Cartas para Bella
6 Todos os seus livros favoritos em um lugar só
Notas iniciais
Na segunda-feira de manhã, acordo me sentindo elétrica. Leio as apostilas para aula de álgebra, tomo um longo banho, tomo café e deixo a mochila pronta. Isso tudo antes das 7h e 30 mim, o horário de sair para escola. Eu estava ansiosa para ver qual era a surpresa do correspondente.
Meu final de semana foi com o celular grudado quase em minha cara, conversando com ele. Eu nunca me senti tão bem antes. Ou melhor que eu me lembre. Talvez com Hayley fosse assim.
Sento-me na mesa da cozinha com Sue. Ela come lentamente um cereal enquanto eu espero Seth terminar seu banho de Ariel. Ela me encara de 5 em 5 segundos. Eu estou com a perna balançando ansiosamente e batucando na mesa com a ponta dos dedos, impaciente. Penso em deixar Seth. Ele está demorando demais.
– Então, toda essa ansiedade que está exalando desse corpinho tem haver com o menino Newton?
Reviro os olhos.
– Você não é a avó para falar menino. — resmungo. — Não, não é por causa dele.
Ela me olha de cima a baixo. Não, não, não, Sue!
– Nem vem, Sue. — digo. Ela me olha inocente.
– Não estou fazendo nada.
– Está me avaliando que eu sei! Eu já fui a psicólogos antes. O que acha? Que estou com algo?
– Ai, Bella. Você inventa cada coisa. — murmura, saindo da mesa para pôr a louça na máquina de lavar.
Escuto os passos de Seth na escada. Eu me ponho de pé. Quando ele atravessa o portal da cozinha, o puxo pela gola em direção ao carro, alegando estarmos atrasados. Eu queria chegar desesperadamente na escola.
Escutando resmungos de Seth durante o caminho todo, retiro da minha mochila rosquinhas que eu comprara na noite anterior. Ele cala a boca imediatamente. Satisfeita, ligo o para brisa e piso fundo (o que não é muito coisa com Pulga) para o purgatório.
Durante o final de semana me recuperei da decepção de Michael Newton. Refleti comigo mesma: nem sempre a primeira vez dá certo. Nem sempre a primeira escolha de curso é a que você realmente quer se especializar, nem sempre a primeira vez transando dá certo. Ótimos exemplos!
Também, me conformei com a não-vinda dos meus pais a minha formatura. Quer dizer, eles tem mais coisas para fazer para não poder vir à minha formatura. Obviamente que não é grande coisa a finalização de um ciclo grande como esse.
Tá, talvez eu ainda não tenha me conformado completamente. Foda-se essa merda também.
Tomo cuidado enquanto dirijo. Só me faltava eu sofrer um acidente e em seguida um asteróide cair em cima da minha cabeça. Seria incrível essa minha falta de sorte.
Balanço a cabeça violentamente. Não, Bella! Nada de pensamentos negativos. Você vai ter uma surpresa na escola.
Esse é o tipo de coisa que vem me acontecendo desde o anúncio da viagem dos meus pais. Eu percebera que, bem, eu sou de certo modo indesejada. Não sei se esta é a palavra, na verdade. Não é algo novo, só que nunca foi tão bruto a forma que me trataram. Como se eu fosse um cachorrinho e não tinham onde deixar.
A maior parte dos meus pensamentos são negativos e não é algo que eu controlo. Só acontece. Vem do nada. Eles me consomem. Eles fazem eu querer ficar enrolada num cobertor, deitada na minha cama enquanto olho para o teto, só respirando. É engraçado o que a tristeza pode fazer com você. Parece que estou cheia de entorpecentes, sentindo absolutamente nada.
Eu juro que tento não ter pena de mim mesma. Tento não querer fazer nada, por isso me atolo com os estudos. Trabalhos excessivos. Tento não sair muito com os meus amigos para não perceberem que eu sou quebrada.
No entanto, as cartas…. As cartas trouxeram um lado meu que eu esquecera completamente. A sensação de ficar ansiosa, a felicidade ao conversar com alguém. Eu poderia dizer que elas me tiraram do meu estado de zumbi.
Levo um susto ao ser acordada dos meus pensamentos com uma batida na minha janela. Olho para fora, encontrando Emmett. Ele sorri, abrindo a minha porta. Tiro a chave da caminhonete e pulo para fora com minha mochila nos ombros.
– Bom dia, gatinha.
– Hey, McCarty.
Caminhamos lado a lado para dentro da escola. Quase dou pulinhos de alegria ao avistar meu armário. Tento abrir meu armário, o que não acontece. Dou um tapa. Reviro os olhos, respirando fundo. Eu preciso abri-lo. Agora!
– Deixa que tomo conta disso, linda.
– Você é tão charmoso, Emmett. — falo enquanto saio da frente do armário.
Limpo minhas mãos na calça, tentando controlar a ansiedade. E se ele não conseguir abrir o armário? Não vou conseguir pegar o presente. O Cs irá ficar desapontado? Merda, meus livros!
– Ta dah! — Emmett exclama, abrindo o livro. Suspiro pesadamente. — Você tem que pedir para o zelador arrumar isso.
– Pode deixar! — falo, ficando de frente para o armário.
Meus olhos brilham de ansiedade ao ver a carta numa das prateleiras do armário junto a uma embalagem?! Jogo minhas coisas dentro dele. Ponho debaixo do braço o caderno, a carta e a embalagem. Olho para os lados, esperando ver um dos meus suspeitos. Vejo Mike do outro lado do corredor. Sinto minhas bochechas esquentarem. Ele sorri e abana em minha direção. Eu abano de volta.
– BOO!
Alice grita em minha orelha. Eu tomo um susto, fechando o armário instintivamente.
– Merda, Ally. — falo, colocando a mão no coração. — Quer me matar?
– Bom dia, flor do dia! — diz, me dando um beijo estalado na bochecha.
– Hey, Jasper. — falo, batendo palmas com ele.
– Tudo certo, Bella?
– Eu acho. — murmuro, olhando para o armário fechado.
– ‘Dia, gente. — Eric fala, sorrindo envergonhado. Suas bochechas coram.
OPA! Eu não o tinha visto antes. Ele está todo envergonhado. Balanço a cabeça, tentando parar essa linha de raciocínio.
– Vamos para a aula?
– Claro.
Passo meus presentes para a parte da frente do caderno, colando-o no meu peito. Eric e Jasper nos levam para a sala. Sinto Alice quase explodindo de combustão ao meu lado. Eu tinha dito para ela durante o final de semana inteiro que contaria sobre a “saída de amigas” hoje. Iríamos para o shopping de Port Angeles. Eu devia a ela.
Meu celular apita. Sorrio ao ver a mensagem do correspondente secreto.
Espero q goste do seu presente.
Alice e eu sentamos em nossos lugares. Guardo meu material embaixo da classe junto com meu presente para dar atenção a minha amiga, mesmo que eu queria somente rasgar o papel de bolinhas azuis e descobrir o que tinha dentro. Mike passa pela minha classe, sorrindo. Eu me afundo na cadeira.
– Eu não aguento mais! — ela fala com um gritinho.
– Ai, meu Deus, Alice!
– Me conta, me conta, me conta. — pede, entrelaçando suas mãos uma na outra como se estivesse rezando.
– Aliceeee… — resmungo.
– Deu? Ou foi só no cinema com ele? Ele tem o pau grande? — ela metralha.
– Alice! — exclamo mais alto. — Foi só cinema. Depois jantamos.
– Tá, e o que mais?
– Bem, foi legal.
– Eu quero os detalhes, Bella!
Suspiro de alívio ao ver o professor entrando na sala.
– Ah, que pena! O professor chegou. — ela cerra os olhos.
– Você não me escapa!
Ah, eu não escaparia nem se eu fosse o Batman! Alice quando quer saber de alguma coisa, vai atrás sem. A baixinha é mais que insistente que quase chega a ser impertinente.
O professor começa a passar um texto enorme no quadro. Respirando fundo, puxo o caderno de baixo da classe, roçando meus dedos no pacote. Tento copiar no ritmo do professor o que ele passa. As minhas pernas não param quietas, sempre balançando.
Eu sabia que tinha que prestar atenção na aula, mas eu não estava concentrada. Toda a minha mente viajava para a embalagem. Seria uma caixa com docinhos? Ou então um quadro? Talvez um livro?
Alice e eu juntamos as mesas quando o senhor Smith pede para formarmos duplas. Tínhamos que ler três textos, organizar sua estrutura e arrumar erros ortográficos. O cara não tinha nada mais para fazer? Alice ainda tenta tirar algo de mim, mas eu me esquivo o máximo que posso.
Após longos 45 minutos restantes de aula, o sinal toca. Eu ponho minhas coisas em cima da mesa enquanto espero Alice terminar de retocar sua maquiagem. Ela desvia seu olhar do espelho pequeno para a embalagem.
– O que é isso?
– Um presente.
– Isso é óbvio! De quem você ganhou? — ela pergunta, debruçando sobre a mesa com a testa franzida.
Como explicar para Alice que eu não sei quem me deu, mas ao mesmo tempo sei?
– A gente vai se atrasar para as próximas aulas, vem!
Pego minhas coisas, agarrando a mão de Alice para sairmos em direção aos corredores.
— Você acha mesmo que vai me enrolar?
— O que a gente vai fazer hoje? Cinema? Comida?
Alice me para no meio do corredor, segurando a minha mão, com a sobrancelha erguida.
— Você está estranha. — pelo canto do olho vejo Jasper vindo com Emmett, Edward e Lauren. — Mais tarde nós vamos conversar, mocinha.
Alice e Jasper trocam um selinho. Eles são muito fofos juntos. Alice e o garoto do sul se olham intensamente antes de entrelaçarem suas mãos, entrando em sua própria bolha. Lauren revira os olhos para em seguida caminhar em minha direção. Rapidamente, enfio minha cabeça praticamente dentro do armário.
— Oi, estranha. — Lauren diz.
Sei que ela está falando comigo. Apenas, ignoro sua existência.
— Não tem educação, garota?
— Minha educação eu uso com quem presta.
— Bellinha, você está muito estressada. — Emmett diz, vindo para o meu lado.
Reviro os olhos dramaticamente.
— Podemos ir?
— Vamos, senorita!
— Eu odeio espanhol. — resmungo. Aceno a cabeça para os dois garotos. O primeiro me lança uma piscadela, já o segundo nem me olha. O cara é bipolar.
O casal me deixa na sala de espanhol, depois de passarmos em nossos armários. Alice me dá um beijo estalado, avisando que comprará meu almoço e saí sem eu poder protestar. Ela sempre sai mais cedo, pois a professora Peace libera seus alunos 10 minutos mais cedo.
Sento-me numa das últimas classes da sala, no canto esquerdo ao lado da janela. A professora liga o projetor, apaga as luzes e o filme começa a rodar. Não dá nem três minutos para quase todos os alunos pegarem seus telefones ou deitarem a cabeça na classe e tirar uma soneca.
Eu puxo a embalagem com um laço debaixo da mesa. Mas o que isso queria dizer? Presentes? Ele não deveria me dar presentes! Não somos nada! Não iremos ser nada! Resolvo ler a carta primeiro. Com a luz do celular, ilumino a folha pautada.
Minha doce Bella,
Me perdoe por não falar com você durante dois dias. Eu poderia inventar desculpas dizendo que meu celular quebrou ou que estava de castigo. Seria mentira, e como sabe, você é a última pessoa no planeta que eu mentiria. A verdade é que estava com ciúmes! Sim, ciúmes! Pode rir, agora.
Eu não entendo se você saiu com Mike Newton por diversão, ou para me fazer ciúmes. Conhecendo você, eu diria que não faria a segunda opção, no entanto, você é imprevisível, Bella! O que é desesperador às vezes, não saber o que fará. Ficar no escuro! Eu quero dizer, Newton?! Sério?
Saber que você estava saindo com Newton fora como facadas em meu coração. Fiquei possesso, se quer saber. Por pouco, não larguei tudo de mão para me encontrar com você e levá-la para sair comigo. E mais ninguém.
Eu já li e vi em livros e filmes sobre esse sentimento. Mas senti-lo é muito diferente. Eu nem sei como explicar. Senti-me impotente. Irritado. Chateado. Eram muitas coisas ao mesmo tempo.
Eu sei que não temos nada. Sei que não precisa me explicar nada. Sei que tenho que ficar na minha, porque não sou corajoso o suficiente para olhar no fundo dos seus olhos chocolate e dizer que quero ficar com você. Todos os dias. Todas as horas.
Você é muito boa para mim e eu não mereço.
Mas se eu fosse… As possibilidades seriam infinitas.
Espero que goste do presente!
Seu,
Admirador Secreto
Se ele fosse bom para mim? Corajoso? Ele só podia estar brincando com a minha cara. Ele é tão romântico, fofo e querido. Como ele não é suficiente?
Olho para a embalagem. Olho para o pequeno cartão grudado no laço. “Todos os seus livros favoritos em um lugar só.” Arqueio a sobrancelha. O que?
Só abra logo! Meu cérebro diz. Eu o faço.
Com as mãos tremendo levemente, desfaço o nó azul para depois rasgar a embalagem com cuidado. Tranco a respiração ao ver uma caixa com o Kindle na frente. Ponho a mão na boca, tentando conter um grito. Porra! Um kindle! Deve ter sido o olho da cara.
Abro a caixa, encontrando o Kindle com uma capa preta. Ligo-o, apertando no botão no canto inferior e encontro mais de dez livros. Orgulho e Preconceito, Harry Potter, Gatsby!
Fico irritada. Ele não podia gastar dinheiro comigo! Uma caixa de bombons até um livro, tudo bem, mas um kindle? Isso é demais! Pego meu telefone, digitando na nossa conversa.
Você é louco ou o que?
Vc gostou?
Porra!
Vc n pode me dar coisas caras assim
É um kindle!
Se eu quiser, eu posso te dar
Mas EU n quero q vc gaste cmg
N preciso disso
Qual é Bella.
Fica com ele
Onde posso devolver?
Me dá um endereço ou um lugar para deixar
Pq quer me devolver?
Pq sim
É demais
Mas vc n gostou?
Eu amei
Mas n posso ficar
Eu n te entendo
Amou, mas quer me devolver
Eu n posso aceitar
E pq n?
É um presente, Bella
É mal educado recusar
Eu uso a minha educação como eu quiser
E estou sendo educada em devolver
Bella, eu estou te dando
Quero q fique
Mas é demais
Pq é demais?
É mt caro. Além de q eu n quero q vc fique gastando cmg
Ngm fez isso antes, não é agora que isso vai acontecer
Bem, eu posso ser persuasivo, quando quero, Bella
Duvido disso
Aé?
Pois é
Ok
Se vc ficar, nós podemos fazer uma ligação
De vídeo?
N, de voz
E ent?
Não! Eu não vou aceitar.
Olho para o telefone mais uma vez. Mas via chamada talvez eu reconhecesse a voz. Eu poderia descobrir quem ele é. Poderíamos conversar sobre tudo, quase como se estivéssemos no mesmo ambiente.
Fechado!
***
– O que acha desse vestido? — Alice pergunta, abrindo a porta do provador, vestindo um vestido vermelho, frente única que bate na metade de suas coxas.
– Você está muito gostosa.
Ela abre um grande sorriso enquanto bate palminhas.
– Agora, pegue este. — ela me entrega, um vestido azul de ombro a ombro com mangas compridas. Ele é apertado no busto e na saia mais soltinho. Na parte de trás da saia é maior que a frente, batendo atrás dos meus joelhos.
– Não, não. Eu estou bem.
Alice fecha a cara, apontando para o provador. Pego o vestido de sua mão, indo para o provador.
Assim que as aulas acabaram, entramos na Pulga e depois de um hora e mais de carro, chegamos ao pequeno shopping de Port Angeles. Comemos um McDonalds delicioso enquanto assistimos a um filme de terror. Essa foi a minha parte do programa, agora a da Alice são as compras…
Já fomos em umas 5 lojas. Sapatos, jóias e roupas. Enquanto ela provava as roupas, eu fiquei lendo pelo kindle. Ela irritou-se e o arrancou de mim, guardando dentro de sua grande bolsa. Eu apenas lhe mostrei a minha língua.
Ponho o vestido sem dificuldades. Ao me virar para o espelho, coço a nuca. Eu não tenho muito peito, sou muita magra e desengonçada. Pelo menos, a minha pele não é tão branca como as das pessoas daqui. Passo a mão pelo meu cabelo castanho sem graça, o prendendo em um coque com uma chiquinha. Respirando fundo, saio do provador.
– A mãe vai te quebrar na porrada! — Alice silva para o telefone. — Ninguém mandou você levar esse bando de animais para casa, Edward……… Não! Você vai se encrencar sozinho, porque eu tenho um álibi que é a Bella………… Eu não quero saber! Agora, para de encher o meu saco.
– Seu irmão? — pergunto, chamando a sua atenção. Alice vira-se para mim, pondo as mãos na boca.
– Bella! Você está linda! — ela diz, pondo suas mãos em meus ombros, afastando o telefone de seu ouvido.
– Você acha?
– Eu tenho certeza!
Sorrio envergonhada.
– Acho que se você usar um sapato de salto nude, por uns brincos grandes e um colar, vai ficar perfeito! Temos que ir atrás, já!
– Do que está falando?
Alice para, olhando-me sem entender. Ela desliga a ligação, jogando o telefone dentro de sua bolsa.
– Do baile é claro!
Abro a boca. É por isso que estávamos fazendo compras?
– Eu não vou ao baile!
– Como é? — pergunta com a voz fina.
– Não gosto de bailes.
– Bella, por favor! — Alice, agarra a minha mão. — Você tem que ir ao baile comigo! Temos que tirar fotos, ficar bêbadas para eu poder mostrar para os meus filhos e do Jasper como nós nos divertimos na nossa adolescência.
– Você tem tudo planejado?
– Aprendi com você, bebê. — ela pisca.
Mordo os lábios. Não, eu não iria ao baile.
– Desculpa, Ally. Não vou. — ela olha para baixo, triste.
– Bem. — ela diz, olhando-me travessa. — Também não vou comprar hoje meu vestido. Você vai ver. Vai ao baile comigo. Eu posso ser persuasiva quando quero.
Franzo a testa. Eu já havia visto essa frase hoje.
– Vem, vamos nos trocar e comprar um milk-shake.
Deixamos a loja, como todas as outras, de mãos vazias. Alice realmente acreditava que eu cederia à sua ideia maluca de ir ao baile?! Ela terá que esperar sentada até esse dia acontecer.
Na fila do milk-shake, Alice me contava sobre como Edward está a cada dia, deixando-a mais nervosa. Eu não presto muito atenção, limitando a assentir e concordar com as falas negativas sobre o irmão.
E se eu me encontrasse com ele no baile? Eu usando aquele vestido e ele um terno? Ele me acharia bonita? Diria que eu estava digna de um dos bailes frequentados pelas protagonistas de Jane Austen? Ou riria da minha cara? Ou dançaríamos como idiotas na pista de dança?
– Bella, Bella! — Alice, me chama. Eu foco meus olhos em seu delicado rosto. — Qual sabor você quer?
– Chocolate. — sorrio envergonhada.
– Sabe, você anda muito no mundo da lua. O que passa tanto nessa cabecinha?
Eu sorrio fraco.
– Quando vou dormir na sua casa? Estou esperando o convite.
Ela revira os olhos por eu ter fugido do assunto.
– Próxima semana, sem falta!
– Por mim, tudo bem!
Eu não estava mais organizada que antes, o que é algo grave. Eu não controlava mais o meu tempo, pois estou obcecada com meu correspondente secreto. Então, aceitar o convite da Alice, passar um tempo em sua casa, não atrapalha meus estudos, porque eu não estou estudando.
Se meus pais souberem vou morrer. Provavelmente colocar-me de castigo. E eu não queria isso. Já não basta meu próprio cérebro me aprisionar em ideias ridículas, meus pais me prenderiam dentro de casa.
Eu sempre tive que tirar as melhores notas. Ser a melhor em tudo. Isso é algo que chamava a atenção dos meus pais. Eles amam se gabar para seus amigos com filhos delinquentes que a filinha é a melhor. Ao longo dos anos, eles não aceitavam um B- e eu também não.
Eu estive sempre tão concentrada para trazer orgulho para eles que nunca parei para pensar nas coisas importantes como a coragem e a amizade. Eu não tinha nem um, nem outro. Mas eu estava okay com isso.
Saímos do shopping quase às seis da tarde. O crepúsculo tomara conta do céu, transformando-se em uma mistura de laranja, roxo e azul. Alice me faz parar no meio da estrada para tirar fotos perto da borda de uma falésia. Só voltamos para o quarto quando a noite engolira o céu.
Cantamos Taylor Swift a plenos pulmões, fingindo que tivemos nossos corações partidos por Harry Styles. Pulga estava com o motor reclamando. Anoto mentalmente em minha cabeça para levar a caminhonete para o senhor Hale, pai de Jasper, dono da oficina mecânica.
Paro em frente a luxuosa casa de Alice. Eu sempre ficaria de boca aberta. Ela fica mais afastada do centro de Forks. Melhor dizendo, fica afastada de toda a Forks. Tinha que passar pela rotatória e seguir para o lado oposto da cidade, tendo poucas casas (enormes) pelo lugar.
A casa é em retângulo e tem 3 andares. Ela é uma mistura bem feita entre o século passado com o de agora. Sua frente tem um jardim com um caminho para a casa feito de pedra. A cor é de um azul claro, tendo muitas janelas. É muito claro lá dentro. A porta tem mais ou menos 2 metros de altura e é antiga.
— Tem certeza que não quer jantar? — Alice pergunta apoiando seu queixo na janela de Pulga.
— Melhor não. Sua mãe não deve ter feito comida o bastante.
— Ela sempre faz comida demais. Você deveria comer com a gente.
— Sue está me esperando em casa. — murmuro envergonhada por ter que recusar seu pedido.
— Não pode ligar para ela?
Poder, eu poderia. O problema é que não quero. Eu só quero chegar em casa, comer qualquer coisa, me jogar na minha cama e conversar com o meu CS. Balanço a perna ansiosamente.
— Posso. — assopro. Ela sorri.
Sue deixaria claro. Coloco o telefone na altura da orelha esquerda, assim Alice não vê a tela.
— Oi, Sue.
— Oi, Bella! Se divertindo com a Alice?
— Sim! Então, eu queria saber, a Alice está me convidando para jantar na casa dela. Eu posso?
Se ela deixasse, talvez eu mentisse para Alice.
— Na verdade, esperava que você viesse para casa logo. Fiz uma comida vegana incrível e queria que você experimentasse.
— Ah! — exclamo, meio chocada. — Ok! Até daqui a pouco.
Quando abaixo o telefone, balanço a cabeça negativamente.
— Ela não deixou.
Alice bufa de raiva.
— Mas ela sempre deixa.
— Ela fez uma comida especial. Não entendi direito. — desconverso.
— Tá bem! Vou deixar o amor da minha vida me deixar.
Eu rio.
— Você é muito exagerada.
— Isso é exatamente como os seus livros. — ela mexe na sua bolsa rosa, me entregando o kindle. — Aqui está! Seu mundinho particular.
Reviro os olhos, pegando da sua mão.
— Tchau, Ally.
— Tchau, Bella.
Com Pulga fazendo um barulho estrondoso com seu motor, volto a andar pela estrada, me sentindo mal por querer mentir para Alice. Balanço a cabeça, deixando de lado. Tudo bem mentir, uma vez lá que outra.
Mas você está sempre mentindo. Meu cérebro traidor pensa. Não, eu não estava sempre mentindo. Quando estou com Alce, sempre estou feliz. Quando passo tempo com Seth, me divirto. Eu digo quando estou triste, não é?
Você diz ou finge que não está triste? Usando o sarcasmo para te proteger?
Talvez, ele tenha um ponto.
Quando chego em casa, tudo está escuro, o que é estranho. Bato a porta do carro, depois de pegar a minha mochila pesada. Guardo o kindle dentro para não levantar questionamentos de Sue. A garoa aperta e eu ponho o capuz do meu casaco.
Tento entrar pela porta de trás que está fechada. Ergo a sobrancelha. Não é para estar fechado a essa hora. Vou para a frente da casa quadrada branca, subo as duas escadas, indo para a varanda. Me abaixo na altura do vaso de plantas, levantando o caracol de cerâmica pegando as chaves da frente.
Abro a porta marrom, entrando logo em seguida. Fecho-a com o pe´. O carro de Sue está estacionado na parte de trás, então porquê a casa está tão silenciosa? Ligo a luz da sala, encontrando tudo em seu devido lugar. Onde está Seth?
Largo a mochila em cima da poltrona, pegando o celular do meu colso de trás. Disco o número de Sue que vai direito para a caixa postal. Onde ela está? Teria saído os dois para um passeio? Mas por que não me avisaram?
Sinto minha barriga pedir por comida. Caminho para a cozinha. Tento ligar para o número de Seth que também não me atende. Largo o telefone na bancada e quando ligo a luz, tomo um grande susto.
— SURPRESA! — Seth e Sue gritam.
Eu me apoio na bancada, respirando fundo. Uma faixa escrita “feliz dois meses” está com as duas pontas penduradas nos armários. O teto está cheio de balões coloridos, provavelmente com gás hélio. Na pequena mesa de quatro cadeiras, há um bolo de chocolate, docinhos e salgadinhos. Eu ponho a mão na boca, não acreditando.
— Dois meses desde que tenho que te aguentar! — Seth diz me puxando para um abraço apertado.
— Você tem certeza que você tem que me aguentar?!
Sue vem até mim, pondo sua mão em meu rosto. Seus olhos brilham.
— Nas primeiras semanas, você estava tão cabisbaixa. Eu estava preocupada! Pensei que você estava tão infeliz. — ela sussurra, beijando a minha testa. — Não sabe o quão feliz eu fico vendo você feliz, Bella. Vendo você fazendo amigos.
Eu sorrio sem jeito. É, eu estava péssima dois meses atrás.
— Agora, vamos comer! — ela diz, enxugando as lágrimas que descem dos seus olhos.
Seth e eu atacamos os salgadinhos. Comemos quase tudo. Sue se juntara a nós. Terminamos de comer rapidinho. Corto o bolo com Sue tirando várias fotos. Ela tira só minhas, com Seth, com ela e com os dois. Diz que faria um álbum. Eu duvidava que ela se lembraria de fazer.
Vamos para a sala assistir alguns filmes, nos enchendo de doces. Isso não faria muito bem para a minha barriga. Mas quem se importa? Eu claramente não. Não hoje.
É quase duas da manhã quando paramos a sessão de filmes. Grogues de sono, subimos as escadas. Seth quase caiu, o que me causou uma alta gargalhada. Eu troco de roupa, jogando-me na cama. Antes de dormir, vejo as minhas mensagens, encontrando uma do correspondente.
Quero saber como foi seu dia.
Durma bem, Bella.
E a minha ligação?
Depois de amanhã.
Boa noite.
Boa noite.
Olho para fora da janela, franzindo a testa ao ver uma sobra. Dou de ombro, desligando o abajur. Filmes de terror deixam a minha imaginação bem fértil. Deito a cabeça no travesseiro e durmo.
Meu sonho é diferente essa noite.
Eu estou no baile, dançando com Alice em seu vestido vermelho enquanto eu usava o azul da loja. Sinto mãos tocarem em meu corpo. Deslizando. Explorando todo o meu corpo. Ninguém nunca me tocou tão intimamente em público. Eu poderia parar, mas não queria. Inconscientemente eu sabia quem é. Meu correspondente secreto.
Ele dá beijos por toda a extensão do meu pescoço. Eu jogo a cabeça para trás. As luzes azuis do salão piscam, dificultando a visão. Uma música sensual tocava no fundo. Quando estou prestes a me virar e ver seu rosto, acordo, suada, com um estrondo enorme.
— Merda! — digo, ao escutar o trovão.
Gemendo, volto a cair com as costas na cama, sentindo meu nervo pulsar. Respiro fundo, esfregando as pernas em torno de alívio. Olho para o relógio, são 5 da manhã. Ótimo! Eu estou sem sono, com vontade mais vontade ainda de achar o meu correspondente e, o pior de tudo, excitada.
Fale com o autor