Cartas para Derek
3 Bombas atômicas, bananas, xamãs e cervejas
Notas iniciais
13 de abril de 2011
Derek
Hey!
Eu não estou muito animado hoje, mas como eu precisava escrever a carta — e eu digo precisava não como um castigo, porque não é, mas eu precisava mesmo — eu estou aqui sentado, estressado, desanimado e escrevendo.
Claro que tudo isso é um pouco de drama — eu sei -, mas mesmo assim eu vou continuar. Não que a gente se conheça tanto assim pra eu me liberar nos meus dramas e tal — e nem querendo te assustar também, mas eu eu faço bastante drama, e eu acho que já disse isso antes — mas se a gente vai acabar sendo amigos — sem pressão — é bem melhor que tu já conheça como eu sou mesmo.
E também tem o fato de não ter ninguém me mandando calar a boca — ou um soldado com uma arma apontada pra mim, se bem que, talvez, nem naquele caso eu fecharia a boca — então eu acabo me soltando.
Mas é só tu ver os pedaços do texto que tem muita estupidez minha e pular para as partes normais — o negócio é que talvez tu vá ler só a data e o meu nome no final…
O motivo de eu estar bravo: o professor de química — meu amado professor Harris — mandou a turma fazer um trabalho sobre a bomba atômica. Eu pensei em pesquisar sobre a composição química e o processamento para se obter ela e todos os processos envolvidos e tal. Basicamente uma descrição de como ela é feita.
Beleza.
Eu fiz então um lindo trabalho, com umas 15 páginas, que eu nem sei como eu coloquei lá, e entreguei pra ele. Eu ganhei um C. Teve trabalhos com duas folhas que ganharam um A+. Eu sei, eu sei que quantidade não é qualidade, mas quando a quantidade é quinze páginas de descrições detalhadas sobre o assunto em questão e mais alguns detalhes relacionados — alguns aspectos sobre mutação humana, reprodução descontrolada de invertebrados, os hábitos alimentares dos morcegos expostos à radiação e a influência do urânio nas bananas — que fizeram o trabalho ficar mais “carnudo”, essa quantidade realmente é um tipo de quantidade importante.
E dane-se a qualidade — eu escrevi quinze folhas!
Tudo bem que eu expliquei detalhadamente a fração da radiação nas bananas e depois entrei em uma explicação hipotética sobre a construção de usinas de produção de energia que utilizem da radiação das bananas, da castanha-do-pará e das revistas com páginas brilhantes. Foram várias e varias teorias circulando em volta da radiação e tal — eu eu falei esse “e tal” muitas vezes já, né?
Enfim. Eu achei que o trabalho estava ótimo, inclusive fiz o meu pai ler, afinal tem dias que nada acontece por aqui, e o que melhor que instruir o seu pai sobre bananas? Mesmo que meu trabalho fosse sobre a bomba atômica — mas o que melhor do que a interdisciplinariedade, né?
Bom, agora que eu entupi a carta comigo falando de bananas atômicas, eu acho que eu tenho que pedir como você está? Muito trabalho aí onde quer que você esteja?
Fiquei pensando agora, eu não sei em que lugar você está servindo, mas, vocês tem férias? Ou feriados? Alguns dias pra não fazer nada? E se por exemplo vocês estão em um lugar isolado — não sei, tipo a Mongólia? Não que os Estados Unidos tenham uma base por lá. Eles, a gente não tem? Ou tem?
Bom, se a gente tivesse, e por acaso você estivesse lá, eu provavelmente não iria saber.
Mas em todo caso, se a Mongólia fosse seu posto e você tivesse três dias de folga, o que teria pra fazer? Tirar leite de cabra e cantar pro vento das montanhas? Procurar um xamã e conversar com seu espírito animal enquanto vocês fazem uma daquelas danças estranhas?
Hipoteticamente, se fosse comigo, eu acho que seria o máximo encontrar o meu espírito animal. Eu acho que eu seria uma raposa — será que tem dessas na Mongólia? — ou um esquilo. Não sei o que prevalece em mim se a minha inteligência e esperteza — se bem que falando assim eu acho que nenhuma das duas — ou minha astúcia e trabalho árduo — talvez nem esses, eu sei escrever um ensaio de 30 páginas sobre a história da circuncisão, mas trabalhar arduamente? Não muito.
Bom, eu acho que eu não vou chegar a lugar algum com essa carta, mas eu espero que te faça rir um pouco, afinal, dia bom ou ruim, risadas são sempre uma boa pedida.
Defenda bem o nosso país (na Mongólia?),
do seu companheiro de cartas — e especialista em bananas radioativas,
Stiles
–-----------------------------------------------------------------------------------------------------
19 de abril de 2011
Stiles
Muito obrigado pela última carta!
Eu não sei o porquê, mas o universo fez alguma coisa para que o teu professor fizesse aquilo para ti — que eu achei uma coisa muita maldosa, afinal foi só um trabalho com muitos detalhes a mais do que precisava, e quem não sabe aproveitar uma boa oportunidade de aprender, não é? — para que você escrevesse a carta perfeita pro momento.
Muito obrigado.
Eu tinha acabado de passar uma semana ruim por aqui — e não, nós não estamos na Mongólia e eu tenho quase certeza que não tem nenhum instalação nossa por lá — e a carta chegou e eu ri. Eu ri bastante.
Não de ti, propriamente — e por favor, não trate isso como uma ofensa — mas a carta em si tinha um ar tão leve — mesmo que o motivo que a gerou foi o stress — que eu consegui me sentir leve também. Por isso mesmo, mais uma vez, muito obrigado pela carta.
E eu não sei se eu disse isso antes, mas é bom conversar com alguém de perto de casa, é como se eu estivesse conversando com uma parte de mim — e eu espero que isso não pareça muito estranho? Afinal nós também temos emoções…
E se eu tivesse férias eu provavelmente iria para uma das praias que nós temos não muito longe daqui. Não é perto como se eu estivesse aí, mas é possível de ir.
E quem sabe um dia você pode me mandar um dos seus trabalho? Eu tenho certeza que seria interessante ler sobre bananas radioativas — não tenho certeza se eu gostaria de ler sobre circuncisão, pois acredite em mim, eu tenho um pouco de terror a cortes, mesmo que eu tenho visto coisas bastante ruins por aqui.
Continue estudando,
até mais.
Derek
P.S.: Se essa carta parece um pouco mais animada do que as outras, é porque eu tinha um dia de folga e passei ele aproveitando um pouco das cervejas aqui da geladeira, pois eu só a vi a carta depois que eu estava “animado”. E eu espero não me arrepender de nada — mas acho que eu só fiquei mais comunicativo, né?. Enfim, até.
Fale com o autor