eterno?
Notas iniciais
Só hoje eu desisti de nós mil vezes
E te odiei com mil razões diferentes
E aí você sorriu
E já era
Me convenci que era impossível
E que amar demais sempre representava perigo
E aí você me olhou e já era (...)
Já era de se esperar não é?!
Quem se faz de forte costuma ter medo da dor
Mas olha que loucura né?!
Te vi e os meus olhos mudaram de cor
Antes da gente dar nome já era pra sempre
E eu com medo de ser
Mas quando eu falo de amor por aí
É pensando em você
(Nossa Conversa- Kell Smith)
O vento frio do inverno entrava pelas frestas das grandes janelas do casarão principal da Fazenda Ouro Verde, pelas cortinas semi abertas o luar iluminava os corpos despidos e entrelaçados sob a cama, as estrelas brilhavam sob o céu limpo do interior paulista confirmando aquele que havia sido o palco perfeito para os momentos de intensa paixão vividos naquela noite pelo casal Cavalcante, ali no local que batizaram de “Quarto das Memórias”.
“Um lugar especial para nos refugiarmos de tudo e de todos e apenas dedicarmo-nos um ao outro e ao nosso amor que mesmo com as dificuldades normais da vida cresce cada vez mais forte, se aprofunda e encontra a cada dia novos caminhos e formas de se manifestar”- assim pensava Julieta já desperta desde às quatro da manhã possivelmente pelo frio que se colocava sobre suas costas descobertas.
Em sua insônia e inspirada pelo lugar que se encontrava, ela então deixou-se levar pelas lembranças de diferentes passagens de sua vida e de sua história com aquele que tinha os braços embalando seu corpo e a respiração sob seus cabelos; lembrou-se das cartas e do seu diário, das passagens que até agora haviam compartilhado e finalmente do dia que disse nunca mais a ele sem imaginar que a própria vida -ou a quase perda dela naquele atentado orquestrado por Xavier- a faria voltar atrás daquela resposta horas depois. Como será que Aurélio havia reagido a todos aqueles fatos, mais que isso, como ele pode a desvendar por inteiro naqueles dias?
O frio aumentará fazendo com que Julieta percebesse que o fogo da da lareira havia cessado, fazendo-a levantar para reacende-la, pensou que talvez o reaquecimento do quarto pudesse apagasse sua insônia e aplacasse sua vontade de acordar Aurélio, que dormia serenamente, para saciar a curiosidade sobre o dia do “nunca mais”. Ela então se levantou, depositou um selinho nos lábios do marido- que resmungou pelo frio que o percorreu ao não ter mais contato dos corpos, que fora resolvido com as grossas cobertas que ela com cuidado depositou sobre ele- vestiu-se com a camisola e hobby que ela havia buscado no quarto na noite anterior e caminhou até a lareira.
Não adiantou a insônia insistia em se fazer presente e já passavam das cinco e meia da manhã quando Julieta decidiu procurar por um livro para distrair a cabeça, foi então que se deparou mais uma vez ao bolinho de cartas que estavam sobre a mesinha de apoio do sofá; parecia que quanto mais ela desejasse esperar por Aurélio mais a vida atiçava sua curiosidade, que era implacável de conter- “maldição Julieta, você não sabe controlar seus impulsos não é mesmo?”- pensou, já com a carta em mãos, ajeitando-se no sofá.
“Julieta,
Porque escolhestes o nunca mais? Porque fechastes a porta para um sentimento que está tão evidente? Eu queria tanto poder gritar ao mundo que eu estou completamente apaixonado por você, queria tanto tê-la em meus braços e sentir novamente o choque que nos percorre quando nossos lábios se encontraram, queria sentir nossas respirações em sintonia e nossos corações cantando em um mesmo tom a alegria de estarmos juntos; por que negas o que há entre nós? Nós dois não é uma possibilidade da minha cabeça, é um fato já escrito no destino, fincado em nossos corações. Eu sei, que a senhora em pensamentos nega com todas as letras o que há entre nós mas eu vejo em suas atitudes, vejo pelas frestas de seu escudo o quanto se afeta por estar em minha presença, noto em seus passos em falso, em suas pausas para respirar, em seu olhar por vezes abatido que tenta buscar algum outro ponto para não encontrar-se com o meu.
Nós já existimos Julieta e você sabe disso porque nunca negou as minhas afirmações; eu busco entender que tipo de mulher és, busco entender o porquê de tanta frieza ou o porquê destas fortalezas tão altas que parecem intransponíveis mas que vez ou outra se abrem rapidamente para demonstrar o que há por trás delas. Foi baseado nestes poucos segundos que tenho de ti que eu te procurei hoje, não pense que foi fácil entender e aceitar que a mulher que me levou tudo, a dignidade da minha família, o lar de minha filha, a velhice confortável de meu pai, é a mesma que ocupa o meu coração e que povoa meus pensamentos a cada momento, não pense que foi fácil decidir ir até sua casa para abrir meu coração diante de ti e revelar que mesmo com tudo que me fizestes eu não posso lutar contra a paixão que me consome e domina e que você tornou-se meu sentido de tudo.
Julieta, porque aceitastes meu ultimato e me dissestes nunca mais? Porque não deixaste o nós existir? Porque me obrigas a sufocar meus sentimentos por ti ? Porque me obrigas a esta dor do adeus? Porque nos obriga a não vivermos o pra sempre que está escrito em nossos destinos? Cumprirei com o que te prometi, nunca mais te procurarei ou te escreverei, mas quero que saiba que pra sempre serás a dona de cada batida do meu coração, a mim só me restará a doce lembrança dos poucos segundos que a tive em meus braços, nunca me esquecerei da doçura de seus lábios e da intensidade do seu olhar.
Um adeus com todo afeto,
Aurélio Cavalcante”
Enquanto Julieta lia Aurélio despertava de seu sono, sentiu falta do corpo de Julieta próximo ao seu mas pensando que ela logo retornaria ao leito optou por manter os olhos fechados ajeitando o rosto próximo ao travesseiro de sua esposa, tendo suas narinas impregnadas com o cheiro doce que era tão próprio dela. O perfume de sua amada funcionou como um ativador de memórias recentes e o botânico prontamente estava tomado pelas recordações da noite anterior vivenciada ao lado dela, o amor em sua forma materializada, onde os corpos uniam-se para celebrar a união já cravada em seus corações e almas; lembrou-se dos beijos furtivos que deu em seu corpo, em como ela parecia angelical e ao mesmo tempo vivaz ao ter a sua pele alva e macia iluminada pela luz da lua enquanto se encontravam intimamente, rememorou seus seus olhos castanhos brilhantes como labaredas de fogo e as palavras e os sussurros que trocaram enquanto conjuntamente chegavam ao êxtase.
E assim nestes pensamentos percebeu que Julieta ainda não havia retornado a cama, então abriu vagarosamente os olhos e se virou para o lado oposto ao da janela e mesmo sonolento prontamente reconheceu a silhueta de sua amada recostada no braço do sofá vermelho, ela estava de costas para ele, virada para a lareira, seus cabelos haviam sido colocados atrás da orelha esquerda caindo levemente sobre o ombro direito, sua camisola e o hobby azul claro moldavam-se perfeitamente em seu corpo e sob suas pernas dobradas com os pés abaixo das coxas havia uma pequena manta, ela estava com os óculos de leitura, o que fez com que Aurélio abrisse um pequeno sorriso, fascinado com o que via — “tão linda e serena enquanto lê, não me canso de admirá-la”- pensou ele.
Ficou observando-a por longos minutos até que se deu conta que ela tinha em suas mãos uma folha de papel e não um livro, ele então deduziu que ela estava lendo uma de suas cartas, decidiu esperar que ela terminasse para manifestar que havia despertado. Passaram-se alguns minutos até que ele percebeu que ela mudava de posição agora olhando diretamente para a lareira, ele não conseguia ver seus olhos mas sabia por sua postura que ela estava reflexiva e talvez um pouco emocionada, com o passar dos anos Julieta havia se permitido transbordar cada vez mais suas emoções, a frieza e a vida austera a muito a haviam abandonado.
Ele então levantou e vestiu seu pijama vagarosamente para que ela não o ouvisse e foi se aproximando do sofá, algo que ela não percebeu pois estava muito concentrada em reflexão, buscando processar tudo o que havia lido. Não era a primeira vez desde o dia que encontrará as Cartas que a empresária se sentia a mais abençoada das mulheres, Aurélio era sem sombra de dúvida o homem de sua vida, sua alma gêmea, pois só essa conexão profunda de almas seria capaz de explicar a bondade, o amor e a compreensão que ele tinha para com ela; somente o verdadeiro amor seria capaz de superar a raiva, a tristeza, a desilusão em tão pouco tempo, estava escrito no destino o pra sempre havia se instalado antes mesmo dela se dar conta, não havia volta para o caminho traçado para eles, o nós era a única opção possível.
Não havia como não se emocionar com cada uma das palavras que ele escreveu naqueles dias, já não conseguia controlar esta avalanche de sentimentos que a inundavam a cada carta lida, quando Julieta ainda se impressionava pela imensidão do amor que ele tinha por ela, era tão profundo, intenso, tudo o que ela precisava para se reconstruir e renascer. Estava tão compenetrada em seus pensamentos que não percebeu a presença de Aurélio tomando um susto quando ele falou ao pé do seu ouvido:
— Ainda bem que o adeus não foi verdade- finalizou depositando-lhe um beijo ao pé do ouvido.
— Ai Aurélio — disse Julieta em protesto virando-se para dar pequenos golpes em seu ombro- você quase me mata do coração!- finalizou fazendo cara de emburrada.
— Desculpe meu amor- disse ele rindo da situação da esposa- eu não pude conter a minha vontade de sussurrar ao pé de seu ouvido, afinal eu sei que você gosta, não é mesmo? Se quiser posso fazer outra vez, falando-lhe palavras de amor e paixão, quer?
Julieta apenas assentiu com a cabeça, amava quando seu marido vinha declamar ao pé de seus ouvidos palavras de amor, às vezes versos, às vezes canções, ela ria de si mesma todas as vezes que estava nesta situação, quem diria Julieta, ex Bittencourt, a temida e gélida Rainha do Café, foi se desfazendo por inteiro para tornar-se a romântica Julieta Cavalcante, alguém que talvez conseguisse superar até o romantismo da jovem Sampaio- “não sempre que fique claro! Eu ainda sou uma implacável mulher de negócios, a maior e mais temida empresária deste país”- pensou.
Surpreendentemente Aurélio não se aproximou de seu rosto como ela esperava, pelo contrário se afastou buscando por algo em suas velhas estantes de livros, até que pegou um de capa velha e desgastada, abriu no índice, procurou pela página desejada e se dirigiu bem próximo ao rosto de sua amada, dizendo em voz baixa e segura:
Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.
Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
Pois consigo tal alma está liada.
Mas esta linda e pura semideia,
Que, como o acidente em seu sujeito,
Assim co'a alma minha se conforma,
Está no pensamento como ideia;
[E] o vivo e puro amor de que sou feito,
Como matéria simples busca a forma.
— Luís de Camões, meu amor? — disse Julieta com o mesmo tom de voz do amado, um sussurro suave e em um amplo sorriso aberto.
— Sim, chama-se “Transforma-se o amador na cousa amada”— respondeu fechando o livro depositando-o sobre o sofá para poder tocar no rosto de sua amada, selando rapidamente seus lábios.
— E porque você escolheu estes versos? Estavam programados?- perguntou curiosa.
— Lembrei deles porque sei em qual parte do resgate de nossas memórias estamos Julieta, o vivo e puro amor quando lhe escrevi era uma ideia, um pensamento, que eu sabia que era real, mas não era concreto; eu tinha dentro de mim a alma desejada, mas não a tinha para mim e você havia dito nunca mais para nós, este nós, que ficaria apenas dentro de mim como um desejo, por virtude do muito imaginar.
— Talvez no fundo eu também apenas queria guardar tudo o que eu sentia dentro de mim, porque a ideia não podia se concretizar- afirmou Julieta indicando para Aurélio que senta-se no sofá, algo que prontamente ele fez ajeitando-se para que sua esposa se ajustasse próximo a seu peito, enquanto isso ela buscou por seu diário, aproximou-se de seu marido e finalizou- Quer ler o que eu escrevi sobre aquele dia? ou você quer que eu mesma leia?
— Você me daria a honra?- disse Aurélio. Ela apenas assentiu com a cabeça e buscou pelas páginas onde havia registrado o “nunca mais” e logo começou a leitura com a voz firme da Rainha do Café, mesclada com um fundo emotivo.
“ Vale do Café, março de 1910,
Ele segue dizendo que está apaixonado por mim, segue insistindo em se fazer insuportavelmente presente, olhos azuis que penetram minha alma, me desestabilizam e demonstram uma sinceridade tão grande, capaz de me constranger.
Não só seus olhos são sinceros, mas cada uma das palavras proferidas, ali estavam postas a raiva que sentia pelo que eu fiz misturada a uma compreensão do porque eu agi daquela forma, parece que ele me desvenda mesmo sem que eu deixe; não que eu esteja ferida de amor como ele afirma veementemente, mas de fato, eu fiz o que fiz para o afastar de mim, para arrancá-lo de uma vez da minha vida; é uma necessidade, um dever, um grito no meu interior que diz, “cuidado Julieta, você não pode ceder, ele quer te enganar, você não precisa de homens, não precisa sentir nada por eles, não precisa agir por eles”, não preciso agir por eles, mas para afastar o único homem que desvenda sua alma você age, a quem quer convencer Julieta?
Ora, a quem eu quero convencer? não quero convencer, quero proteger a mim mesma, eu não vou deixar ser dominada por minhas emoções, eu às controlo; claro, seria muito mais fácil se ele parasse de aparecer, eu quero e preciso fugir desta armadilha e ainda bem que ele veio com essa proposta de uma única chance pra conversarmos sobre nós. Nós? Como Aurélio enxerga um nós em uma mulher que acabou com a família dele? Que tipo de homem é este que ao invés de me odiar, reafirmar com todas as forças que está apaixonado por mim? Eu não o entendo, há algo nele que o faz diferente e isto me intriga. Mas não posso me deixar levar por minhas curiosidades e por isto o nunca mais me foi propício, ele mesmo veio me salvar da queda e eu só me preservarei se me afastar para sempre daqueles olhos azuis profundos”
— Porque você voltou atrás meu amor? Porque foi me procurar naquele quarto de hotel? Claro eu acho que sei os motivos, mas como a vida está nos dando a chance de revermos com tanto amor e carinho cada ponto que conforma a história do “nós”, que eu gostaria de ouvir o seu ponto de vista- finalizou Aurélio, fazendo pequenos círculos nas costas e nos ombros de Julieta.
— Você se lembra que eu te disse naquela mesma tarde que eu te procurei porque eu estava desorientada? — ele assentiu com a cabeça, olhando-a nos olhos- Então, na verdade, quando Xavier apontou a arma para minha cabeça e disse que estava dando um ultimato em mim, eu pensei prontamente em todos os homens que haviam tentando me dizer, acabou, até aqui e não mais, e logo recordei de seus olhos azuis que despejaram sobre mim um outro tipo de ultimato, mas que não deixava de ser um ultimato, acho que talvez lendo o diário você me entenda.
— Você também escreveu sobre isso, porque eu não estou surpreso?- finalizou em tom de brincadeira, colocando atrás da orelha de Julieta uma madeixa teimosa que insistia em cobrir-lhe parte dos olhos.
— Porque escrever era minha forma de desabafar, de colocar as minhas emoções e assim tentar ter controle sobre elas, você sabe, eu gostava de ter tudo sob controle, aliás agora quem lê é você- Julieta finalizou dando uma piscadela.
— Gostava? Uhu, então o que você está fazendo agora senhora esposa? Você não aceita, mas adora dar um ultimato não é? — gargalhou enquanto ela acenava com a cabeça que sim, buscando sua melhor pose de Rainha do Café- está bem, dê aqui o diário- ele finalizou, pegando o diário das mãos dela para iniciar a leitura mais uma vez.
" Vale do Café, março de 1910,
Eu não tenho medo da morte, nunca tive e nunca terei, depois de tudo que passei em vida nas mãos daquele crápula por muitas vezes senti que a morte era um lucro. Não é fácil sobreviver a este mundo de homens, eles não gostam de ser desafiados, muito menos aceitam serem subjugados por uma mulher.
Ora nós mulheres somos seres que lutam pela vida todos os dias, a morte não nos assusta pois todos os dias renascemos das cinzas. Pelo menos assim tem sido a minha vida, renasci da dor, embora não igual ao que eu era, renasci de luto, pelo que eu fui e pelo que eu tive que me tornar e por muitas que estão como eu. Sim, eu precisei de vida para renascer e se estou onde estou foi porque no meio do meu sofrimento eu optei gerar vida, mas até o meu menino, aquele que foi meu raio de sol, como todos os homens não aceitou estar abaixo das normas de uma mulher, sua própria mãe que fez o que fez apenas para protegê-lo deste mundo, ele também me deu um ultimato. Quando vi aquela arma apontada em minha direção primeiramente pensei em Camilo, meu filho, sangue do meu sangue, será que ele sentiria falta daquela que ele renegou? Será que sentiria remorso por me deixar sozinha? Eu sei que não preciso dele, mas será que ele entenderia? Como eu poderia ir se lhe dizer adeus meu filho lindo, como eu te protegeria do mal?
Depois pensei como em fração de segundos em todos os ultimatos que os homens quiseram dar-me em vida, como aquele que declarava o bandido que me apontava a arma e logo me lembrei dele; porque pensei nele eu não sei, mas só conseguia vê-lo em minha frente, seus olhares bondosos em minha direção, seu olhar triste ao me ouvir dizendo nunca mais; ele ajoelhado em minha frente implorando por clemência; mas ele, como todos os outros homens que adoram dar palavras finais, foi capaz de me dar um ultimato. Aurélio Cavalcante não deixa se ser diferente de todos os outros, quem ele pensa que é pra declarar acabou? Este senhor é realmente muito presunçoso e inconveniente, quem tem que dizer se acabou ou não acabou alguma coisa sou eu… a última palavra é a minha, eu que decido a hora do nunca mais. Aquele homem que tentou me matar não conseguiu dar seu ultimato, vou deixar que Ele me dê?
E foi por isto que em meu desnorteio eu o procurei, eu queria deixar claro que a última palavra será a minha e não a dele, afinal, quem ele pensa que é pra dizer Nunca Mais? Nunca Mais, impossível dizer nunca mais… Porque é impossível dizer nunca mais Julieta? Não era tudo o que você queria? … devo estar louca, mas ao ver a minha vida por um fio, eu só conseguia pensar nele, o que você fez comigo Aurélio Cavalcante? Eu só conseguia pensar em você, eu só queria ver você após tudo que me ocorreu, o nunca mais só será nunca mais se eu assim quiser, e quem vai te dizer sou eu, apenas eu ”
— E assim não foi nunca mais porque eu não quis que fosse, embora devo dizer que você teve um papel até que importante nisso tudo- disse Julieta provocando-o.
— Ah, eu até que tive um papel importante? Ou eu só sou apenas um servo rendido a rainha, que o obedeceu? Diga Rainha do Café, não foram estes esses olhos azuis bondosos e penetrantes que a fizeram mudar de ideia? — ele respondeu no mesmo tom, fazendo cara de inconformado.
— Talvez isso tenha ajudado um pouquinho, mas só um pouquinho, talvez tenha sido estes olhos que eu enxerguei quando fechei os olhos pensando que minha vida acabaria ali sem que eu tivesse a oportunidade de pelo menos dizer que algo que eu sentia para o dono desses olhos, embora naquele momento eu ainda não conseguia dimensionar o tamanho do sentimento que eu tinha por você, era tudo muito novo pra mim- ela disse, enquanto acarinhava o rosto do marido.
— Naquele dia que você me procurou no hotel você tentou fazer carinho no meu rosto, eu ainda me lembro do quão confuso fiquei em ver sua mão estendidas em minha direção- Aurélio agora estava com as mãos sobre as mãos de Julieta, fazendo pequenos círculos com os polegares na pele dela.
— Sim, dentro de mim eu senti uma necessidade enorme de vê-lo, de tocá-lo, porque eu pensava que naquele momento da minha vida você possivelmente seria a única pessoa que sentiria minha falta, que lamentaria minha morte, que talvez até chorasse por haver me perdido, porque o fim seria concreto, não apenas em palavras- ela suspirou reflexiva- pensando agora, acho que o pra sempre já estava tão determinado que meu coração me levava diretamente ao seu para que eu buscasse conforto em seus olhos- finalizou olhando profundamente nos olhos dele.
— Neste momento Aurélio apenas fechou a curta distância que havia entre eles e tomou os lábios de Julieta em completa devoção, o beijo foi se alongando enquanto ambos desciam as mãos em busca dos cabelos, até que ele interrompeu rapidamente para agradecê-la por não haver acatado aquele ultimato de amor, o que a fez rir enquanto ele voltava a tomar-lhe os lábios; ambos sentiam que a paixão voltada a queimá-los, desejando retornar aos braços um do outro na cama próximo a janela, agora já com o sol sobre ela; Julieta ajeitava-se sobre o colo do marido, enquanto ele retirava seu hobby, até de repente ouviu-se uma voz aguda gritando a plenos pulmões:
—Vovó Jujutinhaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa, aonde você se escondeu? — era a menina Julieta, que corria desesperadamente pelos corredores da casa atrás de sua avó.
— Vovô Lélio também sumiu Julietinha- gritaram os gêmeos Prichelli possivelmente de algum outro cômodo da casa enquanto Ema e Jane tentavam fazê-los ficar em silêncio.
Julieta começou a gargalhar no colo do marido, enquanto ele fingia que bufava frustrado, não havia clima que resistisse aos gritos profundos das crianças, pensou Aurélio, ele então falou, ainda tendo-a próxima a si:
— Parece que não vamos poder mais nos esconder, as crianças estão saudosas de estar com os avós afinal já deve ser tarde, o dia já amanheceu faz algum tempo- finalizou.
— Sim, não se esqueça que hoje é domingo, dia oficial do passeio a cavalo, e Julietinha jamais esquece ou se atrasa para os compromissos- brincou Julieta- além disso, como eu e Camilo estivemos em São Paulo por muitos dias nós não pudemos cumprir com a tradição, ela deve estar com muitas saudades deste momento, afinal, ela adora os cavalinhos, como o avô.
— E como boa princesinha do café, herdou da avó a pontualidade e a destreza para não esquecer dos compromissos- finalizou Aurélio sorrindo, enquanto Julieta já se levantava, puxando a mão dele.
— Vamos Aurélio, Julietinha assim como eu não gosta de esperar — pausou para rir um pouco- depois seguimos tanto com nossas atividades- pausou de novo para dar uma outras piscadela- como com as nossas recordações, afinal foi nesta tarde após eu ir ao hotel que você não cumpriu com sua palavra e foi atrás de mim na Fazenda.
— É verdade meu amor, agora vamos, porque nossa neta ainda está desesperada posso ainda ouvir os gritos- riu-se enquanto dava um beijo na bochecha de Julieta- aliás você não escovou seus dentes né?
—Ah que ousadia, segue sendo o mesmo insolente de sempre não é?- ela o provocou saindo pela porta em marcha.
Ele então falou baixinho, fechando o quarto com chave:
— Tão insolente, que conseguiu fazer com que você mudasse de ideia transformando o nunca mais em um pra sempre, minha rainha.
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