Notas iniciais
Essa é a minha primeira fanfic :) A idéia é me aprofundar na história do personagem que é, para mim, o mais interessante de Mansfield Park. Terminei o livro com uma vontade imensa de descobrir o que aconteceu na vida do Henry Crawford depois de tudo aquilo, então é isso o que eu estou fazendo. No mais, espero que gostem e que sejam gentis na hora de apontar os meus erros de iniciante hahaha

Allencourt Manor estava iluminada por todos os lados — o sol sofria para deslanchar sob o manto da tempestade que ocorrera na noite anterior, mas ainda assim brilhava: uma luz azul-acinzentada refletida nos chalés, no bosque e nos rumos da estrada acidentada que levava até a residência senhorial da família. Mais de um ano se passara desde que Henry Crawford fora arruinado pelos caprichos de uma insensível vaidade para qual se entregou. Desde então vivia recluso. A clausura era a única maneira possível de ir levando, quando um simples passeio mais longo lhe causava sofrimento mental tão intenso capaz de arruinar toda uma semana. Além do mais, não eram só as lembranças de quando a sua conduta completamente irresponsável destruíra quaisquer esperanças de felicidade com a mulher amada que faziam com que Henry preferisse a contemplação das paredes do quarto ao campo: a sua estupidez e indignidade despertaram pouca compaixão nos círculos sociais que frequentava. Ele estava, sem muita opção, no único lugar onde a sua presença continuava minimamente suportável para os demais. O tempo das viagens, dos convites, de estar reunido em grandes turmas de amigos promovendo festas ou peças teatrais havia acabado. Henry não era admitido em nenhum grupo que se considerasse decente, não pelo pecado em si, mas pelo fato do acontecido ser conhecido até pelas camadas mais populares da sociedade. Todos os grupos desfrutam da sua cota de imoralidades, desde adultério, indo até à bestialidade... Todas muito toleradas quando feitas no privado das grandes mansões. Ser público demais quanto a suas decisões foi o pior dos seus piores erros e a frieza repulsiva, acrescentada à hipocrisia daqueles cujos sorrisos se haviam mostrado tão acessíveis a ele um dia o machucava infinitamente. Mas naquele dia Allencourt Manor estava iluminada — a neve descansando nos galhos das árvores ainda nuas, presa nos telhados das casinhas... No último ano, nem em abril, quando o clima ameno lhe trazia as lembranças boas dos semestres em Mansfield Park, ele esteve tão confortável com a vista do campo. Neste dia, sentia como se depois de um longo e doloroso período de enfermidade, convalescesse. Como se seu coração estivesse pronto para sair daquele estado de torpor insuportável no qual se encontrava há tantos meses para finalmente restabelecer as forças e o caráter daquele homem que por muito tempo esteve morto. Henry não sabia de onde vinha este ânimo repentino já que olhando pela janela, as coisas se moviam em seus caminhos habituais... Mas não procurou maiores explicações, só esperava que aquilo durasse e desceu para o desjejum com a sensação de que alguma coisa bem maior do que aquela satisfação súbita o aguardava no salão principal.

O tamanho da mansão admirava-o, mas não era suficiente para consolá-lo. Allencourt Manor era a casa de sua tia idosa e detestável, Sra. Leeds, da qual até antes de se mudar para lá só ouvira falar (e em termos especialmente desagradáveis). Apesar da gratidão que sentia por ter sido acolhido pela velha na pior de todas as circunstâncias e quando todos os outros de sua família, incluindo sua irmã, lhe haviam virado as costas, não poderia dizer que discordava da fama que precedia a tia: ela era um ser humano verdadeiramente repulsivo. Cerca de 40 anos atrás ela, quando ainda era a srta. Mildred Ryall e com apenas 3 mil libras de dote, conquistou o coração mole de Sir James Leeds, baronete e proprietário de Allencourt Manor. Todos ficaram intrigados com inexplicável casamento porque faltava à moça, além de beleza e dinheiro, qualquer outra qualidade que justificasse uma união tão vantajosa para ela e desvantajosa para ele. Sir Leeds morreu misteriosamente e de causas desconhecidas um ano após o casamento deixando sua bela propriedade e alta renda para a viúva que nunca se casou novamente. Aos 65 anos, sem filhos e qualquer parente próximo ou distante que a suportasse, convidou Henry para morar com ela na esperança de ter alguém que a velasse no evento de sua morte, já que as dezenas de criados deixariam que seu corpo apodrecesse na mansão com muito prazer. Obviamente não era um convite desinteressado, em outras circunstâncias uma mulher como a Sra. Leeds não permitiria nunca que um sujeito tão indigno socialmente como Henry Crawford sequer botasse os olhos em suas terras. Mas agora a conjuntura era outra e ela precisava dele tanto quanto ele dela. Para poupar-se dos constantes ataques de grosseria da tia, Henry escrevia longas cartas ao seu amigo John Yates quase todos os dias ainda que não tivesse absolutamente nada para contar. Via nesta atividade uma desculpa para se isolar no quarto longe da parenta, além de ocupar a mente pensando nas descrições estimulantes das festas e peças teatrais que Yates sempre colocava nas cartas quando se dignava a respondê-las. Henry se sentou na ponta da mesa, estrategicamente no lugar mais distante possível da Sra. Leeds. Quando esta lhe perguntava qualquer coisa ele respondia sussurrando, na esperança de que a tia quase surda e orgulhosa demais para admiti-lo descontinuasse o interrogatório que sempre lhe impunha pelas manhãs. Normalmente, nada que saísse da boca dela podia interessa-lo menos. As palavras da Sra. Leeds passavam pelos ouvidos de Henry como se nunca nem tivessem sido ditas, então imaginem a surpresa quando depois de meses ela disse com voz zangada qualquer coisa que despertou sua atenção:

— Meu caro sobrinho, acredito que o senhor ainda não tenha se habituado com as regras de decoro dessa casa. Longe de mim lançar qualquer impedimento a novas relações que o senhor pretenda constituir daqui pra frente, mas chegou ao meu conhecimento que o senhor anda se correspondendo de novo com algum dos Bertram. Na perversão que lhe parece muito natural, meu sobrinho, não duvido que o senhor encare como coisa normal voltar às boas com aqueles que obviamente não gostariam de sequer ouvir seu nome, mas me deixe aconselhá-lo: a sua falta de princípios já machucou gente demais naquela família. Qualquer plano que o senhor tenha de estender ainda mais os estragos já feitos à reputação dos Bertram e à da sua própria família não serão tolerados, não por mim, não aqui... Gostaria muito que o senhor me explicasse o conteúdo desta carta que recebera hoje e o que mais pretende com essa atitude que me parece honestamente incompreensível!

Após ouvir as palavras da Sra. Leeds, Henry se tornou tão pálido que a velha, ao observar preocupada as bochechas rosadas do sobrinho desbotarem, quase lamentou que tivesse tocado no assunto justo na hora da refeição. Certamente o tópico causaria alguma falta de apetite e a metade do desjejum – a que pertencia a Henry – seria desperdiçada no lixo ou na boca das criadas. Ele não fazia idéia do que a tia estava falando e, como não havia mandado nenhuma carta aos Bertram desde o acontecido, temia muito pelo que qualquer um deles poderia querer dizer. Levantou da mesa completamente transtornado e correu até a pilha de cartas que estava em cima do aparador da sala, deixando a tia que agora já gritava sozinha para as paredes.

"Devo informá-lo, Sr. Crawford, que a Sra. Maria Bertram falecera às dez e meia da noite de tísica pulmonar. O enterro foi hoje às dez da manhã. Escrevo-lhe à noite e peço que venha a Mansfield Park imediatamente. Há assuntos pendentes entre o senhor e a nossa família, dado a recentes descobertas impossíveis de confiar por carta... Esperamos vê-lo o mais breve possível e já nos certificamos que estará bem instalado na propriedade de amigos que entendem a necessidade da mais absoluta discrição na situação que ambas as famílias se encontram. Venha depressa.

Muito respeitosamente, Sr. Tom Bertram."

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.