Cartas de Lamentações

2 Carta de Saudade I


Caro Amigo Distante,

Fazem dias que não nos falamos, a volta da rotina as aulas na faculdade sempre me desestruturam em relação a minha produção textual, porém não poderia ficar por muito tempo distante, você me faz bem e eu preciso estar bem, na maior parte do tempo, ou os pensamentos ruins voltam a tona e não posso mais me dar ao luxo de ficar mal, tenho outras responsabilidades e a minha base de pessoas não conseguiria lidar, novamente, com isso.

Acho que quando se passa dos vinte anos ficamos um pouco ansiosos para o grande catalizador de mudança que acontecerá em nossas vidas, tanto profissionalmente quanto romanticamente, quando aquele emprego ou aquela pessoa ideal aparecem e muda tudo, o amor não é mais uma idealização boba e o emprego é seguro e certo, as coisas são concretas. Me encontro exatamente nessa situação, nenhuma mudança de vida é tão drástica quanto a dos vinte para o trinta, anseio por conseguir programar minha vida, ter um pouco de independência, estabelecer-me e apaixonar por alguém e ver futuro nisso.

Eu queria muito evitar ao máximo esse assunto, porque eu deveria já tê-lo superado, ele já me superou, meu corpo o superou, mas meu coração e alma clamam em saudade por ele e essa semana foi especialmente constante em vários momentos e memórias. Meu primeiro amor.

Partiremos de um principio que não consigo lidar com amor, não consigo perceber quando é amor até aparecer o ciúmes, quando percebo que tenho ciúmes é que estou amando, não acredito ser uma das percepções mais saudáveis de se ter, Outro ponto, é que minha entrega e permissão, sim, eu preciso me permitir amar ou não acontecerá, é completamente afetado pela minha autoestima, por isso, quando estou me sentindo muito mal com meu corpo, essa relação fica abalada.

Crescer como uma criança acima do peso pode ser tranquilo, inicialmente. Ontem falei sobre isso com um grupo de amigos, nada é mais confortável do que a ignorância à malicia ou a maldade da infância, quando percebemos que o que somos e que se pode ser usado justamente contra nós, é triste, porque é um caminho sem volta, não tem como voltar a atrás, não tem como desver, porque torna-se uma questão em nossa consciência, uma sombra consciente de que o que você é, é a razão de risos ou chacota por outros, que muitos não te consideram bom o suficiente por não apresentar certas características e, infelizmente, parecerá sempre que buscará justamente dessas pessoas uma aprovação. Ser uma criança gorda não era um problema, até se perceber que para os outros é, tudo muda com a puberdade, os hormônios são um inferno e se a genética não te favorece, você fica mais feio que o normal e no meu caso, engorda para um caralho.

Sempre fui relutante a adultização, quando tinha treze para catorze anos só queria saber de ler livros e acompanhar o lançamento de suas adaptações, enquanto, os demais colegas só sabiam falar sobre suas experiencias uns com os outros, sobre quem pegará quem e sobre os segredos íntimos mais pífios possíveis, como uma referência recente, eu era o Will querendo jogar o jogo enquanto meus amigos só sabiam querer namorar. Não tinha o menor interesse em estar beijando alguém ou pensar sobre sexo, apenas eu e meus amigos me bastavam, no entanto, não somos imunes ao nosso meio e ao pouco nossos amigos amadurecem também, principalmente quando se é mais amigo de garotos, a adultização delas é mais rápida e cruel. Achei por um tempo que estava apaixonado pela minha melhor amiga, Amélia, tínhamos uma paixão culposa por uma série famosa ruim sobre romance com humanos e vampiros em comum e nos tornamos muito próximos na quinta série, até hoje somos, porém mais distantes. Revisitando o passado, ela apenas foi uma das minhas primeiras tentativas de tentar construir em alguém alguma base emocional e não um amor platônico, outra tentativa falha foi beijar uma outra amiga, não entrarei em detalhes é um pouco vergonhoso, digamos que no aniversário dela estávamos quase lá e eu desisti na hora, beijar garotas nunca me fora atrativo.

A pior experiencia foi a viagem de formatura do ensino fundamental, fomos para o interior do estado com outras três ou quatro escolas, o clima era obvio pegação, nada no sentido tão carnal, apenas beijos, Até cogitei algo, porém tinha tanta vergonha de mim e do meu corpo, eu já não gostava tanto dos meus colegas de escola, quanto mais, outras pessoas de outras escolas, Nunca cheguei a ficar com ninguém naquela viagem e não poderia ter sido uma despedida mais simbólica para um lugar que tanto me machucou e proporcionou tanto.

Pulei ao momento que perdi meu BV, foi em novembro, no aniversário de uma amiga que fora minha vizinha, atualmente vizinha de casa na praia e que nossas famílias são muito amigas. Foi estranho, desajeitado e constrangedor, tinha um monte de crianças participando, todas na casa dos seus doze e treze anos, Posteriormente, perceberei que todas minhas primeiras vezes se tornam tão imemoráveis na minha mente, talvez a culpa seja da minha vida que é imemorável.

Ao ingressar no ensino médio, em uma escola completamente nova, em que todo mundo é novo porque ela é exclusivamente de ensino médio e se faz necessário um vestibular para fazê-la, a pressão por amadurecer tornou-se maior, um grupo específico de garotas eram meus tormentos, depois nos tornamos amigos, em outra carta detalharei melhor sobre o meu fracasso em construir amizades. Eu continuava gordo, mas após uma frase extremamente maldosa de algumas dela, emagreci quinze quilos em cinco meses e tudo mudou. No meu segundo ano, desenvolvi uma armadura que a utilizo até hoje, a falsa sensação de confiança, devo aparentar estar bem e que nada me afeta porque assim ninguém tentara ou me verá ser fraco.

Com as questões da minha sexualidade desenrolando comecei a querer ficar com garotos, agradeço as muitas fanfics que li nessa época que me ajudaram a me aceitar, assumir no caso, porque ser gay nunca fora um problema, assumir que fora.

Meu primeiro beijo gay valendo oficialmente, porque tive algumas experiencias infantis com um primo e um amigo do infantil antes, foi com quinze anos, no inicio de agosto de 2014. Não me lembro muito bem, se foi bom ou ruim, mas admito que tive uma pequena queda pelo garoto, mas ele era muito pretencioso a cult e logo me irritei com ele e superei.

Gays possuem uma fama, infelizmente, muito justa de serem promíscuos e eu era um jovem recém-saído do armário doido para pegar a maior quantidade de garotos possíveis, mas sem um pingo de coragem por me enxergar como gordo, novamente em outra carta narrarei essa situação. Minha primeira paixonite foi um garoto chamado Mathias, ele era loiro, com um nariz arrebitado e com um ar arrogante, era dançarino de uma outra escola e sim, quando uso o verbo no passado é porque ele já partiu.

Creio estar divagando demais até o ponto.

O amor a quem dedico essa carta também se chama Mathias, conheci-o no dia 30 de agostos na festa das Nações, a forma que nos conhecemos viria a ser um reflexo de toda a nossa relação. Ele era de altura mediana, usava óculos retangulares, com olhos e cabelos castanhos, possuía entradas que deixavam claro que um dia seria careca, suas roupas nunca foram seu forte, mas suas lábia e carisma compensavam. Com o tempo, desenvolveu uma barba que eu gostava de acariciar depois do sexo, abraçado a ele até adormecer. Um ano mais novo, o nosso contato se deu com uma amiga em comum que conversava comigo quando ele se aproximou, me contou depois que já reparava em mim a muito tempo e que quando me via dançar ficava excitado. Foi a primeira vez que o vi como indivíduo e não como parte da multidão. Depois que nossa amiga nos deixou a sós, eu simplesmente lhe dei as costas, apenas era o amigo de uma colega do antigo colégio, tenho uma personalidade meio cretina e novamente reafirmo o que viria a ser nosso relacionamento.

Mais tarde, no mesmo dia, o adicionei no facebook e me chamou pelo mensager, com a desculpa de agradecer por tê-lo aceitado como amigo, conversávamos por algum tempo até que saquei que ele estava dando em cima de mim, nunca fui alguém muito sutil, falei na lata se ele queria ficar comigo na próxima segunda na minha sala. Era meu aniversário de dezesseis anos, engraçado que quando escrevo isso a proximidade das datas é tragicômica. Quebramos a escola quando ele se sentou ao meu lado e simplesmente nos beijamos, recordo-me bem, foi muito bom, o encaixe foi perfeito, por alguns dias só sabiam falar sobre o beijo gay no intervalo na sala do segundo ano, fizeram uma arruaça quando nos viram, não foi minha intenção plateia, porém não tentei me esconder fazendo isso no meio da sala.

Faltei no curso técnico e fiquei com ele o dia todo em uma das salas vazias do diurno, meus amigos me faziam companhia na sala porque faziam o técnico na mesma escola, eu fazia em outra perto do Parque da Independência em São Paulo. Vi o pau dele naquela tarde, o toquei e novamente não me importei com a plateia, minha curiosidade e tesão eram maiores do que minhas inibições. Se no nosso primeiro encontro eu já peguei no seu pau e sentei no seu colo, sentindo-o, uma semana depois perdi minha virgindade na sua casa. A data e outros acontecimentos foram mais marcantes que o sexo em fim, não doeu, ou sangrou ou foi ruim, apenas foi. Me lembro de sair atrasado de casa, de ter um ônibus direto para sua casa da minha, mas que fazia um trajeto enorme, de queimar o couro do sofá ao secar minha calça preta favorita. Comemos macarrão depois do sexo e no outro dia, não conseguia mais encara-lo.

Se o ser humano é estranho, eu sou ainda mais, um cara lindo te diz que te ama e você só consegue pensar em ficar com outro que não vale nada. O primeiro Mathias me deixou ferido, cicatriz que não vão se fechar porque se alimentam de seguranças vindas também do passado. Quando dispensei o segundo Mathias, ele ficou com o primeiro Mathias, sim os Mathias se pagaram e fiquei igual um trouxa, o segundo odiou o primeiro, porém foi o suficiente para ferir meu ego e esse aprendeu muito bem a ferir meu ego.

Foram necessários setes meses para voltamos a nos falar, outras situações, um outro garoto no nosso meio que ele namorava quando voltamos a nos falar. Foi no ultimo dia do primeiro semestre de 2015, ele namorava e no dia senti uma imensa vontade de pedir desculpas e por coincidência, na minha caixa de mensagens tinha uma mensagem dele com a mesma intenção, nos encontramos na mesma noite porque tinha feira de TCC na escola e meus amigos e seu namorado se apresentavam,

Ele pareceu ser a pessoa que por toda minha vida esperei encontrar, nossas conversas fluíam tão bem que as horas pareciam minutos e os dias não eram suficiente para esgotar os assuntos e as vontades, Em meados de agosto percebi que estava me apaixonando por ele e não conseguia nem disfarçar, sempre me insinuando. Não fizemos nada até ele terminar e isso aconteceu no dia 5 de setembro, no mesmo dia ele foi na minha casa e quase transamos, mas ele ficou nervosos e broxou, o álbum Born to Die embalou nossos amassos.

Tivemos um pequeno drama no meio, mas um mês depois começamos a namorar oficialmente. Um ponto importante sobre Mathias é que ele tinha alguns problemas psicológicos, depressão e dupla personalidade. O inicio do nosso namoro foi bem conturbado porque lidávamos com sua pior parte, fiquei sempre que possível ao seu lado, não sabia muito como agir, talvez tivesse feito outras coisas, porém tentei ser o suporte necessário.

Namoramos por quase dois anos, entre idas e vindas, tudo chegou ao fim no dia 01 de Agosto de 2017, oficialmente, porque o fim viria de mais outras duas formas no começo de Fevereiro de 2018 seria o fim do amor romântico e em outubro do mesmo ano, o nosso definitivo fim. Nosso ultimo contato, unilateral foi uma carta que fiz em seu aniversário em dezembro a qual foi ignorada, no fundo, queria muito uma resposta no meu, mas é mais provável chover chocolate.

Apesar de sermos muito semelhantes, quando se tratava sobre sentimentos éramos completos opostos, ele era carinhoso e declamador, necessitava o contato e eu distante e frívolo. Sua necessidade por mim sempre era motivo de conflito comigo, porque eu precisava dos meus momentos sozinhos. Infelizmente, ao fim do nosso relacionamento me tornei tão toxico que tudo respingava acidamente nele. Mathias além do meu namorado, era meu melhor amigo e minha base emocional, foi o primeiro e único que conseguiu me conhecer, destravar minhas inseguranças.

Nessa semana sonhei com ele, sonhei pelo menos umas quatro vezes desde a ultima vez que nos falamos, ele namora um outro cara agora, mora em outro estado. Seria mentiroso se disse que não sinto falta de nossa relação como namorados, de como conhecia meu corpo, dos seus toques, beijos, da sua barba no seu pescoço e do seu abraço. Ele foi meu refúgio, para onde eu fugia quando queria sumir. Preciso ser honesto que seu abandono eu compreendo, não sou injusto, mas foi o momento que eu mais precisei de você, não tê-lo como porto seguro me deixou perdido e desamparado e você sabia disso, nossa relação eu sempre fora o mais dependente e o que mais demoraria para superar.

Acho que estou me alongando, porém, não terminei.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.