Cartas de Lamentações
1 Carta de Apresentação
Notas iniciais
Caro Amigo Distante,
Como um grande apreciador da obra: “As Vantagens de Ser Invisível” acredito que assim como foi benéfico para o seu protagonista, também será para mim, escrever cartas para um desconhecido que nunca terá contato direto com a minha vida, assim espero, pois já li uma vez que são necessário apenas seis pessoas para todo mundo conseguir se conhecer e eu fiquei completamente chocado quando percebi que tem apenas duas pessoas entre mim e a Beyoncé ou a Madonna. Sem mais divagações me apresentarei, pensei em usar o meu nome verdadeiro, não me importaria tanto com que me cercam serem personagens expostos nessas narrações, porém seria injusto com eles porque no fim, é uma visão completamente limitada a minha perspectiva, por isso, lhes atribuirei codinomes, assim como o meu e se algum dia um conhecido chegar a ler e for bem atento, conseguirá identificar a todos.
Me chamo Henrique, sou o filho mais velho de Penélope e Geraldo, vivo em um bairro de classe média baixa ao sul de Osasco e muito próximo de São Paulo Capital, tenho uma irmã mais nova chamada Jasmine, seis anos mais nova para ser exato. Possuo uma complicada relação com eles, devido principalmente há incapacidade que possuímos um com o outro e conosco de lidarmos com nossos sentimentos, não me alongarei aqui muito sobre isso porque será um tema futuro de uma próxima carta. Eles se conheceram no inicio de 1993 e namoraram/noivaram durante cinco anos, até engravidarem, isso no plural porque um filho é sempre fruto de duas pessoas e não de responsabilidade de uma, e tiveram que adiantar o casamento para maio, eu nasci em setembro daquele ano e nunca, jamais se separaram.
Um fato interessante sobre nós é que os números costumam ser repetidos, descendentes que nascem de seis em seis anos, filhos que nascem sempre no mesmo numeral ou parecido, além da proximidade comum das datas. Tenho uma vida comum, até mesmo poderia dizer que entediante ou algo do tipo, por isso não recomendo tanto a leitura, não será linear, serão devaneios de sentimentos que estiverem me sufocando durante a semana e o número de palavras igualmente limitado.
Outra influencia a ser pontuada, é o livro: “O Homem de Lata”, o li a poucas semanas atrás e sua presença no meu psicológico foi tão perversa, não no sentido literal, na verdade para mim foi, porém tenho a ciência de que não fora intencional. Mas sempre é assim comigo, levo a vida no automático, confortável e qualquer coisa que provoque perturbações em minha bolha causa-me desconforto, até conseguir assimilá-la e entendê-la, consequente evoluo um pouco. Às vezes, somente às vezes, na verdade com frequência quando isso acontece tenho a tendência a querer fugir da questão, posso ter parado de ler o livro depois de ser devastado com o seu caráter absurdamente real e nenhum pouco romantizado sobre os relatos de memorias sobre a vida do protagonista? Talvez, no entanto, no outro dia terminei-o e percebi que tudo bem, faz parte do ciclo da vida momentos ruins, perdas e isso não deve lhe fazer parar, mas me esqueço disso com frequência.
Escrever uma carta com as trilhas sonoras das animações Disney é incrível, minha memória afetiva grita e derrete de felicidade com as recordações dos momentos do passado onde a ignorância da inocência da vida preservava-me dos meus futuros demônios internos que criaria. De quando comprava ou alugava VHS ou DVDs para assistir em casa, ou de quando ficava no espaço infantil em um grande supermercado envolvido com maltrato aos animais aqui da minha cidade e sempre colocavam esses filmes para as crianças assistirem. O saudosismo da infância é um pouco deprimente pois começo a comparar com o agora ou com a minha pessimista visão de futuro.
Posso estar indo um pouco além, mas creio ser necessário contextualizá-lo sobre minha vida atual, estou encaminhando para o segundo semestre da faculdade de geografia na faculdade mais importante do país, desculpe outras federais, A USP, é um sentimento de tristeza e felicidade, porque não tenho muito amizade com meus colegas de classe, mas me interesso bastante pelo que estudo, o completo oposto no meu antigo curso de Arquitetura e Urbanismo, na Universidade com a pior fama de elitismo no estado, ela fica na Consolação. Acredito que nunca ficaremos cem por cento satisfeito com as coisas, só se torna perigoso quando essa insatisfação se torna tão grande que nos engole por inteiro. Novamente, não me alongarei nesse tema pois é tema para outra futura carta.
É bom e ruim saber que nunca terei suas respostas porque nem sempre quero respostas e apenas ouvintes, no entanto, é muito interessante sentir que alguém se importa com você, somos seres humanos e naturalmente sociáveis, tenho uma desconfiança preocupante para quem diz que não precisa de ninguém, todo mundo precisa de alguém, não digo de dependência no sentido de inviabilizar sua autonomia, mas no sentido de compartilhar, de confraternizar. Já pensei que não precisava ninguém, que era completo e minha necessidades baseavam-se em um amadurecimento exclusivamente intelectual e financeiro, porém conforme as decepções surgem, todas nossas concepções caem por terra.
Tenho uma ingênua crença e esperança de que essa troca me faça bem, eu preciso me sentir bem, não sempre feliz, isso é impossível, mas conseguir enxergar mesmo que nos momentos ruins ainda estou internamente bem. Peço antecipadamente desculpas pelos erros gramaticais, meu forte nunca foi a gramática, apesar de algumas pessoas elogiarem os sentimentos que consigo transcrever em palavras, culpo meu déficit em parte a mim e em outra a minha educação deficiente em alguns aspectos e muito acima da média em outros. Orgulho-me e sou ciente de que sou acima da média em meu país, caso minha prepotência possa imaginar a leitura dessas cartas por algum estrangeiro.
Preciso encerrar essa carta agora pois preciso me organizar para semana que sucede, tentarei novamente uma dieta e rotina saudável, se faz mais urgente por uma aposta e aniversário de debutante de Jasmine, e o novo semestre de estudo inicia-se.
Até breve.
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