Cartas de um Carteiro

6 CAPÍTulo 5 - Dia Sombrio


Notas iniciais
Mais um capítulo pra vocês! Espero que goste. Boa Leitura!

No mesmo dia em que foram para o shopping, esse também em que Alex saiu em disparado pra sua casa, o loiro, Anderson, o seguiu vagarosamente, deixando que ele chegasse primeiro em sua casa, dando satisfação aos pais, que já haviam chego do serviço e não encontraram o filho na residência. Ele teve de explicar o motivo do atraso, assim como também teve que explicar o porquê de um homem, desconhecido por eles, estar trazendo a mochila escolar do filho.

Alex tentou inventar uma desculpa, dizendo que havia esquecido a bolsa no ponto de ônibus e que Anderson a levara pra ele, já que era o carteiro do bairro e sabia exatamente onde o jovem morava, mas a desculpa não foi das melhores, sendo o loiro, o responsável por contar a verdade. Disse que saíra do trabalho mais cedo e que encontrara Alex caminhando pela rua sem rumo, falou também que o jovem não queria voltar pra casa, pois sabia que os vizinhos iriam ligar o mais rápido possível para o casal, pra informar que o filho deles havia cabulado aula, o que era mentira, então decidiu leva-lo para o shopping da cidade, assistir um filme e comer algo, isso pra que ele não ficasse vagando pelas ruas, sem rumo e com o risco de ser alvo de algum ladrão.

Nisso o casal acreditou, perguntaram até quanto Anderson havia gasto com o filho deles, mas o homem disse que não precisariam pagar, ele conhecia Alex por entregar as correspondências deles todos os dias e não queria o mal do garoto. Por assim ficou, o casal aliviado pelo filho estar bem, Alex aliviado por não levar uma bronca dos pais e Anderson contente, por ter passado um dia com Lexy.

º º º

Segunda-Feira, 03:30 PM

Agora, dois meses já se passaram, a escola de Alex entrou de férias, mas o jovem ainda continua recebendo as correspondências de seus pais, tendo ainda mais tempo para ajuda-los com os novos produtos recebidos. Ele também não teve mais a oportunidade de sair com Anderson, já que esse passou a ter serviço em dobro, devido ser final de ano e todos estarem começando a se prepararem para as festividades. Jonathan também não havia dado notícias, o que incomodou um pouco os pais de Lexy, já que, sempre nessa época, o jovem passava a dormir em sua casa, para ajudar com compras e tudo mais.

A única coisa que estava deixando Alex preocupado eram as cartas anônimas que chegavam pra ele todos os dias, a gaveta de sua cômoda já estava cheia e, ainda sim, mais e mais cartas anônimas eram entregues.

— Preciso dar um jeito nisso. — O de cabelos negros olhava atentamente para a pilha de envelopes que havia despejado sobre sua cama.

O jovem estava sozinho em sua casa, seus pais haviam viajado para outra cidade, pretendiam fazer as compras de Natal em outra cidade, devido ao alto preço dos produtos onde moram. Ficariam cerca de três à quatro dias fora, deixando o filho sob os cuidados dos Menfor, o casal de idosos que mora na casa ao lado da deles.

A campainha toca, Alex nem se preocupa em esconder os envelopes, provavelmente seria um dos Menfor checando se estava tudo bem com ele.

— Senhor Otávio. — Cumprimentou, o homem havia passado por ele e agora estava se sentando no sofá da sala. — O senhor precisa de algo? — Ele tinha que ser gentil, não poderia tratar mal aquele que estava ali por ordem de seus pais.

— Você acha que preciso de algo? — O homem foi curto e grosso, como se já tivesse um objetivo ao entrar ali. — Posso usar o banheiro? — Nem esperou a resposta, já levantou do sofá e começou a caminhar em direção ao corredor da casa.

Alex aproveitou esse tempo pra começar a preparar um chá e algum lanche para o homem, talvez sua mulher não estivesse em casa e ele estivesse com fome. Talvez ela estivesse limpando a casa e não queria o marido atrapalhando. Tudo o que o jovem sabia era que o velho possivelmente pretendia ficar um pouco mais ali.

— Parece que esteve guardando todas as minhas cartas. — A voz de Otávio chama a atenção do menor, que se vira, avistando alguns dos envelopes recebidos nas mãos do homem.

— Suas cartas? — O corpo do moreno começa a estremecer, sabia exatamente o que poderia acontecer se continuasse ali com o Menfor. — Poderia sair, por favor? — A bandeja com as xícaras de chá e um prato com lanches tremia em suar mãos.

— Porque a surpresa? — Ele começa a caminhar em direção ao garoto, que tenta recuar, porém já estava chegando no limite de sua cozinha. — Não precisa fugir, Lexy. — O velho tentava manter um tom calmo, já estava próximo o suficiente para retirar a bandeja com chá e lanches das mãos do jovem, depositando-a sobre o balcão próximo a pia. Ele já estava com o zíper do short jeans aberto, e sua camisa já havia sido desabotoada. — Não vou te machucar.

Não chegue mais perto!

— Lexy? — No mesmo momento, Anderson passava em frente à casa do jovem e ouve sua voz. Sem pensar duas vezes ele corre em direção a porta, abrindo-a rapidamente, dando de cara com a pior cena que poderia imaginar.

Otávio Menfor estava frente à frente com Alex, que não tinha mais pra onde correr. Uma das mãos do senhor de idade tocava o rosto pálido do garoto, acariciando levemente sua face, enquanto a outra segurava a cintura do mais novo, que não conseguia esboçar reação alguma.

— Você não ouviu o garoto? — Feito um raio, o carteiro avança por trás de Otávio, o agarrando pela gola da camisa arrastando-o pra fora da casa do jovem. — Se tentar tocar nele mais uma vez eu não irei apenas te jogar pra fora! — Esbravejou, o de cabelos brancos corria pra sua casa, xingando de tudo quanto é nome o loiro. — Ele te machucou? Você está bem? — O loiro estava de joelhos em frente à Alex, que não conseguia mais se manter de pé devido ao susto, ele encarava o rosto do maior. — Lexy? — Anderson toca os ombros do moreno, o fazendo despertar subitamente de seu pesadelo.

Sem dizer uma palavra sequer, o jovem deixa seu corpo ir de encontro com o do loiro, se aconchegando em seu peito. Esse por sua vez, o aceita de braços abertos, acolhendo o menor em seus braços, acariciando sua cabeça na tentativa de acalmá-lo.

— Vem. — Após alguns minutos ali, parados em frente ao fogão da cozinha, Anderson decide levar o jovem para o sofá. Ele o levanta vagarosamente, ajudando-o a caminhar, devido suas pernas ainda bambearem. — Vou fazer um chá pra você, quer? — O garoto acena positivamente, e olha para o que estava sobre o balcão, como se o homem pudesse pegar aquele mesmo, que ainda estaria quente.

Os dois ficaram lá, sentados. Alex pensando em tudo o que havia acontecido e Anderson o observando, pensando que teria que deixar o garoto sozinho ali, com a possibilidade do velho retornar a qualquer momento da noite, pra tentar mais uma vez abusar dele.

º º º

Mesmo dia, 07:45 PM

— Tá ficando tarde. — Era o que Alex dizia, porém seus olhos não. — Pode ir embora se quiser. — Falou. — Não quero atrapalhar mais.

— Atrapalhar? — Ele deixa um sorriso escapar. — Então. — O loiro recolhe as xícaras que estavam sobre a mesinha da sala, indo em direção a cozinha. — Quando seus pais voltam? — Pergunta, já ensaboando alguns dos objetos de porcelana.

— Talvez na quinta. — Sua voz falhou no final, estava ciente de que durante esses dias em que seus pais estivessem fora, seria um alvo fácil de Otávio.

— Pode ir dormir na casa daquele seu amigo? — Como a louça era pouca, o homem já estava voltando para o lado de Alex quando perguntou. Ele acena negativamente com a cabeça. — Então avise pros seus pais que vou passar esses quatro dias aqui com você.

— Passar os quatro dias, comigo? — Surpreso com o que acabara de ouvir, o moreno apenas sorriu, acreditando ser uma brincadeira ou algo do tipo. Se ele ligasse para os pais avisando que o carteiro da rua iria dormir com ele durante quatro dias, certeza que o casal voltaria imediatamente para casa dar uma boa bronca nele. — Tá falando sério?

— Claro que sim, Lexy. — O homem abre o zíper de sua mochila, retirando uma peça de roupa limpa. — Pode me emprestar uma toalha e me mostrar onde fica o banheiro? — Pediu já de pé, o menor logo atendeu seu pedido.

º º º

O resto da noite foi mais tranquilo, Alex mandara uma mensagem para os pais, dizendo que um amigo iria dormir na casa com ele pra não correr risco nenhum, disse também para ligarem para os Menfor pedindo para não incomodarem mais ele, o que os pais do garoto não entenderam muito bem. Naquela noite, quem cozinhou foi Anderson, ele preparou pizza para comerem, o que demorou um pouco e causou certa confusão na cozinha, principalmente após a primeira tentativa de fazer a massa dar errado, ocasionando em um amontoado negro de massa queimada, mas no fim tudo deu certo.

Anderson dormiu na sala, em um colchão que o dono da casa pegara no quarto de hóspedes, ele achara que assim poderia escutar caso o vizinho tentasse entrar sem permissão na casa. Alex insistiu que o maior fosse para o quarto de hóspedes, ou que pelo menos deixasse que ele dormisse ali também, no sofá, mas a resposta era sempre a mesma. “Pode ficar tranquilo, se eu precisar de algo te chamo. E não precisa ficar com medo, eu estou aqui se precisar!”

º º º

Mesmo dia, 11:55 PM

— Porque se preocupa tanto comigo? — A voz de Alex era dita em baixo tom, não queria acordar o maior, que dormia profundamente. Estava sem camisa, deitado com metade do corpo no colchão e a outra no chão, parecia estar com calor, já que a cada inconsciente movimento de seu corpo, ele ia mais ao encontro do piso frio. Percebendo isso, o moreno vai até a estante, pegando o controle do ar, digita alguns números e o aparelho preso na parede da sala começa a funcionar, liberando uma brisa gelada na direção do homem. — Bom sonhos! — Dito isso, ele volta para o seu quarto, almejando uma boa noite de sono.