Cartas de amor - Crônicas
7 Eu ainda lembro, mas não devia
Notas iniciais
Eu ainda lembro o dia em que nos conhecemos. Você não era nada você – todo sem jeito e tímido – e eu lembro como me arrependi de ter te conhecido melhor e ter deixado você me mostrar sua verdadeira face.
No final da aula, você foi me buscar, todo nervoso e hoje, eu vejo como eu não te conhecia, porque você não é o tipo de garoto que fica nervoso perto de uma garota.
Naquela noite fria, a chuva tinha parado e nós caminhávamos como dois bobos pelo campus da faculdade. Foi só eu te olhar que tive certeza que esse seu sorriso despreocupado e cheio de covinhas iria me trazer problemas. Sérios problemas. Porque eu já tinha ouvido falar que um sorriso assim – tão sedutor – não poderia ser coisa boa e aquele nosso beijo, perto da fonte, me encheu de vida e sensações que há muito tempo estavam congeladas no meu peito.
Eu ainda lembro de como eu quis sorrir e te encher de beijos, quando você me olhou e disse que nunca tinha visto olhos verdes tão bonitos quanto os meus e, eu, encantada pelos teus olhos azuis, pensava sem parar: “O que será que ele viu em mim…?”
Eu ainda lembro do teu perfume e de como ele ficava na minha roupa depois dos nossos encontros. Eu ia dormir extasiada porque parecia que você estava ali comigo. Todos os dias eu sinto o teu perfume em algum garoto que passa ou entra no mesmo ônibus que eu e todas essas lembranças voltam, me atormentando, me tentando…
Eu me odeio por sentir saudades do teu toque, dos teus beijos e, até mesmo, dos nossos insultos. Eu me odeio por sentir vontade de te ter só mais uma vez, só pra te beijar de novo, te provocar e rir das tuas brincadeiras... só pra te irritar. É que eu sei como você odeia o fato de que eu começo a rir quando você está sério.
Eu me odeio por ter dito que ia deletar seu número e não ter tido coragem. Na verdade, quando eu sinto saudades, fico o encarando na tela do meu celular, enquanto bom senso me segura para não clicar em “chamar”. É que eu seria (mais) burra se eu corresse atrás de você, porque você deixou bem claro que está em outra e ela parece ser o seu tipo de garota: que dá tudo o que você quer (se é que você me entende). E então, quando eu tenho esses momentos de nostalgia, eu paro e penso em todas as lembranças ruins que você me deixou também e percebo que eu ainda lembro, mas não devia.

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