Fico te olhando da janela, à espera de poder saber algo a mais sobre você, escuto sua mãe te chamando de Daniel, isso é bom, seu nome eu já sei, fico ali mais alguns minutos te admirando, então meu pai entra na sala e eu me assusto, dou um pulo como se tivesse sido pega no flagra, vou direto pro meu quarto, precisava estudar para a prova de física, mas não conseguia me concentrar, não tirava sua imagem da minha cabeça.

Minha mãe chega do trabalho e me pede para eu ir com ela na casa do casal que acabou de se mudar para fazermos as condolências, para que eles se sentissem bem-vindos, assim que eu entro na sua casa avisto um monte de caixas, uma empilhada em cima da outra, vi uma menininha pequenininha escondida atrás de uma pilha delas, ela era morena clara, dos cabelos castanhos e cacheados, com olhos verdes, ela era linda, quando vi seu pai percebi que ela era idêntica à ele, enquanto você era a cara de sua mãe.

Tomamos um chá e levamos uma cesta cheia de biscoitos para lhes dar as boas-vindas, seus pais se sentiram muito felizes, ficaram agradecidos com a nossa gentileza, sua irmãzinha, chamada Clara, ficou brincando com os poucos brinquedos que ela achou dentro de algumas caixas aleatórias, já você estava quieto, não falou praticamente nada, apenas respondeu às perguntas que lhe foram feitas, pelo jeito você é bem tímido, porque quando minha mãe te perguntou seu nome, suas bochechas coraram na hora, eu fiquei lá assistindo a tudo aquilo e tentando te olhar sem que você percebesse, você estava com tanta vergonha que realmente nem percebeu.

Assim que saímos de sua casa, avistei o Jack saindo com o pai, assim que o vi meu coração bateu mais forte, fiquei nervosa, minhas mãos começaram a suar, meu Deus, ele tem esse poder de me tirar do sério sem fazer nada, queria me esconder com medo dele me ver aqui e tirar conclusões precipitadas, mas aí eu lembrei, ele não sabe que eu existo.

Do lado esquerdo a casa do Daniel, do lado direito a casa do Jack e bem no meio desse fogo cruzado de emoções e sentimentos, a minha casa, minha sorte é que a casa do panda (Gabriel), fica na frente da minha, posso correr para lá sempre que eu precisar.

Na manhã seguinte, quando cheguei na escola, como de rotina passei pelo Jack e sua turminha, mas assim que passei pelos seus amigos, vi o Daniel no cantinho da sala, sozinho, todo corado, fiquei feliz por ele estar aqui na minha sala, talvez pudesse conversar com ele, se a coragem deixar é claro.

—Bom dia- Digo, com a esperança de ter falado alto o suficiente para você ouvir e esperando a sua resposta.

—Bom dia- responde você, com a voz mais linda do mundo.

Fico extasiada com o tom da sua voz, ela é grossa, mas não é rouca, é linda, nunca ouvi algo parecido, fico sem reação por um momento, mas me lembro que estamos em uma conversa e que preciso tomar coragem para dar um rumo à ela.

—Tudo bem?

—Tudo sim e você?

—Tudo bem, eai? De onde você e sua família vieram?

— Viemos de Turk, no sul da Irlanda, meu pai foi transferido no trabalho e tivemos que nos mudar para cá.

—Entendi, no que seu pai trabalha?

—Ele é engenheiro geral de uma multinacional, a Springs&C.O.

— Caramba! Que legal. Bom então seremos vizinhos haha.

— Sim e pelo jeito estudaremos na mesma classe também não é mesmo?

— Sim! Qual sua matéria preferida?

— Você pode ma achar louco, mas eu amo Biologia de paixão, gosto de anatomia, de poder entender como cada parte do nosso corpo funciona e você, gosta de que?

— Você tá brincando? Daniel, eu também amo biologia, o pessoal odeia, fala que eu sou maluca de gostar dessas coisas, finalmente achei alguém que me entende haha.

Conversamos o dia todo, nos demos super bem, ele gosta de tudo que eu gosto, das mesmas músicas, mesma matéria, mesmos livros, mesmas séries e mesmos filmes. A Ana e o Gabriel vieram me procurar no final da aula, querendo saber por que eu estava sumida, expliquei tudo o que aconteceu com o Daniel, que ele era meu novo vizinho e que tínhamos muitas coisas em comum, quando saímos da sala, o Dani me chamou para irmos juntos para casa para terminarmos nosso debate sobre as vantagens e desvantagens do uso de células-tronco em pesquisas para a cura de doenças.

(Sim, o Daniel me permitiu chamar ele de Dani)