Cartas de um Carteiro
9 CAPÍTULO 8 - Ano Novo em Família
Sábado, 10:00 PM – Véspera de Ano Novo
As festividades do natal já haviam terminado, a família Santana havia chamado a maioria de seus parentes para comemorarem em sua casa e, como de costume, Alex permanecia em seu quarto, mandando mensagens pelo whatsapp enquanto todos festejavam na sala. Sua principal conversa era com Anderson.
“Anderson ♥: Como está indo a véspera de ano novo?
Alex: Um tédio. Tá todo mundo lá na sala
Anderson ♥: Prq não vai lá com eles?
Alex: Tá me perguntando isso mesmo?
Alex: Preferiria ir ao shopping com vc!
Anderson ♥: Ou simplesmente ficar em casa ao seu lado, te abraçando e beijando ♥
Alex: Bobo ^-^
Alex: Já volto, vou pegar algo pra comer
Anderson ♥: Vai lá”
Ele deixa o telefone celular na cama e se dirige até a cozinha. Passa por Oliver, seu primo mais novo, uma pequena criança, que assim como todas as outras, é bagunceiro e muito gritalhão.
— Lex! Lex! Vamos brincar? — O garotinho de três anos corre até ele, seu cabelo ruivo, genética de seu pai, estava todo bagunçado enquanto seu macacão de animais tinha algumas manchas de comida. Ele se joga no colo do maior.
— Agora não Oli, depois brinco com você. — Colocou o garotinho no chão e continuou seu caminho.
— Olha só quem saiu da caverna. — Meu tio brincou, ele estava com uma prato cheio de comida e olhava fixamente para o pavê em cima da mesa, como se planejando comê-lo em seguida, ou até mesma fazer aquela piada sem graça de sempre.
O rapa nem deu tanta atenção para seus familiares, apenas pegou um prato e colocou um pouco de comida, retornando o mais rápido possível para seu quarto, onde pegou seu primo em cima da cama, mexendo em seu aparelho celular.
— Quem é esse Lex? — O menor havia aberto a foto de Anderson que o primo possuía no celular. Nela, eles estavam na sala do cinema, esperando que o filme começasse, o loiro com um pote grande de pipoca e um copo, de mesma proporção, de refrigerante, enquanto Alex tirava a foto.
— É só um amigo. — Respondeu retirando o celular do mais novo, com medo de que ele encontrasse outras fotos mais comprometedoras.
— Porque ele não veio pra festa?
— Ele quem não veio pra festa, Oliver? — No mesmo momento, Samanta entra no quarto. Ela estava “investigando” o sumiço repentino do filho de sua irmã.
— O amigo do Lex. — Fala, dando a oportunidade para que a senhora Santana encarasse o filho em busca de uma resposta.
— Alex?
— O Anderson. — Tentou falar em um tom inaudível, porém sua mãe estava próxima o suficiente para ouvi-lo.
— O carteiro do bairro? — Questionou, recebendo um “É” como resposta do filho. — Você sabe se ele está com algum parente ou viajou?
— Não sei onde ele mora, mas sei que ele não viajou. — Ele olhou a foto no celular mais uma vez. — Os pais dele estão mortos e ele mora sozinho.
— Porque não disse isso antes, Alex? — Como um raio, a mulher se senta na cama ao lado do moreno. — Você tem o número dele? Pede pra ele explicar onde mora que estamos indo buscar ele.
— O que? — Fitou a mulher assustado.
— Anda logo Alex, não podemos deixar a pessoa que cuidou de você duas vezes sozinha em pleno ao novo. — Ela insistiu, estava quase ela própria pegando o celular do filho para ligar para o homem.
Um toque... Dois... No terceiro o homem atendeu.
“Alô, Lexy?”
— Anderson, é.... — Percebendo a dificuldade com a qual o filho estava lidando para fazer a pergunta, Samanta pega o celular dele.
— Anderson, é a Samanta, mãe do Alex. — Disse, esperando uma resposta.
“Senhora Santana, como vai a senhora?”
— Vou bem, vou bem. Anderson. — Foi rápida, visando que estava quase na hora da virada e eles não teriam muito tempo para ir busca-lo caso morasse muito longe. — Poderia me dizer onde mora? Alex e eu estamos indo te buscar, você não pode passar Natal e Ano Novo sozinho em uma casa.
“O que? Não, não precisa se incomodar senhora, estou bem.”
— Fala logo onde mora, homem. Estamos com pressa.
º º º
Mesmo dia, 10:50 PM
O carro se movimentava rapidamente pela rua da cidade e, como não havia trânsito, a viagem seria rápida. A senhora Santana estava no volante, ela avisara o marido e os outros familiares que iria com Alex buscar o carteiro, que era amigo do garoto e que estava sozinho desde o natal. Todos assentiram que sim, eles deveriam ir buscar o homem sim.
Não demoraram mais de vinte minutos para chegarem até o endereço dado pelo homem. A casa era muito bela, as paredes do lado de foram tinham um tom azul bebê com algumas janelas na parte da frente e uma porta de madeira entalhada. Da calçada até a porta de entrada, um caminho de pedras assimétricas, um amontoado de areia na parte direita e alguns tijolos podiam ser visto na lateral da casa, talvez ele estivesse pensando em uma reforma.
— Vai lá chamar ele. — A mulher ordenou. —- E não demora muito, ainda temos que voltar a tempo da virada. Um “Tá certo” foi ouvido logo antes da porta do carro se fechar.
A campainha foi pressionada apenas uma vez e a espera nem foi tanta, o homem alto e de cabelos loiros, esse que agora estava cortado em um penteado ainda mais bonito, abriu a porta.
— Você.... Em não me....
— Gostou? — Um aceno positivo foi dado como resposta. — Que bom, fiquei com medo de que não gostasse. Pode entrar e me ajudar a pega uns pratos que eu preparei mais cedo? — Deu espaço para o garoto entrar, mas não sem antes acenar para a mulher no carro, pedindo para esperar mais alguns minutos.
— Sua casa é bem bonita. — O garoto observava tudo, desde a estátua de cavalo sobre a mesa de centro na sala, até o resto de roupa suja na pia.
— Não era bem isso que eu queria ouvir de você. — O homem brincou, se aproximando cada vez mais do menor, suas mãos foram até a cintura dele, puxando-o pra si. — Será que sua mãe poderia esperar mais um pouco? — Ele tenta beijar o garoto.
— Não. — O jovem apenas vira o rosto, dando apenas um abraço no outro, um abraço bem forte. — Mas pra um abraço ela pode esperar. — Ficaram um tempo assim, até Alex se desvencilhar do mais velho e lhe depositar um rápido beijo. — Vamos.
º º º
Mesmo dia, 11:15 PM
— Anderson não é mesmo? — O pai de Alex estava na porta esperando, ele ouvira o barulho das portas do carro se fechando e fora até lá ver se eram sua mulher e seu filho com o convidado. O loiro confirmou com a cabeça. — Fique à vontade. — Deu passagem para ele.
— Pode deixar os pratos na cozinha. — A senhora Santana pediu educadamente. — Mostra o caminho pra ele, Alex.
Os dois entraram na casa, Alex um pouco constrangido pelos olhares de seus pais que os acompanhavam até metade do caminho, de onde diferente dos dois, seguiram para a sala, se juntar com o resto da família, esses que começaram com as perguntas do tipo: “Quem é esse?”, “Porque ele está aqui?”, “É algum amigo do Alex?”, entre outras.
— A gente vai pro meu quarto, esperar até a virada. — O moreno alertou seus pais.
— Tudo bem. — Sua mãe confirmou antes de seu marido dizer algo, já que percebera que ela faria menção do loiro ficar na sala com eles para conversar.
— Parece que nada mudou desde a última vez que estive aqui. — Comenta o carteiro, que aproveita para sentar sobre o colchão da cama do mais novo. — Ou talvez tenha algo novo aqui sim. — Ele pegou um pacote de salgadinho terminado que estava no chão.
— Ah, isso. — O garoto toma o pacote vazio das mãos do outro. — Deixa eu jogar isso fora.
— Não precisa disso agora. — Antes mesmo do mais novo se distanciar, Anderson o agarra pelo pulso e o puxa pra si, fazendo-o se sentar em seu colo. — Será que agora temos um tempo só pra nós? Estava com muita saudade de ter você comigo.
— Lex? — A voz de Oliver vem após algumas batidas na porta. — Pode entrar?
— Pode sim Oli. — O moreno salta rapidamente do colo do outro, que sorri, e fica encarando a porta, esperando que o pequeno garoto adentrasse.
— Do que vocês tão brincando? — Questiona, esperando que também o deixem participar.
— A gente não tava brincando. — Alex fala, porém é cortado pelo mais velho ali, que o puxa pelo braço e começa a fazer cócegas nele. — Ei... Para... O que tá fazendo?
— Eu também quero!! — Oliver se joga na cama sobre os dois, também fazendo cócegas em seu primo e no homem desconhecido.
— Crianças! — Alguns minutos de brincadeira depois, a senhora Santana grita da sala. — Venham logo, está quase na hora!
— DEZ, NOVE, OITO, SETE...
Os três saiam do quarto, caminhando pela casa rumo a cozinha.
— SEIS, CINCO, QUATRO...
Eles chegam até o cômodo em que todos os outros membros da família estão, Oliver corre pro colo da mãe.
— TRÊS, DOIS, UM! FELIZ ANO NOVO!!!
Um forte abraço coletivo, Anderson mais perdido que cego em tiroteio e Alex rindo da situação. Todos os anos, em todas as festas os membros da família Santana faziam um abraço coletivo, algo para não ficarem se demorando nos cumprimentos e, também, para poderem ir logo para a parte de comer. Essa que todos adoravam, até mesmo os mais novos.
— Não precisa ficar acanhado querido. — Samanta puxa Anderson de lada e pede com um enorme sorriso no rosto. — Aqui somos todos de família humilde, então não precisa ficar tímido. Alias. — Ela faz menção de voltar para a mesa, pegar algo para comer, porém deixa algumas últimas palavras para o homem pensar. — Bem vindo a família. Obrigado por cuidar tão bem do Lex. — Dito isso, ela se apressa até os alimentos.
— O que? Como a senhora? — Sem tempo para perguntas, a mulher fora mais rápida e Anderson apenas ficou com a dúvida formada.
º º º
O resto da noite foi mais calmo, após se alimentarem, a família toda se aconchegou na sala, onde colocaram um bom filme para assistirem. Anderson sentou perto de Alex, no chão, um ponto estratégico, onde ninguém, ou pelo menos quase ninguém, pudesse ver suas mãos, uma sobre a outra, ou sua mão acariciando a perna do mais novo. A senhora Santana, também muito esperta, tinha outro ponto estratégico, esse que a permitia ver exatamente tudo o que acontecia em todo o cômodo, e bem, nada escapa dos bons olhos de uma mãe observadora.
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