Cartas para Derek
15 Ação das desgraças
Notas iniciais
Derek se juntou ao seus parceiros, logo nos primeiros dias de novembro, e marchou para o norte do Kosovo para impedir a recente onda de pequenos conflitos na região. Os locais não estavam satisfeito com as ações das forças da OTAN, que eram questionadas por alguns dos próprios soldados — o que aconteceu na última carta de Derek, que acabou censurada — e decidiram tomar conta da questão com as próprias mãos.
Mesmo que eles não tivessem a força militar dos soldados — que era orientados a não machucar os civis, apenas se defender — eles conseguiram fazer um pouco de estrago nas tropas. Vários soldados acabaram machucados, a maioria levemente, mas alguns sofreram severas lesões e tiveram que ser levados a hospitais mais especiallizados.
Médicos e assistentes passavam noites em claro atendendo os feridos das tropas, e também os locais que precisavam de cuidado.
Esse ataques aconteciam em algumas vilas pequenas, onde os moradores mais revoltados usavam paus e pedras para brigar. Alguns empilharam carros e ateavam fogo. Vários deles montaram barricadas para impedir os soldados de agirem.
A questão era muito mais política do que física dentro do país, e precisava e muito mais do que apenas força bélica para ser apartada e resolvida.
Infelizmente nem todos entendiam aquilo.
Principalmente os que comandavam tudo.
Derek havia decidido o seu modo de agir ainda antes de ser mandado para o outro lado do globo. Ele sabia que muitas vezes ele não concordaria com o que teria que fazer, e muitas vezes teria que engolir as palavras de ódio que brotavam de dentro dele.
Muitas vezes ele queria desistir. Ou simplesmente bater a cabeça numa parede.
Logo, porém, viria a oportunidade de ajudar alguém, de levar comida a uma criança órfã, de ajudar famílias a encontrar um teto para morar, de encontrar uma forma de fazer os moradores do país serem reconhecidos e valorizados. E toda vez que ele conseguia uma dessas coisas, essa vida valia à pena.
Movendo para o norte do país, num comboio com todos os seus parceiros, para combater protestos populares que acabavam por sair e controle, era uma espécie de aposta.
Ele não sabia se iria se deparar com uma situação que possibilitaria a Derek ajudar as pessoas e fazer alguma coisa boa, ou se faria ele se sentir culpado pela possibilidade de bater em alguém, de machucar algum homem ou mulher que só queriam defender as suas ideias, mas que muitas vezes não tinham nenhuma chance perto das armas dos soldados.
E Derek se identificava com eles.
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Às vezes dizem que nós podemos sentir outras pessoas, que nós podemos sentir quando alguma coisa vai acontecer com elas, que existe um tipo de força que conecta a todos nós e possibilita uma ligação além do empirismo, uma ligação cósmica. Alguma coisa que faz com que duas pessoas possam se sentir.
Stiles acreditava nisso. Stiles não acreditava nisso.
Ele queria que isso fosse verdade no momento em que a mãe dele começou a ficar doente, em qualquer momento antes de ser tarde demais. Ele queria que existisse alguma coisa que tivesse dito a ele a hora certa de ajudar, a hora certa de agir. A hora em que ele poderia ter salvo ela.
Ele queria que aquilo tivesse sido mentira no momento em que ele saiu do quarto para buscar um simples café para seu pai enquanto a mãe dele falava as últimas palavras antes de cair em sono profundo — pra mais tarde não acordar mais. Ele queria ter sentido que ele deveria ter ficado lá por mais dois minutos e ter a oportunidade de ouvir a voz dela mais um vez.
Quando ele saiu do quarto, um desespero se abateu sobre ele, porque ele simplesmente sentiu aquela conexão naquela hora, ele sentiu que alguma coisa tinha acontecido. Ele sentiu que ele havia perdido uma chance.
E daquela vez, mesmo que ele tivesse sentido, no fim, tudo foi tarde demais também.
Sempre era tarde demais.
Ele queria poder dizer, poder fazer alguma coisa para que não houvesse mais esse tarde demais.
Para que não houvesse mais esse momento em que ele sabia que alguma coisa iria acontecer, mas que ele não tinha chance de ajudar, não tinha chance de fazer nada.
Infelizmente, mesmo quando ele sentia o sinal, sentia a conexão dizendo pra ele que alguma coisa tinha acontecido — e mesmo que ele não sabia o que era — na maior parte das vezes não havia nada pra ele fazer.
Como naquela noite em que ele sonhou com Derek.
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As tropas avançavam devagar, escudos à frente. Os locais atiravam pedras contra eles. Num dos lados da rua principal da pequena vila de Dudin Krš, dois carros bradavam chamas vermelhas pro céu escuro da madrugada.
Quem tinha chance de ficar dentro de alguma casa, já tinha achado um abrigo. Quem não tinha um teto para ir, se refugiou nas florestas.
Os que queriam briga, estavam em frente a Derek.
Ele não conseguia prestar atenção direito à tudo que acontecia, pois existem alguns momentos da vida de um soldado em que ele perde a noção do tempo e do espaço. Ele perde a noção do que é real e do que é imaginação.
Ali, naquela noite, a única certeza que ele tinha era a de que a missão dele era agir com calma e não atirar em ninguém — até o momento em que fosse inevitável. Os dedos cansados, agarrando a arma, estavam atentos ao perigo. Mas além daquilo, ele não sabia mais de nada.
Ao fundo ele ouvia os gritos de um povo. Ele ouvia o próprio coração batendo forte no peito, um zunido nos ouvidos. As imagens se misturavam na frente dele.
Num momento, ele ouviu um grito.
“Corram!”
Ele não teve tempo de correr, e na hora em que ele sentiu o calor às costas dele e o estampido soando, ele não teve tempo de pensar em mais nada. A única coisa que sentiu foi a dor lancinante de alguma coisa perfurando a pele dele.
Mas mesmo aquela quase passou despercebida, pois no instante seguinte o escuro da noite engoliu ele.
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COMUNICADO
Aos cuidados de
Stanislaw Stilinski
O seu parceiro no projeto “Cartas para soldados”, desenvolvido pela Casa Branca em parceira com o Exército dos Estados Unidos, infelizmente estará impossibilitado de continuar sua participação no programa.
O soldado Derek Klaus Hale foi ferido em combate na semana passada, e passará por um período de recuperação, cuja duração permanece em sigilo até segunda ordem.
Nós lamentamos o acontecido e esperamos o entendimento dos procediementos adotados.
Um outro soldado poderá ser requisitado para a finalização do projeto, se assim for solicitado.
Obrigado pela compreensão,
Sgt. Aaron Jones
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